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quarta-feira, 24 de março de 2021

Dossiê Macabro: TÁXI - Editora Diário Macabro


Os pontos brilhantes no campo de visão de Rafael agora se dissipavam como vaga-lumes em fuga na mata – finalmente abriu os olhos, após um longo e doloroso apertar dos mesmos –, mas o sono persistia, por mais que os esfregasse, cantarolasse ou assistisse à TV para passageiros em seu táxi. Olhou para o relógio no painel: nem 11 da noite ainda! Verbalizou um palavrão e deixou a cabeça cair para trás, apoiando-a no encosto do banco, forçando-se a permanecer alerta. Precisava do dinheiro, precisava mesmo, mas achou que nada valeira uma noite mal dormida – e nada seria mais caro que sofrer um acidente, machucando-se com gravidade. O caminho entre o Aeroporto do Galeão, onde, no momento, encontrava-se parado, em uma das vagas destinadas aos táxis, e a sua casa em Campo Grande era longo e arriscado – poderia dormir ao volante, e aquilo seria ruim. — Davi Busquet, Vetor
Perturbador. Não tem outra palavra para definir essa antologia.

Com os autores que conversei, antes e depois de ler o livro, confessei que, durante a leitura (e até mesmo na abertura do edital) pensei que a antologia ia pelo caminho trilhado pelo folclorista Walcyr Monteiro, famoso por seu livro Visagens e Assombrações de Belém, que contem a lenda urbana da "Moça do Taxi". Essa história que virou episódio de programa de televisão infantil e atrai turistas para a cidade de Belém mostra como a força desses causos podem impactar a imaginação dos telespectadores, moradores e viajantes, e no caso desse livro da Editora Diário Macabro, leitores.

Organizada e prefaciada por Júlia do Passo Ramalho e Fábio Aresi, a obra trás dezenove viagens totalmente malucas a bordo do clássico e icônico veículo amarelo. Junto dos organizadores formam a escrete Guilherme Schrago, Johnatan Gomes, Bruno Sorc, Igor Cabrardo, Úrsula Antunes, Roberto Schima, Davi Busquet, Gabriela Leão, Thiago Oliveira Lima Matiolli, Paulo H. P. Lima, Marcos Tadeu Mageste, Alvaro Caxone, Heclair Pimentel Filho, Mario Sergio Ribeiro, Daniel L. Costa, R. A. Tsuchiya e Alysson Steimacher.

Uma das narrativas presentes no livro é Vetor de Davi Busquet (que me enviou o livro). Sua narrativa conta a história de Rafael, o motorista que faz uma corrida indesejada e pega um cliente peculiar, alguém que conseguia descrever o pecado de cada pessoa que, de alguma forma, cruzava seu caminho. A cada página, a cada parágrafo, nós nos encontramos em uma área nebulosa, de pessoas cinzentas, com virtudes e pecados que remete ao leitor mais atencioso, ao livro Podres de Mimados e A Faca Entrou de Theodore Dalrymple.

Contrariando a aparente normalidade do ato de pegar a condução por um completo estranho, temos aqui histórias reunidas de taxistas sanguinários, passageiros perigosos, carros assustadores, corridas de outro mundo que são abarcadas pela perturbação. A leitura pode deixar desconfortável o leitor mais sensível e que não tem costume de consumir livros com cenas de violência.

Para saber mais sobre o livro, clique aqui.

terça-feira, 29 de setembro de 2020

As Flores do Abismo de Thomas Ligotti


Eu devo sussurrar minhas palavras ao vento, sabendo que de alguma forma chegarão a vocês que me enviaram aqui. Deixem que esta desventura, como a primeira fragrância fétida de outono, seja carregada de volta até vocês, minha boa gente. Porque foram vocês que decidiram aonde eu deveria ir, vocês que desejaram que eu viesse aqui e para ele. E eu concordei, porque o medo que enchia suas vozes e entremeava seus rostos era tão maior do que suas palavras podiam exprimir. Eu temi seu medo dele: aquele cujo nome não sabíamos, aquele que vivia longe da vila naquela casa arruinada que há muito tempo vira a passagem da família Van Livenn. “Que tragédia”, todos concordávamos. “E eles cuidaram daquele lindo jardim por tanto tempo. Mas ele… ele não parece interessado nessas coisas.”

Eu fui escolhido para revelar seus segredos e encontrar qual indiferença ou malícia o novo proprietário nutria contra nossa vila. Deveria ser eu, vocês disseram. Eu não era o professor das crianças da vila, quem detinha o conhecimento que vocês não detinham e quem poderia por isso enxergar mais profundamente o mistério de nosso homem? Isso foi o que vocês disseram, nas sombras de nossa igreja onde nos encontramos naquela noite; mas o que vocês pensaram, eu não pude deixar de sentir, era que ele não tem filhos, ninguém, e ele passa tantas de suas horas caminhando pelas mesmas florestas nas quais vive o estranho. Pareceria muito natural se eu calhasse de passar pela casa do velho Van Livenn, se eu calhasse de parar e talvez pedir um copo de água para um viajante das florestas. Mas essas simples ações, mesmo naquela época, pareciam uma aventura extraordinária, apesar de nenhum de nós confessar esse sentimento. Nada a temer, vocês disseram. E então eu fui escolhido para ir sozinho até aquela casa que caiu em tamanha ruína.

Vocês já viram a casa e como, se aproximando dela pela estrada que sai de nossa vila, ela aparece repentinamente na vista – uma flor pálida entre árvores escuras de verão, agora uma fantasmagórica flor no outono. Primeiramente, foi como pareceu aos meus olhos. (Sim, meus olhos, pensem neles, boa gente: sonhem com eles.) Mas conforme me aproximei da casa, de suas suas tábuas cinzentas, emborcadas e empenadas e estranhamente manchadas, o pálido lírio se tornou um cogumelo venenoso. Com certeza, a casa pregou essa peça em alguns de vocês, e todos vocês viram-na uma vez ou outra: seu teto de telhas onduladas em formato de escamas como um peixe imenso, verde-mar e brilhando no sol de outono; seus dois frontões no sótão com janelas panorâmicas que culminam no topo como na ponta de uma lágrima; seu pórtico em formato de sepulcro acima de escadas de madeira apodrecida. E enquanto eu fiquei parado nas sombras do lado de fora daquela porta, eu escutei centenas de gotas de chuva irem de encontro aos degraus atrás de mim, enquanto o ar esfriava e o céu ganhava sombras próprias. A chuva fraca manchava o terreno vazio e acinzentado próximo da casa, regando o solo estéril onde aquele extraordinário jardim tinha florescido no tempo dos Van Livenns. Que desculpa melhor para a minha intrusão? Me abrigue, estranho, da tempestade gelada de outono, e de uma fragrância úmida e apodrecida.

Ele respondeu prontamente às minha batidas, sem movimentos suspeitos nas cortinas esfarrapadas, e eu entrei em seu lar escuro. Não havia necessidade de explicação; ele já tinha me visto caminhando à frente das nuvens, embora eu não o tivesse visto: seus braços esguios eram vagamente como galhos retorcidos; seu rosto preguiçoso e sem expressão; os trapos sem cor que eram mais fáceis de ver como andrajos esfrangalhados do que como partes do mais pobre vestuário. Mas sua voz, essa é uma coisa que nenhum de vocês jamais ouviu. Apesar de abismado com quão gentil e musical ela soava, eu estava ainda menos preparado para a sensação de grandes distâncias criada pelo eco de suas palavras vazias.

“Era um dia como este quando eu vi você pela primeira vez andando na floresta,” ele disse, olhando para a chuva lá fora. “Mas você não se aproximou da casa. Eu me perguntei se você viria.”

Suas palavras me deixaram à vontade, porque nossa apresentação parecia já ter sido feita. Eu tirei meu casaco, que ele pegou e colocou em uma cadeira de madeira muito pequena ao lado da porta da frente. Estendendo um braço longo e torto e uma mão ampla para o interior, ele formalmente me deu boas vindas ao seu lar.

Mas de alguma forma, ele mesmo não parecia se sentir em casa ali. Era como se os Van Livenns tivessem deixado para trás todas as suas posses mundanas para o uso do próximo ocupante da casa, o que não seria estranho, considerada a tragédia. Nada parecia pertencer a ele, apesar de que havia pouco demais naquela casa para ser possuído por qualquer pessoa. Além das duas cadeiras velhas em que nos sentávamos e da pequena mesa torta entre elas, os poucos objetos que eu podia ver davam a impressão de ter sido reunidos apenas por acidente ou negligência, uma marca dos últimos dias dos Van Livenns. Um enorme baú jazendo num canto, sua grande tranca enferrujada saltada aberta e suas alças pesadas largadas soltas no chão, teriam parecido muito menos soturnos escondidos num sótão ou porão. E aquela cadeira em miniatura próxima à porta, com um gêmea idêntica caída sobre seu encosto próxima à parede oposta, pertencia a um quarto de criança. Próximo à janela fechada, uma estante alta parecia apropriada, se aqueles vasos quebrados, botas velhas e outras parafernálias alheias às prateleiras de livros não tivessem sido enfiadas entre os volumes gastos. Uma cômoda de quarto ficava contra uma parede, mas aquilo pareceria deslocado em qualquer aposento: o vazio de suas gavetas ausentes estava profundamente engendrado com desuso. Todas aquelas coisas me pareciam arruinadas com a memória de degeneração e morte relatada na história dos Van Livenns. Mas deixemos isto de lado por hora, antes que eu me esqueça de contar do espesso, fantasioso cheiro que permeava aquele cômodo, inspirando a sensação de que jardins fétidos de cultivo deformado floresciam no pó e em cantos sujos em todo lugar ao redor de mim.

A única luz na casa era provida por dois lampiões que queimavam de cada lado da lareira. Atrás de cada uma dessas lâmpadas havia um espelho oval em uma moldura ornamentada, e que refletia as luzes dos pavios trêmulos jogando nossas sombras na ampla parede vazia atrás de nossas costas. E enquanto nós dois nos sentávamos parados em silêncio, eu vi aqueles outros dois inquietos sobre a parede, como que soprados pelo vento ou talvez submetidos a alguma tortura sutil.

“Eu tenho algo para você beber,” ele disse. “Eu sei como é longe andar da vila.”

E eu não tive de fingir sede, boa gente, porque ela era tanta que eu queria engolir a tempestade, que eu podia ouvir além da porta e paredes mas podia apenas ver como uma luz ocasionalmente cintilando atrás das cortinas ou brilhando claro como agulhas entre as frestas irregulares das persianas.

Na ausência do meu anfitrião, eu dirigi meus olhos aos tesouros de sua casa e fiz deles meus. Mas havia algo que eu não enxergava, de algum modo eu sabia disso. De toda forma, eu tinha sido enviado para espionar e então tudo ao meu redor parecia suspeito. Vocês vem agora o que eu falhei em ver então? Vocês podem perceber a coisa sendo focalizada através de meus olhos? Vocês podem espiar os cantos cheios de teias de aranha ou sondar os títulos daqueles livros inclinados? Sim; mas vocês podem agora, no sonho mais insano de nossas vidas, espreitar lugares que não têm cantos e que não carregam nomes? Isso é o que eu tentei fazer: enxergar além do restos mortais dos Van Livenns; enxergar além do palco assombrado onde eu tinha feito minha entrada. E assim eu tive de revirar cantos pelo avesso com meus olhos e ler o terceiro lado das páginas de um livro, procurando futilmente contemplar o que então eu não podia tocar com nenhum de meus sentidos. A coisa permaneceu sem forma e sem nome, úmida e submersa, algo pantanoso e abismal que se opunha ao puro frio da tempestade de outono lá fora.

Quando meu anfitrião retornou, ele carregava consigo uma garrafa verde empoeirada e um copo brilhante, ambos os quais ele pôs sobre a pequena mesa entre nossas cadeiras. Eu peguei a garrafa e seu toque era morno em minha mão. Esperando que algum líquido negro espesso jorrasse do gargalo, eu fiquei surpreso ao ver apenas o mais puro líquido fluindo para dentro do copo. Eu bebi e por um momento fui removido para um mundo de luz congelada que vivia dentro da fria água límpida.

No meio tempo, o homem sem expressão colocara outra coisa sobre a mesa. Era uma pequena caixa de música feita de uma madeira escura que parecia ter a dureza de uma jóia e era florida com estranhos desenhos ao mesmo tempo distintos e impossíveis de se definir. “Eu encontrei isso remexendo este lugar,” o estranho disse. Então lentamente ele puxou a tampa da caixa e se recostou em sua cadeira. Eu mantive as duas mãos ao redor daquele copo gelado e escutei a música ainda mais gelada. As nítidas notinhas que surgiram da caixa eram como estrelas de som aparecendo nas sombras do crepúsculo e no silêncio da casa. A tempestade havia terminado, deixando os sons do mundo lá fora abafados pela umidade. Dentro dos cômodos fechados, que deveriam agora ter sido transportados à beira de um abismo ou às profundezas da terra, a música cintilou como infinitesimais faíscas de luz naquela estéril ornamentação de dias mortos. Nem um de nós dois parecia estar respirando, e mesmo as sombras atrás de nossas cadeiras estavam enfeitiçadas com uma imobilidade encantada. Tudo se suspendeu por um momento para permitir que a música vagante da caixa partisse em direção a algum destino sublime e terrível. Eu tentei segui-la – através da neblina amarelada da sala e fundo na escuridão que pressionava contra as paredes, e então mais fundo na escuridão entre as paredes, então através das paredes e dentro do espaço sem divisas onde aqueles tons prateados ascenderam e tremeram como um enxame de insetos. Havia ainda beleza nessa visão, embora tingida pelo sinistro como estava. Mesmo naquele ponto eu senti que poderia me perder na vastidão que se espalhava sobre mim, uma tenebrosa extensão rica em espólios desconhecidos. Mas então algo começou a se agitar, entrando forçadamente como uma doença, intrometendo sua cabeça de cores horríveis na escuridão fresca… e me perseguindo de volta até o meu corpo.

“Então, o que você acha? Começou a ficar ruim mais pro final, não começou? Eu fechei a caixa antes que piorasse. Diria que eu agi corretamente?”

“Sim,” eu disse, minha voz tremendo.

“Eu pude ver no seu rosto. Meu propósito não era ferir você. Eu só queria te mostrar uma coisa – dar um vislumbre.”

Eu bebi o resto da água, então coloquei o copo que ainda estava segurando na mesa. Me acalmando um pouco, eu disse, “E o que é que você queria me mostrar?”

“A loucura das coisas,” ele disse. E ele pronunciou essas palavras calmamente, precisamente, enquanto encarava meus olhos para ver como eu reagiria.

Claro, eu precisava ouvir mais. Afinal, era para isso que eu estava lá, não era? Vocês podem me escutar em seus sonhos, meus amigos?

“A loucura das coisas”, eu reiterei, tentando tirar mais dele. “Receio que eu não entenda.”

“Nem eu. Mas isso é tudo que eu posso dizer sobre isto. Aquelas são as únicas palavras que eu posso usar. As únicas que se aplicam. Eu já me deleitei nelas. Como um jovem estudante de filosofia, eu costumava dizer para mim mesmo, ‘eu vou entender a loucura das coisas.’ Isso era algo que eu sentia que precisava saber – que eu precisava confrontar. Se eu pudesse confrontar a loucura das coisas, eu pensava, então eu não teria nada mais a temer. Eu poderia viver no universo sem sentir que estava me despedaçando, sem sentir que eu iria explodir com a loucura das coisas que no meu ponto de vista formavam a própria fundação da existência. Eu queria rasgar o véu e enxergar as coisas como elas são, não me cegar para elas.”

“E você conseguiu?” Eu perguntei, sem me importar nem um pouco se eu estava escutando um lunático, tão fascinado eu estava pelo que ele tinha a dizer. Apesar de eu mal conseguir entender suas palavras, eu sabia que havia algo nelas que não era estranho para mim, e por alguns momentos eu me distraí pelas suas implicações. Porque quem entre nós já não experimentou algo que possa ser chamado de a loucura das coisas? Mesmo se não usarmos essas exatas palavras, nós devemos em algum momento em nossas vidas ter sentido seu significado. Nós devemos ter tocado, ou ter sido tocados, por aquela perturbação que o estranho pensava ser a fundação da existência. Se nada mais, minha boa gente, nós todos conhecemos o destino dos Van Livenns. Não seria estranho se ponderarmos na solidão de nossas mentes sobre o que chamamos de sua “tragédia” e se refletirmos sobre esse nosso mundo.

“Consegui?” disse o estranho, me trazendo de volta para mim mesmo. “Ah, sim. Até demais, eu diria. Eu consegui me desprender de todos meus medos, e até do próprio mundo. Agora eu sou um andarilho do universo, um errante dos espaços onde a loucura das coisas não tem limites. Um dia, após anos de estudo e prática, eu me rendi ao que me aguardasse. Mas eu não posso dizer aonde eu vou ou porque eu vou até lá. Tudo é muito caótico na minha existência. De alguma forma, entretanto, eu sempre volto a este mundo, como se eu fosse alguma criatura que retorna na ocasião para seu lar. Esses lugares a que eu chego parecem me atrair para eles, como se tivessem sido preparados, até invadidos antes de mim. Porque sempre existem coisas, pequenos itens que são exatamente o que eu esperaria. Essa caixa de música, por exemplo. Eu olhei ao redor até encontrar algo deste tipo. Pelos seus desenhos eu pude ver que ela havia sido tocada pela loucura das coisas, e você também pôde, eu percebi. Que destruição ela deve ter causado para aqueles despreparados para tais fenômenos. O que aconteceu nesta casa? Eu só posso imaginar.”

E então a tragédia dos Van Livenns foi iluminada. Qual deles teria cruzado com a caixa de música onde ela deve ter jazido escondida por sabe-se lá quanto tempo? Ao longo do tempo, eles todos devem ter se tornado suas vítimas. A condição da casa e de seu terreno – esse era o primeiro sinal. E então os gritos que começamos a ouvir de nossas casas e que fizeram com que continuássemos dentro de casa. O que isso tudo significava? Fora quase um ano até que não houvesse mais nenhum som ou qualquer movimento atrás das cortinas da casa. Logo depois, cinco corpos foram encontrados, alguns deles mortos há mais tempo que outros. Nenhum deles inteiro. Todos barbarizados além do humano. Nós quisemos pensar que havia sido um estranho, mas não conseguimos fazê-lo por muito tempo. Não depois de que uma inspeção ser conduzida, e a conclusão ser de que eles sucumbiram um após o outro ao longo do período de tempo de um mês. Eles disseram que o velho Van Livenn devia ter sido o último deles. Seu corpo estava uma bagunça de pedaços picados, mas ele deve ter feito tudo sozinho, julgando pelo machado que ainda estava seguro em seu punho morto.

“Com licença”, disse o estranho, mais uma vez me despertando de um estado de distração. Ele estava agora de pé junto à janela fechada, espiando entre a fileira de ripas que ele puxara para abrir. Com um lento movimento de sua mão, ele acenou para que eu me juntasse a ele, sorrateiramente ao que parecia. “Olhe. Você pode vê-las?”

Através das frestas da janela fehada eu pude ver algo lá fora, bem onde os Van Livenns tinham uma vez cultivado seu muito admirado jardim em dias passados. Mas o que eu vi era como os desenhos na caixinha de música – intrincado mas indistinto.

“Elas quase se parecem como flores, não é? Tão vividamente coloridas elas brilham na noite. E ainda quando eu as encontrei pela primeira vez – não neste corpo, claro – quase tudo era escuro. Mas não era escuro como uma casa às vezes é escura, ou como as florestas são escuras porque as árvores grossas mantém a luz de fora. Era escuro apenas porque não havia nada para manter a escuridão de fora. Como eu posso saber disso? Eu sei porque eu pude ver com mais do que meus olhos – eu pude ver com a própria escuridão. Com a escuridão eu vi a escuridão. Era imensidão sem fim ao redor de mim – vastidão ininterrupta, horizonte negro encontrando horizonte negro. E havia também algumas coisas dentro da escuridão, e eu achei que elas fossem minha própria forma, de modo que eu me estendi para tocá-las através do universo de escuridão, eu também me estendi fundo dentro de mim mesmo, tal como eu era. Ainda assim tudo que pude sentir eram aquelas coisas, aquelas flores. Tocá-las era como tocar luz e cores e mil tipos de formas crescentes e arrepiantes. Em toda aquela escuridão que me permitia ver a própria escuridão, essas coisas se contorciam, uma massa vermiforme que tentanva fazer dela mesma uma parte de mim. Eu as devo ter trazido comigo quando vim a este lugar. Após eu tomar esta forma, elas me abandonaram e se enterraram naquele terreno ali. Elas partiram a terra naquela mesma noite, e eu pensei que viriam atrás de mim. Mas de alguma forma a situação mudou. Eu acho que elas gostam de estar onde estão agora. Você pode ver por você mesmo como elas se contorcem, quase alegremente.”

Depois destas palavras ele caiu em silêncio por um momento. Era uma noite escura, os céus ainda cobertos pelas nuvens que mais cido haviam trazido chuva. As lâmpadas sobre a lareira brilhavam com uma luz penetrante que cortava as sombras do tecido negro ao nosso redor. Por que, boa gente, eu estava tão atônito pelo fato de que esse fantasma diante de mim podia caminhar pelo quarto e realmente levantar uma das lâmpadas, e então carregá-la pelo corredor em direção aos fundos da casa? Ele pausou, se virou e acenou para que eu o seguisse.

“Agora você as verá melhor da escuridão. Isso é, se você quiser ver a verdadeira loucura.”

Ah, meus amigos, por favor não me desprezem pela escolha que eu fiz nesta noite. Lembrem-se que foram vocês que me mandaram, porque eu era aquele que menos pertencia à nossa cidade.

Furtivamente, nós deixamos a casa como se fôssemos duas crianças fugindo sorrateiras para passar uma noite no bosque. A luz da lâmpada roçou a grama molhada atrás da casa e parou onde o jardim terminava e começava a floresta, fragrante e soprada pelo vento. A luz se movia para a esquerda e eu me movia com ela, em direção à área onde o jardim uma vez crescera.

“Veja elas se contorcendo na luz,” ele disse quando os primeiros raios caíram em um emaranhado de formas se convulsionando, como as entranhas radiantes do inferno. Mas as formas rapidamente desapareceram na escuridão e para fora da vista, puxando a si mesmas do solo amolecido pela chuva. “Elas recuam da luz. E veja como elas retornam a seus lugares quando a luz é retirada.”

Elas fecharam novamente como águas separadas correndo para se refundir. Mas essas eram águas corruptas cujas correntes tinham se coagulado e se diferenciado na forma de criaturas amarradas por veias viscosas e pulsantes, engendradas em bocas trabalhando.

“Mova a luz para o mais próximo possível do jardim”, eu disse.

Ele ficou bem na borda, enquanto eu fiquei mais adiante ainda em direção àquela maré vazante de dendritos pegajosos, aquelas aberrações do abismo. Quando eu estava fundo em sua malha, eu sussurrei: “não perca a luz, ou elas vão cobrir de novo o chão onde eu estou. Eu posso vê-las tão bem. A verdadeira loucura. Eu a confrontei sem medo.”

“Não,” disse o estranho. “Você não está preparado. Volte para a luz antes que o pavio se apague.”

Mas eu não escutei a ele, ou ao vento que se levantou. Ele veio abaixo das árvores e varreu o jardim, arremessando-o na escuridão.

E o vento agora carrega minhas palavras para vocês, boa gente. Eu não posso estar aí para guiar vocês, mas vocês sabem agora o que deve ser feito, tanto a esta terrível casa quanto a seu jardim que foi trazido para este mundo por um dos que condenou a si mesmo a caminhar outros mudos. Por favor, uma última palavra para agitar seu sono. Eu me lembro de ter gritado para o estranho:

Elas estão me arrastando com elas. Meus olhos podem ver tudo na escuridão. Eu não sou quem eu sou. Pode me ouvir? Pode ouvir minhas palavras?

“Eu acabei de ter o sonho mais terrível”, sussurrou um dos muitos que estavam acordando nos quartos escuros da vila.

“Não foi um sonho. Você pode ouvir os outros lá fora?”

Uma figura vestida de camisola se levantou da cama e se moveu como uma silhueta até a janela. Na rua abaixo, uma multidão carregando luzes e batendo às portas para que os que ainda sonhavam se juntassem a eles. Seus lampiões e lâmpadas balançavam na escuridão e o fogo de suas tochas tremeluzia loucamente. Feixes de chamas atirados dentro da noite.

O povo da cidade não disse uma palavra um para o outro, mas eles souberam onde eles estavam indo e o que fariam para libertar seu concidadão, eu mesmo, da própria tragédia. E apesar de não enxergarem nada além da louca destruição que jazia em frente, enterrado como um sonho esquecido dentro de cada um deles havia uma perfeita imagem de outros olhos e das formas impronunciáveis que neles penetraram. Mas não deixem que seus fogos se apagarem enquanto vocês fazem seu trabalho. Não deixem que elas te levem também, para seu reino extraterreno. Venham, então, e fechem meus olhos. Assassinem os seres para os quais foram atraídos. Então, fechem suas mentes tão bem quanto vocês podem ao abismo que é lar da loucura das coisas.

Para saber mais, clique aqui.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

CAMPANHAS NO CATARSE PARA APOIO



Já estão disponíveis para financiamento coletivo os projetos da Editora Clock Tower e Diário Macabro, respectivamente.

Escritor que formava o tripé da Revista Weird Tales com H.P. Lovecraft e Robert E. Howard, Clark Ashton Smith foi poeta, escultor, pintor e autor de contos de fantasia, horror e ficção científica. Foi por sua amizade literária com ambos que ele é lembrado principalmente hoje. Até hoje, nenhum de seus trabalhos foi lançado no Brasil, e a Editora Clock Tower precisa da sua ajuda para viabilizar um livro que reúne vários contos de Smith, já que os custos para publicação são altos, especialmente no que diz respeito aos direitos autorais, daí a necessidade do projeto via Catarse.


Charles Brockden Brown é o escritor conhecido como o "pai do romance americano". Seus romances góticos em cenários americanos foram os primeiros de uma tradição adaptada por dois dos maiores autores americanos antigos, Edgar Allan Poe e Nathaniel Hawthorne.

Seu primeiro romance, Wieland (1798), uma obra-prima da ficção americana, mostra a facilidade com que o equilíbrio mental é perdido quando o teste do senso comum não é aplicado a experiências estranhas. A história diz respeito a Theodore Wieland, cujo pai morreu por combustão espontânea, aparentemente por violar um voto a Deus.

François-Xavier Fabre: "Visiones de Saul", 1837

Para saber mais das campanhas da Clock Tower e Diário Macabro, é só clicar no nome delas e você será direcionado para suas páginas.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Sobre a Revista Mystério Retrô por Vera Carvalho Assumpção


A revista Mystério Retrô é uma ideia genial do meu amigo Tito Prates! Além de ser uma homenagem aos 100 anos do primeiro romance policial escrito por brasileiros, é uma revista que traz contos e artigos de qualidade. No século passado muitas foram as revistas de língua inglesa que traziam contos de autores que começavam suas carreiras. Aqui no Brasil também circularam diversas revistas de contos como a Mistério Magazine da Ellery Queen, a X-9, a Detetive, dirigida por Nelson Rodrigues e onde Pagu (Patrícia Galvão) publicou seus contos policiais. Só posso desejar vida longa para a Mystério Retrô.

O primeiro número da Mystério Retrô está excelente. Há um ótimo artigo de Raul de Souza Paz que fala sobre o reviver destas revistas. Há também o artigo de Pedro Cadina sobre as histórias do detetive Jack Reacher, tão bom e instigante, que já me fez comprar o livro.

Os contos começam com Marcas de Sangue protagonizado pelo detetive Alyrio Cobra, de minha autoria. Confesso, sem falsa modéstia, que reli e gostei!

O segundo é "Best Friends Forever" de Débora Gimenez. Um complicado imbróglio de amizades e paixões que a detetive Paula Oliveira consegue destrinchar de forma magistral.

Tendo em mãos “O Bilhete Anônimo” que diz “Um de vocês morrerá amanhã à noite”, a angelical detetive Jolie, criada por Vicento Hughes, desvenda um intrincado mistério que envolve relações familiares.

Em “Código no Cadafalso” de Igor Moraes, o detetive Toledo foi chamado pelo investigador Arthur para resolver o assassinato de um conhecido de Toledo. Os dois se envolvem em um suspense com final surpreendente.


Embaixador de Agatha Christie, Tito Prates é responsável pelo projeto Mystério Retrô

Em “O Desaparecimento de Dana Feldman”, Claudia Lemes traz o primeiro caso de Bárbara Castelo. Aos dezessete anos, Bárbara já possuía capacidade de dedução e audácia suficientes para resolver um caso em que seu pai, Shaw, estava trabalhando. Trama excelente.

Em “No Limite do Céu”, Cristiane Krumenauer nos traz a detetive Alice Stoifeld. Enfrentando a multidão que quer invadir a igreja, ela segura a onda e resolve o caso.

“O Pusilânime” de Tito Prates nos traz a senhorinha Edimburghese Morgado narrando uma deliciosa história sobre o primeiro caso que desvendou a partir de um caixote encontrado num túmulo de família contendo uma jovem recém falecida! 

Em “A Mancha Na Parede”, A.T. Sérgio nos prende do começo ao fim esperando pelo desfecho que pode vir de onde menos se espera! Desta e de outras dimensões.

“O Último Ônibus” de Victor Bonini é uma fascinante viagem onde um assassinato acontece dentro do ônibus e todos os passageiros tem condições de ser o assassino. E seguimos viagem na corda bamba até descobrir o que de fato ocorreu!

Só posso dizer que Mystério Retrô é um resgate das revistas de mistério com contos e artigos de excelente qualidade. Não deixe de ler e assinar.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

CAPA REVELADA!


"Wieland, ou a transformação", de Charles Brockden Brown, foi o primeiro livro de Literatura Gótica escrito e publicado nos EUA. 

Mais de 200 anos depois,a obra finalmente chegará ao Brasil, pelas mãos da Editora Diário Macabro!

Em publicação inédita, você poderá conhecer um dos textos clássicos da literatura do medo, o qual inspirou diversos outros que vieram após ele. Entre os temas principais da trama estão o fanatismo religioso, a manipulação psicológica e fenômenos inexplicáveis que retiram uma família comum e pacata de seu bem-estar. 

O livro será publicado por meio de financiamento coletivo, uma espécie de pré-venda, pela plataforma Catarse.

A arte utilizada na capa foi feita em aquarela, pelo artista Preto Pasin, inspirada pela pintura "American Gothic" de Grant Wood.

Nos vemos no dia 09!


Um agradecimento fantasmagórico a você



Olá,

Em meio as turbulências da quarentena e tempestades no Sul estou passando aqui nesta manhã com uma ótima notícia para você que já apoiou nossa campanha para publicação da melhor coletânea de fantasmas já feita em língua portuguesa.

Batemos 100 da meta com apenas dezenove dias de campanha!

O que fazemos, fazemos por respeito e amor a vocês, nossos leitores. E nada é mais reconfortante do que saber que estamos batalhando para um público que corresponde tão positivamente aos nossos projetos. 

Obrigado! Vocês viabilizaram nosso novo livro, e em agradecimento vamos divulgar em breve novas metas estendidas além das inicialmente prometidas. 

A campanha continua! 

Aguardem e fiquem com nossos sinceros agradecimentos! 

Alexander Meireles da Silva, Bruno Costa e Cid Vale Ferreira 

P.S. E se você ainda não apoiou, garanta a sua edição de Contos Clássicos de Fantasma, uma co-produção das editoras Ex-machina e Sebo Clepsidra com a Organização e Prefácio do Fantasticursos, CLICANDO AQUI.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Você conhece o primeiro romance gótico norte-americano?


Você está pronto para conhecer uma das mais importantes publicações da literatura gótica?

Charles Brockden Brown é considerado por muitos pesquisadores como o primeiro escritor profissional norte-americano. Para melhorar, Brown foi o responsável pela publicação do primeiro romance gótico do país, chamado Wieland, ou a transformação.

Publicado em 1798, Wieland deu início a uma forte tradição de histórias góticas e de horror nos EUA, tendo influenciados autores até mesmo de outros países, como a britânica Mary Shelley, que confessa que teve inspirações nesse romance para escrever Frankenstein!

Apesar de ter sido escrito há mais de 200 anos, Wieland nunca foi publicado no Brasil. Agora, pelas mãos da Diário Macabro, esse lançamento inédito poderá se tornar real! 

***

Sobre a trama: O livro nos apresenta os Wieland, família de agricultores norte-americanos que presencia em suas terras situações inexplicáveis, resistindo a todo momento a acreditar que tenham alguma origem sobrenatural. Após um tempo, essa descrença começará a cair por terra.

A campanha de financiamento coletivo do livro pelo Catarse começa em julho.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Contos Clássicos de Fantasma: financiamento coletivo tem início amanhã


As editoras Ex Machina e Sebo Clepsidra apresentam sua primeira coedição: a mais completa antologia de contos de fantasma já produzida em língua portuguesa, cobrindo um amplo espectro do cânone ocidental, assim como uma seleção de oito obras nacionais (que por si só já renderiam um volume). São 26 narrativas ao todo, muitas das quais inéditas em português. Além da alentada introdução do professor e especialista em Literatura Fantástica Alexander Meireles da Silva, todos os contos são acompanhados de um breve texto sinóptico de abertura elaborado para contextualizar o autor e a obra em questão.

A antologia conta com a organização de Alexander Meireles da Silva (que também assina a extensa introdução, com 25 páginas que cobrem toda a história do gênero), e a edição de Bruno Costa, o idealizador e editor da mais completa reunião dos contos de H.P. Lovecraft já realizada em língua portuguesa, o projeto de Literatura/ficção que conquistou a maior arrecadação do Catarse em 2016. A tradução é de Marta Chiarelli, veterana profissional com farta experiência na literatura fantástica. Trata-se, portanto, da mesma equipe responsável pela antologia Contos clássicos de vampiro (2012), seu projeto mais bem-sucedido, cuja edição foi selecionada pelo PNBE e adotada como parte do currículo de centenas de escolas em todo o país. A essa equipe junta-se o editor Cid Vale Ferreira, que traz sua experiência de 16 anos de trabalho no mercado editorial e a expertise de sua especialização em edição de obras góticas e de horror à frente da editora do Sebo Clepsidra.

Livro + Marcador de página + Cartão postal.
O resultado do sorteio será anunciado nas novidades do projeto no dia 25/08.
O livro terá 360 páginas em papel Pólen light (levemente amarelado para tornar a leitura mais confortável), seu tamanho será de 16 cm de largura por 23 cm de altura e a encadernação será em capa dura para garantir sua durabilidade.

Todos os apoiadores que optarem por uma das recompensas exclusivas da primeira semana de campanha (apenas até dia 19 de junho!) concorrerão a um exemplar do livro Contos reunidos do mestre do horror cósmico, de H. P. Lovecraft (Editora Ex Machina).

A ecobag exclusiva do projeto, confeccionada em lona reforçada, virá na cor preta com estampa branca, com cartão postal exclusivo para o projeto e muito mais.

Para saber mais, é só clicar aqui.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Novidades do nosso catálogo futuro! - Via Cid Vale, do Sebo Clepsidra


Novidades do nosso catálogo futuro!

Pessoal, temos recebido muitas perguntas a respeito de como lidaremos com a pandemia, e se continuaremos com nossos lançamentos. A resposta é que estamos aproveitando pra acelerar os lançamentos. Vou listar alguns que devem sair até o fim do ano ou no início do próximo:

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Coleção Epicureia

- Contos Noturnos: Nossa nova campanha dedicada à presença do gótico, do macabro e do byroniano no Romantismo brasileiro será inaugurada por essa raríssima antologia de contos de Barbosa Rodrigues.

- O Conde Lopo: Pela segunda vez desde sua publicação póstuma, esse poema de Álvares de Azevedo será publicado de forma avulsa, com prefácio, posfácio e notas de apoio.

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Coleção Imaginário Gótico

- O Vampiro: A edição comemorativa de 200 anos está sendo diagramada e falta apenas um dos artigos das metas estendidas ser escrito pra enviarmos tudo para a última revisão.

- Fantasmagoriana: A antologia de contos alemães lida por Polidori, Byron, Mary, Percy e Claire em Diodati já está traduzida e a campanha chega ainda em 2020.

- O Velho Barão Inglês: O segundo romance gótico iniciará nossa exploração dos primórdios do romance gótico inglês, em uma edição repleta de extras.

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Teatro Insólito

- Presunção: A primeira adaptação teatral do romance de Mary Shelley está sendo editada e a campanha ainda tem 14 dias no ar! Aproveitem! www.catarse.me/frankenstein

- O Espectro do Castelo: O drama de M. G. Lewis (autor do romance "O Monge") será o segundo título da nossa coleção que explora o drama gótico.

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Coleção Lord Byron

- Céu e Terra: O drama de Byron sobre os Nefilins e o dilúvio concluirá o ciclo "Dramas de Byron", e sua campanha virá com uma caixa pra acomodar os três primeiros volumes que lançamos do poeta, mas a coleção continua depois com "O Giaur", "Melodias Hebraicas" e outros!

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Coleção Clássicos do Penny Dreadful

- Varney, o Vampiro: O primeiro volume da coleção está bem atrasado, mas ele está passando por uma preparação de texto profunda para resolver os milhões de desafios da tradução, e ficará pronto no segundo semestre de 2020.

- Wagner, o Lobisomem: O segundo título da coleção será lançado no ano que vem.

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Enciclopédia do Cinema de Horror

- Coleção em volumes que representam recortes temporais para apresentar de forma aprofundada todas a evolução do horror na sétima arte. Organizada por grandes autoridades no tema como Carlos Primati, Beatriz Saldanha e Marcelo Miranda.

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Sem coleção

- Contos Clássicos de Fantasma: Nossa primeira coedição com a Ex Machina, que traz 26 contos selecionados do cânone ocidental e da produção nacional.

- Mitologia Lovecraftiana: Reedição ampliada do estudo clássico de Caio Bezarias com novas ilustrações, e novos prefácios e artigos extras.

- O Labor da Morte: Esta dança macabra de Ferdinand Barth foi publicada em 1865 e atualiza o motivo medieval com uma série de belíssimas gravuras. Não haverá campanha para ele. Ele sai em breve com prefácio e tradução de Felipe Vale da Silva.

- Melancolia do Entardecer: Antologia de poemas do alemão Georg Trakl, um herdeiro do Romantismo alemão em pleno Expressionismo.

- A Noite de Walpurgis: Romance de Gustav Meyrink, autor do clássico "O Golem", em nova tradução.

- Eureka: Ensaio filosófico de Edgar Allan Poe, em nova tradução com extras de encher os olhos.

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E isso é só uma parte dos projetos!

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Obrigado a todos pelo apoio! Sem vocês, não seríamos capazes de sobreviver ao Corona!

sábado, 11 de abril de 2020

Primeira adaptação teatral do romance de Mary Shelley ganha edição nacional



O Sebo Clepsidra tem fama por trazer obras do gótico como "O Necromante", de Lorenz Flammenberg e "O Aparicionista", de Friedrich Schiller, começa uma nova empreitada com uma nova coleção. Após o sucesso com "O Vampiro", edição comemorativa de 200 anos com textos de John William Polidori, Lord Byron e Uriah Derick D'Arcy, a editora começa uma nova empreitada com seu primeiro volume da nova Coleção Teatro Insólito, responsável por trazer traduções novas de clássicos da dramaturgia gótica e de horror inéditas em nosso país.

O primeiro título escolhido é emblemático: Presunção, ou A Sina de Frankenstein (1823). A primeira versão teatral de Frankenstein a levar esse clássico gótico e protótipo da ficção científica aos palcos europeus. Nele, vemos a tragédia do Prometeu moderno pelo ponto de vista de Fritz, um ajudante do Dr. Frankenstein. Aliás, Fritz foi magistralmente interpretado por Dwight Frye no filme de 1931. Essa figura secundária, é importante notar, não existia no romance. Tanto o Fritz de 1931 quanto o Ygor de 1939 (interpretado por Bela Lugosi) são personagens extraídos dessa peça, e não do livro de Mary Shelley. A emblemática fala "It's alive", igualmente, não vem do romance, mas sim da peça, assim como a dificuldade de comunicação da criatura, que por um bom tempo só murmurava nos filmes.

A campanha iniciada no fim do mês de março conta, além do livro, com vários brindes, como um caderno de anotações exclusivo da campanha tem 10 por 15 cm, capa dura e 64 páginas em papel pólen sem pautas para você registrar seus escritos e desenhos, que pode ser visto na imagem abaixo. O livro e o caderno podem ser adquiridos aqui. Até agora, a campanha conta com o apoio de 42% no Catarse.



sexta-feira, 20 de março de 2020

Há 100 anos, era editada ‘O Mystério’, primeira história policial do Brasil

Apesar de estrondoso sucesso na época, o livro caiu no ostracismo para não mais ganhar uma nova edição

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo
20 de março de 2020 | 06h00

Tudo começou em um sábado, dia 20 de março de 1920. O jornal carioca A Folha, hoje extinto, publicou o primeiro capítulo de um romance, O Mystério, que se tornaria histórico. Afinal, com a divulgação de seu epílogo, no dia 20 de maio, estava também encerrada a primeira trama policial da literatura brasileira. E foi um sucesso, pois, no mesmo ano, quando publicada em livro, a história conseguiu três edições.

“O mistério começava mesmo pela autoria do enredo”, comenta Tito Prates, um dentista e administrador de empresas que, de tão apaixonado por histórias policiais, tornou-se especialista nesse gênero – especialmente na obra de Agatha Christie. “Logo no início da publicação, que era diária, o leitor sabia que os capítulos eram assinados alternadamente por Coelho Neto, Afrânio Peixoto, Viriato Corrêa e um quarto autor identificado apenas como ‘&’. Logo se descobriu que se tratava de Medeiros e Albuquerque, que também era proprietário do jornal.”

O livro 'O Mysterio', de Coelho Neto, Afrânio Peixoto, Medeiros e Albuquerque e Viriato Corrêa, considerado o primeiro livro policial brasileiro e que completa 100 anos de publicação em 2020 Foto: Acervo Tito Prates

Aos leitores da época, foi oferecido o convite para acompanhar dois desafios – primeiro, o da própria trama policial e seu mistério habitual; o segundo era acompanhar como cada um dos quatro autores se desdobravam para escrever seu capítulo. É que nenhum deles sabia o teor da escrita do outro. “Com isso, Coelho Neto, por exemplo, só dava prosseguimento à história depois de ler, no próprio jornal impresso, o que seu antecessor produziu”, conta Prates.

Segundo o historiador, que preside a Associação Brasileira dos Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror, os quatro autores de O Mystério deram características distintas ao romance. “Enquanto Afrânio era mais poético, Coelho Neto puxava mais para o humor. Aliás, esse é um detalhe importante porque o cômico predomina em muitas passagens da história.”
De fato, para exemplificar, basta selecionar uma das últimas frases, escrita por Afrânio Peixoto: “Nos crimes, só lucram a Polícia e a Justiça. Se os criminosos soubessem...”

É justamente o tom jocoso que torna O Mystério muito peculiar, pois, apesar de a trama começar com um crime, já despertando uma investigação, os passos seguintes apostam mais no humor ao ressaltar os infortúnios sofridos pela polícia do Rio de Janeiro. O enredo acompanha a trajetória de um jovem pobre, Pedro Albergaria, que tem um incontrolável desejo de vingança de um banqueiro, Sanchez Lobo. O motivo é nebuloso – sabe-se apenas que, no passado, houve algum atrito entre eles.

“É um romance híbrido, pois conversa com o mistério típico do policial inglês, tem pitadas de humor e ainda há um romance, cujo desfecho é mais espetacular que a própria resolução do crime”, observa Tito Prates. A trama é mirabolante, especialmente quando o jovem Pedro, leitor voraz de obras policiais, arquiteta o que considera um perfeito plano de vingança sem ser descoberto.

O que o rapaz não espera é ter de se deparar com figuras únicas, como o detetive Mello Bandeira, um major conhecido por “O Sherlock da Cidade”, pois se baseia nos métodos dedutivos do personagem criado por Conan Doyle. O humor aparece quando Bandeira é ridicularizado por se basear na ciência como base para a investigação.

Prates lembra que foi Monteiro Lobato quem primeiro editou a história em livro, tão logo encerrou a publicação em capítulos no jornal. E, apesar de estrondoso sucesso na época (ao final de 1928, já na terceira edição, totalizava dez mil cópias vendidas), o livro caiu no ostracismo para não mais ganhar uma nova edição. E continua sem editora porque um de seus autores, Viriato Corrêa, foi o último dos quatro autores a morrer, em 1967, não somando, portanto, o tempo mínimo (75 anos e um mês) para que uma obra caia no domínio público. “Também não deixou herdeiros, o que dificulta uma negociação”, complementa Prates.

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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

"O Vampiro", edição comemorativa de 200 anos está no ar no Catarse


Livro comemora os 200 anos do primeiro conto de vampiro em edição com 230 páginas de extras


As editoras Aetia e Sebo Clepsidra se juntam em uma campanha de financiamento coletivo de uma edição que comemora os 200 anos da publicação do conto "O Vampiro" (1819), de John William Polidori.

A obra permanece relevante por tratar-se do primeiro conto vampírico inglês e pelo fato de seu vilão, Lord Ruthven, ser o primeiro vampiro masculino da literatura inglesa. Foi Ruthven o protótipo da longa tradição de vampiros aristocráticos e fatais, que inclui Sir Francis Varney, Conde Azzo von Klatka e Conde Drácula.

O bicentenário da publicação do conto é de extrema importância para o desenvolvimento de um dos ramos mais longevos da tradição gótica: a narrativa centrada na ameaça representada por um vampiro aristocrático. Podemos nos perguntar, por exemplo, quantas personagens masculinas conhecemos da literatura vampírica anterior a Lord Ruthven, o vampiro de Polidori. diz Cid, um dos responsáveis do Sebo Clepsidra

As histórias da gênese e da trajetória do conto são fascinantes, e serão devidamente destrinchadas no livro, que conta com organização de Marina Sena.

"O Vampiro" foi baseado no esboço de narrativa que Byron escreveu para o célebre concurso de histórias de fantasmas proposto em Villa Diodati. O conto de Byron, entretanto, conhecido como “O Fragmento”, ficou inacabado. Foi neste concurso que também nasceram os primeiros rascunhos do romance Frankenstein (1818), de Mary Shelley.

Trabalhando na época como médico particular do poeta, Polidori teve uma tumultuada relação com seu patrão e, ao retomar o manuscrito incompleto, decidiu construir seu vampiro como uma caricatura de Byron.

Polidori, Byron e Nodier

O conto foi publicado em 1819 por um editor que, de maneira oportunista, o atribuiu ao lorde. Impulsionado pela falsa autoria, "O Vampiro" foi calorosamente acolhido na França, onde foi traduzido por Henry Faber, inspirou uma continuação por Cyprien Bérard em formato de romance, além de ter sido adaptado para o teatro com estrondoso sucesso por Charles Nodier e colaboradores.

Na Alemanha não foi diferente. Em 1828, Heinrich Marschner compôs uma ópera baseada no drama de Nodier, e, entre 1828 e 1835, nada menos do que quatro narrativas com o título "O Vampiro" foram publicadas. Entre elas, a novela de Isidor, sobre quem existem pouquíssimas informações, destacou-se por incluir reflexões um tanto metalinguísticas sobre a nascente temática vampírica nas artes.

Para celebrar seu bicentenário e disponibilizar aos leitores e pesquisadores brasileiros as obras, as cartas, os trechos de diários e as resenhas que registram a gênese do vampiro fatal na ficção, ofereceremos uma nova tradução do conto de Polidori acompanhado de cerca de 230 páginas de extras, para o deleite dos aficionados pelas sanguessugas mais charmosas da literatura gótica.

A campanha já chegou ao seu 72%. Clique aqui para adquirir o seu.