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domingo, 24 de junho de 2018

Na selva, agora sem guerrilha, Colômbia reencontra tesouro antropológico de 12 mil anos... - via BOL Notícias - Uol

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Milhares de pinturas rupestres estiveram ocultas por anos na Colômbia. A densa selva amazônica do departamento de Guaviare protege um tesouro antropológico nos platôs do Parque Natural Chiribiquete e na cordilheira La Lindosa.

Estas montanhas são decoradas com desenhos feitos há pelo menos 12 mil anos por povos amazônicos, e pesquisadores puderam enfim analisar os registros graças ao acordo de paz feito em 2016 com os ex-guerrilheiros das Farc.

"Somos parte da população que o processo de paz beneficiou. Esta região, que era o epicentro da guerra na Colômbia, passou por uma transformação importante, pois não há mais tantas pessoas armadas por aqui", diz Ernesto Montenegro, diretor do Instituto Colombiano de Antropologia e História.

A guerra no interior da Colômbia impediu por anos que os murais fossem estudados. Antes de sua dissolução, as Farc exerciam autoridade na região do Guaviare, que também é área de cultivo e fabricação de cocaína.

A guerrilha é hoje um partido político e alguns dissidentes, que ainda operam na região, parecem não ligar para o estudo do patrimônio cultural desconhecido.

"Ainda há muito por descobrir. Há muitas regiões nas quais nem se sabe se há algo para descobrir ou não", diz Céline Valadeau, antropóloga do Instituto Francês de Estudos Andinos. 

É impossível saber com precisão a data das pinturas, pois não foram feitas com componentes orgânicos. A tinta usada é uma mistura mineral rica em manganês que fica laranja quando oxida.

O parque, que possui os 70 mil pictogramas, é candidato a se tornar Patrimônio Mundial da Unesco.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Sobre o livro "Lula: A verdade vencerá"

Ato na praça Santos Andrade após o primeiro depoimento do ex-presidente Lula ao juiz Sérgio Moro em Curitiba;
10 mai. 2017
No dia 24 de janeiro de 2018, em Porto Alere, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve julagdo seu recurso à condenação por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, proferida pelo juiz federal Sérgio Moro. Num jogo de cartas marcadas, três desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4° Região (TRF-4) confirmaram a sentença e ampliaram a pena anterior. Nenhuma prova foi apresentada. Do lado de fora, dezenas de milhares de pessoas, na maioria trabalhadores e estudantes, manifestavam apoio ao mais popular líder político que a classe trabalhadora brasileira produziu - Ivana Jinkings
Esqueça por um momento seus preconceitos e por um momento foque na história. Sim, na leitura histórica de todos os fatos ocorridos até agora.

Uma operação que trouxe informações deverás preocupantes e que derrubou presidentes, não só em solo nacional, mas internacional (o vice-presidente do Equador, dois ex-presidentes do Peru, o ex-presidente de El Salvador e o ex-presidente do Panamá). Todos condenados depois das investigações da Lava-Jato.

Somando só no Brasil, são 177 condenações contra 113 pessoas. Mais de 1.753 anos e 7 meses de pena divididos para mais de uma centena de atores políticos e econômicos, com influência de norte a sul do país.

Agora chegamos a questão do livro da editora marxista Boitempo. Com um trabalho gráfico espetacular mesmo feito às pressas (prestando atenção nas datas, o texto da Ivana Jinking, fundadora e diretora da editora Boitempo, foi escrito dia 08 de março, o lançamento do livro foi feito uma semana e um dia depois, 16), trás não apenas uma entrevista de algumas dezenas de páginas com o ex-presidente, mas também textos de seus apoiadores.

Eric Nepomuceno, Luis Fernando Verissimo, Luis Felipe Miguel, Rafael Valim, Camilo Vannuchi, Luiz Felipe de Alencastro e uma tirinha de Laerte Coutinho complementam o livro, que trás fotos de momentos marcantes da carreira política de Lula. Os responsáveis por essa entrevista foram os jornalistas Juca Kfouri e Maria Inês Nassif, o professor de relações internacionais Gilberto Maringoni e à editora (já mencionada) Ivana Jinkings.

O livro, mesmo a revelia, nasce para entrar na história. Provavelmente vai se tornar leitura obrigatória para muitos pesquisadores do período lulopetista. Mesmo com alguns tropeços no português, deve ser levado em consideração (vamos lembrar do tempo curto para fazê-lo). É um livro de defesa, enviesado, de ponto de vista. Muitas vezes, nota-se a intensão, o viés, pelas notas de rodapé. Como por exemplo, quando falam do Bolsonaro:

"Defende a ditadura [eles escreveram ditatura, mas corrigi] militar e os torturadores – na votação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, na Câmara, ao pronunciar seu voto, prestou homenagem ao coronel torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, que chefiou o DOI-Codi entre 1970 e 1974. Condena os homossexuais, o feminismo, a política de cotas; defende a tortura e a pena de morte. Nacionalista do ponto de vista econômico no passado, adotou a perspectiva neoliberal desde 2017"

Ou sobre o Juiz Sérgio Moro: 

"Depois de um período de popularidade por construir uma imagem de juiz inflexível no combate à corrupção, tornou-se patente sua atuação de cunho político contra a esquerda e, em especial, contra o ex-presidente Lula. A Lava Jato passou a ser cada dia mais uma referência de desvio do Poder Judiciário, com a prática de falsificação de provas, chantagem e ameaças contra aqueles que a força-tarefa considerou seus alvos."

O livro tem uma fluidez interessante. A entrevista acontece de uma maneira quase camarada - eles começam comentando as rodadas do paulistão, falam sobre futebol e dali partem para o que realmente nos interessa: o que ele tem a dizer. Tem pontos interessantes, mas o que mais marca é como em torno do presidente existe um beija-mão.

Entendam, estamos prestes a ter mais uma eleição para a presidência da república. E um fato é notório: o amigo do presidente sobe com o presidente, e o amigo que cai com o presidente não existe. Quando ele fala que a Dilma, depois de ganhar a eleição de presidente em 2014 fala que não quer participar de mais nenhuma campanha eleitoral é notório que existe todo um sistema de cortejar o vencedor até começar sua sangria. "Você vai passar para a história como a única presidente que nem os ministros defenderam" diz Lula para Dilma (pág 32).

Esse livro deve ser leitura obrigatória para todos os que são partidários. O atual problema que enfrentamos no debate público é repertório. A direita só lê coisas que a direita escreve, mesmo quando esses textos falam da esquerda. A esquerda só lê coisas que a esquerda escreve, mesmo quando esses textos falam da direita. Essa obra pode ser um divisor de águas para muitas pessoas. Para quem gosta de spoilers:

Lula fala detalhadamente sobre a relação com Eduardo Campos com Dilma Rousseff e de uma possível candidatura de Eduardo a presidência com apoio do PT após a conclusão do mandato de Dilma em 2018.

O livro está disponível para compra e para download gratuito.

sábado, 3 de março de 2018

Carta a Stalingrado - Carlos Drummond de Andrade

A barbárie nazista foi derrotada em Stalingrado
No dia 2 de fevereiro de 1943 o Exército Vermelho infringiu em Stalingrado uma memorável derrota contra as forças nazistas que haviam invadido a URSS. Foi o começo do fim para Hitler e seus parceiros nazistas. Lá o "Reich dos Mil Anos" foi ferido de morte e os soldados soviéticos começaram a marcha para o oeste que só terminariam em Berlim onde, em 8 de março de 1945, impuseram a rendição final à Alemanha nazista. Stalingrado tornou-se sinônimo mundial do heroísmo e da luta pela pátria e pelo socialismo que, no Brasil, Carlos Drummond de Andrade, na época em que flertava com o comunismo, cantou neste poema.

Stalingrado…
Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas 
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora, 
e o hálito selvagem da liberdade 
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem, 
enquanto outros, vingadores, se elevam.

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída, 
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas, 
na tua fria vontade de resistir.

Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida. 

Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!
As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.
Débeis em face do teu pavoroso poder, 
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,
as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta, 
aprendem contigo o gesto de fogo.
Também elas podem esperar.

Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos; 
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas, 
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado!

A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,
apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,
caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,
sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?
Uma criatura que não quer morrer e combate, 
contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,
contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate, 
e vence.

As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres, 
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.

Do livro Rosa do Povo (1945). In Carlos Drummond de Andrade. Poesia e Prosa. Rio de janeiro, Editora Nova Aguilar, 1983.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Antônio Carlos: "O que houve no Brasil, e em grande parte do mundo, foi a desarticulação da classe trabalhadora por meio do dinamismo do capital e da fragmentação da classe dominada por meio de intenso trabalho de alienação ideológica"


Mestre pela Universidade Nove de Julho (UNINOVE), Antônio Carlos, é escritor, filósofo, teólogo e advogado - Especialista em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho pela Faculdade de Direito Professor Damásio de Jesus e nos deu uma pequena entrevista sobre o Brasil e sobre todas as atualidades.


Embora a teoria marxista tenha sido um divisor de águas na história da filosofia política proporcionando um novo olhar sobre a estrutura do Estado, é importante entender que tal teoria foi escrita no século XIX diante dos problemas postos àquela época

A direita cresce no Brasil e algumas pesquisas apontam que o conservadorismo subiu no país comparado a alguns anos, mesmo o governo tendendo mais a esquerda. Como isso é explicável? 
Ao meu ver a Direita não cresce no Brasil, a Direita é o Brasil. Qual é a real situação da esquerda brasileira? Entendo que os partidos simpatizantes com ideais de esquerda no Brasil (apenas ideologicamente porque não prática nunca romperam com o sistema de classes),começando pelo PT (Partido dos Trabalhadores), que era, ao menos, a espinha dorsal, acabou se aristocratizando e transformando-se em refúgio de intelectuais, artistas, teóricos, predominantemente da da classe média alta.Os sindicatos se perderam em burocracia e interesses alheios à organização da classe proletária, servindo, em alguns casos, muito mais à interesses da classe dominante (banqueiros e grandes empresas) do que com a multidão de trabalhadores marginalizados. O que houve no Brasil, e em grande parte do mundo, foi a desarticulação da classe trabalhadora por meio do dinamismo do capital e da fragmentação da classe dominada por meio de intenso trabalho de alienação ideológica pela massificação da cultura e pela política do consumismo. Não devemos esquecer que o Estado nasceu em sua gênese para atender os interesses econômicos de uma classe e assim vem se portando ao longo da História, sendo a classe trabalhadora mera "massa de manobra".

Vários aspectos do marxismo são alvos de críticas. Diversos autores levantaram objeções ao pensamento político e filosófico de Karl Marx. Elas tem razão em algum aspecto?
Ao criticarmos Marx (e eu me incluo nesse time), devemos, sobretudo considerar que o seu objeto de pesquisa é a sociedade industrial burguesa do século 19. Em meu livro: A Eficiência do Estado no Mundo Globalizado, lançado recentemente pela Editora Lumen Juris, eu dialogo com autores marxistas, o que nos proporciona fazer uma abordagem crítica ao processo de evolução histórica do Estado ocidental, desde a modernidade, cotejando a ligação dos propósitos estatais aos interesses econômicos, sobretudo aos interesses de uma classe economicamente dominante: a burguesia. O problema é que, embora a teoria marxista tenha sido um divisor de águas na história da filosofia política proporcionando um novo olhar sobre a estrutura do Estado, é importante entender que tal teoria foi escrita no século XIX diante dos problemas postos àquela época. Marx construiu uma teoria de base até hoje utilizada e válida, mas, quando fazemos uma análise do Estado, temos que chamar a atenção para alguns conceitos, principalmente no que concerne à sociedade de classes na pós-modernidade, ou seja, o papel do Estado "burguês" na modernidade líquida com diversas identidades que se recriaram. Marx morreu em 1883, o primeiro volume de sua principal obra, "O Capital", completou 150 anos agora em 2017 e apesar de Marx não ter assistido a consolidação do capitalismo, a Revolução Russa, o crack da bolsa de Nova York, a Guerra Civil Espanhola, a ascensão dos Estados Totalitários (fascista e nazista), a crise do petróleo da década de 1970, o Consenso de Washington, o neoliberalismo e a Globalização, seu diagnóstico sobre o futuro da sociedade de: "produção-consumo", foi perfeito.

Estamos embriagados por senso comum, ou estamos caminhando para o bom senso?
Gosto de dizer que na nova classe dominante figuram os atores responsáveis pela reorganização geoeconômica global, como as corporações transnacionais que disputam o controle do espaço econômico no mundo e as poderosas instituições ligadas ao sistema financeiro mundial. Além da elite capitalista local, que partilham comumente de uma condição socioeconômica privilegiada e detém comum interesse nas relações do poder político e do controle social. Por outro lado, temos uma nova classe de dominados, desestruturada e fragmentada, escondidos na figura da "classe média". A dominação agora se retrata na exploração das nações ricas e do capital transnacional em detrimento das nações pobres do globo, gerando uma multidão de excluídos. Nesse contexto a alienação de classe continua e grande parte da sociedade continua presa na ideologia. Muitas vezes reproduzem os ideais da classe dominante porque sequer têm consciência que pertencem à uma classe. Essa ideia foi diluída na pós-modernidade com a "morte das ideologias" (o que costumo chamar de fim dos "ismos": socialismo, comunismo, anarquismo e etc.). Nesse sentido acredito que estamos longe de uma emancipação e de uma consciência de classe, mas cada vez mais alienados em um sistema de falseamento da realidade e das estruturas sociais em benefício de um novo capital, um capital "sem rosto", especulativo, flutuante e invisível.

Na sua opinião, porque tantas pessoas foram às ruas? Tanto a direita e a esquerda parecem descontentes com o país. O que os difere? Estamos vivendo uma anomia política e sociocultural?
Escrevi um artigo em 2013, no auge das manifestações sociais no Brasil, denominado Desobediência civil na sociedade brasileira: reflexões sobre participação politica e representatividade sob a luz do pensamento de Hannah Arendt, nele trabalhei a ideia de que o "Gigante Acordou" não passa de "ondas sociais", termo cunhado por Durkheim, visto que permaneço reticente a esta ideia. Ora, a ideologia é um processo no qual as ideias, os valores, da classe dominante se transformam em ideias e valores prevalecentes de todas as classes sociais. Por isso, uma sociedade controlada ideologicamente se assemelha a uma sociedade totalitária, o que não se ajusta com o sentido de democracia. Sendo plenamente possível concebermos, sob esse prisma, uma sociedade controlada/manipulada ideologicamente por meio da "grande mídia" com a manutenção velada do status quo de dominação e exploração e que se apresente como "social democracia", no sentido de liberdade de escolha e consenso social. Por isso, gosto muito da famosa citação do escritor inglês Aldous Huxley, extraída da obra Admirável Mundo Novo, de que: "A ditadura perfeita terá a aparência de democracia, uma prisão sem muros onde os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura, onde graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão". Essa idiota bipolarização da politica é algo incentivado pela "grande mídia", pois o povo dividido é mais fácil de ser dominado. É evidente que o "inimigo" é comum, mas não sabemos disso, justamente por estarmos presos (alienados) pela ideologia.

Em uma entrevista recente para esse blog, sobre as reformas propostas pelo Governo, Rodolfo Gatti, membro do Livres, disse que o seu ideal de previdência, educação e trabalho se resumiam no fim da Previdência, do MEC e da CLT. Está bom do jeito que está? E em meio a tantas reformas educacionais nesse momento do país, como a educação e os seus professores te levaram ao ponto que você está hoje?
Um ponto muito crítico e ao mesmo tempo crucial de emancipação social é a Educação. Nenhuma grande nação do mundo emancipou-se sem passar por um projeto sério de educação de seu povo. Não é preciso mencionar que um povo educado, cidadão, ciente de seus direitos e, sobretudo, seus deveres, é uma ameaça à ordem dominante vigente. Por isso vejo as discussões neste nível sempre de forma demagoga, pois resta evidente que a Educação é um bem restrito à poucos, à mesma elite dominante à séculos. Vez que um povo ignorante é mais fácil de ser dominado/controlado. A Industria Cultural tem feito seu papel de imbecilização das massas, filmes, musicas, programas, novelas, entretenimento em geral, cada vez de pior qualidade que impedem às pessoas, sobretudo os jovens, de refletir a real estrutura que o cerca: a eterna luta: capital x trabalho, o inequívoco: "motor da história". Mas me alegra saber que pessoas rompem essa cortina de alienação e quebram paradigmas. As ações afirmativas, nesse sentido, tem sido essencial. Gostaria de ter a "fórmula mágica da paz", mas não há outro caminho senão a libertação, a autonomia pessoal, o desenvolvimento e emancipação humana por meio da EDUCAÇÃO. A Constituição "cidadã", promulgada no bojo do Estado do Bem-Estar Social (que está sendo esfacelado para implementação da ideologia neoliberal) deu as chaves do castelo. Precisamos buscar essa consciência e lutar para que tais direitos sejam assegurados. Não há outro caminho!

Após as eleições municipais foram aparecendo possíveis nomes e forças políticas para a eleição de 2018. Se a eleição para presidente fosse hoje, em quem você votaria?
Estou observando a movimentação politica do pais e temo por esse cenário de "esvaziamento" político. O nazismo, o fascismo e outras forças autoritárias surgiram em ambientes semelhantes. Estou esperando a movimentação das forças de resistência à globalização hegemônica, estudando as propostas, mas ainda não tenho um nome, justamente por falta de um projeto politico bem definido pelos partidos que ai estão. Já me senti coercitivamente levado à pensar no Lula, mas minha consciência não permitiria diante de tantas denuncias irrefutáveis de indícios e materialidade de autoria em crimes contra o erário. Já flertei com Ciro Gomes, por acha-lo um nome mais preparado e com uma proposta mais coesa. Mas, sinceramente não tenho um nome. Temo pelos incautos que querem eleger um "salvador da pátria" em forma de "mito", ou tenhamos que ficar naquela situação de eleger o "menos pior". Isso é um péssimo cenário político.

Quais autores te influenciaram? Você tem alguma dica para leitura (literatura, política, economia, etc)?
Muitos autores me influenciaram, desde Karl Marx à Adam Smith, de Boaventura Sousa Santos à Fernando Henrique Cardoso. Mas alguns livros eu acho obrigatórios para o entendimento da formação do povo brasileiro: Casa Grande e Senzala (Gilberto Freyre), Raízes do Brasil (Sérgio Buarque de Holanda), Formação do Brasil Contemporâneo (Caio Prado Jr.), O Povo Brasileiro (Darcy Ribeiro). Além disso, impossível não citarmos: O Principe (Nicolau Maquiavel), Discurso Sobre a origem da Desigualdade entre os Homens (Jean-Jacques Rousseau), A Política (Aristóteles) e Modernidade Liquida (Zygmunt Bauman).

OUTRAS OBRAS DO AUTOR:
Curso Básico de Sociologia
Introdução a História da Filosofia 1
A Eficiência do Estado no Mundo Globalizado

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Rodolfo Gatti: "O meu ideal de previdência, educação e trabalho se resumem no fim de três coisinhas: Previdência, MEC e CLT"

Tirado da Sentimentaligrafia
Quem olha parece não acreditar no que vê: Rodolfo Gatti é músico e empreendedor e graduando em Ciências Econômicas e criador do Capitalista Morena. A página de humor e voltada para a direita tem feito sucesso e causado polêmicas. Membro do PSL e ligado a corrente do Livres - em suas palavras "que defende uma liberdade inteira".

Sou liberal, mas não tenho problema algum com conservadores e ancaps - diz um post em sua página, que resume seu pensamento, esclarecendo alguns pontos sobre ele mesmo e sobre o seu pensamento. Sobre a reformas ele diz:

O meu ideal de previdência, educação e trabalho se resumem no fim de três coisinhas: Previdência, MEC e CLT

De onde você tirou a ideia da página Capitalista Morena? É um dialogo com a Socialista Morena ou só uma piada que tomou proporções maiores?
A criação da Capitalista Morena aconteceu na minha transição do socialismo para o liberalismo, que também foi quando conheci a senhorita Socialista Morena. As coisas que ela postava não faziam sentido e me reviravam o estômago. A criação da Capitalista Morena veio, de início, para zombar da irmã socialista, uma ideia que deu super certo e que agora, apesar de ainda brincar com a irmã socialista, está tomando uma forma própria e próspera.

O que seria o politicamente correto e como ele é manifestado? Ele toma ares de opinião pública?
Eu vejo o politicamente correto como uma ameaça a liberdade. A expressão "politicamente correto" (PC) surgiu na década de 70 e significava ser "inclusivo", tem haver com não discriminar o próximo. Você vê isso e pensa "porra, que legal, inclusão e blá blá", mas o PC funciona como uma forma de acabar com a liberdade de expressão. Piadas com mulheres, portugueses, gordos, magros, brancos, negros, japoneses, gays passam a ser vistas como preconceito. Veja, eu sou um cara tranquilo, respeito todos e faço piada de tudo. Se alguém ouve ou vê e se sente ofendido o problema é da pessoa. Recentemente você até percebe que esse pensamento entra no âmbito político de "não pode falar mal de político", "não pode xingar" e etc. E no futebol então? Comerciais de TV? Claro, o comercial é privado, o publicitário sabe o que faz, a empresa sabe o que faz, mas assim como a Marvel vinha perdendo dinheiro com esse tipo de marketing, totalmente forçado, outras também perderam aqui no Brasil. Tem uma frase de um escritor chamado Salman Rushdie que gosto muito: O que é liberdade de expressão? Sem a liberdade de ofender não existe liberdade de expressão. E nessa linha de pensamento deixo claro que o politicamente correto enquanto não totalitário pode existir numa boa, enquanto não usarem dinheiro público para manifestarem ele, tranquilo, agora a partir do momento que pessoas passam a ser caladas e o dinheiro público começa a ser injetado em campanhas forçadas, ai não dá.

Na sua opinião, porque tantas pessoas foram as ruas? Tanto a direita e a esquerda parecem descontentes com o país. O que os difere?
As pessoas foram as ruas porque realmente estão insatisfeitas. Estão de saco cheio dos políticos, mas é aquilo, muitos parecem perdidos, pois não confiam nos políticos e querem o estado cada vez maior, não faz sentido! A diferença da esquerda e da direita nas ruas é clara: o fim. A esquerda não queria derrubar a Dilma, mas agora querem derrubar o Temer. A direita queria Dilma fora e já está saturada do Temer também, mas ainda assim, tira-lo agora, próximo das eleições não faz sentido, a não ser que cassem a chapa, aí é outra história. A direita vai as ruas por menos estado, a esquerda vai pras ruas pedindo mais intervenção estatal. A verdade é que sempre veremos a esquerda nas ruas contra reformas que podem melhorar o país.

Nova versão cinematográfica de 1984 de George Orwell
Você é membro do Livres - uma corrente liberal que está na renovação do PSL - poderia falar mais sobre ele (Livres) e dar mais detalhes sobre a iniciativa e se ela pretende abraçar - ou criar - um movimento estudantil igual ou similar aos apresentados pelos partidos identificados com a esquerda?
O Livres é o agente de mudanças no PSL. A mudança será tanta que o partido mudará de nome. O Livres, na minha visão, é o único partido que defende uma liberdade inteira. Me sinto representado ali, por isso faço parte. Claro, nunca concordaremos com tudo, por isso digo que uns 90% eu concordo com o Livres, mas isso faz parte, divergências são comuns até entre torcedores do mesmo time (risos). Sobre o movimento estudantil creio que o Livres abraçará isso sim. Não quero alongar a respeito por não ter detalhes.

Sobre as reformas propostas pelo Governo, no que você mudaria? Está bom do jeito que está? E em meio a tantas reformas educacionais nesse momento do país, como a educação e os seus professores te levaram ao ponto que você está hoje?
A reforma trabalhista, principalmente, tem pontos muito bons que darão mais liberdade, mas tem ponto que a tornarão mais paternalistas como o pagamento de despesas em home-office, que deveria ser combinado entre empregado e empregador, ao invés de obrigar o empregador a arcar com as despesas. Claro, temos que pensar na ótica da Janela de Overton: as reformas podem não ser a melhor coisa do mundo, mas se estiver caminhando para dar mais liberdade, isso é ótimo. O meu ideal de previdência, educação e trabalho se resumem no fim de três coisinhas: Previdência, MEC e CLT. Tive bons professores tanto na particular e na pública, mas não diria que sou quem sou graças a eles. Não quero desmerecer, mas para que eles me prepararam? Para ser um empregado, fazer greve e passar no vestibular? Empreendedorismo? Não. Mises? Não. Nem Adam Smith! Tem 2 anos que venho aprendendo sobre muitas coisas que paro, penso e logo chego a conclusão: porque raios não me ensinaram isso na escola?

Após as eleições municipais foram aparecendo possíveis nomes e forças políticas para a eleição de 2018. Se a eleição para presidente fosse hoje, em quem você votaria?
Se fosse hoje: Pensando num cenário entre Lula, Bolsonaro, Dória, Marina e Ciro Gomes, eu votaria no Dória. Apesar de saber que ele é contra o armamento, a favor de regulamentar a Uber e outros pontos negativos, ainda assim, acho melhor candidato que os outros e (por enquanto) com menos pontos negativos que os outros. Claro, só se fosse hoje, pois sei que surgirão novos nomes, ouço algumas coisas por aí (risos). Temos que pensar uma coisa, bem louca, que é bem possível de ser verdade: a estratégia das tesouras. Se realmente há uma manutenção entre PT e PSDB e Dória é uma das ferramentas para isso, eu votaria no Bolsonaro com o objetivo de quebrar esse estamento burocrático.

Quais autores te influenciaram e se você tem alguma dica para leitura (literatura, política, economia, etc)?
Autores que estão me influenciando através de vídeos e livros: Ayn Rand, Mises, Adam Smith e Hayek. Não sou nenhum expert ainda, mas desses quatro a Rand é a que mais estudo, principalmente o objetivismo que é uma linha que me identifico demais. Indico fortemente a primeira leitura que fiz quando comecei a me tornar um liberal: As seis lições de Ludwig von Mises que pode ser encontrada no formato e-book na biblioteca do Instituto Mises Brasil e 1984 do George Orwell que era de esquerda, mas escreveu sobre coisas que a esquerda mais sabe praticar: o autoritarismo. Deixo um aviso: esquerdistas, 1984 não é um manual!


segunda-feira, 20 de março de 2017

Abandonados, "os burros" sentem que seu esforço cotidiano não tem valor


Passado o frenesi da indignação com o ocorrido nas prisões, podemos pensar um pouco sobre aquele inferno. Digo de cara que não acredito na indignação regada a queijos e vinhos. Vamos dos argumentos mais óbvios (e nem por isso menos verdadeiros), aos menos óbvios.

Chegando mesmo aos que parecem obscuros aos inteligentinhos.

Óbvios: o Estado brasileiro é canalha, irresponsável, os dirigentes mentem, não estão nem aí para a vida dos presos (nem de ninguém), prender todo mundo num cubículo de lata é querer que se matem, o crime organizado cresce em meio ao vácuo do poder público, há uma crise no sistema prisional, há corrupção, as autoridades não fazem diferença entre um ladrão de galinha e um serial killer, pobre e preto sempre vai mais preso do que branco coxinha.

Tudo verdade. Menos óbvios: esse tema dá aos foucaultianos um gozo que beira o orgasmo porque Foucault achava que soltando os presos faríamos a verdadeira revolução. Será que ele alguma vez teve que encarar algum bandido querendo mata-lo? O PCC chega mesmo a tirar lágrimas de alguns foucaultianos com sua declaração de fundação regada a direitos humanos.

Uma das razões que torna muito do que os intelectuais falam risível é o fato de que vivem uma vida muito segura em seus casulos corporativos em universidades blindadas ao conhecimento e a qualquer tipo de risco.

Para foucaultianos sofisticados, os bandidos são vítimas da ordem social repressiva e mostram em seu comportamento a doença social, por isso, os trancamos nas cadeias para "esquecermos" de nossa patologia social. Esse tom surgiu em algumas indignações, mas com um certo cuidado porque essa moçada está um pouco assustada com a "revolta dos burros".

Quase obscuros: o que vem a ser essa "revolta dos burros"? Primeiro um reparo geopolítico mais amplo. Com a vitória de Trump, a inteligência pública começou a falar de novo em populismo. O segredo do Trump é ele falar o que o povo americano "burro" pensa. Os "burros" que falam inglês.

A inteligência pública há muito tempo está alienada do "povo", entrincheirada nas universidades e nas redações da mídia, falando sempre a mesma coisa: "como esse povo é burro e fala que bandido bom é bandido morto?" A inteligência pública está de costas para o povo comum e preocupada com sua carreira e seu sucesso nas redes sociais.

Avancemos um pouco mais nesses argumentos obscuros. Pois é. Os populistas atuais crescem na mesma medida em que insistimos em pensar que vivemos uma "revolta dos burros", mesmo que não digamos dessa forma explícita.

A inteligência está tão acostumada com queijos e vinhos que esquece o tal do povo. Os populistas crescem na mesma medida em que os "burros" sentem que o sistema político profissional e os inteligentes não estão nem aí pra eles. Por isso sentem que os inteligentes "só defendem os bandidos".

Um adendo: existe "burro" preto e pobre e "burro" branco e rico, ok? Vamos "ouvir os burros" um pouco? Pelo menos imaginar que podemos ouvi-los.

Quem sabe essa "revolta dos burros" pode indicar algo importante por detrás? Eu arriscaria dizer que esses "burros" se sentem abandonados pelo Estado e pela inteligência pública de forma crassa no seu dia a dia.

Esquecidos em seus impostos, acharcados por uma burocracia assassina e destruidora de qualquer iniciativa profissional que não seja apenas viver de salário e "direitos trabalhistas", em suas filas da saúde e do transporte público. Escolas são um lixo.

Andam com medo nas ruas. E não dá pra convencer ninguém que de fato pode ser assaltado ou morto por um bandido de que Foucault tem razão e que quando você é assaltado, você é o bandido, e o bandido é a vítima. Risadas?

Abandonados a sua solidão de "cidadãos honestos" (atenção! Os inteligentinhos acham que ninguém é mais honesto do que um traficante de drogas), "os burros" sentem que seu esforço cotidiano para viver dentro da lei, cuidando de suas famílias (mas que coisa mais classe média, não?) não tem nenhum valor. E estão aprendendo a dizer o que pensam.

Ai virá a "revolta dos burros" de carga.

*Texto do filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé, colunista da FSP às segundas-feiras.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Chesterton: príncipe do paradoxo, pai do fantástico

O primeiro Especial de Natal feito pelo blog faz uma homenagem ao mundo ficcional em si. O homem que influenciou Tolkien, Howard e Lewis e a criação de Hiboria, Terra Média e Nárnia merecia uma breve e singela homenagem.

Nascido em Londres no ano de 1874, G.K. Chesterton foi um dos intelectuais mais influentes do último século. Anglicano, se converteu ao catolicismo como John Henry Newman e Henry Edward Manning: através do movimento anglo-católico.

Autodidata, foi criador de tipos variados. Poeta, ensaísta, narrador, jornalista, crítico literário, filósofo, teólogo, biógrafo, desenhista, ativista político, apologista... (ufa!) travou debates acalorados com os ateus mais notáveis do século (Bernard Shaw, Robert Blatchford, Bertrand Russell e Clarence Darrow). Irônico porém educado, respeitava seus adversários com "o lado secreto da nobreza".

Herdeiro da Era Vitoriana e uma sociedade pós-cristã, profetizou os grandes conflitos que levariam à segunda Guerra Mundial. Contemporâneo de escritores como Oscar Wilde, H.G. Wells, Conan Doyle, Agatha Christie, James Joyce, Thomas Hardy, W.B. Yeats, Virgínia Woolf e Rudyard Kipling se distinguiu de todos os que o cercavam pelo seu jeito despojado, seu estilo incisivo e a facilidade de rir de si mesmo. Se tornou o "príncipe dos paradoxos", fraseando coisas que soam óbvias, mas de formas improváveis.

Com a fama literária, veio o convite para palestras e conferências - dentro e fora da Inglaterra e a aquisição de novos e importantes amigos: Joseph Conrad, Henry James, Winston Churchill e Thomas Hardy (para citar apenas alguns).

Em 1910 seu livro O que há de errado com o mundo é mal recebido pela crítica mais por culpa dos editores que trocaram o título original O que há de errado? expandindo para O que há de errado com o mundo e omitiram seu ponto de interrogação. Quando Chesterton escreveu o livro, ele ainda não tinha certeza sobre o que havia de errado com o mundo, mas ele estava bastante seguro em relação ao que havia de certo com ele. Nele apresenta seus pensamentos e teorias sobre propriedade privada, educação, família, apontando criticas ao sistema capitalista e o comunista e propondo o distributivismo mas foi somente em 1927 que Chesterton elaborou os detalhes de sua filosofia social no livro intitulado Um esboço de sanidade. Já convertido ao catolicismo, descobriu que seus princípios sociológicos já haviam sido endossados muitos anos antes na encíclica Rerum Novarum do papa Leão XIII, escrita em 1897. Defendida pelos pensadores católicos, o distributivismo é uma teoria que segundo a qual a propriedade privada é um bem a que deve ter acesso senão a totalidade ao menos a maioria dos agentes sociais. O que há de errado no mundo defende que, mesmo sendo fácil achar consenso na identificação e crítica dos erros que encontramos na sociedade, a essência está em concordar que solução adequada propor. Mesmo sendo uma obra de não-ficção, Chesterton nos apresenta dois personagens: Hudge e Gudge. Bom na verdade três: ele também apresenta Jones. Hudge e Gudge são os inimigos de Jones. Resumindo, Hudge é o Grande Governo e Gudge o Grande Negócio. E Jones? Jones é o homem comum.

Esse homem, Jones, sempre desejou coisas ordinárias; ele se casou por amor, escolheu ou construiu uma pequena casa que lhe serviu como um casaco; ele está pronto para ser um grande avô e herói local

Mas algo saiu errado. Hudge e Gudge têm conspirado contra Jones para tomar dele sua propriedade, sua independência... e dignidade.

Também ficou famoso por suas biografias. O querubim gigantesco (apelido dado a ele por Shaw) escreve a biografia do poeta Robert Browning (1903) que lhe rende o convite para assumir a cátedra de literatura da então recém-criada Universidade de Birmingham, Leo Tolstoy(1903) com Edward Garnett e George Herbert Perris, e Charles Dickens (1906) arrancando elogios da filha do biografado, de André Maurois e T. S. Eliot que dizem ser um dos melhores estudos sobre o romancista inglês, São Francisco de Assis (1923), Robert Louis Stevenson (1927) e Chaucer (1932) mas foi com São Tomás de Aquino (1933), cujo valor foi atestado por Étienne Gilson, famoso filósofo tomista, que a considerou o melhor livro jamais escrito sobre São Tomás:

Considero, sem comparação alguma, que é o melhor livro jamais escrito sobre Santo Tomás. Só um gênio podia fazer algo assim. Todo o mundo admitirá, sem nenhuma dúvida, que se trata de um livro inteligente; mas os poucos leitores que tiverem passado vinte ou trinta anos estudando Santo Tomás de Aquino e publicado dois ou três volumes sobre o tema terão de reconhecer que a chispa de gênio de Chesterton lhes deixou ao rés do chão a erudição. Tudo o que eles tentavam expressar desajeitadamente em fórmulas acadêmicas foi expressado por Chesterton.

Para entender essa declaração, Gilson tinha escrito mais de três livros sobre o tema, sendo na época o maior e mais reconhecido especialista em São Tomás e Idade Média do Mundo. A obra ainda foi tomada pelo Pe. Gillet, Mestre-Geral da Ordem dos Dominicanos (ordem monástica de São Tomás) como bibliografia básica sobre o grande santo dominicano e suas ideias.

INFLUENCIADOS

Foi em um dos capítulos de seus livros mais famosos, Ortodoxia (1908), que deu claramente a base para Tolkien criar a Vila dos Hobbits (mais especificadamente A Ética da Terra dos Elfos). Misturando mitologia nórdica com os valores cristãos, onde a menor e mais humilde criatura se ergue para enfrentar perigos jamais imaginados, Tolkien criou um Novo Mundo baseado no Mundo Antigo.


O Moinho da Vila dos Hobbits, por J. R. R. Tolkien (tirado do site Tolkien Brasil)

Sendo escrito como resposta a uma provocação de G.S. Street, Ortodoxia é a continuação individual de Hereges, obra que faz críticas a muitos de seu ciclo de convivência, apontando para cada escritor seus vícios. Oscar Wilde por seu esteticismo aético, H.G. Wells por seu historicismo naturalista, Bernard Shaw por um socialismo desumanizador, George Moore pelo subjetivismo ético e Rudyard Kipling pelo seu pensamento discriminatório e imperialista.



Capa do livro de Chesterton, Hereges, feita para Ecclesiae.

Se afastando da imprensa depois da morte do pai, dedicou os anos de 1923 e 1924 para redigir com tranquilidade O Homem Eterno (1925), em que expunha a sua filosofia da História, tendo como eixo o mistério de Deus encarnado - uma clara resposta ao livro História Universal de H. G. Wells, se colocando contra a visão cética, naturalista e evolucionista do amigo. Esse livro foi crucial para a conversão de Lewis, que acabou por se tornar também um dos apologistas cristãos mais importantes do século passado.


Ilustração: Dave Stevenson. Foto: Norman Parkinson/Corbis

Sua influência sobre Robert E. Howard é salientada logo na introdução do livro O Mundo Sombrio por S. T. Joshi e reforçada na biografia de Robert E. Howard por Rusty Burke. Com um conceito de que passasse as eras e o que fica é a moral, ele abriu a porta para a criação da Era Hiboriana, onde Conan foi mostrado com muitas facetas. Nela, Conan foi rei, ladrão, marinheiro, mercenário e outras profissões marginais que dependiam exclusivamente de inteligência e de força física.



Adaptação do conto A torre do elefante de R.E.H por Roy Thomas e arte de John Buscema a Alfredo Alcala

Se sua obra contribuiu para a criação de universos tão vastos, foi em um jornal familiar, o G.K.’s Weekly, fundado em 1926 junto com seu irmão Cecil, que o escritor abriu as portas para George Orwel, que em 1928 publicou seu primeiro artigo. Há especulações que um de seus romances mais famosos, 1984, seria uma resposta ao Napoleão de Notting Hill (1904) - obra preferida de Neil Gaiman, que homenageou o autor transformando no personagem de Sandman, Fiddler's Green.

Edição do jornal G.K.’s Weekly da família Chesterton
Em A Esfera e a Cruz, espécie de romance simbólico e apocalíptico, reaparece o personagem obsessivo de Chesterton, em luta implacável, mas por fim, cordialíssima, com o ateísmo desvairado da época, serve de base para Kafka e seu livro O Processo. Sobre o Chesterton, Kafka afirma: Ele é tão feliz que posso facilmente acreditar que encontrou Deus.

Uma das crenças de Chesterton era que os contos de fada eram a forma mais moralizante de se educar uma pessoa. Com eles, se pode enfrentar a realidade, mesmo que a mais dura, de uma forma não conformada mais otimista.

Toda a felicidade do país das fadas está por um fio, um único fio. Cinderela pode ter um vestido tecido em teares sobrenaturais e reluzente com um brilho que não é deste mundo; mas deve estar de volta quando o relógio bater as doze horas. O rei pode convidar fadas para o batizado, mas deve convidar todas, ou haverá conseqüências terríveis. A esposa de Barba Azul pode abrir todas as portas menos uma. Quebra-se uma promessa feita a um gato, e o mundo todo desmorona. Quebra-se uma promessa a um anão amarelo, e o mundo todo desmorona. Uma garota pode ser a esposa do Deus do Amor em pessoa se nunca tentar vê-lo; ela o vê, e ele desaparece. Uma garota recebe uma caixa com a condição de não a abrir; abre-a, e todos os males do mundo escapam para cima dela. Um homem e uma mulher são colocados em um jardim com a condição de não comerem uma fruta; comem-na, e perdem a alegria em todas as frutas da terra. - G. K. Chesterton, do livro Considerando todas as coisas (1908)
Dono de uma pena arguta, sutil e envolvente, Gilbert Keith Chesterton deixou marcas inesquecíveis em mestres da literatura como Hemingway, Borges, García Márquez e T. S. Eliot. Como se não bastasse, seus textos influenciaram decisivamente líderes de movimentos de libertação como Michael Collins (Irlanda), Mahatma Gandhi (Índia) e Martin Luther King (Estados Unidos).

Morreu em sua casa na cidade de Beaconsfield, em Buckinghamshire, Inglaterra, aos 62 anos, no dia 14 de Junho de 1936. Recebeu a extrema-unção de seu amigo Padre O’Connor (que o inspirou a criar um dos maiores detetives da época, o Padre Brown). O Papa Pio XI - que já tinha citado em suas homilias os livros de Chesterton - em telegrama ao povo da Inglaterra, escreveu: Santo Padre profundamente consternado morte de Gilbert Keith Chesterton, devoto filho Santa Igreja, dotado defensor da Fé Católica.


NOTA:
Certa vez o jornal London Times pediu a alguns escritores que respondessem à pergunta: "O que há de errado com o mundo?".

Chesterton enviou a resposta mais sucinta:

Prezados Senhores:
Eu.
Atenciosamente, G. K. Chesterton


BIBLIOGRAFIA

Maravilhoso Mundo Louco

Sociedade Chesterton Brasil

Feedback Magazine

Sociedade Chesterton Portugal

Divina Dádiva

Revista Filosofia

Contos de fadas e outros ensaios literários - G. K. Chesterton - Livraria Resistência Cultural Editora.




quarta-feira, 26 de outubro de 2016

"Um Pequeno Passo Para a Liberdade": 3º Fórum Liberdade e Democracia SP

Um pequeno passo para a liberdade foi um livro lançado durante o 2° Fórum Liberdade e Democracia, reúne artigos dos associados do IFL-Instituto de Formação de Líderes de SP, com ideias por um Brasil liberal.

Reunindo textos de diversos autores, eles tentam demonstrar que um Brasil pode avançar colocando o pensamento considerado "de direita" em pratica: com livre mercado, livre iniciativa e com um pensamento conservador.

Escritor por Antonia Martins, Carol Lacombe, Clariana Marega, Danilo Pacheco, Diego Moreira, Georges Ebel, Greg Balasko, Guilherme Ferreira, Humberto Cimino, Izabella Kuperman, Jamile Obeid, Jorge Vasquez, Joseph Teperman, Juliana Oizerovic, Juliana Natrielli, Karl Vieira, Laura Stürmer, Luiza Roland, Lucas Manzoli, Marcel Teperman, Marcos Silveira, Marcos Sterenkrantz, Maurício Filippon, Michelle Sopper, Miguel Campos, Pedro Monteiro, Rafael Rabinovitsch, Renato Dias, Roberto (Guto) Belchior, Rodolfo Castro e Tomás Martins está disponível na Amazon.

Recentemente, o blog Golem cobriu o evento e coletou a declaração de um dos organizadores.



Nele também foi lançado uma nova edição do livro, com a colaboração dos Institutos de Formação Líderes de São Paulo, BH e o Instituto Líderes do Amanhã de Vitória que tem uma edição especial de "As Seis Lições" de Ludwig von Mises e o artigo "A Derrocada do Capitalismo Companheiro" de Gustavo Franco.



Com frases como "Imposto é Roubo" e outras frases, o evento contou com uma enorme lista de personalidades:





Alexandre Frota virou segurança do Bolsonaro... LOL



sexta-feira, 14 de outubro de 2016

A direita que cresce - ai vem o 3º Fórum Liberdade e Democracia SP


Dês das jornadas de julho de 2013 o que mais vemos são o nascimento de uma nova direita no país. Ela que tinha sido renegada no período pós ditadura tem voltado e crescido. Espalhada com novos gurus, ela ocupa atualmente um papel de modernização do país e tem influenciado até o governo do atual presidente Michael Temer.

Promovido pelo Instituto de Formação de Líderes de São Paulo (IFL/SP) com o objetivo de apresentar um debate de ideias para os problemas do Brasil, a partir das perspectivas econômica, política e social.  Inspirado no Fórum da Liberdade, que ocorre desde 1988 em Porto Alegre, produzido pelo Instituto de Estudos Empresariais (IEE) o evento também acontece nas cidades de Belo Horizonte (MG), Vitória (ES) e Florianópolis (SC), organizado pelos institutos de cada cidade.

Deltan Dallagnol e Fernando Holiday também confirmaram presença junto com uma pessoa bem peculiar...


O evento em SP acontecerá no dia 22 de Outubro das 08:00 às 16:30 no Transamérica Expo Center (Av. Dr. Mario Vilas Bôas Rodrigues, 387 - Santo Amaro São Paulo - SP). Para mais informações, só clicar no link.

*Lembrando que esse blog é apartidário e os lados mostrados nesse debate não correspondem a opinião do autor, mas sim o conteúdo positivado nos livros.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

VEJA: A história não contada do Estados Unidos (Oliver Stone e Peter J. Kuznick) [ATUALIZADO]

"EM 2000 a eleição presidencial entre George Bush e Al Gore colocou os norte-americanos diante de uma escolha clara entre duas visões distintas do futuro. Poucos recordam que exatamente cem anos antes os norte-americanos foram convocados a fazer uma escolha semelhante: os eleitores tiveram que descidir se os Estados Unidos se tornariam república ou império." - Oliver Stone e Peter J. Kuznick


O cineasta Oliver Stone e o PHD em História e diretor do Instituto de Estudos Nucleares da American University Peter J. Kuznick, se juntaram para realizara uma coisa ousada: reescrever a história dos Estados Unidos.

Veja, existe a história oficial: que os Estados Unidos são os heróis do mundo, atuando na Primeira e Segunda Guerra como ícones militares de sucesso, que são os ungidos para guiar o mundo para uma época de paz e prosperidade. Eles vem nos dizer que isso não é bem assim.


Capa da Magazine Times com o rosto de Josef Stalin

Um exemplo básico é quando lembram que o Joseph Stalin foi considerado uma das personalidades do ano da Times durante a guerra (em 1939 e 1942) e que o presidente Truman que inaugurou a Guerra Fria com as bombas de Hiroshima e Nagasaki era considerado fraco e tinha a personalidade covarde.

O brilhante trabalho documenta mais de 100 anos de história mundial e a participação dos E.U.A em tudo isso (dos governos Reagan ao atual presidente Barack Obama).

"A narrativa histórica mais importante dos últimos 100 anos." - Martin Sherwin, vencedor do Prêmio Pulitzer

Lembrando que esse blog é apartidário, e que, os livros já resenhados no debate Direita-Esquerda são da editora que nos apóia, a Faro Editorial. Os lados mostrados nesse debate não correspondem a opinião do autor, mas sim o conteúdo positivado nos livros.

Sobre a bibliografia, com vocês, a editora: