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quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Morte no Nilo | Agatha Christie

Morte no Nilo foi escrito após uma temporada de inverno no Egito. Quando releio o livro, é como se retornasse ao navio a vapor que me levou de Assuan a Wâdi Halfa. Havia um bom número de passageiros a bordo, mas os personagem do livro viajaram em minha mente, tornando-se mais reais a cada dia, no cenário de um vapor do Nilo. O livro tem muitos personagens, e um lote muito bem-elaborado deles. A trama central me parece intrigante e com boas possibilidades dramáticas, e os três personagens — Simon, Linnet e Jacqueline — parecem vivos e realistas. - Agatha Christie

Próxima adaptação de Agatha Christie para o cinema e que será estrelada por Gal GadotMorte no Nilo é um livro de 1937 e que podemos notar o caráter cronista da autora. As paisagens, os costumes, as relações interpessoais estão presentes ao longo das 248 páginas.

Introduzindo um grande elenco de personagens logo no primeiro capitulo, relacionados através de suas próprias cenas "dialogadas". Agatha prende seus personagens em um navio a vapor, o Karnak, assim limitando o número de suspeitos. Isso não é uma tarefa fácil, especialmente quando o elenco está em uma trama de detetive.

O detetive Hercule Poirot está de férias no Egito quando é atraído para o misterioso caso do casal recém-casado: Linnet e Simon Doyle. Ela, uma das moças mais ricas de Londres, casou-se com ele, o noivo de sua melhor amiga, Jacqueline de Bellefort. Como método de vingança por roubar seu homem, Jacqueline segue os Doyles onde quer que eles vão, e quando Linnet e Simon chegam ao destino de lua de mel no Egito, Jacqueline está esperando por eles. Ela os segue até o rio até o Nilo, justamente quando os Doyles acreditavam que ela havia parado.

Uma noite a bordo, Jackie atira na perna de Simon Doyle enquanto Linnet Doyle é baleada na cabeça enquanto dorme. Todos os dedos apontam para Jackie, mas ela tem o álibi perfeito. Hercule Poirot assume o caso com seu amigo e colega investigador que veio a bordo do navio, Coronel Race.

À medida que os personagens embarcam em sua jornada, nós os conhecemos, e o relacionamento deles um com o outro, com mais detalhes. E cada detalhe se baseia em uma trama criminosa perfeitamente tecida - onde qualquer um dos personagens pode acabar sendo o culpado. Quanto mais o caos se instala, junto com evidências confusas e assassinatos, Poirot fica em um beco sem saída, buscando quem é o cérebro por trás de tudo.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

O Sabujo - H.P. Lovecraft


EM MEUS TORTURADOS ouvidos ressoa um pesadelo zumbindo e vibrando incessantemente e o longínquo uivo de um gigantesco sabujo. Não é sonho. Temo ser plena loucura. Há muito tive essa piedosa dúvida. St. John é um cadáver dilacerado. Só eu sabia o motivo. E sei tanto, que estou a ponto de estourar meus miolos por medo de ser mutilado da mesma maneira. Sob escuros e ilimitados corredores de contos góticos, perambula e negra e informe Nêmesis, que me induz à autodestruição. - H.P. Lovecraft

Escrito em setembro de 1922 e publicado originalmente na Weird Tales em fevereiro de 1924, The Hound, traduzido como O sabujo. O título original é uma menção a um grupo de cães de caráter único, próprio e exclusivo por ter um poderoso olfato, servindo perfeitamente como cães de caça. Nisso, a uma variedade enorme de espécies que podem realizar esse feito (do Springer Spaniel Inglês até um Foxhound americano), e o Lovecraft não estabelece uma raça, então acho que o título já faz uma indução do leitor. Provavelmente, "Cão de caça", seja um título menos questionável.

HQ - link aqui
Esse conto marca a primeira menção ao Necronomicon, embora a primeira referência ao Abdul Alhazred, o árabe louco por trás do compêndio blasfemo tenha aparecido um ano antes (1921), em “A cidade sem nome” mas pelo resto da vida Lovecraft expandiu os comentários e menções ao tomo proscrito nas obras como O caso de Charles Dexter Ward (1927) e Sussurros na Escuridão (1930). Apesar da aparente riqueza de referências, muitas alusões são extremamente vagas. Podemos dizer que o livro funesto traz informações relativas a lugares, assuntos e entidades (nesse caso, um amuleto de jade que simboliza o culto de necrófagos de Leng, na Ásia Central).

Um debate levantando a algum tempo em um grupo sobre o autor, é se a relação entre o personagem narrador (sem nome) e seu amigo St. John mantinham uma relação homossexual. Não há nenhuma peculiaridade que fuja muito dos protagonistas de Lovecraft e que indique esse caminho. Ambos tem gostos extravagante e funestos, lendo livros proscritos e com o passatempo nada convencional de violarem túmulos e enfeitaram uma sala inteira com tesouros usurpados dos mortos e com cadáveres incluindo de carniças.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

A concha, a pintura e os óculos - O Senhor Das Moscas (William Golding)

O menino de cabelo claro desceu os últimos metros pelas pedras e começou a caminhar na direção da laguna. Embora tivesse tirado o paletó do uniforme, que agora segurava numa das mãos e deixava arrastar pela terra, sua camisa cinza estava grudada no corpo e seu cabelo colado na testa. À sua volta, a grande ferida aberta na mata era um banho de calor. Seguia avançando com dificuldade em meio às plantas rasteiras e aos troncos caídos quando um passarinho, uma visão de vermelho e amarelo, lançou-se pelo céu com um canto que parecia um grito de bruxa, e foi ecoado por outro. - William Golding

Ludwig von Mises declarou uma vez que: Liberdade significa realmente liberdade para errar(Economic Policy: Thoughts for Today and Tomorrow). Em tempos de liberalismo, nada melhor do que observar essa frase, porque errar é humano, mas determinados erros são imperdoáveis. É isso que fala William Golding em sua obra.

Com elementos inspirados no clássico juvenil de R.M. Ballantyne, The Coral Island (1858) e publicado originalmente em 1954, O Senhor das Moscas pode ser considerado o reverso The Coral IslandA história de Golding, ganhador do Nobel de Literatura de 1983, narra um grupo de meninos britânicos que sobrevivem a um ataque contra o avião em que viajavam e ficam isolados em uma ilha remota, sem a supervisão de adultos, buscando sobreviver enquanto aguardam um possível resgate.

A formação de um Estado é um dos primeiros acontecimentos após a queda do avião. As crianças, que foram educadas formalmente e tem noção no que diz respeito ao processo civilizatório, começam a se organizar, mas com o passar de algum tempo na ilha, o grupo se entrega a selvageria, se dividindo em duas lideranças naturais: Ralph que sempre está preocupado em deixar uma fogueira sempre acesa, para que possam ser, um dia, salvos, e possui o comando das reuniões através do som que emite da concha que sopra e Jack que sempre está preocupado em caçar, matar os porcos selvagens que existem na ilha, que pinta o rosto com ferocidade. Com o passar do tempo, Ralph deseja voltar para a civilização, enquanto Jack rompe completamente seus laços com ela, abraçando a barbárie.

Em um plano de fundo, como Eminência Parda, existe a figura de Porquinho, o intelectual que possui os óculos que acendem o fogo e mesmo com o passar do tempo, não deixa de ser civilizado, possuindo um bom senso e inteligência que não encontra eco em suas ideias, a não ser em Ralph, que acata mesmo dando o braço a torcer. Ele é dedicado ao ideal da civilização e constantemente repreende os outros meninos por se comportarem como selvagens. A situação se torna ainda mais difícil quando aparece um "Monstro" para aterrorizá-los.

Escrito durante a Guerra Fria, a história alude ao conflito da Guerra Fria entre a Democracia Liberal em sua apresentação de Ralph, enquanto Jack é o comunismo totalitário. Observando pelo aspecto marxista, a obra não pode ser um objeto estético a ser experimentado por seu próprio valor intrínseco, mas como um produto dos aspectos socioeconômicos. A filosofia de Sir Golding e o "inconsciente histórico" da Guerra Fria se materializaram alegoricamente como o mal do humano, o extremo da bagulhificação humana.

"E no meio deles, com o corpo imundo, o cabelo emaranhado e o nariz precisando ser assoado, Ralph chorava o fim da inocência, as trevas do coração humano, e a queda no abismo do amigo sincero e ajuizado chamado Porquinho."

domingo, 28 de outubro de 2018

Robert E. Howard - A Filha do Gigante do Gelo da Red Dragon Publisher

Busiek, Nord, Yeates e Stewart
O clangor das espadas havia finalmente desaparecido e os gritos da matança foram abafados; o silêncio jazia sobre a neve manchada de vermelho. O sol pálido sombrio brilhava, emitindo uma luz tão ofuscante sobre a imensidão gelada e as planícies cobertas de neve, que arrancava faíscas prateadas das couraças rasgadas e lâminas quebradas, espalhadas pelo campo de batalha onde os mortos haviam tombado. Mãos sem vida ainda seguravam os cabos de espadas, cabeças que ainda ostentavam elmos metálicos, pendiam para trás em um último momento de agonia na morte, barbas ruivas e douradas apontavam sombriamente para cima, como uma última invocação a Ymir, o Gigante do Gelo, deus de uma raça guerreira. - Robert E. Howard 
Uma das narrativas curtas e mais populares de Conan feitas por Robert E. Howard sem dúvida, é A Filha do Gigante de Gelo

A primeira versão dessa história teve o título de Deuses do Norte (Gods of the North) e foi publicada pela primeira vez na revista pulp Fantasy Fan em março de 1934 e ainda foi renomeada para A Filha do Rei do Gelo (The Frost King’s Daughter). Antes de seu falecimento, Howard lhe deu o nome definitivo e que ficaria para a posteridade.

Fantasy Magazine, March 1934, with "Gods of the North"
Rejeitada como uma história de Conan pelo editor da revista Weird Tales, Farnsworth Wright, Howard mudou o nome do personagem principal para "Amra de Akbitana". Os leitores do autor e seus fãs sabem que, "Amra, o Leão" é um título evocado para fazer referência ao Rei Conan - vide a "A Cidadela Escarlate" e "A Hora do Dragão".

No conto, o cimério é apresentado por Howard como um jovem mercenário que está viajando junto com uma facção de guerra formada pelos aesires de cabelos dourados quando são surpreendidos por uma tropa de vanires. Inexperiente, Conan é o único sobrevivente do conflito de guerreiros, tombando de cansado nas gélidas terras do norte. Quando está prestes a desmaiar ouve uma risada.




Olhando para ele, uma ninfa de pele de marfim com voz "mais musical do que as cordas eloquentes de uma harpa", seminua, coberta apenas com uma fina e translúcida faixa de tecido “não fabricado por tear humano” que acende a luxúria do jovem, desdenhando dele por muitas vezes, o que o faz sair em sua perseguição tomado pela raiva e frustração. Acontece que ele é levado para uma emboscada armada pelos “irmãozinhos” da jovem, dois gigantescos nórdicos. Conan os vence e parte para se vingar da traidora, mas ela não é exatamente o que parece ser...

A história foi também adaptada para quadrinhos em Conan the Barbarian #16 (Marvel Comics, Julho de 1972), The Savage Sword of Conan #1 (Marvel Comics, Novembro de 1977) e em Conan #2 (Dark Horse Comics, Março de 2004), todas já publicadas no Brasil pelas editoras Abril e Mythos e quase levada para os filmes. Ela seria o o prólogo do filme, nunca produzido, Rei Conan: Coroa de Ferro (King Conan: Crown of Iron), que seria a sequência imediata para o clássico Conan, o Bárbaro (Conan the Barbarian, 1982), escrito pelo roteirista e diretor John Milius.



Para mais detalhes e conhecer mais o personagem, a Red Dragon Publisher trás um ebook de 71 páginas que, além da narrativa, ainda contém também o ensaio A Era Hiboriana e o poema Ciméria.



sábado, 27 de outubro de 2018

Robert E. Howard - Pregos Vermelhos da Editora Newton

Red Nails by Ken Kelly
A mulher a cavalo puxou as rédeas do cansado corcel. O animal ficou de pernas abertas, a cabeça baixa, como se quase não aguentasse o peso das bridas de couro vermelhos com adornos de ouro. A mulher tirou a bota do estribo de prata e pulou da sela de bordas douradas. Prendeu rapidamente as rédeas num arbusto e virou-se, as mãos apoiadas nos quadris, para examinar o lugar. - Robert E. Howard

No ano de 1996, a Editora Newton Compton Brasil publicou em sua série de livros chamada Coleção Econômicos Newton a última história de Conan que Robert E. Howard escreveu, a novela Red Nails (traduzido como Pregos Vermelhos).

"Red Nails" serve como uma despedida adequada ao personagem e ao mundo hiboriano que se tornou tão querido por muitos, oferecendo uma história de aventura, intriga e exotismo que cumpre todas as promessas inerentes a uma aventura com Conan e, ao mesmo tempo, oferece algumas surpresas - mais notavelmente na personagem Valéria.

Sandahl Bergman in Valeria in Conan the Barbarian (1982)
A primeira cena da narrativa não inicia com o cimério, mas sim foca na descrição dela. Valéria da Confraria Vermelha, personagem que foi interpretada no cinema por Sandahl Bergman. A Valéria do filme é um amálgama da Valéria de "Red Nails" com a Bêlit de "The Queen of the Black Coast". A personalidade é uma mistura das duas e a aparência é inspirada na loura aquiloniana, mas a cena em que ela volta como fantasma para ajudar Conan é referência direta à pirata shemita. É curioso notar que Valéria e Bêlit sejam ambas piratas, apesar de incorporarem diferentes arquétipos: Valéria é uma fanfarrona enquanto Bêlit é a Rainha dos Piratas.

Valeria and Bêlit by Barry Windsor-Smith

Valéria é uma personagem bela, forte e destemida, que causa admiração em Conan justamente por suas qualidades. Se pode argumentar que Bêlit, o grande amor de Conan, é a mais forte de todas as personagens femininas criadas por Howard e que o cimério conhece, embora muito dessa força esteja implícita em vez de testemunhada diretamente em termos marciais.

Após se encontrarem, Valéria e Conan se enfrentam. Juntos, começam a passar por muitas adversidades, como o dragão da floresta - que pela descrição mais parece um dinossauro. De maneira engenhosa, Conan elabora um plano que os livra da ameaça, indo em direção ao que parece ser uma cidade há muito abandonada. 

Para o espanto do casal, eles percebem que a cidade fantasma na verdade é um imenso palácio. Explorando-o, eles são envolvidos numa disputa insana entre uma raça dividida por uma antiga rixa, onde duas metades de uma tribo se matam há 50 anos, repleta de batalhas mortais. Conan e Valéria aceleram o desfecho de tal rivalidade quando “escolhem” um dos lados.

Com capa ilustrada por Marco Sani, o livro de 96 paginas fornece uma leitura prazerosa, entretém com mistérios, cheio de cenas bem detalhadas de lutas, sem esquecer os elementos de magia. Temos na novela todos os elementos que marcaram a narrativa de Howard: jóias, belas mulheres, magia, monstros, violência e a atmosfera fantasmagórica cthuliana.


quarta-feira, 15 de agosto de 2018

A escravidão na noite mais escura - O Escravo de Capela (Marcos DeBrito)

O SOL FORTE DAQUELE DIA ARDERA POR TODA A TARDE na pele negra dos escravos que trabalhavam na lavoura de cana-de-açúcar da Fazenda Capela. O canavial esparramava-se pela vasta planície, estendendo-se além das vistas, e muitos homens eram necessários para lavrar os incontáveis alqueires de cana-de-açúcar daquela terra que não parecia ter fim. - Marcos DeBrito

O LIVRO


Tendo como cenário a época do Brasil do Colônia, no final do Século XVIII, na Fazenda de Capela, que passa por um período conturbado. A narrativa tem dois núcleos distintos, a Casa-Grande e a Senzala.

Casa-Grande é administrada por Antônio Batista da Cunha Vasconcelos, que é pai do capataz Antônio Batista da Cunha Vasconcelos Segundo, um homem sádico e psicótico que saboreia violentar os escravos das maneiras mais sádicas possíveis e o médico recém-formado Inácio, o mais jovem dos irmãos Cunha Vasconcelos, que volta à fazenda depois estudos pela Europa com pensamentos abolicionistas, discordando completamente do tratamento dado aos escravos de Capela. Deslocado, ele se apaixona pela escrava Damiana, e com isso também um amor proibido na época surge com mistérios terríveis por trás da origem do casal - mais especificamente na jovem.

Já na Senzala está Sabola Citiwala, um escravo que chegou a pouco tempo na fazenda e sofre ao se adaptar a condição servil e nas mãos do capataz e Akili, um senhor que, há muitos anos, havia tentado fugir de Capela e como castigo foi incapacitado de andar após um dos castigos cruéis de Antônio Segundo. No meio de todo esse sofrimento, uma cumplicidade acaba surgindo, com Akili vendo a mesma determinação e desejo de liberdade em Sabola que tinha no passado, e ajudando o jovem congolês arquitetar um plano de fuga e envergonhar os Cunha Vasconcelos.

E é justamente graças a um ato nefasto de Antônio Segundo que uma figura encapuzada e vingativa retorna dos mortos atrás de todos que o fizeram sofrer e foram testemunhas de tamanha crueldade. Marcos DeBrito reconstrói o folclore nacional utilizando elementos históricos e sobrenaturais, cheio de surpresas e reviravoltas - um terror nacional que precisa ser mais conhecido.


O CONTO



Um dos momentos mais marcantes dessa bienal para mim, foi conhecer o autor do livro. Posso dizer que me tornei um fã lendo um pouco sobre seu trabalho no cinema e o minilivro disponibilizado pelo site da Faro Editorial.

Desde que publiquei o King, Poe, Lovecraft pela Editora Illuminare, não parei de escrever e enviar contos para antologias. Qual foi minha felicidade que, o conto que enviei para Em Foco Editora foi selecionado para fazer parte da antologia Tudo se completa de algum jeito.

Quando li o edital, pensei que não poderia encaixar um conto dark nela. Cabia apenas amor e coisas do coração - que não são, definitivamente, minha praia. Foi quando li essa parte de O Escravo de Capela e visitei a Casa do Sítio da Ressaca (um museu afro localizado no Jabaquara). Notei que abandonamos nossas memórias, e que, "de algum jeito", a escravidão ainda fez - e faz - parte de nossa cultura. Suas chagas não vão ser curadas em um dia, um mês, um ano, um século.

A Casa está abandonada, caindo totalmente aos pedaços. Em um total desprezo, o poder publico colocou concreto armado sobre barro - o que causou rachaduras por toda a casa. A má conservação chega a tal ponto que a casa está caindo: a terraplanagem foi mal feita, canalizando os córregos de água limpa e evitando que a terra pudesse absolver os nutrientes dela. O peso a está levando para um barranco, e não demora muito tempo para ela ser totalmente destruída pelo tempo.


Prestes a completar 300 anos, segundo o Jornal São Paulo Zona Sul, a casa bandeirista de pau a pique que serviu por muito tempo como rota de fulga dos escravos, foi descoberta em um passeio feito pelo modernista Mário de Andrade em 1937, quando o escritor ocupada o cargo de Secretário Municipal de Cultura. O primeiro restauro da Casa Sítio da Ressaca foi há 40 anos, em 1978, e aberta ao público em 1979. Em 1986, sofreu um pequeno incêndio. Depois, passou por quatro novos pequenos restauros, o último deles em 2002. O Jabaquara News corrobora com a informação com a foto acimaAtualmente encontra-se sustentada por escoras de madeira para não ruir de vez - e isso se arrasta desde 2004.

Então, vendo tudo isso, eu tinha o cenário, a temática (a escravidão do Brasil e seus reflexos) só faltava o enredo. Conhecendo a direção que ia o livro do Marcos, eu segui suas pegadas até notar que, para ter o impacto e passar a mensagem que almejava, precisaria fazer um caminho totalmente inverso - como um caçador atrás dos rastros do Curupira. Foi dai que nasceu a história, que logo trás nas primeiras linhas, uma homenagem a esse grande escritor e ao Pedro (editor da Faro Editorial).

Para quem quiser saber mais sobre a cultura negra no Brasil, visitem a Casa do Sítio da Ressaca, o Museu Afro Brasil e a exposição "Histórias Afro-Atlânticas” presente em duas sedes: o MASP e o Instituto Tomie Ohtake.

sábado, 11 de agosto de 2018

A escuridão termina aqui! - Dança da Escuridão (Marcus Barcelos)

A ÁGUA FRIA QUE FOI ARREMESSADA EM MEU ROSTO sem qualquer cerimônia me trouxe de volta à realidade e me fez perceber que o inferno, afinal, não precisava de chamas ou demônios; bastava um homem com técnicas bem peculiares e um local escuro e congelante onde ninguém poderia ouvir minhas súplicas - Marcus Barcelos

"Quando eu tinha mais ou menos dez anos de idade, decidi que queria ser escritor.
Foi uma daquelas coisas que a gente decide antes mesmo de descobrir se leva jeito."
Primeiro eu queria agradecer ao autor. Esperei muito tempo por essa continuação - quase dois anos. Retomando de onde parou seu antecessor Horror na Colina de Darrington, Dança da Escuridão nos trás de volta ao lado de Benjamin Francis Simons e os terríveis acontecimentos vividos por ele.

Na trama vemos o fator tempo como algo fundamental. Do tempo que o personagem ficou no sanatório até o desenrolar da trama. Marcus constrói o personagem desconstruindo o mesmo. Benjamin evoluiu - ou retrocedeu de certa forma - e tudo o que ele sofreu faz parte dele, mas ao mesmo tempo ele tem que se livrar dessa parte.

De tudo, eu queria dizer que para mim, o livro cometeu uma pequena canelada: na cena que começa no último parágrafo da página 121 e termina no final da 122. Para os que ainda vão adquirir o livro, minha impressão foi que o autor pesou a mão naquela parte, não havendo necessidade dela ser incluída, já que a situação tinha sido subentendida nas páginas anteriores.

"Sempre que eu falo que o Thomaz Magno é um artista incrível, estou falando disso: Quando estávamos criando as ilustrações do DANÇA DA ESCURIDÃO, da mesma forma que fizemos com o HORROR NA COLINA DE DARRINGTON, eu mandava para ele o conceito da ilustração e qual o caminho que eu gostaria que ela seguisse. Na ilustração da Parte 3 do meu novo livro, no entanto, fui um pouco mais ousado e mandei um esboço."
Entrando em contato com ele e discutindo um pouco essa cena, ele me contou que era para justamente chocar, como aquelas coisas realmente são pesadas e a maldade da Organização - que usa nomenclaturas genéricas, sem maiores detalhes, para não chamar a atenção. Me lembrou também do rigor do Pedro Almeida com relação ao que publica, e que a cena é a que impulsiona o protagonista a fazer tudo o que faz.

A trama curta e bem construída no primeiro livro ganha maior profundidade nesta sequência alucinante. Com uma narrativa adulta e não linear, o narrador alterna entre o passado - infância, adolescência e outras experiência - e o presente. Com o dobro de páginas, com Dança da Escuridão Marcus acerta novamente, prendendo o leitor do início ao fim como no primeiro livro.

Boa leitura e bom sustos!

terça-feira, 7 de agosto de 2018

1° versão do prefácio da Revista Diário Macabro



O TERROR DÁ ASAS AOS PÉS
Quando entrei em contato com a Nathalia e o Pedro, pedindo para prefaciar a revista, tenho que confessar que queria participar dessa terceira edição de qualquer maneira. Como contista não consegui, mas como prefaciador sim. Assisti essa revista nascer dentro dos grupos de literatura de terror que compartilhavam figuras, contos e curiosidades sobre Poe, Lovecraft e King e fico muito feliz pelo seu sucesso que a Diário Macabro tem conseguido e alcançado. O texto abaixo é a 1° versão do prefácio que escrevi para a revista. É um spin-off do que vem por ai, liberado para os fãs sentirem o gostinho do que está por vir. A campanha já está no ar no Catarse, e para aderir, só clicar nesse link.
Na virada do século XIX para o XX, houve uma explosão no mercado norte-americano de revistas populares contendo ficção de vários gêneros. Parecidos como uma espécie de periódico, as revistas pulp, ou “de polpa”, tinham esse nome por sua matéria-prima barata: a polpa de madeira. As histórias traziam enredos dos mais variados e simples. Em sua maioria eram leves e de leitura fácil, voltadas para todos os tipos de público, dos que gostavam de faroeste, mistério, aventura, romance, terror, fantasia e ficção científica. Vários autores de renome passaram por essas publicações como H.P. Lovecraft, Robert E. Howard e Clark Ashton Smith.

No Brasil, isso não foi diferente. Em 2009, em um artigo acadêmico, Athos Eichler Cardoso chamou de “revistas de emoção” as pulp magazines brasileiras, surgidas a partir de julho de 1934. Com “capa de cartolina ilustrada em cores de impacto variável”, O Romance Mensal foi nossa primeira revista, abrindo espaço para as outras (Detective, Contos Magazine, Mistério Magazine, etc). Nessas revistas dois nomes se destacam pelo estilo prolífico: R.F. Lucchetti e Ryoki Inoue.




Eram publicações populares, narrativas bizarras voltadas para o extraordinário e o fantástico, sob a forma das mesmas temáticas norte-americanas. Lembra Causo no prefácio da Trasgo: “Romance Mensal já começa com uma história de horror, seguida, no n° 2, de uma aventura de mundo perdido e outra com monstros nos Mares do Sul. Também publicou brasileiros, embora não necessariamente nesses gêneros”.

Esse é o ground da Diário Macabro. Além de trazer contos inéditos revelando novos escritores, traz traduções de contos que nunca ou quase nunca foram publicados no Brasil. Especializada em contos de horror e as mais variadas vertentes, o sobrenatural (Dionísio), o cósmico e a ciência (A Noite dos Seres Negros), o suspense (Família), o psicológico (O Cenotáfio) são alguns exemplos que tudo está muito bem representado nos n° 1 e 2 da revista.

Quanto a periodicidade, é compreensível. O mercado editorial brasileiro tem se retraído nesses momentos de crise, mas é nela que tem de surgir a inovação. Financiamentos coletivos, sistemas de apadrinhamento (padrim), promoções, combos podem sustentar a iniciativa tão recente que é impossível, todavia, avaliar o impacto da revista sobre a longa tradição dos pulps no Brasil.

terça-feira, 3 de julho de 2018

Revistas segmentadas trazem de volta os pulps no Brasil

Do pulp viemos e ao pulp voltaremos...


Essas belezinhas que estão fazendo uma diferença...

Na virada do século XIX para o XX, houve uma explosão no mercado de revistas populares contendo ficção de vários gêneros. Parecidos como uma espécie de periódico, as revistas pulp, ou “de polpa”, tinham esse nome por sua matéria-prima barata: a polpa de madeira. As histórias traziam enredos dos mais variados e simples. Em sua maioria eram leves e de leitura fácil, voltadas para todos os tipos de público, dos que gostavam de faroeste, mistério, aventura, romance, terror, fantasia e ficção científica.

Vários autores de renome passaram por essas publicações - sendo os mais famosos e influentes os que formaram o tripé da Weird Tales: H.P. Lovecraft, Clark Ashton Smith e Robert E. Howard. No Brasil, dois nomes se destacam dentro e fora do país por esse tipo de publicação. São eles, Rubens Francisco Lucchetti (definido pelo New York Times como "fábrica humana de ficção pulp" e "herói cult") e Ryoki Inoue (conhecido no mundo inteiro por entrar no Guinness Book como o autor mais prolífico do mundo, sendo o homem que mais publicou livros em todo o planeta).

Exemplares de revistas pulp nacionais
Como em um fast food, o objetivo do pulp é uma leitura rápida e um retorno constante. Se lá fora existia entre às décadas de 20 e 50 a Argosy Magazine, Astounding Stories, a já citada Weird Tales, ,Amazing Stories e Black Mask, aqui tínhamos entre os anos 30 e 50 a Detective, Contos Magazine, Mistério Magazine, Emoção e X-9. Algumas eram revistas especializadas em algum gênero, vide a Weird Tales, que trazia histórias de horror e fantasia, Amazing Stories contos de ficção científica e a Black Mask especializadas em histórias de detetive, e assim por diante.

Onde tudo começou...
De todas as revistas segmentadas que estão voltando a aparecer no cenário nacional - principalmente com o advento da Internet e outros meios de comunicação - cabe destacar três que tem propostas bem interessantes. O leitor não se incomode, pois essa seleção foi feita para não alongar tanto a matéria e para dar um princípio a sua busca, seja você escritor ou simplesmente fã.

A primeira é a Revista Mafagafo. É uma revista seriada, em que os contos são publicados em várias partes, divididos como um arco de história em quadrinhos ou uma série de TV. De todos, eles são os que mais seguem a risca esse conceito de pulp (no sentido de série e continuidade), aplicando esse modelo à publicação de contos brasileiros de fantasia e ficção científica. O formato não é novo, mas há muito que ele não vem sendo usado. A ideia da Mafagafo é retomar o hábito dos folhetins, tão comuns até o século XIX e início do XX. A Mafagafo atualmente é uma revista digital que será disponibilizada gratuitamente em PDF, ePUB e MOBI.


A segunda indicação que tenho aqui é a Revista Trasgo. Uma revista independente de contos de ficção científica e fantasia, que em seus quatro anos no ar já publicou estreantes e autores consagrados da ficção nacional. Distribuída gratuitamente também em PDF, ePUB e MOBI, buscou no seu terceiro ano no ar sua primeira grande empreitada no mundo do papel: a Trasgo - Ano 1. Ela trabalha com um modelo de renda compartilhada, sendo que, os autores e ilustradores não recebem um valor fixo pelo seu trabalho, mas parte do lucro com a publicidade e Padrim da revista. Se o seu material for aprovado, você receberá um contrato explicando exatamente como funciona, e poderá aceitar ou não.


E a terceira e última é a Revista Diário Macabro. Criada especificadamente para a publicação de contos de terror, o foco principal da revista é a revelação desses nomes e também um enriquecimento para esse tipo de literatura no país. Com duas edições publicadas, já está sendo planejada a terceira. O terror nacional, mesmo que tardio, vem ganhando seu merecido espaço no mercado. Com personagens perdidos entre a realidade e loucura, autores renovam o gênero de terror e suas vertentes, com narrativas cheias de reviravoltas. Com contos exclusivos, de autores nacionais e estrangeiros, revigoram o estilo no país.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

CONAN: no Brasil e no Mundo [ATUALIZADO]

Enquanto a Salvat adia a publicação e o lançamento da coleção "A Espada Selvagem de Conan" para Outubro (era para ter ocorrido em Março) explicando que precisa de mais tempo para poder entregar o produto com a devida qualidade e integralidade da obra. Porém, outras novidades estão vindo para país.



A editora italiana Weird Book Comics junto com o estúdio Leviathan Labs está desenvolvendo novas adaptações de Conan baseadas na obra de Robert E. Howard. E como a Red Dragon Publisher, mesma editora de Alex Magnos, firmou uma parceria com a Weird para importação/exportação de conteúdo e material, irá trazer essas HQs no Brasil um mês após o lançamento na Itália.

Serão 6 volumes apresentando o velho e cansado Rei Conan relembrando suas aventuras do passado. A primeira será a adaptação da clássica A Torre ElefanteO volume 1 sairá em fevereiro de 2019 na Itália e no mês seguinte no Brasil.


Imagem da versão italiana de A Torre do Elefante
Esse parece ser o ano de Conan! Atualmente o cimério é publicado pela Dark Horse nos Estados Unidos, mas a Marvel, primeira editora que o publicou, já readquiriu os direitos do personagem e está apenas esperando expirar o prazo da Dark Horse - que fez por sinal, um ótimo crossover com a Mulher Maravilha - para voltar a editar o herói e republicar histórias do Bárbaro lançadas nos anos 70, firmando já um acordo com a Panini, estendendo o escopo da licença para países como Brasil, Espanha, França, México, Alemanha, Itália, Escandinávia, Turquia e Sérvia.


A princesa Diana de Themyscira fica frente a frente com o cimério Conan, o bárbaro, em uma minissérie de seis partes
Atualmente o bárbaro também é publicado pela editora francesa Glénat, em álbuns estilo europeu com novas adaptações. Sendo assim, a Weird é a quarta editora a publicar oficialmente as aventuras do cimério de bronze e a partir do ano que vem teremos três editoras publicando Conan ao mesmo tempo. Abaixo, o exemplar de Conan le Cimmérien - La Reine de la côte noire, da editora Glénat.




Ainda está sendo produzida pela plataforma da Amazon uma série live action de Conan, com o mesmo diretor de Game of Thrones e totalmente baseada nas obras de Howard. Voltando para o Brasil, é provável que a Editora Pipoca & Nanquim lancem outro volume do Bárbaro no final do ano.



Se o cimério pudesse se manifestar sobre todas essas notícias com certeza diria: "Por Crom!"

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Sobre o livro "Lula: A verdade vencerá"

Ato na praça Santos Andrade após o primeiro depoimento do ex-presidente Lula ao juiz Sérgio Moro em Curitiba;
10 mai. 2017
No dia 24 de janeiro de 2018, em Porto Alere, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve julagdo seu recurso à condenação por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, proferida pelo juiz federal Sérgio Moro. Num jogo de cartas marcadas, três desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4° Região (TRF-4) confirmaram a sentença e ampliaram a pena anterior. Nenhuma prova foi apresentada. Do lado de fora, dezenas de milhares de pessoas, na maioria trabalhadores e estudantes, manifestavam apoio ao mais popular líder político que a classe trabalhadora brasileira produziu - Ivana Jinkings
Esqueça por um momento seus preconceitos e por um momento foque na história. Sim, na leitura histórica de todos os fatos ocorridos até agora.

Uma operação que trouxe informações deverás preocupantes e que derrubou presidentes, não só em solo nacional, mas internacional (o vice-presidente do Equador, dois ex-presidentes do Peru, o ex-presidente de El Salvador e o ex-presidente do Panamá). Todos condenados depois das investigações da Lava-Jato.

Somando só no Brasil, são 177 condenações contra 113 pessoas. Mais de 1.753 anos e 7 meses de pena divididos para mais de uma centena de atores políticos e econômicos, com influência de norte a sul do país.

Agora chegamos a questão do livro da editora marxista Boitempo. Com um trabalho gráfico espetacular mesmo feito às pressas (prestando atenção nas datas, o texto da Ivana Jinking, fundadora e diretora da editora Boitempo, foi escrito dia 08 de março, o lançamento do livro foi feito uma semana e um dia depois, 16), trás não apenas uma entrevista de algumas dezenas de páginas com o ex-presidente, mas também textos de seus apoiadores.

Eric Nepomuceno, Luis Fernando Verissimo, Luis Felipe Miguel, Rafael Valim, Camilo Vannuchi, Luiz Felipe de Alencastro e uma tirinha de Laerte Coutinho complementam o livro, que trás fotos de momentos marcantes da carreira política de Lula. Os responsáveis por essa entrevista foram os jornalistas Juca Kfouri e Maria Inês Nassif, o professor de relações internacionais Gilberto Maringoni e à editora (já mencionada) Ivana Jinkings.

O livro, mesmo a revelia, nasce para entrar na história. Provavelmente vai se tornar leitura obrigatória para muitos pesquisadores do período lulopetista. Mesmo com alguns tropeços no português, deve ser levado em consideração (vamos lembrar do tempo curto para fazê-lo). É um livro de defesa, enviesado, de ponto de vista. Muitas vezes, nota-se a intensão, o viés, pelas notas de rodapé. Como por exemplo, quando falam do Bolsonaro:

"Defende a ditadura [eles escreveram ditatura, mas corrigi] militar e os torturadores – na votação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, na Câmara, ao pronunciar seu voto, prestou homenagem ao coronel torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, que chefiou o DOI-Codi entre 1970 e 1974. Condena os homossexuais, o feminismo, a política de cotas; defende a tortura e a pena de morte. Nacionalista do ponto de vista econômico no passado, adotou a perspectiva neoliberal desde 2017"

Ou sobre o Juiz Sérgio Moro: 

"Depois de um período de popularidade por construir uma imagem de juiz inflexível no combate à corrupção, tornou-se patente sua atuação de cunho político contra a esquerda e, em especial, contra o ex-presidente Lula. A Lava Jato passou a ser cada dia mais uma referência de desvio do Poder Judiciário, com a prática de falsificação de provas, chantagem e ameaças contra aqueles que a força-tarefa considerou seus alvos."

O livro tem uma fluidez interessante. A entrevista acontece de uma maneira quase camarada - eles começam comentando as rodadas do paulistão, falam sobre futebol e dali partem para o que realmente nos interessa: o que ele tem a dizer. Tem pontos interessantes, mas o que mais marca é como em torno do presidente existe um beija-mão.

Entendam, estamos prestes a ter mais uma eleição para a presidência da república. E um fato é notório: o amigo do presidente sobe com o presidente, e o amigo que cai com o presidente não existe. Quando ele fala que a Dilma, depois de ganhar a eleição de presidente em 2014 fala que não quer participar de mais nenhuma campanha eleitoral é notório que existe todo um sistema de cortejar o vencedor até começar sua sangria. "Você vai passar para a história como a única presidente que nem os ministros defenderam" diz Lula para Dilma (pág 32).

Esse livro deve ser leitura obrigatória para todos os que são partidários. O atual problema que enfrentamos no debate público é repertório. A direita só lê coisas que a direita escreve, mesmo quando esses textos falam da esquerda. A esquerda só lê coisas que a esquerda escreve, mesmo quando esses textos falam da direita. Essa obra pode ser um divisor de águas para muitas pessoas. Para quem gosta de spoilers:

Lula fala detalhadamente sobre a relação com Eduardo Campos com Dilma Rousseff e de uma possível candidatura de Eduardo a presidência com apoio do PT após a conclusão do mandato de Dilma em 2018.

O livro está disponível para compra e para download gratuito.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Especial Círculo das Ideias: Sonhos Elétricos de Philip K. Dick #3: "Humano é"

Os olhos azuis de Jill Herrick se encheram de lágrimas. Ela olhou para seu marido com um horror inexprimível. - Philip K. Dick
Publicado na revista pulp Startling Stories em 1955, Humano é entra em um tema que permeia a obra do autor de certa maneira. Explorando diretamente a cerne o que é ser humano? PKD nos entrega uma história que visa a empatia acima de tudo. Ele quer mostrar que, não importa a sua natureza física (alienígena, humana ou robô) se você é uma pessoa gentil, empática, carinhosa, você é mais humano do que alguém que é cruel e indiferente.

O que nos difere de paus e pedras é a capacidade de sabermos nos colocar no lugar do outro. Nos importar com os nossos. E o problema não é biológico, é sobretudo moral. Consumidores de romances antigos, os Rexorianos falam de modo arcaico e se comportam de maneira bem diferente dos humanos e aprendem nosso comportamento a partir do convívio.


Bryan Cranston em Homem É, um dos episódios da série

A história novamente é atualizada pelas roteirista Jessica Mecklenburg. A diferença da série para o conto já começa pelos nomes. No livro, o personagem Lester é um cientista toxicologista insensível, egoísta e racional. No seriado, Silas (Bryan Cranston) é um coronel inflexível e áspero, doutrinado na disciplina militar. Sobre os dois, paira uma suspeita: serem possuídos por um alien, um rexoriano clandestino, e sua resposta está em suas respectivas mulheres, Jill e Vera (na série, Essie Davis).

Partindo de conceitos universais, a roteirista e o autor não só mostram que o mistério dos enredos não é saber se Lester ou Silas ainda são os mesmos, mas sim, entender o que eram antes. Ambas narrativas falam sobre a solidão e o vazio. A busca pela felicidade e os sacrifícios que estamos dispostos a fazer. É sobre a exploração do lado afetivo do ser humano, sobre relacionamentos abusivos e a o desejo de fugir para uma realidade melhor.

SOBRE O AUTOR
Considerado por Ursula K. Le Guin como Jorge Luis Borges norte-americano, Philip Kindred Dick nasceu na cidade de Chicago em 1928. De 1955, ano de seu primeiro livro, até 1982, Dick publicou 44 romances e 121 contos, uma média de um romance a cada sete meses e um conto a cada 81 dias, sem parar, por 27 anos. Entre eles Valis, Ubik, Os Três Estigmas de Palmer Eldritch e os premiados O Homem do Castelo Alto (que dedicou para sua mulher Anne, que o desprezava dizendo que era um miserável e empalideceu ao descobrir os termos da dedicatória: Para Anne, minha mulher, de quem sem o silêncio eu não teria escrito esse livro) e Fluam, Minhas Lágrimas, Disse o Policial. O ritmo visivelmente frenético foi mantido à base de muita anfetamina – apesar dos boatos que sempre circularam à sua volta, Dick passou mais ou menos batido pelo LSD, a droga da moda na sua época, tendo apenas uma bad trip em toda sua vida (um boato divertido é que a revelação religiosa - ele foi durante a maior parte de sua vida adulta um católico convertido - que lhe ocorreu mais tarde seria um flashback dessa única viagem). Com dificuldades em ficar sozinho, teve cinco casamentos, um período de alguns meses em que sua casa se transformou num ponto de uso e tráfico de drogas, uma temporada voluntária numa clínica de reabilitação e até um par de semanas no apartamento de um casal de desconhecidos no Canadá. Morreu em 1982, aos 53 anos, em Santa Ana decorrência de um acidente vascular cerebral. Outros livros de sua autoria ainda seriam publicados postumamente, como Realidades Adaptadas, e é provável que ainda existam alguns por publicar (tipo, Sonhos Elétricos). 

domingo, 29 de abril de 2018

O que é o Ciclo de Yig?

They walked lithely and sinuously erect on pre-mammalian members, their pied and hairless bodies bending with great suppleness. There was a loud and constant hissing of formulae as they went to and fro. – The Seven Geases, Clark Ashton Smith. 

Introdução


H.P. Lovecraft nunca teve um emprego. Viveu da fortuna quase esgotada de sua família, e do pouco que conseguia ganhar como revisor e escritor. Estava sempre dividido entre o desejo de sucesso monetário literário e o ideal do cavalheiro aristocrata que não se preocupa com finanças. Suas primeiras tentativas de vender seus contos tiveram êxito com Edwin Baird, editor da revista Weird Tales, aceitando os primeiros cinco contos enviados de uma vez por Lovecraft - Dagon , Arthur Jermyn, Os Gatos de Ulthar, O Cão de Caça e O Depoimento de Randolph Carter. Seus contos apareceram em nove dos onze números da revista publicados entre 1923 e 1925.

Quando a revista Weird Tales mudou, e Farnsworth Wright  passou a ser seu editor, guinando definitivamente para o horror -  Baird não tinha tanta sensibilidade para a weird fiction, aceitando praticamente tudo o que recebia - a sorte de Lovecraft mudou. Sendo mais criterioso e rigoroso, não tinha a mesma apreciação pelos contos de Lovecraft, e o escritor passou a receber mais rejeições do que aceitações da revista. Alguns dos contos que foram rejeitados são agora clássicos do gênero, como O Chamado de Cthulhu, só foram publicados depois de serem rejeitados repetidas vezes pela Weird Tales.


Nas Montanhas da Loucura, de Lovecraft
Wright, o novo editor, rejeitou ainda Nas Montanhas da Loucura e A Sombra Vinda do Tempo, que foram mais tarde publicados pela revista Astounding Stories e que também se tornaram clássicos. A Amazing Stories publicou A Cor que caiu do Espaço e pagou muito pouco considerando o tamanho da história, mesmo se tornando uma das obras mais populares do autor, e continuou sendo seu conto favorito. O Caso de Charles Dexter Ward só foi publicado anos depois da morte do escritor. Os Sonhos na Casa da Bruxa só foi publicado porque August Derleth enviou, em segredo, o conto a Wright, pedindo que o editor o aceitasse para publicação.

Nesse período que, ironicamente, Lovecraft trabalhou muito como ghost writer (escrito anônimo), vendendo contos para serem publicados por outros autores. Ele recebia de outro “autor” uma série de ideias e escrevia então uma história completa. Contos como The Curse of Yig (1929) e The Mound (1940), de Zelia Bishop, e The Horror in the Museum (1932) e Out of the Aeons (1935), de Hazel Heald, foram, na verdade, 90% ou mais criações de H.P. Lovecraft. Embora esses contos tenham sido aceitos por Wright, os contos que Lovecraft escrevia sob seu próprio nome continuavam a ser mal pagos ou rejeitados, deixando o autor cansado e se sentido rejeitado, começando a se recusar a enviar seus contos para editoras.

Em outras obras


A prática de um autor mencionar em suas histórias as divindades, livros e temas criados por outros autores era comum nessa época, e Lovecraft fez isso em vários de seus contos. Nos contos de Bishop aparecem Cthulhu e Tsathoggua, criados por Lovecraft, e também aparece Yig, as três divindades sendo veneradas por uma raça de humanos que vive nos subterrâneos. Com essa prática também, Robert E. Howard e Clark Ashton Smith também desenvolvem essa linha desse mito em especial, em duas histórias específicas: O Reino Sombrio (1929) e The Seven Geases (1934).

Robert E. Howard nos apresenta os adoradores de Yig. Criados originalmente pelo autor, as criaturas chamadas de povo-serpente estão presentes na narrativa O Reino Sombrio, que mostram Kull, o guerreiro atlante que se tornou soberano da Valúsia, que descobre, estarrecido, que os eles, os homens-serpentes de uma raça que no longínquo passado haviam guerreado a humanidade, estavam aos poucos dominando o país, graças ao seu poder de mimetismo e que os reis anteriores da Valúsia haviam sido assassinados em segredo, e homens-serpentes tomaram seu lugar, pois podiam por sugestão hipnótica ser vistos com a aparência humana, idêntica à dos mortos.



Já em The Seven Geases se depara com uma viagem tragicômica dos horrores e maravilhas dos não-humanos que existem sob "the black Eiglophian Mountains", nas quais a humanidade, representada pelo personagem principal, o magistrado Ralibar Vooz, é apenas uma reflexão tardia, uma mera distração, e não a propulsora de tudo. A colaboração de Clark Ashton Smith foi significativa pelo seu humor negro e bucólico. O protagonista monta uma equipe de vinte homens e vai em busca de criaturas subumanas chamadas Voormis, caracterizadas como subproduto de homens-serpentes que andaram na terra no passado após adorar Tsathoggua e não o Pai das Serpentes.

Esses homens-serpentes sempre adoraram um deus, que foi identificado mais tarde como Yig pelo circulo dos autores do Cthulhu Mythos, e antes disso, nas histórias de Conan, era chamado de Set (vide O deus na urna em 1932). Esses homens pareciam serpentes eretas, com cabeças ofídicas e escamas, mas com dois braços e pernas. Possuíam caudas e, em seus melhores dias, trajavam túnicas.

Povo-Serpente


O primeiro reino do povo-serpente foi a Valúsia, localizado na costa oeste do continente principal de Thuria. Esse reino veio muito antes dos dinossauros caminharem sobre a Terra, com cidades de basaltos negros e guerras travadas em um curto período de espaço: antes ou durante o Período Pérmico. Com a chegada dos dinossauros no Período Triássico, o primeiro reino ruiu e o povo-serpente se retirou para fortalezas nas profundezas do subterrâneo, a maior delas era Yoth. Nessa época, o povo-serpente tornou-se também cientificamente avançado, capaz de manipular a vida em si.

Já na pré-história humana, o povo-serpente ergueu seu segundo reinado no centro do continente Thuriano. Este sucumbiu ainda mais rápido que a Valúsia, derrubado desta vez pelos humanos, que mais tarde reivindicaram as terras como suas. Nessas guerras travadas, acabaram sendo expulsos e muitos foram mortos. Após um conflito, eles foram esquecido, mas dominaram o imaginário popular, e por muito tempo foram lendas. Os que sobreviveram se infiltraram na sociedade e governaram secretamente através de um feitiço comum de ilusão, que transforma a aparência do feiticeiro na de um humano normal. Isso veio a acabar quando o Rei Kull, um bárbaro atlante, foi coroado rei da Valúsia. Ele, se aliando com os pictos que sabiam dessas trocas de homens comuns por homens-serpentes, se unem e colocam fim a esse reinado.

Esses acontecimentos destacam como o povo-serpente era composto por grandes cientistas e feiticeiros, que dedicaram muito tempo a invocar demônios terríveis e criar venenos potentes. Se retirando pela última vez para Yoth, no mundo atual suas cavernas se localizam nas Américas.

O que é Yig


Yig nunca foi retratado muito claramente. Meio humano e meio serpente, pode parecer um homem forte escamoso com uma cabeça de serpente ou uma cabeça normal. Seu culto é realizado por tribos da planície central e praticantes de vodu, podendo estar também conectado de alguma forma a Quetzalcoatl (deus asteca) e Kukulcán (deus maia). Ele é ainda adorado pelo povo-serpente e seus descendentes. Adoradores recebem alguma imunidade a veneno de cobras, a habilidade de falar com cobras, alguns rituais arcanos e feitiços. Se alguém expõe os segredos ou prejudica o culto, Yig envia uma serpente sagrada para matar o transgressor. A sua maldição, denominada de “Maldição de Yig” se refere a crianças loucas e deformadas.

Yig é uma divindade que demanda constantes sacrifícios e rituais macabros por parte de seus seguidores. Sua ira mortal se traduz na visita de serpentes venenosas na calada da noite. Um dos Grandes Antigos, ele age como um deus que envia seus subordinados ou filhos para punir todos os que assassinaram uma cobra no passado, matando-os ou transformando-se em uma criatura parecida com uma cobra como ele. São nessas histórias que a coletânea da Editora Clock Tower se baseia. Disponível em edição limitada, O Circulo de Yig pode ser adquirido aqui nesse link. Trata-se de um livro com obras de H.P. Lovecraft sobre os Mitos de Yig: A Colina, A Maldição de Yig e Vindo dos Éons, todos já mencionados aqui: trabalhos com Zelia Bishop e Hazel Heald. O livro também trás extras, como carta da Zelia e ilustrações exclusivas.