domingo, 18 de fevereiro de 2024

Aquiles e Príamo: duas gerações, dois lados de uma guerra, uma só fé - Diego Galvão


Quando o chefe dos Mermídones, Aquiles, venceu e matou Heitor fora das muralhas de Troia, nada o dissuadia de ultrajar o corpo do vencido todos os dias. A morte de Pátroclo, seu fiel amigo, pelas mãos do príncipe troiano, inflamava a raiva do herói! Mas, dentro das muralhas da cidade, uma dor excruciante tomava conta do pai do falecido marido de Andrômaca: Príamo não comia, não falava e sequer tomava banho, sujo inclusive de esterco. Cada qual com seus lamentos, uma única força foi capaz de mover estas duas personagens - uma em direção à outra - e levá-los a um mútuo entendimento: a fé!

Foi Zeus quem mandou Íris a Príamo com a ordem de este ir a Aquiles levando um pagamento pelo resgate do corpo de Heitor. Ao mesmo tempo, Zeus mandou Tétis ao seu filho com a ordem de aceitar a oferta de resgate que lhe seria oferecida. Só um poder divino poderia influir na concórdia de dois corações chagados por questões opostas atribuídas ao mesmo defunto: o do executante e o do pai do executado; o do que odiava o morto e do que o amava; o do que não cessava de ultrajar os restos do príncipe troiano e o do que lhe queria prestar as honras dos ritos fúnebres.

Já na tenda de Aquiles, o rei troiano, de joelhos, apela para que o inimigo se lembre de seu próprio pai, Peleu, distante, na esperança de vê-lo retornar da guerra que já durava nove anos. A saudade do pai leva o herói às lágrimas. Seus pensamentos ora se dirigem a Peleu, ora a Pátroclo. Urra em lamento, de um lado, Aquiles de rápidos pés; urra em lamento, de outro, Príamo rei. Um acontecimento que, no fundo, só pode ser explicado pela profunda reverência que os gregos devem aos pais em virtude da religião: é esta quem lhes diz desde cedo para honrá-los e lhes explica o porquê.

Estamos diante de uma cena única, e o leitor atento percebe que ela é profundamente pagã, mas também profundamente judaica, profundamente cristã... É a fé a pedra de toque que fornece o fundamento da moral aos homens: se não há Deus, não há o Bem; se não há o Bem, não há o dever da honra, que, em sendo assim, não se distingue da desonra.

Os gregos tinham essa noção: a de que toda honra, todo amor, todo Bem está fundamentado na Transcendência; do contrário, é meramente humano, é meramente pó, é meramente nada...

A concórdia daqueles dois corações só podia ser dada pela Tendência, representada no poema pela vontade de Zeus. É assim que Príamo leva o filho e Aquiles aceita a oferta pelo resgate. A Ilíada não termina com o Cavalo e a queda de Tróia. Encerra com o funeral de Heitor, o domador de cavalos, no Canto XXIV, que constitui um dos capítulos mais emocionantes da literatura universal. Ela termina em um rito religioso, numa pausa de onze dias durante a guerra, numa clara mensagem de Homero que já dura quase três milênios: só as realidades que existem acima dos homens são capazes de estabelecer a paz entre eles.


quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Guimarães Rosa e Graciliano Ramos: um desencontro - Via Clube de Literatura Clássica


No ano de 1938, aconteceu o concurso da Livraria e Editora José Olympio, que dedicava ao melhor escritor o Prêmio Humberto de Campos. Naquele ano, os autores que se destacaram foram Guimarães Rosa, com um livro de contos que, posteriormente, se tornaria “Sagarana”, e Luís Jardim, com “Maria Perigosa”.

Para a definição do vencedor, os jurados ficaram horas debatendo e analisando os livros concorrentes. Graciliano, que se posicionou contra a obra de Rosa, argumentou que o concurso era de literatura de ficção e não deveria ter envolvimento com o Instituto Butantã — fazendo alusão às temáticas dos contos e à construção das narrativas “regionalistas” de Guimarães Rosa.

Diversos jurados contrariaram Graciliano e espumaram de raiva, mas não teve jeito. “Maria Perigosa” foi a grande vencedora e os contos de Guimarães Rosa tiveram de se contentar com a medalha de prata (tudo por causa do alagoano).

Graciliano contou a história completa da premiação em seu livro de crônicas “Linhas Tortas”, lançado logo depois da publicação final de “Sagarana”, que desta vez recebeu diversos elogios. Lá ele comenta que a obra de Rosa ainda não estava madura, continha um excesso de contos com alguns pontos muito altos e outros muito baixos e não merecia, de fato, o primeiro lugar.

O autor finalizou seu texto com uma afirmação que se revelou profética: “Certamente ele fará um romance, romance que não lerei, pois, se for começado agora, estará pronto em 1956, quando os meus ossos começarem a esfarelar-se”.

Falecido em 1953, Graciliano não pode conhecer Guimarães Rosa na plenitude do ”Corpo de baile" e do ”Grande sertão: veredas”, publicados em 1956 — mas certamente não o colocaria em segundo lugar mais uma vez! 

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Herdeiros de Graciliano Ramos acatam lei e obras do alagoano entram em domínio público - via Cada Minuto



Ícone literário de Alagoas, o escritor Graciliano Ramos tem sua obra prestes a entrar em domínio público em 2024. Os herdeiros do alagoano, esforçaram-se para evitar que suas criações perdessem o controle autoral a partir de 2024. Em 2018, renovaram o contrato com a Record até 2029, buscando manter o domínio da publicação.

Entretanto, após diversos trâmites legais, consultas jurídicas e negociações, a aceitação tornou-se inevitável. A partir de 1º de janeiro, qualquer editora terá a liberdade de publicar e explorar comercialmente as obras de Graciliano Ramos como "Vidas Secas", "Angústia" e "São Bernardo", sem a necessidade de autorização ou pagamento aos herdeiros.  

Esta mudança levanta preocupações entre os familiares do autor, como expressado por Ricardo Ramos Filho, neto de Graciliano e filho de Ricardo Ramos (1929-1992). Ele salienta que não se opõe ao acesso gratuito à obra de um autor após 70 anos de sua morte, como prevê a lei de direitos autorais, mas questiona a exploração comercial dessa liberdade, destacando que Graciliano Ramos nunca foi ausente das prateleiras, especialmente através da editora Record, responsável pela publicação de sua obra desde 1975.

“Aceitar eu não aceito, mas é a lei e tem que cumprir. Uma lei absurda”, disse ele ao Estadão.

A obra icônica "Vidas Secas", com quase dois milhões de exemplares vendidos, estará entre os lançamentos iniciais que chegarão às livrarias no início do ano. Esta transição para o domínio público promete ser um desafio para as editoras, exigindo esforços para diferenciar e enriquecer suas edições diante da concorrência. 

domingo, 24 de dezembro de 2023

O maior escritor do Brasil... - via A Formação do Imaginário

 


O maior escritor do Brasil era preto, doente e pobre.

Machado de Assis é um milagre para o nosso país.

Ele jamais conseguiria pagar por seus estudos. Mas um padre amigo da família o alfabetizou.

Perdeu a mãe e a irmã muito cedo. Perdeu o pai pouco depois. Ficou só com a madrasta.

Tinha de trabalhar.

Começou a vender doces na porta de um colégio para garotas. As freiras, olhando aquele menino que tentava espionar pela janela, não o repreenderam, mas deixaram que esse aluno inesperado pegasse o que podia daquelas aulas.

Pouco depois, conhece um dono de padaria que tinha muito afeto pelo garoto. O dono da padoca era francês. E o que ele faz? Ensina francês ao garoto pobre, que depois viria a traduzir Os Trabalhadores do Mar, do escritor francês Victor Hugo.

Machado lia na barca de volta para casa os livros que conseguia pegar emprestado. Na adolescência, costuma ficar na vitrine de uma livraria admirando os livros e os intelectuais cariocas que ali se reuniam.

O dono da livraria? Francisco de Paula Brito. Ele o convida a entrar na livraria. Oferece-lhe um trabalho na tipografia.

Acredito que Machado de Assis, um cético, foi formado pela Providência Divina e pela generosidade de um povo.

O bem feito por esses desconhecidos não ajudou apenas o jovem Machado. Ajuda eu e você, hoje, mais de 100 anos depois.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

A Lenda da Carimbamba - via Vento Nordeste



Amanhã eu vou, amanhã eu vou, amanhã eu vou, amanhã eu vou...

Quando criança cantei muito essa música, composta por Beduíno e Luiz Gonzaga e imortalizada na voz do Rei do Baião. Mas confesso que só há bem pouco tempo, quando pesquisava sobre os mitos e lendas do folclore nordestino,  é que me dei conta de que a letra falava de uma lenda cearense. Eis a letra:

Era uma certa vez
Um lago mal assombrado
À noite sempre se ouvia carimbamba
Cantando assim

Amanhã eu vou, amanhã eu vou
Amanhã eu vou, amanhã eu vou
Amanhã eu vou, amanhã eu vou
Amanhã eu vou, amanhã eu vou

A carimbamba, ave da noite
Cantava triste lá na taboa
Amanhã eu vou, amanhã eu vou

E Rosabela, linda donzela
Ouviu seu canto e foi pra lagoa
E Rosabela, linda donzela
Ouviu seu canto e foi pra lagoa

A taboa laçou a donzela
Caboclo d'água ela levou
A carimbamba vive cantando
Mas Rosabela nunca mais voltou

Amanhã eu vou, amanhã eu vou
Amanhã eu vou, amanhã eu vou
Amanhã eu vou, amanhã eu vou
Amanhã eu vou, amanhã eu vou

Segundo a Professora Lourdes Macena, da CEFET/CE, a lenda pertence ao povo da lagoa de Opaia  localizada  no bairro Aeroporto na cidade de Fortaleza. Durante muito tempo essa lagoa era utilizada para lavagem de roupas e banhos de animais. Com uma área de 159.379 m² e uma profundidade média de1,7m, a lagoa de Opaia é hoje utilizada para lazer e pesca, muito embora se encontre bastante poluída. Hoje em dia se a Rosabela, fosse entrar na lagoa, com certeza não sumiria laçada nas taboas, mas se afogaria em meios aos detritos!

A taboa laçou a donzela: A "taboa" (Typha domengensis) de que fala a música é uma planta  típica dos brejos, manguezais, várzeas e outros espelhos d'água. A sua fibra durável e resistente, é utilizada como matéria prima para papel, pastas, cestas, bolsas e outros itens de artesanato. É uma depuradora de águas poluídas, absorvendo metais pesados.

A carimbamba, ave da noite: De acordo com a crença popular a "Carimbamba" é uma ave de rapina, provavelmente uma coruja, que hipnotiza as pessoas com seu canto noturno. Segundo comentário aqui no Vento Nordeste, de uma pessoa que não se identificou em 20/06/2013, a Carimbamba é uma ave de hábitos noturnos encontrada em quase todo o país, principalmente na região nordeste conhecida como "Bacurau" (Nyctidromus albicollis). Essa ave tem no canto, uma onomatopeia que diz assim: amanhã eu vou, amanhã eu vou...

carimbamba e a músicaPopularizada na voz de Luiz Gonzaga, depois da gravação em 1951 e regravada mais recentemente por Elba Ramalho e Zé Ramalho, a Lenda da Carimbamba foi transformada em livro Infantil com o texto de Elvira Drummond e ilustração de Nice Firmeza.

A carimbamba e a lenda (extraído do livro de Elvira Drummond):
    Conta na lenda da carimbamba, que toda lua cheia à meia noite um pássaro ia até a lagoa cantar:
    "- Amanhã eu vou, amanhã eu vou, amanhã eu vou..."
    Perto dessa lagoa morava uma menina muito bonita chamada Rosabela; acontece que Rosabela acordava toda noite para ouvir o canto triste da carimbamba.
    A sua família já estava preocupada com a filha e mandou passar uns dias na casa de sua tia, perto do mar. Quando voltou para casa, Rosabela conseguia dormir a noite inteira. Mas um dia teve um sonho muito agitado e saiu de casa como uma sonambula em direção a lagoa.
    E foi caminhando até sumir dentro da lagoa, até hoje ninguém ouviu falar de Rosabela. Mas dizem que nas noites de lua cheia, ouvem-se sua voz cantando:
    "- Amanhã eu vou, amanhã eu vou, amanhã eu vou..."

FONTES:

Elvira Drummont- A lenda da Carimbamba - Editora Demócrito Rocha - Fortaleza -2006
Pesquisa Google: Site Wikipédia
Pesquisas Google: Site: Meu Espaço de Rodrigo Silva
FOTOS:
Imagens Google
Edição de fotos: Site Pic-Monkey
VÍDEO:
Música: Amanhã eu vou - Gravação de Luiz Gonzaga - Monumento Nordestino -Volume 3 - Enviada ao You Tube por "Forrobodologia2 - em 01/06/2012.

Postado originalmente por Vento Nordeste

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Gerador de Aventura: Contratos para jogos cyberpunk - Via Guilda dos Mestres


Acha que a vida no futuro é fácil? Errou!

Jogadores em ambientações cyberpunk devem estar sempre a procura de novos contratos para manter o estilo de vida em dia.

Se você é um mestre e precisa de uma luz para as próximas desventuras na sua ambientação futurística favorita, é só rolar alguns dados nas tabelas abaixo e um novo horizonte de probabilidades surgirá.

Role 5d10 para determinar:

1 – Empregador

  1. I.A.
  2. Banda de Rock
  3. Hacker
  4. Membro do governo
  5. Grupo Paramilitar
  6. Jornalista
  7. Gangue
  8. Detetive
  9. Mega Corporação
  10. Presidiário

2 – Tipo de Contrato

  1. Proteger
  2. Adquirir informação
  3. Extermínio
  4. Roubo
  5. Resgate de uma ou mais pessoas
  6. Comprar/Vender
  7. Capturar
  8. Esconder
  9. Recuperar um item físico
  10. Invasão

3 – Alvo

  1. Nas ruas
  2. QG de uma Mega Corporação
  3. Nos esgotos
  4. Em um clube
  5. Em uma fábrica
  6. Em um local público
  7. Fora do ambiente urbano
  8. Estação espacial
  9. Centro de pesquisa
  10. Entidade governamental

4 – Ameaça

  1. Uma I.A. de nova geração
  2. Uma gangue de cybermotociclistas
  3. Drones patrulheiros
  4. Assassino de aluguel
  5. Militar com grande experiência de campo
  6. CEO de uma megacorp
  7. Uma ameaça biotecnológica
  8. Cybermutante fruto de engenharia genética
  9. O líder de um país com políticas rivais a nação do jogo
  10. Anarquista que deseja reformar o mundo

6 – Recompensas

  1. Informação sigilosa
  2. Um item específico de alta tecnologia
  3. A planta de um local altamente vigiado
  4. Dinheiro
  5. Armamento
  6. Um estabelecimento
  7. Aliado poderoso
  8. Reputação
  9. Traição
  10. Morte

Como podem ver, a gama de possibilidades é enorme!

Exemplos:

Um senador pode contratar o grupo para invadir uma instalação de tecnologia e roubar um algoritmo de previsão para vencer as eleições para presidente no ano que vem…mas a morte aguarda o grupo ao final, virando uma queima de arquivo.

Uma banda de rock com muito dinheiro pra gastar se engaja na missão de salvar um grupo de mineiros que está refém de uma megacorporação e o governo não quer a interferência de agentes externos.

Role, analise as possibilidades e parta para o brainstorm!

Mais uma postagem do seu não tão amigo Cérebro no Jarro.

Link da matéria original: http://guildadosmestres.com.br/2018/01/12/gerador-de-aventura-3-contratos-para-ambientacoes-cyberpunk/


terça-feira, 6 de junho de 2023

Bons dias! por Machado de Assis


Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e juro se necessário fôr, que tôda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.

Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.

No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as idéias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas idéias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado.

Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça, e pediu à ilustre assembléia que correspondesse ao ato que acabava de publicar, brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.

No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:

– Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que…

– Oh! meu senhô! fico.

– …Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho dêste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos…

– Artura não qué dizê nada, não, senhô…

– Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.

– Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.

Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Êle continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.

Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí pra cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe bêsta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas tôdas que êle recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.

O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a tôda a gente que dêle teve notícia; que êsse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposições) é então professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu.

Boas noites.

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Gabriel Fauré por Enxergue Música


Gabriel Fauré (1845-1924) demorou mais de duas décadas para terminar seu Réquiem em ré menor Op. 48, uma de suas obras mais famosas. Segundo o compositor, dedicou-se ao projeto “pelo prazer de fazê-lo”, não — como ainda no presente erroneamente se afirma — pela morte dos pais em 1885 e 1887. A obra, hoje se sabe, abarca um período que se estende de 1877 a 1900.

Além de a tonalidade tornar difícil não pensar no Réquiem (1791) de Mozart (1756-1791), cabe ver em “Um Réquiem Alemão” Op. 45 (1868) de Brahms (1833-1897) certo prenúncio do esquema geral de Fauré: sete movimentos marcados pelo solo de barítono no segundo e no sexto movimentos. A simetria em Fauré, entretanto, precisaria ser um pouco mais bem detalhada. Pode-se perceber um eixo em “Pie Jesu” — com o solo de soprano no coração do Réquiem. Trata-se do movimento ao lado do qual se encontram dois grupos de três movimentos, um anterior (movimentos 1-3), outro posterior (5-7). Nos centros de cada um desses grupos, há, justamente, os solos de barítono.

A adição de “Libera me” e “In Paradisum” e a ausência de “Dies irae” e “Benedictus” podem surpreender aqueles acostumados à estrutura típica desse tipo de obra. Nesse sentido, Fauré busca certa leveza para a obra, ou pelo menos uma diluição do peso que sua tradição carrega. Talvez não por acaso, ainda no XIX, e isso prossegue no XX, notam-se vozes que afastam a obra de sua natureza declarada. Em 1898, Georges Servières (1858-1937) considera a composição quase pagã. Em 1906, Pierre Lalo (1866-1943), crítico feroz de Ravel (mas que o defende no ano anterior quando de novo perde ao participar de um concurso musical), retorna à ideia do caráter pagão da obra. Em 1907, Camille Bellaigue alerta o leitor quanto a encontrar-se visão mais violenta da morte nas canções de Fauré.

Cabe, então, observar a imagem que o compositor reservava para seu Réquiem, como atesta uma declaração sua de 1902, que esclarece muito:

“Disseram que meu Réquiem não expressava o horror da morte: alguém o chamou de ‘Acalanto da Morte’. Entretanto, é desse modo que percebo a morte, como uma alegre libertação, uma aspiração à felicidade do além, não uma passagem aflitiva.”

quarta-feira, 1 de março de 2023

A rivalidade de Michelangelo e Da Vinci - via Refúgio das Belas Artes

Sim, Michelangelo Buonarroti e Leonardo Da Vinci eram rivais. E não era apenas mera implicância de um concorrente com outro, mas uma briga que envolvia difamação e xingamentos. Essa curiosidade chegou até nós pelas mãos de Giorgio Vasari (1511 - 1574), tido como primeiro historiador da arte e principal biógrafo do Renascimento.

Essa história remonta ao início do século XVI. Leonardo, à época, já estava na casa dos 50 anos de idade, com sua fama consolidada em toda a Europa, e Michelangelo ainda era jovem, com cerca de 29 anos – tendo recém estreado seu famoso Davi. O que deu início à rixa foi a ocasião em que ambos os artistas foram contratados para pintar a mesma parede no Palazzo Vecchio, em Florença. Leonardo fora o primeiro a ser contratado e encomendaram-lhe uma cena da Batalha de Anghiari, ocorrida em ocasião de recentes disputas com a cidade de Milão. Cerca de um ano depois, enquanto Da Vinci ainda esboçava sua obra, Michelangelo foi contratado para, na mesma parede, pintar cenas da Batalha de Cascina (confronto ocorrido no século XIV entre Florença e Pisa).

Quando ambos descobriram que foram contratados para decorar o mesmo lugar, começou uma competição feroz entre os artistas. Com a competição, vieram as críticas ao trabalho do outro, os xingamentos e, consequentemente, difamações. O desfecho dessa história foi inusitado: nenhum dos dois artistas, ao fim, pintou a parede. Michelangelo parou ainda nos esboços. Leonardo foi mais adiante, chegando a projetar os andaimes e testar as tintas, mas o resultado foi tido como insatisfatório por ele que, então, optou por não dar prosseguimento à obra.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Salomão Efeminado? - por Rodrigo Silva

É tão ruim rotular as pessoas. Mais uma vez fui chamado de seita por dizer numa palestra que Salomão teve “provavelmente” trejeitos efeminados e relações com homens. Mas a Bíblia não diz isso. Não explicitamente. Mas vamos por partes. Em primeiro lugar, esse pensamento é partilhado por vários comentaristas bíblicos protestantes como o teólogo presbiteriano Matthew Poole, cujo comentário foi recomendado por Charles Spurgeon. Ele disse: “Eles foram para Damasco, ... enquanto Salomão estava chafurdando no luxo e se tornando efeminado.” (com. Sobre I Reis 11:24). Isso faria dos presbiterianos uma seita? Creio que não. Mas de onde Poole e outros tiraram essa ideia? É importante antes dizer que efeminado não é sinônimo de homossexual, ok? Além disso note a palavra “provavelmente” que usei em minha fala. Não é uma certeza absoluta, mas uma possibilidade. 1 Rs 11:5 diz que Salomão “foi atrás de Astarote, a deusa dos sidônios,” Mais a frente diz “e havia na terra [de Judá] prostitutos cultuais (ou sodomitas)” (I Rs 14:24). Embora a presença de prostitutos cultuais em Judá não seja relatada até o reinado de Roboão, a estreita conexão entre esse tipo de culto pagão e a perversão sexual dessa deusa adorada por Salomão levanta a possibilidade de que a origem de tais pessoas em Israel possa ser rastreada ao reinado de Salomão e ao próprio mau exemplo por ele dado. A parte mais proeminente da adoração a Astarote, consistia na presença de sacerdotes eunucos em trajes femininos, que se prostituíram com mulheres e homens para enriquecer o templo desta deusa. Estas informações podem ser vistas na clássica McClintock and Strong Biblical Cyclopedia.

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Algumas das famosas lendas do Rio São Francisco - via CBH São Francisco

O Rio São Francisco também conhecido como Opará (o rio-mar), é tão marcante na vida dos ribeirinhos, que muitos chegam a acreditar que ele tem vida própria. O Velho Chico inspira o imaginário popular, que faz brotar de suas margens lendas e histórias que passam de geração em geração.

Vamos conhecer algumas das famosas lendas do Velho Chico?

A LENDA DA ORIGEM DO RIO
Diz a lenda que o Rio São Francisco nasceu quando uma linda índia chamada Irati sentou-se numa pedra e chorou a perda de seu amado, que havia partido para uma guerra. Suas lágrimas escorreram pelo chapadão, despencando do alto da serra formando uma linda cascata e escorreram para o norte e lá, muito longe, se derramaram no oceano. Assim se formou o Opará, rio-mar na linguagem indígena.

CARRANCAS
Diz a lenda que a Carranca avisa o barqueiro do perigo iminente durante a navegação, evitando o acidente quase sempre fatal. Por isso, todo pescador do Rio São Francisco equipa seus barcos com uma carranca de proa. Diante do perigo, ela emite 3 gemidos alertando o pescador. Dizem que ela espanta mau-olhado e assombrações também.

NEGO D’ÁGUA OU CABOCLO D’ÁGUA
O Nego d’Água habita as profundezas dos rios e com suas gargalhadas assusta os pescadores e lavadeiras que não o agradam com peixes, fumo de mascar e pinga. Segundo a lenda, o Nego d’Água costuma virar a canoa dos pescadores que pescam durante a piracema ou que pescam de forma prejudicial ao meio ambiente.

MÃE D’ÁGUA
A Mãe d’Água é uma sereia que vive no Rio São Francisco. Quando o rio dorme, à meia-noite, ela vem para fora, procurando uma canoa para sentar-se e pentear seus longos cabelos. Mas se um pescador vê essa sereia, é tomado por um feitiço. Não adianta chamá-lo. O amaldiçoado ganha um olhar vazio, perde o destino, enlouquece e, por fim, acaba desaparecendo.

sábado, 7 de janeiro de 2023

CONSIDERAÇÕES SOBRE UM POEMA


Fico me perguntando como alguém, sem nenhuma experiência sincera com o ramo da narrativa poética conseguiu ficar em 4° lugar na 3ª Edição do Prêmio de Incentivo à Publicação Literária, Antologia - 200 Anos de Independência. Tenho plena convicção que sou melhor no que costumamos chamar de short stories do que em narrativas rimadas, mas claro, posso manifestar meus pitacos do porque eu consegui chegar nisso (talvez, o ponto mais alto de uma carreira literária totalmente amadora). O meu papel foi firmar meus pés em barcos que, em primeira mão, parecem distintos, mas que se correspondem e que se complementam: o erudito e o popular, apenas.


Primeiramente, há de se observar as intenções da publicação e o seu viés histórico. As comemorações da Independência do Brasil devem ser lembradas no sentido etimológico da palavra comemoração: trazer à memória o que aconteceu. Necessáriamente, poderia ser o evento ou seus desdobramentos lógicos, ou o acúmulo de acontecimentos ao longo desses duzentos anos. Decidi, por mim, não me alongar, fincando raízes nos personagens principais de tal acontecimento, me desdobrando sobre os três principais escritores brasileiros de então e, por fim, o arremate em uma profecia.


O cenário já estava dado: o Brasil… mas o que é o Brasil?


De fato, não podemos falar o que é o Brasil sem falar em uma tribo de índios no Xingu, de uma comunidade quilombola no Nordeste e de uma comunidade de poloneses no Sul. Nossa identidade é totalmente diferente das europeias ou asiáticas, apesar de dizerem ao contrário. Somos hoje um país em construção, mas com uma vocação muito peculiar. Fomos fundados por portugueses atlantinos (civilização ou sistema de Estado claramente associado ao desenvolvimento de territórios marítimos e à penetração consistente nos territórios oceânicos), senhores das águas e desbravadores, porém nos desenvolvemos com forte viés de telurocracia (civilização ou sistema de Estado claramente associado ao desenvolvimento de territórios terrestres e à penetração consistente nos territórios interiores).


Somos um povo novo, em uma terra nova com fronts de crescimento distintos. Nosso nome vem da palavra holandesa "hy-brazil", que significa "ilha da boa fortuna" ou simplesmente "paraíso". Diferente dos demais da América Latina, o Brasil surgiu como um estável e grande império católico, com a monarquia familiar vinda dos Bragança e Habsburgo: uma estrutura estatal europeia instalada sobre um povo negro e indio. Nessa estrutura estatal e seus representantes sempre recaiu a cultura erudita, mas é na cultura feita fora do Estado, vinda do povo e de sua sabedoria popular.


Definindo o cenário, resolvi pensar no corpo principal do enredo. Não demorei muito a delimitar que tudo ocorreria no Grito do Ipiranga, um diálogo entre as cartas dos três principais artífices da independência: Leopoldina, José Bonifácio e Dom Pedro I. Mirando o cenário de secessão, dividiu-se em três cantos principais, um para cada um. Com isso em mente, olhei para quem já tinha feito celebrações ou trabalhado com coisas similares e de autores de inteligência e trabalho superior. Do mesmo jeito que não consegui fugir de Basílio da Gama com o seu "O Uraguai", "O grito do Ipiranga" recém descoberto de Machado de Assis, Gonçalves Dias com "Canção do Tamoio" tão pouco pude ignorar Homero e sua "Ilíada" e "Os Lusíadas" de Camões. Mesmo que eles tenham definido o que é o poema de exaltação, uma narrativa marcada por aventuras e heroísmo.


Porém, todas as narrativas mencionadas acima, não são modernas, estão muito longe da nossa realidade, mesmo que haja elementos que possam ser rearranjados. Em minhas pesquisas, resolvi fazer um diálogo com um poema bastante peculiar que estudei uma vez para o vestibular. Andei com "Mensagem" de Fernando Pessoa na bolsa durante semanas. Não rasurei o livro porque não é meu estilo, mas anotei tanto quanto pude, tentando desvendar os principais elementos e revendo minhas aulas e livros de vestibular. Em algum grau, a visão de Pessoa me ajudou a equilibrar a composição de uma alegoria em um texto de características de "épico" com tons místicos católicos e pagãos, que buscasse exaltar a imagem do Brasil como um grande país.



"Novo Mundo" foi dividido em três partes que denominei como "Flâmula", "Intérpretes" e "Quinto Império". Na primeira parte foi dividida em uma introdução que remeteria a tradução da "Ilíada" feita por Odorico Mendes e três cantos com grandes figuras monárquicas da época, iniciando com a Imperatriz Leopoldina, passando por José Bonifácio e terminando Dom Pedro I.



O canto de Leopoldina é uma oração, algo mais lírico. "Senhora Liberdade" é uma figura para representar Nossa Senhora da Glória e seu manto. A Imperatriz Leopoldina sempre foi uma mulher religiosa, católica devota a tal ponto de dar o nome da santa à sua primeira filha. Esse epíteto, claro, eu tirei de uma canção de Nei Lopes, que foi sucesso na voz de Wilson de Oliveira com o Casuarina e Zezé Motta. No canto de Leopoldina, ela pede a bênção de Nossa Senhora, que ela a de sabedoria para tomar a melhor decisão, afastando-se totalmente do sentido da canção e dos termos empregados por Nei, que fala sobre a dor de um amor não correspondido que é uma "violenta emoção". No caso, Leopoldina pede que a Senhora Liberdade abra as suas asas sobre a Nação, protegendo Dom Pedro I.


O canto de José Bonifácio é mais colérico. Voltado para a guerra, ele avisa que rios de sangue vão banhar o solo do Brasil, caso Dom Pedro I não proclame a independência. Há de se lembrar que, apesar de José Bonifácio ter dedicado sua vida inteira às ciências humanas e exatas, quando Napoleão e seu exército invadiu Portugal, foi um dos primeiros a se alistar no Batalhão Acadêmico formado em Coimbra para combater os franceses, subindo de major para tenente-coronel por sua perícia em armas e combate contra os invasores. Naturalmente, se Leopoldina invoca Nossa Senhora, Bonifácio invoca Marte (há de se lembrar também que na época criaram uma estátua do deus romano com o rosto de Napoleão [uma estátua nua e heróica do artista italiano Antonio Canova]).



Ambos os cantos são missivas, cartas que preparam para o terceiro canto da primeira parte, que é a resposta de Dom Pedro I no Ipiranga. Ele, irado com toda a situação, lida com o problema com frieza, lembrando a todos (tanto aos portugueses que queriam sua volta quanto a Leopoldina e Bonifácio que queriam que ele ficasse) que ele é herdeiro de linhagem real e tem sangue nobre. E dizendo isso, ele ergue o escudo da Senhora Liberdade (Nossa Senhora da Glória) e a lança de Marte para defender o povo brasileiro das correntes europeias: afinal, ele é o defensor perpétuo do Brasil. Ele ignora Leopoldina e Bonifácio, apesar de acolher seus pedidos e receber de bom grado as armas de Nossa Senhora da Glória e Marte. "Flâmula" vem das cores da bandeira nacional: justificando o título, faz referência ao verde da Casa de Bragança, da qual Dom Pedro I pertencia, enquanto o amarelo faz referência a Casa de Habsburgo, da qual pertencia sua esposa a Imperatriz Leopoldina.



A segunda parte chamada de "Intérpretes" foi dividida também em uma introdução e três cantos, cada um homenageando um escritor brasileiro e levando seu nome. Essa parte leva esse nome pois considero José de Alencar, Machado de Assis e Guimarães Rosa pessoas que nos traduziram a nós mesmos. Os três foram em suas épocas para a língua portuguesa verdadeiros pináculos. Em um passeio por seus principais personagens e histórias, podemos ver a experiência do que é ser brasileiro e onde nossas almas imaginativas foram plantadas.



No primeiro canto, "José de Alencar", passei por um dos maiores representantes da corrente literária indianista e foi por muito tempo o principal romancista brasileiro. Durante toda sua vida procurou tornar popular através da escrita para os livros as tradições e a vida rural e urbana do Brasil, sendo aclamado por Machado de Assis, como "o chefe da literatura nacional". Focado no "O Guarani", tentei expressar o nacionalismo romântico focando em Ceci e Peri, remetendo a principal característica da primeira geração romântica: o cultivo do nacionalismo, que exaltava a terra e o índio (o nosso cavaleiro medieval) com o retorno ao passado histórico e na criação do primeiro herói nacional.


No segundo canto, "Machado de Assis", foi o que mais tive dificuldade para exprimir o meu pensamento central. Jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, ele foi o maior de todos, pois não teve outro gênio senão transcrever a letra da ópera nacional da capital do império em letra miúda, com tal arte e fidelidade, que parece ele próprio o autor da composição (mas, evidentemente, foi apenas um plagiário) - pensamento presente em sua obra corrente, mas positivado em seu "Dom Casmurro" no Capítulo IX: A Ópera. Com esse pensamento, desanquei em verso que Escobar e Capitu definem Bentinho em sua pequenez, já que, é no contraste com as duas figuras que ele se cria. Operário das letras, é considerado precursor do realismo, apesar de detestar o movimento literário do realismo por "sacrificar a verdade estética".


O terceiro canto, "Guimarães Rosa", foi composto bem antes do poema em si. Sendo franco, criei a parte dois apenas para encaixar esse poema, que escrevi depois de ler  "Sagarana" e "Primeiras Estórias". Contista, novelista, romancista, médico militar e diplomata, é inequívoco que suas experiências dentro e fora do Brasil (fosse como médico na Revolução Constitucionalista de 1932, fosse como embaixador na Alemanha Nazista) deu repertório o suficiente para dar uma interpretação mítica da realidade, mediante a ressurreição da língua brasileira (tutaméia = tuta e meia [uma coisa sem importância]), criando palavras (circuntristeza, espécie de tristeza circundante) e adicionando palavras (velvo = velvet inglês [veludo]) ao nosso vocabulário em uma revolução formal e estilística.


A terceira e última parte se chama de "Quinto Império". Indo no fluxo do último canto da segunda parte, que é mais místico por tratar de Guimarães Rosa, "Quinto Império" é uma forma de corresponder-me e ao mesmo tempo, abrir uma nova perspectiva com a terceira parte do livro "Mensagem" de Fernando Pessoa, intitulada "O encoberto". Naquela altura, o Eu Lírico de Pessoa abre duas frentes de combate: o retorno da figura lendária de Dom Sebastião e a essência mística da volta do rei representada no sebastianismo e a vinda do Quinto Império por suas mãos, criando um país idílico para os cristãos como última resistência de um mundo em pecado e que dele a fé cristã se espalharia por todo o planeta. Como o título da terceira parte sugere, resolvi atacar a segunda frente aberta por Pessoa.


O Quinto Império é uma teoria retirada do livro de Daniel, quando ele interpreta o sonho de Nabucodonosor, rei da Babilônia. A passagem diz que o rei teve um sonho que não conseguia se lembrar, e sem encontrar entre seus sábios alguém capaz, encolerizou-se a ponto de dar sentença de morte para todos os sábios da Babilônia, iniciando um verdadeiro massacre. A situação só se acalmou quando Daniel descreveu o sonho do senhor babilônico e sua interpretação, presentes no Capítulo 2, versículos 31 a 47: Nabucodonosor contemplou uma enorme estatuária com cabeça era de fino ouro, peito e braços de prata, ventre e quadris de bronze, pernas de ferro com pés metade de ferro e metade de barro, que foi triturada pelo impacto de uma pedra que foi deslocada da montanha, sem intervenção de mão alguma. Os materiais que formavam a estátua foram esmigalhados, sendo levados pelo vento enquanto uma nova montanha se erguia da pedra.


O reino de Nabucodonosor seria a cabeça de ouro, depois o de prata e bronze revelam reinos menores que o dele, mas o de bronze, porém, dominaria toda a terra. Um quarto reino (o das pernas) será tão forte como o ferro, e pulverizaria todos os outros. O reino então seria diluído, misturando a terra argilosa de mo­delar com a parte de ferro em seus pés, havendo nele algo sólido e frágil, com as duas partes se aliando por casamentos, sem porém se fundirem inteiramente, tal como o ferro que não se amalgama com o barro. No tempo desses reis, o Deus dos céus iria suscitar um Quinto Império que jamais será destruído e cuja soberania jamais passará a outro povo, desse jeito aniquilando todos os outros, subsistindo na eternamente: esse seria o significado da pedra que se desloca da montanha sem a intervenção de mão alguma e que reduz a migalhas o ferro, o bronze, o barro, a prata e o ouro (é um reinado criado pela intervenção divina).


De acordo com as interpretações mais correntes, os quatro impérios em ordem foram o Império da Babilônia, seguida pela união dos Impérios Medos e Persas que resultou no Império Medo-Persa, seguida pela Grécia Macedônia de Alexandre, o Grande e, por fim, o Império Romano. Foi da divisão da antiga Roma que surgiram as primeiras monarquias europeias na sua parte Ocidental. Daniel adverte quem, os reinos divididos jamais iriam se juntar novamente, apesar de grandes esforços sanguíneos (as elites monárquicas tem certo grau de parentesco pois foram ligadas por casamentos: vide a Primeira Guerra, onde o kaiser Guilherme II e o czar Nicolau  II  eram primos do rei britânico George V) e de conquista (Carlos Magno, Carlos V do Sacro Império Romano-Germânico, Luís XIV de França, Napoleão Bonaparte, Guilherme II da Alemanha e Adolf Hitler).



Várias teorias foram criadas para dizer e descrever o que era o Quinto Império, o governo universal de Deus. Em Portugal e na literatura portuguesa podemos encontrar entre seus difusores principais o profeta Gonçalo Annes Bandarra, o padre Antônio Vieira e o poeta Fernando Pessoa, onde eles abraçam a crença que afirma que Portugal se tornaria o quinto e último império do mundo, responsável por levar a fé cristã para outras partes do planeta. Obviamente, essa tarefa iria caber a Dom Sebastião que desapareceu na Batalha de Alcácer-Quibir combatendo por Cristo, e que em seu regresso, transformaria a "noite" em "dia claro". Poeticamente, em "Mensagem", ele afirma: "E assim, passados os quatro / Tempos do ser que sonhou, / A terra será teatro / Do dia claro, que no atro / Da erma noite começou.". Como Portugal foi referência obrigatória em descobertas e conhecimento de novos mundos, para Pessoa sempre se acreditou na perpetuidade dessa missão, buscando atestar o mito da grandeza e do valor simbólico do Quinto Império na civilização Ocidental, expressando sua visão messiânica da história e se investido no papel de arauto desse Quinto Império, que não precisa ser material, mas sim espiritual.


Mas discordo de Pessoa, pelo menos em partes.


Afirmar que Portugal é o Quinto Império é um equívoco. Acredito que ele seja o Brasil. Como já expliquei, nosso nome significa "paraíso" em Holandês mas, como diria Darcy Ribeiro em seu "O Povo Brasileiro" nos lembra que em velhas 
cartas e 
lendas 
do 
mar 
oceano 
traziam 
registros de
 uma
 ilha
 Brasil
 referida
 provavelmente
 por
 pescadores
 ibéricos
 que andavam
 à
 cata
 de
 bacalhau
, apesar de tentativas infrutíferas do então governo de desvincular à
 nova
 terra a esse nome.


Mas não é apenas o nome que me faz pensar assim. Trazendo o raciocínio racial de Darcy para a organização estatal, do mesmo jeito que etnicamente houve povos que foram transplantados para o continente americano, o Governo Português, durante as Guerras Napoleônicas foi transplantado para cá. O Rio de Janeiro em 1808, virou a sede de todo o império português, com a atropelada fuga da monarquia de Lisboa para o trópico, saindo as ordens de comando para Portugal, na Europa; Angola e Moçambique, na África; Goa, na Índia; Timor, no Sudeste Asiático; e Macau, na China.


A transferência do governo de Portugal para o Brasil foi providencial. Com uma só viagem, a capital ficou mais perto das regiões do Império, aumentou o fluxo comercial entre todas as colônias e modernizou a administração do governo português. O projeto buscava não só a instalação provisória da família imperial, mas a instalação definitiva. Toda a movimentação no Período Joanino com a construção de toda uma infraestrutura cultural, econômica, científica e militar (a Biblioteca Real, a Casa da Moeda, o Banco do Brasil, o Jardim Botânico e a Academia Real Militar [que mais tarde virou Academia Militar das Agulhas Negras, tendo como patrono o próprio Dom João VI]). Além disso, a administração joanina promoveu o Brasil ao status de Reino Unido, acabando efetivamente com o nosso status colonial.


Com isso em mente, terminei a terceira parte que contém um poema apenas como uma resposta a esse pensamento, com esse espírito. Toda a sua construção diz que o Quinto Império nada mais é do que a volta a sua origem etimológica da palavra Brasil, a sua missão natural: ser o paraíso, o estágio principal do bem, da bondade e da verdade, destinado a ser o maior império de todos. Um leitor mais atento pode dizer que eu tirei a salvação do mundo do eurocentrismo e trouxe para a América Latina: uma interpretação muito razoável (mesmo que eu não tenha pensado nessa interpretação originalmente).

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Machado de Assis é mesmo realista? - Gustavo Bernardo



O aluno tem essa dúvida quando lê que o marco da fundação do realismo no Brasil se deu em 1881, quando se publicaram "O mulato", de Aluísio de Azevedo, e "Memórias póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis. A informação aparece em muitos manuais didáticos.

O romance de Aluísio de Azevedo de fato se encaixa bem no formato realista. Mas, sabendo que o personagem Brás Cubas escreveu as suas memórias depois de morto e que no século XIX não havia evidências de vida depois da morte (como não as há até hoje, aliás), o jovem leitor se pergunta: como pode ser realista um livro que se chama "Memórias póstumas"?

A pergunta do aluno é inteligente. A obra de Machado nos oferece várias ocasiões para duvidar do realismo que lhe imputam, como a personagem do doutor Simão Bacamarte, o protagonista de "O alienista": ele é o cientista que se vê sempre prestes a revelar a verdade verdadeira aos incautos e não arreda desta auto-ilusão nem mesmo quando encontra tão-somente o seu próprio erro, mostrando-se então a caricatura do realista de carteirinha, daquele que quer nos mostrar “a vida como ela é”.

Não contente em atacar a concepção realista com seus personagens e metáforas, Machado de Assis a combateu explícita e frontalmente em vários textos críticos.

Na dura crítica que fez a "O primo Basílio", romance de Eça de Queiroz, o escritor brasileiro afirmou categoricamente: “voltemos os olhos para a realidade, mas excluamos o realismo; assim não sacrificaremos a verdade estética”. Machado ordenou a exclusão do realismo do campo da arte para não sacrificar a verdade estética, isto é, aquela verdade que não esconde do leitor que inventa realidades de papel.

No ensaio “A Nova Geração”, Machado de Assis afirmou, de maneira mais categórica ainda: “a realidade é boa, o realismo é que não presta para nada”. Creio que ele não podia ser mais claro. Segundo o autor, o realismo “não presta para nada” porque sobrepõe à vida um ideal com o qual a vida mesma não concorda.

O realismo quer dobrar a vida à sua perspectiva, mas com isso termina por recusá-la e não por afirmá-la. O realismo quer descrever a vida como ela é, mas faz apenas uma “reprodução fotográfica e servil das cousas mínimas e ignóbeis” para as tratar com uma “exação de inventário”, ou seja, para as dispor em gavetas uniformes como se cada acontecimento se reduzisse à dimensão de todos os outros.

Por isso, Machado não perde a chance de reduzir o realismo a uma ironia divertida: “porque a nova poética é isto e só chegará à perfeição no dia em que nos disser o número exato dos fios de que se compõe um lenço de cambraia ou um esfregão de cozinha”.

Mas por que, se o próprio Machado de Assis reduziu o realismo a pó de traque, há tantos que ainda insistem em considerá-lo realista?

Na coluna anterior, critiquei a atribuição insistente de "realista" à obra de Machado de Assis apesar de muitas análises que demonstram o contrário, apesar de metáforas óbvias contra o realismo na ficção do próprio escritor, como a do doutor Simão Bacamarte em "O Alienista", e, principalmente, apesar dos ataques explícitos de Machado ao realismo, como aquele em que ele diz que "a realidade é boa, o realismo é que não presta para nada".

Mas por que semelhante insistência? Talvez porque o nível de semelhança com a realidade permaneça sendo o critério fundamental para julgar a obra de arte. Perguntado à queima-roupa por que achou tal ou qual romance bom, o leitor médio responderá ou "ora, porque tem tudo a ver com a realidade" ou "ora, porque tem tudo a ver comigo".

O problema desse critério é que ele é externo à obra literária. Se uma das duas respostas está certa, o livro é ruim, ou seja: não é de ficção. Um texto ficcional parte da realidade, sim, mas para negá-la e criar uma outra realidade. A ficção desconfia por princípio do que se entende por realidade, caso contrário não seria ficção.

Da mesma maneira, um romance não pode ter "tudo a ver" com determinado leitor, como se o escritor estivesse pensando apenas nesse leitor enquanto escrevia a sua história. Assim como o torcedor de futebol se identifica com o artilheiro do campeonato porque gostaria de ser como ele (mas não é de modo algum, ou então não ficaria apenas na arquibancada), o leitor de ficção se identifica com o protagonista de um romance, tanto faz se herói ou vilão, porque gostaria de viver intensamente o que ele parece estar vivendo (embora muito provavelmente não esteja, já que a vidinha de cada um de nós costuma ser bem menos intensa do que a dos nossos heróis de papel).

Falo aqui da "catarse", um dos conceitos mais importantes do estudo de literatura. Como nossa sensação de identidade pessoal é difusa – tanto que gaguejamos se de repente nos perguntam "quem é você" – e como o personagem ficcional tem normalmente uma identidade forte, de bom grado tomamos emprestada a identidade do personagem que nos comove. Dizendo de outra maneira: a catarse não implica uma identificação do tipo "oh, estou me vendo no espelho das palavras", mas sim uma identificação de outro tipo, pela qual pego emprestada a invenção do escritor para inventar a mim mesmo como uma pessoa diferente, quem sabe melhor – pelo menos mais viva!

É como se saíssemos do caminho para nos encontrarmos a nós mesmos depois da leitura. A bela "aniquilação temporária do ser" é condição da melhor leitura, como lembra o escritor C. S. Lewis, autor das "Crônicas de Nárnia", em um trecho que merece ser citado:

"O homem que se contenta em ser apenas ele mesmo e, portanto, ser menos, vive numa prisão. Meus próprios olhos não são suficientes para mim, verei por meio dos olhos de outros. A realidade, mesmo vista por meio dos olhos de muitos, não é suficiente. Verei o que outros inventaram. Até mesmo os olhos de toda a humanidade não são o bastante. Lamento que os animais não possam escrever livros. Ficaria contente em saber que face têm as coisas para os olhos de um rato ou de uma abelha. Ainda mais contente ficaria em perceber o mundo olfativo, impregnado com todas as informações e emoções que contém para um cão. A experiência literária cura a ferida da individualidade sem arruinar seu privilégio. Há emoções de massa que também curam a ferida, mas destroem o privilégio. Nelas, nossos seres isolados fundem-se entre si e afundamos de volta à subindividualidade. Mas, lendo a grande literatura, torno-me mil homens e ainda permaneço eu mesmo. Como o céu noturno no poema grego, vejo com uma miríade de olhos, mas ainda assim sou eu quem vê."

Por isso, Machado de Assis dizia que "o realismo não presta para nada", se ele sobrepõe à vida um ideal estático com o qual a vida mesma não concorda. Explica-se desse modo o pessimismo intrínseco ao realismo, como reconhecem os próprios manuais didáticos. É fácil identificar esse pessimismo na linguagem cotidiana: quando dizemos para Fulano ser "mais realista", na verdade queremos lhe mostrar o que há de mau na realidade à volta e nas pessoas que o cercam (certamente com a única exceção da nossa pessoa, aquela que lhe está abrindo os olhos). Esse pessimismo equivale ao que os políticos chamam ora de "realismo" ora de "pragmatismo" (e que podemos muito bem chamar de "cinismo").

Por isso, Machado de Assis não disse apenas que o realismo não presta, ele disse também que "a realidade é boa", desse modo recusando o pessimismo de que o acusaram tantos. Não por acaso suas últimas palavras, ao morrer com quase 70 anos de idade, foram: "a vida é boa". Enquanto viveu, não se conformou com a tal da realidade, mas também não ficou reclamando pelos cantos nem fazendo denúncias pretensamente indignadas como se fosse o dono da verdade – como se fosse um típico realista que acha que só ele enxerga a vida como ela é.

Ao contrário: porque não se conformou com a realidade, procurou mexer nela com a sua ficção, procurou lhe dar a sua forma, ao mesmo tempo irônica e sábia. Ao morrer, então, reafirmou a vida como aquilo que fazemos dela. Como não se contentou em ser apenas ele mesmo, apenas Joaquim Maria, o mulato gago e epiléptico que nasceu e escreveu no país em que certos homens escravizavam outros homens por conta da cor da sua pele, tornou-se "Machado de Assis", o maior escritor brasileiro – na minha opinião, o maior escritor do Ocidente.

Via https://www.revista.vestibular.uerj.br/

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

A Realeza de Pelé - Nelson Rodrigues


sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Inimigos nada cordiais: conheça a história da inimizade entre dois gigantes da literatura em língua portuguesa, Eça de Queirós e Machado de Assis - Via Literatura Classica


Causos de animosidade entre grandes escritores: no encontro de James Joyce e Marcel Proust, num jantar, a conversa se resumiu (de acordo com uma versão da história) a secos “nãos” — perguntando se conhecia o duque fulano-de-tal, Joyce respondeu que não, já o francês também respondeu com a negativa se havia lido Ulisses, e assim foi a noite inteira entre os dois.

Ironicamente, a relação entre Eça de Queirós e Machado de Assis também foi marcada pelo azedume, com trocas de farpas pela imprensa nos dois lados do Atlântico.

Tudo começou com uma resenha de Machado de O Primo Basílio, nas páginas da revista O Cruzeiro, em 16 abril de 1878. Escrevendo sob o pseudônimo “Eleazar”, o Bruxo do Cosme Velho classificou o autor português como “um fiel e aspérrimo discípulo do realismo propagado pelo autor do Assommoir.” (Ok, ok, uma ajudinha: “aspérrimo” significa áspero, desagradável ao ouvido; e o autor citado sem ser nomeado era, claro, Émile Zola.)

No acerbo artigo, Machado criticou “a incongruência da concepção do Sr. Eça de Queirós”, observando que o caráter da heroína do romance, Luíza, era de uma grande vacuidade. A trama de adultério entre Luíza e Basílio, seguida da chantagem da criada Juliana, tão engenhosamente tecida por Eça, não comoveu o grande escritor brasileiro, cujo veredito foi mordaz e impiedoso:

“Se o autor […] intentou dar no seu romance algum ensinamento ou demonstrar com ele alguma tese, força é confessar que o não conseguiu, a menos de supor que a tese ou ensinamento seja isto: — A boa escolha dos fâmulos é uma condição de paz no adultério.”

Elegante, mas cheia de derisão, a crítica despertou a ira do público carioca, que inundou a redação de O Cruzeiro com cartas; afinal, que desfeita que a moral de O Primo Basílio se resumiria a escolher bem a criadagem, discretos o suficiente para manterem silêncio às puladas de cerca dos patrões! Diante das críticas, Machado de Assis não recuou, e escreveu uma segunda resenha complementar à primeira, ainda mais ácida, publicada em 30 de abril daquele ano.

Subjacente às críticas, estava o desdém de Machado de Assis ao Realismo, movimento literário que tinha em Eça de Queirós um seguidor devotado. “A realidade é boa, o realismo é que não presta para nada”, escreveria Machado um ano depois da diatribe com Eça, no ensaio “A Nova Geração”, pelas páginas da Revista Brasileira. (Em tempo, Machado não é um autor realista, algo muito repetido pelo público ainda hoje em dia).

Sim, a rixa entre os autores foi motivada por uma incompatibilidade irredutível entre os seus respectivos temperamentos literários. Machado de Assis tinha enorme apego a Stendhal, autor de viés romântico, que não apetecia mais à “Geração de 70” à qual pertencia Eça de Queirós, cujos patronos eram Balzac e Flaubert — a ascensão do Realismo. Desde os seus dias como estudante de direito em Coimbra, Eça mostrou-se atraído ao socialista Proudhon, ao biologismo sociológico de Spencer, e o determinismo de Taine.

Os gostos de Machado talvez fossem reacionários à época, mas com eles transcendeu o realismo vigente, aproximando-se da vanguarda do século XX.

Mas você deve estar se perguntando qual foi a reação de Eça de Queirós aos vitríolos machadianos.

Bem, o escritor português recebeu as pauladas com inesperada calma, ao lê-las republicadas num jornal português, que ele recebia na Inglaterra, em Newcastle-Upon-Tyne, pois, diplomata de carreira, Eça era ali cônsul de Portugal — onde por sinal escreveu O Primo Basílio, em 1874.

Com fleuma e muita amabilidade, Eça de Queirós respondeu a Machado de Assis numa carta aberta, publicada num jornal português.

“Não quis estar mais tempo sem agradecer o seu excelente artigo. Apesar de me ser adverso, quase severo, e de ser inspirado por uma hostilidade quase partidária à Escola Realista — esse artigo, todavia pela sua elevação, e pelo talento com que está feito, honra o meu livro, quase lhe aumenta a autoridade”, escreveu Eça.

Tanta gentileza não logrou amolecer o coração do escritor carioca, e anos mais tarde, quando Eça pediu-lhe que escrevesse uma dedicatória no frontispício de um dos romances machadianos, a dedicatória do Bruxo foi talvez a mais curta e seca que se tem conhecimento na vida literária: “De Machado de Assis para Eça de Queiroz.”

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Financiamentos Coletivos e Pré Vendas abertas

Para os 90 anos de publicação da primeira narrativa de Conan, um novo livro de narrativas do cimério está sendo publicado por Marco Antonio Correa Collares. O Fórum Conan, o Bárbaro, ao lado do canal Explorando Segredos e Mistérios apresentam o material compilado de contos de fantasia em estilo pulp, em homenagem ao mais famoso personagem do subgênero literário da Espada & Feitiçaria: Conan, o Cimério. Com cinco contos inéditos deste brutal e influente personagem da cultura pop, escritos pelo mestre escriba Collares, tendo entre suas páginas diversas artes dos ilustradores nacionais, entre eles Mozart Couto, para muitos, o “John Buscema” brasileiro. Para saber mais, só clicar aqui.

Também já está no ar a pré-venda de Solomon Kane da editora Pipoca e Nanquim. Com um invejável ciclo narrativo que inclui aventuras sóbrias, nas quais Kane enfrenta piratas e escravagistas, mas também contos fantásticos e sobrenaturais, com a presença de fantasmas, vampiros, feiticeiros e demônios, este inglês puritano é tido como o personagem de Howard mais rico do ponto de vista psicológico, tendo se tornado um sucesso instantâneo entre os fãs desde a sua estreia, na revista Weird Tales, em agosto de 1928. A edição ainda inclui as capas da clássica revista Weird Tales, ilustrações do premiado artista Gary Gianni e um prefácio exclusivo do historiador Marco Collares (autor já mencionado no post). Para ver mais, só clicar aqui.

Já está em pré-campanha a Revista Mystério Retrô Extra: Agatha Christie. A Revista de mistério que conquistou o Brasil traz um conto de Natal inédito da Rainha do Crime. A Revista Mystério Retrô nasceu em 2018, inspirada nas antigas revistas de contos policiais e de terror que existiam no Brasil até os anos de 1970, como a X-9, Detetive, Mistério Magazine Ellery Queen e outras. Criada pelo escritor Tito Prates, autor da primeira biografia originalmente em língua portuguesa de Agatha Christie. Para saber mais, só clicar aqui.

Ninfas, Demônios, Fadas, Sílfides, Kobolds, Duendes, Iaras, Ogros e Djinns são apenas uma amostra do que o leitor encontrará em “Melusina e outros contos fantásticos” de Coelho Neto. A nova campanha de Melusine Press entrega ao público leitor uma coleção de histórias fantásticas recheadas de criaturas mágicas — as boas, as más e as piores —, escritas por um dos autores mais geniais de nossa literatura. Coelho Neto, ostracizado pelos mordernistas por ser um beletrista, um escultor das palavras, que caminhava contra a corrente em voga à sua época, agora resgatado e restaurado como a relíquia brilhante e única que é. Para saber mais, só clicar aqui.