sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

ARAGORN E ELRIC DE MELNIBONÉ: dois gumes de uma espada aristocrática


por Rodrigo Kmiecik

Certa vez Michael Moorcock, consagrado autor da saga de Elric de Melniboné e outros clássicos da fantasia e ficção científica, acusou J.R.R. Tolkien de ser um “cripto-fascista”, devido aos temas conservadores e moralistas em sua obra. De fato, o conservadorismo cristão da classe média inglesa é facilmente identificável na obra do professor, especialmente em “O Senhor dos Anéis”, mas chamá-lo de “cripto-fascista” é, no mínimo, um exagero talvez até maldoso e de caráter pessoal de Moorcock.

De qualquer forma, salvo o romantismo crítico de Moorcock, suas opiniões em relação aos elementos conservadores na obra de Tolkien são muito úteis para compreender uma nova visão a respeito do épico do Um Anel e, mais ainda, para entender as ideias intrínsecas à ficção fantástica de Michael Moorcock. Em diversas entrevistas este autor manifestou-se como um anarquista; como afirma no livro “Mythmakers and Lawbreakers: Anarchist Writers on Fiction”: “estive atraído por ideias anarquistas desde os 17 anos, sofisticando meu pensamento político lendo especialmente Kropotkin”.


Estes ideais anarquistas estão impregnados na obra de Moorcock, como o próprio comenta no livro supracitado: “minha ficção age em função de permitir aos leitores decidirem autonomamente suas próprias atitudes morais”. O ponto central deste tema para essa argumentação é não apenas a autonomia do leitor sobre os personagens, mas o que os personagens são em sua materialidade moral nos textos de Moorcock; apesar de ambíguas e envoltas em brumas de interpretação, as ações morais dos personagens de Moorcock seguem uma linha mais ou menos definida pelo próprio pensamento moral e político do autor, obviamente, ou seja, o anarquismo.

Portanto, para a reflexão que vem a seguir, devemos entender Elric de Melniboné como um “herói” essencialmente anarquista, completamente autônomo moralmente, que vaga no limbo entre a razão e a emoção, como todos os seres humanos. Na dita alta fantasia, escapa-se um pouco deste realismo moral que Moorcock propõe. Ao contrário do questionável Elric, em obras como “O Senhor dos Anéis” ou genéricos, protagonistas geralmente são heróis em suma essência, motivados ou por uma paixão completa, ou por uma razão desumana, que os afasta da realidade e pinta sua moralidade com contornos bem definidos. Este é o caso de Aragorn, por exemplo, que carrega razões e paixões inabaláveis, todas envoltas em atos de amor e heroísmo pelo que é certo. 


Em “Elric de Melniboné” isto é simplesmente impossível pelo fato de que não existe “o certo” no mundo de Moorcock. Enquanto Tolkien nos apresenta um mundo maniqueísta, tomado pela dualidade da luta entre Bem e Mal, Moorcock apresenta um panorama mais cinzento de perspectivas e ações. Em diversos contextos, é difícil saber como o príncipe feiticeiro de Melniboné irá agir. Irá aliar-se à um bando de forasteiros ou irá chaciná-los por uns goles de vinho fresco e alimento? Nunca se sabe. Esse motivo narrativo será levado ao extremo por autores como Karl Edward Wagner, em seus livros do espadachim Kane, mas é Moorcock quem começa a firmar as bases deste âmbito na literatura de fantasia. 

Karl Edward Wagner criticou Moorcock justamente pelo oposto: o autor americano entendia o mundo de Elric como algo ainda muito dualista, pautado na lógica de Ordem x Caos que, para Wagner, pouco se diferenciava do clássico Bem x Mal. Sinto necessário discordar de Wagner. Explico. No mundo de Tolkien, a estrutura Bem x Mal é uma luta teleológica, ou seja, ela começa com um fim já bem definido, quase profético. Assim, em Tolkien há um vencedor definido, e este vencedor é o Bem. Ele triunfa sobre o Mal e as coisas são restauradas, a ordem passa a imperar. Em Moorcock o embate entre Ordem e Caos não tem valores teleológicos, não existe fim definido; tudo é cercado pela imprevisibilidade. E o papel do Campeão Eterno – o qual Elric é em seu plano cósmico – é simplesmente balancear Ordem e Caos, sem jamais subjugar uma delas em prol de um bem maior que é certo por excelência. Podemos terminar este argumento com as próprias palavras de Moorcock: “frequentemente meus personagens conquistam o balanço entre Ordem e Caos pois recusam-se a servir qualquer coisa, apenas sua própria consciência”.

Há quem diga que Conan, de Robert E. Howard, se encaixe nas condições amorais da qual falamos aqui, mas o bárbaro possui um código de conduta até bem definido de acordo com sua visão de mundo, bondoso com os indefesos, implacável contra os cruéis. Moorcock subverte essa ideia, Wagner a extrapola. Tolkien apenas a deixa de lado.

Agora tendo definido bem o viés da ficção de Michael Moorcock e J.R.R. Tolkien, partimos para o ponto central deste texto: o caráter dos heróis de cada autor em suas obras-primas. Tanto em Elric como em “O Senhor dos Anéis”, temos dois grandes heróis aristocratas – aqui utilizo o termo herói para designar tanto Elric quanto Aragorn, apesar de Elric ser um anti-herói, como define o próprio Moorcock: “o anti-herói é aquele que tradicionalmente se opõe à toda a moralidade estabelecida no status quo.” Apesar disso, tomemos o termo apenas para designar o personagem que conduz os rumos centrais da estória. Além disso, sabemos que na obra de Tolkien existem vários protagonistas, e pode-se tomar Frodo ou Sam como heróis da história; porém, como este texto visa uma comparação entre os personagens aristocratas e seus desdobramentos, deixamos de lado os hobbits e focaremos no glorioso herdeiro de Gondor. 

A frase acima carrega uma ironia que nos trás a uma primeira observação à obra do professor Tolkien. Portanto, vamos compreender as ideias centrais do viés moral de sua ficção. Os temas recorrentes são uma intensa busca pela restauração da antiga Ordem que está ameaçada ou foi quebrada; a viva memória sobre as glórias do passado e uma ânsia por sua recuperação no tempo presente, como se as mudanças e novidades da modernidade alarmassem o status quo vigente. Os hobbits devem permanecer em seus casebres, tomando chá e fumando seus cachimbos, em paz e longe do mundo exterior, isolado em sua ilha, como um bom inglês conservador o faria. Afinal, quantas milhares de vezes Bilbo não sente saudades de sua quente e seca toca de hobbit?


Além disso, outro fator decisivo é o louvor às linhagens, ao valor que se dá a elas. Isso pode ser, dentre tantos outros motivos, uma influência clara da Literatura medieval da qual Tolkien muito apreciava e muito injetava em suas obras. O apego ao Nome, aos títulos do reino ou do país, a importância magnânima de ser um descendente de um povo que um dia, no passado distante, teve dias de glória na ilha de Númenor. 

“Ele é Aragorn, filho de Arathorn, e descende, através de muitas gerações, de Isildur, filho de Elendil, de Minas Ithil. É o chefe dos dúnedain no Norte; poucos restam desse povo”. Isso é dito por Elrond em uma passagem em “A Sociedade do Anel”, quando esta é formada em Valfenda. No filme, Legolas é quem adapta esta fala: “Ele é Aragorn, filho de Arathorn, e você o deve respeito”. Percebam o exaltar à linhagem aristocrata. Um conservadorismo típico da classe média inglesa, de raízes fincadas na literatura medieval, dos grandes personagens, que Tolkien traduz em bravura e heroísmo em sua obra. 

Aron Gurevich, historiador russo autor do já clássico “Categorias da Cultura Medieval”, faz uma breve observação sobre as mentalidades da literatura oral e escrita deste período, que muito se faz útil para entendermos sua influência direta no caráter da ficção tolkieniana. Segundo o historiador, “[na literatura medieval] as pessoas são generalizadas ou estereotipadas, e não individualizadas. Ao invés de penetrar nos múltiplos fenômenos vivos, o artista tem como ideia inicial a inevitável oposição entre o sublime e o comum, uma oposição polarizada entre o Bom absoluto e o Mau absoluto.”

Exemplos claros são Aragorn, um “bom absoluto”, daqueles paladinos mais cafonas de qualquer RPG, e do outro lado Sauron, um “mau absoluto”, o chefão final. Podem argumentar em discordância sobre as ambiguidades de personagens como Saruman ou Boromir, que transitam entre Bem e Mal em diversas partes da narrativa. Entretanto, essas mudanças nunca são em função de decisões morais ligadas à razão, mas sim inseridas na cosmovisão cristã de seu autor, ou seja, transições devido ao “pecado” da cobiça do Anel, dos temores que rodeiam o Mal à espreita. Apesar de haver breves ambiguidades, portanto, estas ainda se inserem na lógica dualista e cristã.


Voltando agora à Moorcock, prestemos atenção à sua fala em “Mythmakers and Lawbreakers: Anarchist Writers on Fiction”: “meus livros frequentemente lidam com heróis aristocratas, deuses e coisas do tipo. E todos estes heróis acabam chegando à conclusão de que não deveriam seguir nem deuses nem mestres, mas tornarem-se seus próprios mestres”. Isso define bem as coisas. Elric de Melniboné é um aristocrata, de sangue melniboneano, um dos últimos de sua linhagem, do império mais poderoso que já reinou sobre o mundo. E, assim como em “O Senhor dos Anéis”, o poderoso império está ruindo, decadente, bem como Gondor antes da derrota de Sauron. Entretanto, Moorcock nos traz uma visão contemporânea e distante dos conservadorismos. Elric não busca restaurar a antiga ordem político-social e nem a entende de modo romântico como uma memória gloriosa que deve ser restituída. O feiticeiro reconhece os problemas de seu povo e aceita a decadência de seu império. Em diversos momentos em “Elric de Melniboné” e “O Navegante nos Mares do Destino”, os dois primeiros livros de sua saga, o personagem reflete a respeito no novo futuro, da ascensão dos Reinos Jovens dos humanos que um dia foram subjugados pelos cruéis príncipes melniboneanos. 

Podemos entender que ambas as sagas lidam com um mundo em transformação, que fomenta a estória, seja a guerra, a queda de reis e impérios, ascensão de novos povos, etc. O ponto central da questão é como os autores enxergam essas mudanças. Tolkien, um conservador que escreve na primeira metade do século XX, não consegue ceder às mudanças e, para ele, qualquer perturbação do atual status quo é um perigo. Até mesmo as aventuras através das estradas que levam para sabe-se lá onde só existem porque culminarão em restituir a ordem. Bilbo e Frodo não exploram a Terra-Média para conhecer o mundo; o fazem com a motivação teleológica de defender a ordem, seja participando da batalha contra um terrível dragão, seja derrotando o Senhor do Escuro. Já Moorcock, um anarquista que escreve nos anos 60 e 70, de revoluções sociais lisérgicas e impactantes em todos os seguimentos da sociedade humana, consegue trazer ares de juventude para limpar a poeira envelhecida deixada por Tolkien. As mudanças em Moorcock são encaradas como boas, inevitáveis e até necessárias; a antiga ordem jaz em ruínas, e, no último ato da trágica saga de Elric de Melniboné, ele próprio alia sua espada à luta que selaria o sepulcro de Ymrrir, a Cidade do Sonhar, capital de Melniboné. Elric compreende a antiga ordem e todos seus defeitos, ele limpa e retifica os erros da memória, desmistifica as narrativas construídas sobre o passado pelos olhos do presente, e consegue entender que não há mais lugar para a velha ordem um mundo onde os Reinos Jovens surgem. O melniboneano inclusive almeja aprender com os humanos destes reinos, partindo para lá no final do primeiro livro, buscando tornar-se “um novo homem”. 

Portanto, podemos concluir que Elric e Aragorn são dois gumes de uma mesma espada aristocrática. Ambos nobres, um cortando para as ideias contemporâneas de mundo, o outro para as ideias mais antigas e conservadoras a respeito da sociedade. O objetivo central aqui foi propor uma reflexão a respeito do que podemos aproveitar destes textos que vão muito além de escapismos, buscando assim absorver, descartar ou reinventar ideias e interpretações que sirvam para as nossas vidas no tempo presente. São temas muito pertinentes e bastante debatidos hoje em dia, como o conservadorismo. Na minha opinião, esses temas perpassam explicitamente nas linhas de “O Senhor dos Anéis”, e são raramente criticados – muito pela forma como as obras de fantasia são encaradas, somadas ao amor cego da maioria dos leitores em relação a estes textos. 

Observo constantemente que a maioria dos grandes expoentes de vertentes literárias, como foi J.R.R. Tolkien para a alta fantasia, H. P. Lovecraft para o horror moderno, Robert A. Heinlein para a ficção científica, entre tantos outros, acabam criando uma estranha aura de proteção ao redor dos próprios narizes; parecem repousar sobre um pedestal e, a qualquer ameaça de crítica ou simples desgostar, uma multidão de bípedes surge em sua defesa, brandindo as espadas do senso comum. Chega ser injusto com nossa própria consciência histórica encarar essas obras como algo merecedor de proteção, em nome do legado de seus autores ou influências. Como disse Jacques Le Goff certa vez, o dever da História é recuperar a memória e retificar seus erros. Como seres pensantes, também devemos recuperar a Literatura e retificar seus erros, salvo anacronismos, da melhor maneira possível, para que as obras não existam apenas como um pedaço de ficção e emoção pairando ao redor, mas também como motivo de reflexão crítica a respeito de seus autores, seus vieses, intenções e desdobramentos nos dias atuais.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Representatividade e sua importância


Representatividade é um tema que está cada vez mais recorrente graças a cultura pop atual, onde minorias estão tomando vozes e falando o que as maiorias tem medo de ouvir, falando e mostrando que eles existem, mostrando como a diversidade é comum, mas para melhor detalhar isso, puxarei o assunto para a cultura da qual estamos familiarizados, o Super-heróis.

    Existem grandes mudanças das quais personagens famosos passaram, étnicas e orientação sexual são as mais faladas, e até as mais criticadas, então focaremos nelas por enquanto. Pois bem, Stan lee começou com a historia das representatividades, criou o Homem aranha que era um garoto de 15 anos, do ensino médio, que não tinha nada de especial e batia com perfil do publico alvo dos quadrinhos, porem a escolha de ser um personagem cujo corpo todo é coberto não foi por acaso, alem de só o leitor saber quem está por debaixo da mascara, esquecemos um detalhe, os cidadãos que são salvos pelo homem aranha, o que eles veem? Eles sabem que é um homem, mas não sabem sua idade, não sabem sua etnia, não sabem suas ideias, só sabem que ele está fazendo o bem para a cidade, aos olhos do povo, o Amigão da vizinhança representa a todos porque ele não representa uma classe só

 Por exemplo, o Superman, todos sabem que ele é um homem, todos sabem que ele é branco, todos sabem que ele é um homem adulto, mas até que ponto isso importa? nos anos 70 a representatividade maior começava, e a Marvel estava acostumada a colocar personagens negros nos quadrinhos, não como principais, mas só um jovem negro estar no mesmo colégio que Peter Parker e conversar com ele, já era alguma coisa, a Marvel se consagrou dando os primeiros exemplos, desde o Homem aranha, até os X-men, uma equipe constituída por vários jovens de vários lugares diferentes, em sua segunda formação, entrava a Tempestade (africana) Colossos (Russo) Noturno (Alemão) e Wolverine (Canadense) alem de outros, os X-men se consagraram por em 2013 mostraram um casamento gay entre o Mutante Estrela polar e Kyle Jinadu

Porem, um ano antes, a DC já tinha mostrado um herói que se declarou Gay nos quadrinhos, o primeiro Lanterna verde, Alan Scott

  Personagens LGBT ficaram comuns, nos X-men temos o Homem de gelo que se declarou Gay, a mistica é bissexual, na Vertigo, o personagem Constantine é bissexual, na DC a Batwoman foi expulsa do exercito por ser lésbica e logo ela se mostra tao poderosa quanto o próprio Batman, e Super-heróis se mostrando com orgulho de falar isso, com orgulho de dizer quem amam, sem medo de mostrar quem realmente são, incentiva as pessoas a fazerem o mesmo, fazendo a pessoa pensar

"Até aquele Super-herói passa por esse problema e admitiu ao mundo, então eu posso fazer o mesmo"


Escândalos começaram, comentários que escutamos até hoje "Agora tudo tem que ter um Gay" "Agora todo mundo vai virar viado" "Meu filho vai ler isso e virar gay"

  Não levaremos para esse ponto, mas eu farei a pergunta, se você fizesse parte de uma minoria da qual o mundo te ameaça o tempo todo, como você se sentiria se soubesse que seu super-herói, seu ídolo, sua inspiração, fosse da sua mesma minoria?



O ano de 2018 começou com o pé na porta com o filme Pantera negra, e isso foi a prova de que representatividade é necessária, pessoas saindo do cinema se saindo representada por assistir um filme onde os negros fazem parte de uma sociedade muito desenvolvida, se sentindo representadas e felizes por serem quem são, por terem um herói para se inspirar, as minorias estavam na cara delas, falando o que elas querem falar, e com uma grande importância, estão vendo personagens como pantera negra serem aquele que irá salva-los, a esperança está depositada no personagem que faz parte de um grupo que precisa ser representado, Negros, gays, mulheres não estavam sendo representados como esteriótipos de filmes de comedia que rotulam classes e credos, estavam e estão sendo representados com um peso onde aparecem


O universo cinematográfico da DC passou por falhas, altos e baixos, e muitas criticas, e a Marvel por sua vez também, criticas vieram por mudarem as etnias de personagens clássicos, em esquadrão suicida, veio a escolha de trocar a etnia do Pistoleiro, e para que criticas não viessem, constataram o Will Smith para representa-lo, e a performance incrível do mesmo, é inegável no filme, e as criticas foram minimas, mas vamos focar agora onde as criticas foram aterrorizantes 




No filme Quarteto fantástico de 2014, um problema veio que foi a troca de etnia do Tocha humana, que mudou de um personagem Loiro para um personagem negro, e as perguntas chegaram em forma de deboche "Como ele pode ter uma irmã loira no filme então?" a resposta veio no filme, sua irmã é adotada por um cientista negro que tem um filho, ou seja, os irmãos Storm são irmãos de adoção e não de sangue, e foi tao sutil que você nem se importa com essa mudança depois de certo tempo 



No filme Deadpool 2 de 2018 tivemos mais uma mudança, a personagem Dominó mudou e uma personagem Cinza para uma personagem negra, e as criticas vieram para uma personagem que o povo que não conhecia X-men e seus personagens, nem se importava com tal mudança, mas o filme veio, e Dominó caiu nas graças dos fãs sendo muito elogiada, e muito amada, a personagem que mais foi criticada, no final roubou a cena no filme 



Mas e a importância da representatividade? pois bem, como dito, o universo dos filmes da DC teve seus problemas, e logo o filme mais lucrativo dos últimos anos, foi de uma personagem da qual criticaram duramente a atriz "Ela é muito magra" "Olha esse palito como pode se achar bonita?" e criticas vieram mas no fim esqueceram de todas elas, e é claro, estamos falando de Mulher maravilha 




Uma personagem que apareceu em Batman vs Superman e se mostrou até mais forte que o próprio Superman, uma mulher decidida, forte, que sabe o que está fazendo, e dessa vez não era o homem salvando a donzela em perigo, era a guerreira amazona impedindo que o Batman seja morto, e o sucesso desse filme não precisa nem ser dito, a importância das mulheres no cinema é muito visível em  conferencias, eventos, Comic Con´S, o nível de mulheres usando camisetas, acessórios, e cosplays de Mulher maravilha, Arlequina e agora Capitã Marvel, é incontável, é pra fazer as mulheres terem orgulho por mostrar que elas são fortes, abrangendo Marvel, DC e até mesmo Star Wars, que agora tem uma protagonista principal mulher passando pela mesma situação da jornada do herói pelo qual vários personagens passaram 

Representar alguém nos quadrinhos, nos livros, nos filmes é necessário para mostrar que essas pessoas existem, mostram que não existe cura gay, que a mulher é forte, e o negro não é inferior, mostra que o chamado "diferente" por muitos, agora carrega um filme nas costas, carrega uma historia de milhares de pessoas, mostra milhares de problemas de devem ser corrigidos e extintos, e se esse personagem for um simbolo de esperança para uma minoria que tem medo de falar em voz alta, então eles estão fazendo a coisa certa, afinal,  os heróis não deveriam nos dar esperança? 
então por que nos incomodamos tanto quando não notamos que essa esperança é direcionada a outra pessoa? 






quarta-feira, 21 de novembro de 2018

O Sabujo - H.P. Lovecraft


EM MEUS TORTURADOS ouvidos ressoa um pesadelo zumbindo e vibrando incessantemente e o longínquo uivo de um gigantesco sabujo. Não é sonho. Temo ser plena loucura. Há muito tive essa piedosa dúvida. St. John é um cadáver dilacerado. Só eu sabia o motivo. E sei tanto, que estou a ponto de estourar meus miolos por medo de ser mutilado da mesma maneira. Sob escuros e ilimitados corredores de contos góticos, perambula e negra e informe Nêmesis, que me induz à autodestruição. - H.P. Lovecraft

Escrito em setembro de 1922 e publicado originalmente na Weird Tales em fevereiro de 1924, The Hound, traduzido como O sabujo. O título original é uma menção a um grupo de cães de caráter único, próprio e exclusivo por ter um poderoso olfato, servindo perfeitamente como cães de caça. Nisso, a uma variedade enorme de espécies que podem realizar esse feito (do Springer Spaniel Inglês até um Foxhound americano), e o Lovecraft não estabelece uma raça, então acho que o título já faz uma indução do leitor. Provavelmente, "Cão de caça", seja um título menos questionável.

HQ - link aqui
Esse conto marca a primeira menção ao Necronomicon, embora a primeira referência ao Abdul Alhazred, o árabe louco por trás do compêndio blasfemo tenha aparecido um ano antes (1921), em “A cidade sem nome” mas pelo resto da vida Lovecraft expandiu os comentários e menções ao tomo proscrito nas obras como O caso de Charles Dexter Ward (1927) e Sussurros na Escuridão (1930). Apesar da aparente riqueza de referências, muitas alusões são extremamente vagas. Podemos dizer que o livro funesto traz informações relativas a lugares, assuntos e entidades (nesse caso, um amuleto de jade que simboliza o culto de necrófagos de Leng, na Ásia Central).

Um debate levantando a algum tempo em um grupo sobre o autor, é se a relação entre o personagem narrador (sem nome) e seu amigo St. John mantinham uma relação homossexual. Não há nenhuma peculiaridade que fuja muito dos protagonistas de Lovecraft e que indique esse caminho. Ambos tem gostos extravagante e funestos, lendo livros proscritos e com o passatempo nada convencional de violarem túmulos e enfeitaram uma sala inteira com tesouros usurpados dos mortos e com cadáveres incluindo de carniças.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

A concha, a pintura e os óculos - O Senhor Das Moscas (William Golding)

O menino de cabelo claro desceu os últimos metros pelas pedras e começou a caminhar na direção da laguna. Embora tivesse tirado o paletó do uniforme, que agora segurava numa das mãos e deixava arrastar pela terra, sua camisa cinza estava grudada no corpo e seu cabelo colado na testa. À sua volta, a grande ferida aberta na mata era um banho de calor. Seguia avançando com dificuldade em meio às plantas rasteiras e aos troncos caídos quando um passarinho, uma visão de vermelho e amarelo, lançou-se pelo céu com um canto que parecia um grito de bruxa, e foi ecoado por outro. - William Golding

Ludwig von Mises declarou uma vez que: Liberdade significa realmente liberdade para errar(Economic Policy: Thoughts for Today and Tomorrow). Em tempos de liberalismo, nada melhor do que observar essa frase, porque errar é humano, mas determinados erros são imperdoáveis. É isso que fala William Golding em sua obra.

Com elementos inspirados no clássico juvenil de R.M. Ballantyne, The Coral Island (1858) e publicado originalmente em 1954, O Senhor das Moscas pode ser considerado o reverso The Coral IslandA história de Golding, ganhador do Nobel de Literatura de 1983, narra um grupo de meninos britânicos que sobrevivem a um ataque contra o avião em que viajavam e ficam isolados em uma ilha remota, sem a supervisão de adultos, buscando sobreviver enquanto aguardam um possível resgate.

A formação de um Estado é um dos primeiros acontecimentos após a queda do avião. As crianças, que foram educadas formalmente e tem noção no que diz respeito ao processo civilizatório, começam a se organizar, mas com o passar de algum tempo na ilha, o grupo se entrega a selvageria, se dividindo em duas lideranças naturais: Ralph que sempre está preocupado em deixar uma fogueira sempre acesa, para que possam ser, um dia, salvos, e possui o comando das reuniões através do som que emite da concha que sopra e Jack que sempre está preocupado em caçar, matar os porcos selvagens que existem na ilha, que pinta o rosto com ferocidade. Com o passar do tempo, Ralph deseja voltar para a civilização, enquanto Jack rompe completamente seus laços com ela, abraçando a barbárie.

Em um plano de fundo, como Eminência Parda, existe a figura de Porquinho, o intelectual que possui os óculos que acendem o fogo e mesmo com o passar do tempo, não deixa de ser civilizado, possuindo um bom senso e inteligência que não encontra eco em suas ideias, a não ser em Ralph, que acata mesmo dando o braço a torcer. Ele é dedicado ao ideal da civilização e constantemente repreende os outros meninos por se comportarem como selvagens. A situação se torna ainda mais difícil quando aparece um "Monstro" para aterrorizá-los.

Escrito durante a Guerra Fria, a história alude ao conflito da Guerra Fria entre a Democracia Liberal em sua apresentação de Ralph, enquanto Jack é o comunismo totalitário. Observando pelo aspecto marxista, a obra não pode ser um objeto estético a ser experimentado por seu próprio valor intrínseco, mas como um produto dos aspectos socioeconômicos. A filosofia de Sir Golding e o "inconsciente histórico" da Guerra Fria se materializaram alegoricamente como o mal do humano, o extremo da bagulhificação humana.

"E no meio deles, com o corpo imundo, o cabelo emaranhado e o nariz precisando ser assoado, Ralph chorava o fim da inocência, as trevas do coração humano, e a queda no abismo do amigo sincero e ajuizado chamado Porquinho."

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Agatha Christie: From My Heart — Uma Biografia de Verdades (Tito Prates)


De certo modo todos nós conhecemos Agatha Christie. Romancista, contista, dramaturga e poetisa, seus livros venderam mais de 2 bilhões de cópias em 44 idiomas. Só de royalties são cerca de US $ 4 milhões por ano. Agatha Christie é também uma das autoras mais prolíficas do mundo. Mas a certas coisas que ficam um pouco obscuras - principalmente em publicações no Brasil.

Por exemplo, na Seleção Vira-Vira da Saraiva, que vem em um único volume Misterioso Caso de Styles e O Caso do Hotel Bertram. Nele você vai encontrar que a autora nasceu em Devoshire (erro repetido pelo autor nesse post). Já em o Assassinato do Expresso do Oriente publicado em 2009 pela Nova Fronteira, diz que ela nasceu em Torquay.

Mas não se preocupe, seus problemas acabaram. Escrita pelo brasileiro Tito Prates, reconhecido como seu embaixador oficial no Brasil. Segundo o autor, a biografia é a única disponível no mercado que teve o consentimento da família de Agatha Christie - com quem manteve contato e colheu ainda mais detalhes para realização de sua obra mais que magnífica.

Tito Prates, embaixador oficial de Agatha Christie, posa como o detetive Hercule Poirot em sessão de pré-estreia de Assassinato no Expresso do Oriente (Foto: Divulgação)
O autor não quer só descrever a vida de uma pessoa. Antes de tudo, o texto quer ser uma conversa ao pé do ouvido, criar uma intimidade entre o leitor e a pessoa biografada. O livro que ganhou a indicação de ninguém menos que o neto e administrador da obra da escritora, Mathew Prichard. Tito é mais que um fã, é um profundo conhecedor da carreira artística e pessoal de Agatha, tendo uma memória incomparável sobre suas histórias.

"Outro aspecto único em sua bibliografia é o fato dela ter escrito novelas policiais durante mais de 50 anos. No paralelo das tramas de quem foi que matou, como foi, por que foi e com o que foi, corre uma história extraordinária, da qual ela é a maior retratista, dada a longevidade e quantidade de sua produção literária – 66 livros, mais de 170 contos, mais de 20 peças teatrais, 6 livros românticos com pseudônimo e dois autobiográficos, além de dois livros de poemas e um infantil: Agatha Christie mostra como mais ninguém mostrou a evolução da sociedade inglesa desde antes da Primeira Guerra Mundial até a década de 70. Por si só, este já seria um mérito enorme." - diz em um texto publicado no Escambau.

Curiosamente, Tito não tem Hercule Poirot como seu personagem preferido, posto ocupado por Miss Marple. "Quem conhece Agatha, sabe que ela tinha Poirot como meio de trabalho – no início da carreira, quando Agatha tentava se afastar de Poirot, os editores pediam que voltasse a ele. Ela se sentiu amarrada ao detetive. Há uma carta curiosa de um editor americano para um colega inglês, escrita durante a 1.ª Guerra, em que ele confessava seu temor de Agatha estar deprimida por causa do conflito, o que a teria convencido a escrever uma trama em que descreve a morte do Poirot. A história só seria publicada caso algo acontecesse com ela. Eu, ao contrário, acredito que Agatha se divertiu ao matar Poirot, para, enfim, se livrar dele, sem saber que ainda estaria amarrada ao personagem por mais de 30 anos."

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