segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Por que você nunca ouviu falar dos maiores escritores do Brasil? - Gabriela de Mendonça Gomes


"Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo."

Essa frase vem de um dos maiores romances do século XX, escrito por um dos maiores romancistas do século XX, João Guimarães Rosa. No entanto, talvez você nunca tenha ouvido falar dele, o que é estranho, pois o Brasil é, na verdade, maior do que os Estados Unidos continentais.

O português é a sétima língua mais falada do mundo, e o Brasil é o sétimo país mais populoso do mundo. Então, talvez você já tenha ouvido falar de Clarice Lispector, que está passando por um renascimento, o que é incrível. Ou talvez você já tenha ouvido falar de O Alquimista, de Paulo Coelho, ou talvez nem tenha percebido que ele era brasileiro.

Mas por que você nunca ouviu falar de nenhum outro escritor da rica história e tradição literária brasileira? Neste vídeo, quero mostrar a vocês não apenas alguns escritores brasileiros que vocês deveriam adicionar à sua lista de leituras — porque eles são incríveis e maravilhosos —, mas também quero usar a tradição literária do meu país como um estudo de caso para explicar por que algumas formas de realização se tornam completamente invisíveis. Por que algumas formas de realização se afastam para bem longe da terra do cânone, esquecidas e afundadas.

Então, vamos mergulhar um pouco na história brasileira para que você possa entender por que o Brasil perdeu impulso em comparação com a Europa ou a Hispano-América.

O que é o Brasil? De colônia a país

Em 1500, Pedro Álvares Cabral, um marinheiro português, desembarcou nas costas do Brasil. É claro que, naquela época, o país ainda não se chamava Brasil. Era apenas uma região habitada por uma população indígena extremamente diversificada.

Entre o desembarque de Pedro Álvares Cabral e a independência do Brasil em 1822, passaram-se 322 anos, durante os quais o Brasil foi um território colonial cuja economia se estruturava, inicialmente, em torno da exportação de pau-brasil — daí o nome do país —, depois do açúcar e, por fim, do ouro.

Enquanto isso, na Europa, em 1572, temos Vaz de Camões escrevendo Os Lusíadas. No século XVII, tivemos Cervantes, que escreveu Dom Quixote. No século XVIII, tivemos Voltaire, que escreveu Cândido. E, ao mesmo tempo, durante todo esse período, temos Hobbes, Locke, Rousseau e Hume em plena atividade, vivendo seu apogeu filosófico.

Mas, em 1808, começa uma mudança para o Brasil. Napoleão estava conquistando a Europa e a família real portuguesa disse: “Temos que fugir. Temos que sair daqui”. E assim eles fugiram para o Brasil e estabeleceram sua sede no Rio de Janeiro.

A partir daí, é claro, as instituições começaram a melhorar e a surgir. Assim, tivemos editoras e bibliotecas. Na verdade, o Rio tem uma das mais belas bibliotecas do mundo, na minha opinião. E então, alguns anos depois, em 1822, o Brasil conquistou sua independência.

Mas, é claro, a identidade brasileira ainda não era necessariamente uma questão em pauta, pois o Brasil acabara de nascer. Portanto, as perguntas que os escritores faziam nunca poderiam ter sido “O que deveria ser a literatura brasileira?” ou “O que é a literatura brasileira?”, mas sim “O que é o Brasil?” e “Quem é o Brasil?”. Isso se complicava ainda mais pelo fato de o Brasil ter uma população extremamente diversificada — e continuar tendo até hoje. É um dos países mais diversificados do mundo.

Em 1872, ocorre o primeiro censo nacional, que mostra que a maioria da população brasileira é composta por africanos escravizados ou descendentes de africanos escravizados, seguidos por brancos ou pardos e, em seguida, por indígenas. Portanto, temos essa população extremamente diversificada nesse momento, e o Brasil parece estar vivendo o “je est un autre” de Rimbaud, ou “eu sou outro”, porque não há um senso claro do que seja a identidade brasileira.

O que é essa coletividade que compartilhamos? O que significa ser brasileiro? Há essa estranheza interna no que a identidade brasileira é, por natureza.

Curiosamente, em 1928, Mário de Andrade escreveu um romance chamado Macunaíma. E Macunaíma é, em certo sentido, um herói sem caráter, que o é não por falta de caráter moral, pois ele é um sujeito meio preguiçoso e esquisito, mas, mais profundamente, porque, como Macunaíma — se formos descrevê-lo em linhas gerais — representa o Brasil, então o Brasil não pode ter um único caráter. Macunaíma passa por enormes transformações no romance porque o Brasil é tão ricamente diverso que não pode ser resumido a uma única resposta.

As primeiras respostas

Algumas décadas após o Brasil ter declarado sua independência — na década de 1850 —, temos escritores como Álvares de Azevedo, Castro Alves e José de Alencar, que escreviam dentro da tradição brasileira. Talvez seja inegável que a literatura seja sempre um ato de chamada e resposta e que, de certa forma, eles estivessem respondendo à tradição literária europeia, mas também é inegável que eles estavam tentando estabelecer uma identidade brasileira, como no caso de José de Alencar com O Guarani ou Iracema.

Depois, temos Machado de Assis, um dos nomes mais conhecidos internacionalmente. Machado, em sua juventude, teve uma breve passagem pelo romantismo, mas realmente encontrou seu caminho no realismo, que retrata temas cotidianos sem ideias ou formas grandiosas. Mas classificar Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado — uma autobiografia ficcional escrita por um homem a partir do túmulo após sua morte —, como o mesmo tipo de realismo de Madame Bovary, de Flaubert, é não fazer justiça à obra, pois Machado de Assis promoveu uma grande reconfiguração na estética do realismo.

Como escreve Hans Ulrich Gumbrecht em seu capítulo sobre “Diálogos Emergentes sobre Machado de Assis”, o realismo de Machado “baseia-se em um firme questionamento filosófico sobre a transposição da realidade para a representação” e concentra-se em “uma forma narrativa singular de instabilidade e autorreflexividade”, e isso não poderia ter acontecido de outra maneira.

O sociólogo brasileiro Jessé Souza descreve a modernização ocorrida nos séculos XIX e XX como seletiva e superficial. Ele escreve que, embora as instituições modernas tenham se expandido, isso ocorreu de forma desigual, reforçando, em vez de dissolver, as profundas hierarquias sociais originadas dos sistemas econômicos fundadores do país. Pois, nos séculos XIX e XX, o Brasil se orgulhava de metrópoles em expansão, como o Rio e São Paulo, mas elas coexistiam com esses sistemas quase feudais, os latifúndios, grandes propriedades pertencentes à aristocracia.

E essa estrutura desigual da modernidade molda o que a literatura brasileira se tornou, pois um realismo estriado não pode simplesmente existir em uma modalidade singular de escrita.

Observe que, em Brás Cubas, Machado nos conta uma história de fantasmas. Em 1993, Jacques Derrida escreveu Espectros de Marx, no qual cunhou o termo composto “hauntologia”, argumentando que o presente nunca existe como uma unidade autônoma. Ele é sempre assombrado tanto pelo passado quanto pelo futuro. Assim como a vida de Brás Cubas só é contada e compreendida por meio de sua reflexividade após a morte — e o fantasma do pai de Hamlet é um personagem em Hamlet que promove mudanças —, então, as ideologias do passado moldaram o presente. É isso que vemos acontecer na literatura brasileira e na história do Brasil: o passado colonial do Brasil paira por trás de cada ato de escrita e influencia a questão de quem é o Brasil.

No início do século XX, temos escritores como Euclides da Cunha, Monteiro Lobato e Lima Barreto, com respostas diferentes para a pergunta: quem é o Brasil? Essas respostas coexistentes revelam a identidade plural e as diversas formas de existência da literatura brasileira, do povo brasileiro e da vida brasileira.

Assim, Euclides nos dá a resposta no sertão, o interior do Brasil no qual muitos autores se concentram, como Graciliano Ramos e também João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas.

Temos também Lima Barreto, que, na verdade, é cético em relação a todo o projeto de construção da nação. Temos aquele ditado popular de que “a história é escrita pelos vencedores”, e Lima Barreto, que tem origem mestiça e é filho de escravos, diz: “vamos examinar isso, vamos investigar isso”, e lança um olhar cético sobre todo o projeto de construção da nação.

E depois temos Monteiro Lobato, que na verdade é mais conhecido por escrever literatura infantil, criando uma das séries de literatura infantil mais famosas de todo o Brasil. Ele está mais focado em como construir uma nação, nos aspectos práticos desse projeto de construção nacional e em como a economia brasileira pode se configurar. Ele tem uma série de contos chamada Cidades Mortas, que trata de cidades mortas, cidades que renascem e coisas do tal.

Então, a genialidade da literatura brasileira já está presente. Ela já está estabelecida. Já temos muitos grandes escritores, e isso só vai melhorar daqui para frente. Mas nunca se consolidou no cânone como Dickens ou Tolstói. E isso nos leva a 1922, quando surgiram os modernistas brasileiros.

Tupi ou não Tupi: Modernismo Brasileiro

Em 1922, o modernismo europeu e norte-americano já estava bem avançado. Se você tiver mais interesse nesse assunto, tenho um vídeo sobre isso também, cujo link vou colocar aqui e na descrição.

Os escritores brasileiros que tinham mais dinheiro, assim como os artistas brasileiros, foram para a Europa e viram essa evolução artística. Eles conheceram o cubismo, o futurismo, o surrealismo e voltaram para o Brasil com essas ideias em mente. E então temos um grupo de cinco artistas que decidiram que o Brasil precisava estabelecer sua própria tradição, que não fosse apenas uma resposta à tradição literária europeia, mas algo próprio. É algo que tem um valor absoluto e um valor exportável, assim como a madeira de pau-brasil teve no início da história literária do Brasil. Falaremos sobre isso daqui a pouco.

Mas esses cinco artistas decidiram que, na comemoração do centenário da liberdade do Brasil, teríamos também uma celebração da história e da literatura brasileiras. Foi chamada de “Semana de 22”, sendo que o número 22 se referia ao ano de 1922, e ocorreu durante os três dias do carnaval brasileiro, que é uma grande festa que acontece todos os anos no Brasil nas mesmas datas. Foi uma exposição no Teatro Municipal de São Paulo, aberta a todos, ao público em geral. Apresentou cerca de 100 obras e, à noite, havia apresentações literárias e musicais, leituras e encontros. Na verdade, quando aconteceu, não causou grande impacto no Brasil. Foi somente após a morte de um dos cinco principais artistas, Mário de Andrade, em 1945, que o evento foi reconhecido como um grande catalisador e ponto de inflexão na história brasileira para o modernismo e a literatura brasileiros.

Vamos voltar aos anos 20. Em 1924 e 1928, Oswald de Andrade escreveu dois manifestos muito importantes para a literatura brasileira da época.

O primeiro manifesto se chamava Manifesto do Pau-Brasil, e a ideia era que a literatura brasileira não deveria ser definida pelo que não é — ou seja, não ser literatura europeia. Ela deveria ter uma definição positiva e independente, e essa definição deveria partir de uma essência brasileira genuína. Portanto, deveríamos voltar à essência primária e brasileira que temos em nós mesmos, como brasileiros, e, então, usar isso para criar poesia exportável. Assim como a madeira de pau-brasil, no início, era muito exportável e até deu ao país seu nome na Europa — sendo muito valiosa —, da mesma forma a poesia brasileira, a literatura brasileira e a arte brasileira deveriam ser igualmente valiosas e exportáveis também.

O Manifesto Antropófago surgiu quatro anos depois. Já pelo nome dá para perceber que a vibe é diferente. Estamos falando de algo muito mais agressivo, muito mais firme. O que Oswald diz aqui é que precisamos devorar e metabolizar o que há de valioso no outro — ou seja, na Europa —, deixar o resto para trás, apropriar-nos disso e torná-lo brasileiro. Assim, nessa metabolização dentro do corpo brasileiro, por assim dizer, damos à luz a uma nova literatura brasileira, e a frase mais famosa é “tupi ou não tupi. Essa é a questão”.

A ideia é que o Brasil deva abraçar suas raízes indígenas, também conhecidas como tupi, que é um grupo mais amplo — existem muitos outros grupos e variedades indígenas no Brasil —, e isso torna a literatura brasileira acessível e real para o povo brasileiro. Use a gramática falada. Não use necessariamente regras gramaticais rígidas. Há um famoso poema de Oswald que começa com “dê-me um cigarro”, que é o imperativo formal. Mas ele diz: “deixa disso, camarada”, “Deixa isso pra lá, mano. Me dá um cigarro”, como todo mundo diz. Ele defende um uso popular da linguagem e aborda temas relevantes para o povo brasileiro, criando literatura brasileira para a população brasileira.

Oswald deu uma resposta muito clara sobre o que e para quem ele achava que o Brasil era. E foi uma resposta muito nietzschiana, que afirmava a vida. Ele disse: “Diga sim a toda a vida, em seu caos, em sua variabilidade e em sua falta de sentido”. Esse ponto de ruptura, do qual a literatura brasileira deve surgir por ser descolonial ou pós-colonial, não é, mais uma vez, um enterro, mas um plantio. Podemos transfigurar tudo isso ao metabolizá-lo. É disso que trata aquele manifesto antropófago. E então podemos produzir a literatura brasileira. E esse ponto a partir do qual tudo começa é exatamente de onde surgiram as maiores obras-primas da literatura brasileira.

As obras-primas desconhecidas

Em meados do século XX, as questões da nação, da natureza, da essência e do “ser brasileiro” tornaram-se as condições das quais surge a literatura brasileira. E é exatamente daí que surgem algumas das maiores obras. Existem muitos escritores que eu poderia apresentar a vocês, mas vou escolher quatro que formam um arco mais coeso, mesmo sabendo que estou deixando muitos de fora e que poderia passar horas e horas falando sobre cada um deles com mais profundidade. Então, tenham paciência comigo. E se estiverem interessados em saber mais, é só me avisar nos comentários.

Esses quatro escritores nos mostram uma trajetória de como a literatura brasileira passou de expor as condições materiais — que são a identidade, a vida e a realidade brasileiras — para reinventar a linguagem a fim de mostrar que precisamos de uma nova estrutura para transmitir o que é o Brasil.

Nas obras de Graciliano Ramos, especialmente em Vidas Secas, temos o sertão, temos o interior. Ele descreve um mundo onde a sobrevivência é precária, onde as estruturas sociais são concretas e opressivas. E é assim que temos de viver. Não há outra escolha. Aqui está um exemplo: quando você lê, sua boca fica seca com todo aquele vocabulário empoeirado do sertão, mas o texto é rico em imagens.

“Fabiano dava-se bem com a ignorância. Tinha o direito de saber? Tinha? Não tinha. — Está aí. Se aprendesse qualquer coisa, necessitaria aprender mais, e nunca ficaria satisfeito.”

A propósito, essa é a minha própria tradução que estou usando. Existem traduções diferentes, mas, sabe, neste vídeo, estou apenas usando minhas traduções pessoais dessas obras. Com Ramos, o Brasil é fome. O Brasil é seca. O Brasil é sobrevivência. O Brasil é reduzido à realidade brutal da vida material. Fabiano sabia que seu conhecimento o tornaria insaciável, o que é impossível na caatinga onde ele vive.

Mas Carlos Drummond de Andrade, de Minas, que morava no Rio, nos leva da questão de como sobreviver e do que é ser para a questão de como é existir na condição histórica. Vou ler alguns versos em português para que vocês possam ouvir a música, mas colocarei as traduções em inglês abaixo. Drummond de Andrade destaca o momento atual, o momento presente da modernidade, como a condição em que ele precisa escrever. Ele não está escrevendo sobre o passado. Ele não está escrevendo sobre o futuro. Ele está escrevendo sobre o que significa existir neste momento histórico da modernidade. Ele escreve a partir do íntimo da intimidade, das amizades, do amor, da perda, do luto e de como a modernidade influencia, transforma e molda todas essas experiências.

Mas, em Clarice Lispector, a sensação de estabilidade começa a se dissolver. Lawrence Debbs, em seu vídeo sobre Clarice Lispector, explica isso muito bem. Ele diz que ler Lispector é como ler um alienígena escrevendo sobre a vida humana, a atividade humana, observada a partir desse ponto de vista alienígena, porque a maneira como ela descreve as coisas faz com que essas coisas normais ou cotidianas pareçam tão estranhas e tão dissociativas, já que a mentalidade e a consciência da escrita começam a girar e girar em torno dessas experiências que não conseguem necessariamente colocar em palavras; e ela tenta e falha, tenta e falha repetidamente para chegar a algum tipo de resolução.

Um exemplo perfeito disso é provavelmente sua obra-prima, A Paixão Segundo G.H.. A Paixão Segundo G.H. é sobre uma mulher que encontra uma barata escondida no armário e passa horas e horas e horas pensando nas implicações — você sabe, espirituais, transcendentais, psicológicas — sobre o que essa experiência significa para sua vida. E ela debate todas essas questões, inclusive se deve ou não comer a barata. E é isso que acontece ao longo de 300 páginas. E, assim como Sethe tentando, em Beloved, contar a Paul D sobre suas experiências difíceis — há aquela cena maravilhosa em que ela fica dando voltas e mais voltas, sem nunca conseguir se aproximar do que quer dizer ou articulá-lo —, Clarice Lispector mostra que existe essa irredutibilidade. Há essa instabilidade que nunca nos permite compreender plenamente o que é ser essa consciência na modernidade.

E enquanto Clarice Lispector se concentra na falha da linguagem, Guimarães Rosa surge e diz: “E se simplesmente a reinventássemos? E se simplesmente a mudássemos?”. Se há experiências que as línguas não conseguem conter, Guimarães Rosa diz: Vamos mudar a linguagem. É exatamente isso que ele faz em sua obra-prima, Grande Sertão: Veredas. Em Grande Sertão, ele cria uma linguagem híbrida que utiliza o português erudito, o português rural do sertão e do interior, bem como mitologias e neologismos que os críticos frequentemente comparam a James Joyce em Ulisses.

O romance Grande Sertão é um romance de fluxo de consciência que vai e volta no tempo, conta uma história e depois repensa essa história; é complexo e belo como Ulisses. Em 2016, a Words Without Borders, uma excelente revista literária sobre tradução, publicou um trecho de uma tradução — vou colocar o link na descrição para que vocês possam conferir, caso tenham interesse. Mas, desde o início, João Guimarães Rosa nos deixa claro que o mundo em que estamos entrando é um mundo de ruptura, é um mundo novo, é algo que nunca vivemos antes.

Porque a primeira linha e a primeira palavra — é apenas uma palavra — é “nonada”. Em inglês, a tradutora da Words Without Borders traduziu como nonought. Mas “nonada” pode significar muitas coisas. Não é uma palavra em português comum, sabe, do tipo que aparece no dicionário. Pode significar “no meio do nada”, vindo do nada. É nada. Não se preocupe com isso. Mas, em todos esses casos, partimos de um ponto zero. Não temos nada. Estamos no nada. E a partir desse ponto de criação, podemos começar de novo, renovando ou dando um novo sentido às coisas. E é isso que Guimarães Rosa faz em Grande Sertão.

Por que essas obras-primas estão esquecidas?

E então temos que perguntar: por que essa obra não é considerada entre as grandes da literatura? O que aconteceu? Onde ela se perdeu?

Uma resposta simples, que, na minha opinião, é excessivamente simplista, é que Grande Sertão, por exemplo, justamente por causa de sua singularidade, grandiosidade e inovação linguísticas, é intraduzível. No entanto, ouvimos de muitas pessoas que Dostoiévski, por exemplo, é intraduzível. Que, nas primeiras linhas de Memórias do Subsolo, ele usa o “eu” de muitas maneiras diferentes em russo, o que, nessa língua, cria conexões que formam o conteúdo e nos dão uma compreensão totalmente diferente do que o texto já nos apresenta. E, no entanto, talvez você já tenha lido Memórias do Subsolo. Provavelmente já ouviu falar dele. E há muitas traduções em inglês que você poderia ler.

Portanto, eu me atreveria a dizer que a tradução não é o problema. O problema é que o que é entendido como cânone não é uma lista formada objetivamente. É um empreendimento historicamente condicionado e, francamente, colonial, que moldou a forma como entendemos a literatura e onde a literatura brasileira foi categorizada.

Na coletânea de ensaios de Arthur Krystal, This Thing We Call Literature, ele apresenta uma breve história do cânone:

“A palavra ‘cânone’, do grego, significava originalmente ‘régua’ ou ‘regra’ e era usada pelos padres da Igreja para diferenciar os livros genuínos ou canônicos da Bíblia dos apócrifos. Na prática, o cânone formalizou a literatura moderna como um conjunto seleto de escritos imaginativos capazes de se equiparar aos textos gregos e latinos.”

São a Ilíada e a Odisseia que se tornaram referências para a escrita de qualidade. Mas quando as nações europeias começaram a se concentrar em suas próprias línguas e tradições literárias, a Europa e a Inglaterra, por exemplo, pensaram: “Bem, precisamos de Shakespeare, precisamos de Milton”; e a França pensou: “Bem, precisamos de Montaigne e Molière”; e foi assim que o cânone começou a se formar como o conhecemos hoje.

A literatura russa — Dostoiévski ou Tolstói — já fazia parte de uma tradição literária voltada para a Europa. Traduções do russo para o francês ou do russo para o alemão já estavam mais facilmente disponíveis. Ela foi absorvida pela história intelectual europeia.

Krystal continua:

“O cânone consagrou os dignos e, por implicação, os indignos, funcionando como um conjunto de mandamentos que poupava as pessoas do trabalho de decidir o que ler.”

E esses se tornaram os clássicos.

Aí, nas décadas de 1960 e 1970, influenciadas pelo contexto cultural da Guerra Fria e da Revolução Cubana, muito mais atenção internacional começou a se concentrar na região da América Latina, digamos assim. Mas lembre-se de que Grande Sertão: Veredas já havia sido escrito — foi escrito em 1956 ou publicado nessa época —, mas a literatura brasileira foi novamente deixada de fora desse momento, pois grande parte do foco estava na literatura hispânica ou na literatura escrita em espanhol.

Além disso, a Espanha tornou-se uma forte defensora da publicação da literatura espanhola e impulsionou grande parte da literatura latino-americana — como a de Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes ou Jorge Luis Borges — para contextos de língua espanhola, inglesa e de outras línguas fora da América Latina. Mas o Brasil continuava de fora e esquecido.

A questão é que a literatura brasileira foi relegada a um subgênero: é literatura latino-americana, é modernismo regional, é algo totalmente diferente. E, claro, o problema é que fico me referindo a esse cânone como se fosse uma lista, mas não é uma lista física. Assim como um mapa impresso bidimensional do mundo que você vê a vida toda e sabe que está distorcido em tamanho — os lugares não são tão grandes ou tão pequenos quanto realmente são retratados —, o mapa da literatura mundial que muitos de nós herdamos está igualmente distorcido.

Em inglês, a palavra fate (destino) vem do latim fatum, que significa algo dito e depois registrado por escrito, pois, uma vez escrito, permanece para sempre.

Felizmente, agora temos traduções de Clarice Lispector, de Guimarães Rosa, de Carlos Drummond de Andrade, de Graciliano Ramos, etc., etc. E vocês, como leitores, podem consumir essa literatura com a consciência que agora adquiriram. Você pode mudar o que é lido, como é lido e por quem é lido. E você pode ser um leitor guerrilheiro.

Todo cânone literário seja também uma história da atenção. Ele nos mostra o que gerações de leitores escolheram preservar, bem como o que lhes foi ensinado a ignorar. A história do Brasil e o cânone oculto do Brasil nos mostram que visibilidade e grandeza não são a mesma coisa. Nem a invisibilidade e a grandeza são mutuamente exclusivas. Isso nos mostra que as obras-primas literárias podem estar logo além do mapa do que já conhecemos, logo além de sua visibilidade. E, embora o mapa que herdamos seja incompleto, cada ato de leitura pode ser uma forma de redesenhá-lo.

E, obviamente, como brasileira, quero mais literatura brasileira no cânone. Mas sei que existem muitas, muitas tradições literárias negligenciadas. Por isso, estou curiosa para saber o que você consideraria uma tradição literária que tenha sido negligenciada, ou quais escritores do seu país ou da sua origem que tenham sido negligenciados e devam ser incluídos em nossas listas de leituras obrigatórias.

Se você chegou até aqui, obrigado mais uma vez. Agradeço seu tempo e atenção. Como sempre, por favor, me avise se houver mais alguma coisa que você gostaria de ouvir de mim, quaisquer reflexões que tenha sobre a literatura brasileira, sobre a tirania do cânone ou qualquer outro assunto.

Obrigada e continue lendo. Para saber mais, clique aqui.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Terço de Nossa Senhora de Pentecostes

Terço

Creio - Pai Nosso - 3 Ave Marias

Nas Contas Grandes:

"Então ficou decidido que tudo seria através de Maria, por meio de Maria!"

Nas Contas Pequenas:

Nossa Senhora de Pentecostes, rogai por nós que recorremos a vós!

No final rezar a Consagração:

Ó MARIA, FILHA PREDILETA DO PAI, MÃE SANTÍSSIMA DO NOSSO SENHOR JESUS SALVADOR, ESPOSA MÍSTICA DO ESPÍRITO SANTO, NOSSA SENHORA DE PENTECOSTES, NÓS NOS CONSAGRAMOS AO VOSSO MATERNAL AMOR E VOS TOMAMOS COMO MODELO PERFEITO DE LOUVOR A DEUS, DE SANTIDADE, DE ESPÍRITO MISSIONÁRIO E EVANGELIZADOR. VÓS, QUE NO DIA DE PENTECOSTES, JUNTO COM OS APÓSTOLOS, FICASTES REPLETA DO INEFÁVEL DOM DO ESPÍRITO SANTO, AJUDAI-NOS NA EFUSÃO DO MESMO ESPÍRITO QUE RECEBEMOS NO DIA DO BATISMO, SERMOS CONSTANTEMENTE FIÉIS AO SENHOR. AMÉM!

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domingo, 14 de junho de 2026

LICANTROPIA SERTANEJA – por Luís da Câmara Cascudo

Idealizada pelas editoras Clepsidra e Ex Machina, em parceria com o canal Fantasticursos, a coleção Contos Clássicos surge justamente para suprir essa lacuna, oferecendo ao leitor brasileiro antologias de peso capazes de explorar a fundo cada uma das grandes tradições da literatura fantástica, mas com rígidos critérios editoriais. O primeiro volume foi Contos Clássicos de Fantasma, e hoje estamos muito felizes de apresentar-lhes os dois próximos volumes: contos clássicos, raros e obscuros de Vampiros e Lobisomens. Para melhor divulgação, deixo abaixo o brilhante texto de Câmara Cascudo sobre lobisomens. Para saber mais da campanha, clique aqui. Para download do texto do folclorista, clique aqui.

Ao ilustre amigo Dr. Robert Lehmann Nitsche.

Lycaon, filho de Pelasgo, rei da Arcádia, tornou-se hóspede duma noite. Foi transformado em lobo. Para conjurar tamanho castigo, os Árcades construíram um templo a Júpiter-Lyceo (do grego, Lycos, lobo). Na Grécia, vindo dessa origem mítica, registrou-se gravemente o fenômeno. Desaparecendo a forma de um suplício, surgiu a licantropia. Era uma moléstia.

Durante o mês de Fevereiro, os licantropos pululavam. Heródoto assela-os em sua história. Em Roma, Pan era Luperco (do latim, Lupus, lobo). Daí as Lupercaes, festas votivas em Fevereiro, justamente comemoração solene dos Mortos entre os gregos e multiplicação de licantropos. Acca Laurentia, a loba, foi deificada. Em todas as estátuas e medalhas, signos e camafeus, era representada sob a forma lupina.

Para Pomponius Mela, os Neuros podiam transmudar-se em lobos. Os Neuros habitavam a Scythia, e, segundo Aristeus Proconnesius, Isigonus Nicaeieinsis, Ctesias, Onescritus, Polystephanus e Hegesias, citados por Aulo Gello, era um país de assombros. Os Scythas eram antropófagos. Nas regiões vizinhas, moravam raças espantosas, desde os Arismaspes, que tinham um só olho no meio da testa como ciclopes, até os outros homens que possuíam os calcanhares às avessas, gênese dos Matuyus que o Padre Simão de Vasconcellos devia encontrar no Brasil. Vem a série dos firmes credores do licantropo. Foram Isocrates, Varrão (em Santo Agostinho), Heródoto, Pompinius Mela, Petrônio, e Plínio, o Antigo.

Petrônio descreve detalhadamente a licantropia.

Pedem a Niceros, conviva do faustoso Trimalcion, uma narrativa de aventuras. Historia o interrogado que, tendo de ir a Capua, convidou um soldado valente, seu velho camarada. Era noite de lua. Atravessando um cemitério, o soldado conjurou as estrelas, despiu-se, pôs urina nas roupas e tornou-se lobo, uivando e correndo pelo mato. Niceros não pode recolher as roupas do companheiro porque haviam tomado a forma de pedras. Atemorizado, fugiu para casa de Melissa de Tarento. Esta contou-lhe o assalto de um grande lobo ao redil e subsequente luta com um fâmulo que ferira o animal no pescoço. No outro dia, Niceros encontrou o amigo nas mãos dum médico – tinha um profundo ferimento na nuca. Era um Versipelio, no dizer de Plínio.

A origem da lenda é naturalmente religiosa e comum ao Egito, aos Vedas, à Caldéia, às regiões da Ásia e África. Com o Império Romano espalhou-se a crendice, amalgamando outras, adaptando-se aos novos ambientes. É a repetição do caso de domínio contraproducente. O país vencedor é quase sempre influído pelo derrotado. Depois de Grécia vencida é que os Romanos conheceram a Hellade. Veio o Versipelio para Portugal com a conquista. Deve ter aí tomado o nome que hoje usa.

A licantropia deve ser de origem ética. Vingança de um ser divino em quem desobedeceu as leis sagradas de hospedagem. Os eternos viajantes gregos podiam ter posto curso a esta história antecipando pelo terror um melhor tratamento nas paragens visitadas. As narrativas de Platão, Ovídio e Pausanias sobre Licaon, tornaram-no tipo de mau hospedador. A justiça vinda do alto Olimpo caía sobre o crime de um príncipe na pessoa de um deus.

No Brasil, as complicadas teogonias selvagens exilam o versipelio. Criaram o Capelobo, animal fantástico, invulnerável, velocíssimo e perseguidor dos índios e caçadores ousados. O Capelobo é criado pelo ramo racial dos mamelucos. Não pode ser autóctone como o Anhangá e o Caipora. Para algumas tribos é o velho que já esqueceu a idade. Noutras, é um animal como o Tapuaiauara, misto de paquiderme e felino, com patas de anta e orelhas de cão.

O licantropo grego, o versipelio latino, o loup-garou de França, o vou-kadlak dos Eslavos, o verfölfe alemão, o capelobo ameríndio, estão absolutamente irmanados com o Lobisomem sertanejo.

Em Portugal o lobisomem é o filho que nasce depois de uma série de sete filhas. Em geral fica pálido, doente, tristonho, cheio de manias, quase sempre geófago contumaz. Encontrando o lugar onde os animais se espolinham, o predestinado se espoja e "vira" lobisomem. Isto às terças ou sextas-feiras. Sob a pele do fenômeno, terá de correr as sete partidas do mundo, sete adros, sete vilas, sete outeiros, sete encruzilhadas. Ao terceiro cantar do galo retoma a forma humana. É de notar o uso de um número que a astrológica caldaica tornou fatídico – o 7. Para desencantá-lo é mister o signo de Salomão, a estrela de dois triângulos. Vendo-a, perde o veso das correrias. Podem matá-lo também. Invulnerável a tiro, é sensível a qualquer ferro aguçado. Quem manchar-se no sangue do lobisomem, herda o hábito.

Para o Sertão o lobisomem está fixado em dois modos: como castigo e como moléstia. A reminiscência de Licaon é patente no primeiro caso. Júpiter, pai dos homens, castigou um filho espúrio, fazendo-o lobo. O mau filho é candidato a lobisomem. O "doente" é pessoa apontada comumente. Magro, descarnado, vacilante, de olhos apagados e face decaída, o licantropo sertanejo é um tipo vulgar de opíparo, uma vítima da verminose, mais filho do helminto que de Belzebu.

Em casos especiais, o malefício se opera determinado por uma lei de punição suprema.

É o raríssimo incesto. O incestuoso ou seu descendente mais próximo, será lobisomem. Semelha à manceba do vigário que é a "Burrinha de Padre", trotando pelos descampados, se, por funesto acaso o pároco esqueceu de amaldiçoá-la antes de celebrar missa.

O cerimonial para ser-se lobisomem é simples. Na noite da quinta para a sexta-feira, antes das 11 horas, o futuro loup-garou matuto dirige-se ao local onde os animais se espojam. Quase sempre na encruzilhada existe o capim machucado e revolto pelos irracionais preguiçando. Depois de despir-se, põe a roupa pelo avesso, dá sete nós na camisa e rola da esquerda para a direita, reunindo os pés e as mãos. Daí em diante, como na história de Petrônio, lupus factus est, ululare coepit, et in silvas fugit.

Até o terceiro cantar do galo, o lobisomem galopa e rincha, berra e foge, espalhando terror. Ataca os caminhantes solitários para sugar-lhes o sangue. Vendo duas pessoas, esconde-se. Picando-o à faca, "quebram" o fado por aquela noite. É vulnerável a tiro. Somese ouvindo o canto do galo. O galo, em todas as histórias e lendas sertanejas, é o libertador do medo, o vencedor das trevas, augúrio do Sol, arauto do dia longínquo. Não há fantasma ou alma penada que resista a seu canto sonoro. Curioso é lembrar-se que Apolônio de Tiana evocou a sombra de Aquiles e esta desapareceu após o galo ter cantado. Quando a coruja, o mocho e o corvo servem de emblemas às bruxarias e maldades, o galo é o símbolo da alegria, das forças sadias e votadas ao Bem. É ele, ancestralmente, o inimigo do Demônio.

Laetos tenebris noctium,

Gallo canente exterritos

Sparsim temere, et cedere.

Cantava o poeta Prudêncio, já cristão e amável louvador do ilustre galináceo. De um antiquíssimo canto que fazia parte da liturgia na diocese de Salisbury, havia estrofes cheias de amizade e carinho, onde se destacava esta afirmativa:

Gallo canente spes redit.

Acresce aos atributos divinos do Galo, além de fazer reaparecer a esperança, a honra de ter sido a primeira ave a anunciar o nascimento de Jesus. Cristo nasceu! É o canto dos galos na noite de Natal.

Com o estridor sonoro de seu grito, o lobisomem grune e rosna, mas, receia e foge.

Todos aqueles que anotaram a vida sertaneja, dedicam largas páginas ao Lobisomem. Henry Koster registrou-o em sua viagem de Recife a Camocim. Gustavo Barroso, um dos verdadeiros conhecedores do Sertão, ilustre e consciente folclorista, narra uma história ouvida por mim vezes diversas.

Um casal ia visitar um amigo que morava distante. Atravessando uma capoeira, o marido pretextou ligeira necessidade e meteu-se pelo mato. Daí a minutos a mulher era assaltada por um animal furioso. Defendendo-se, sacudiu o xale de lã vermelha na goela da fera e fugiu, trepando numa árvore. O bicho sumiu-se. No outro dia, a mulher, reparando na dentadura do marido que dormia ressupino, encontrou nos dentes, as felpas do xale vermelho: o marido era o lobisomem. O monstro não respeita rezas nem invocações aos Santos. Antonio Ferreira, morador em Estivas, teve uma luta com um lobisomem durante duas horas. Gritou pelo Céu inteiro, tentando ferir o bicho à faca. Pela madrugada, semiexausto, pode segurar um galho de aroeira e salvar-se. A velha Victoria Maria, pernoitando numa casinha entre Timbó e Curral de Baixo, município de Ceará-Mirim, teve ocasião de assistir um encantamento, pondo fim ao bruxedo com um pequeno golpe de machadinha no braço do pseudo fantasma.

Uma das mais extraordinárias histórias é a do vaqueiro José Francisco de Paula na Fazenda São Tomé, em Santa Cruz, largamente conhecida pelos comboieiros e traficantes de algodão e sal. Sob o alpendrado, rara seria a noite em que, cinco ou seis vaqueiros e mascateantes, não dormissem, contando, à ceia, aventuras e viagens. Numa noite em que estava o casal sozinho, ouviu-se o latido desenfreado dos grandes cães de caça que José Francisco possuía. Não prestou atenção. Em cada semana, da quinta para a sexta-feira, os cães “acuavam” barulhosamente. Finalmente o vaqueiro entreabriu, altas horas, a janela e viu passar, seguido pelos cachorros enfurecidos, um animal corpulento, meio-baixo, roncando e batendo insistentemente as largas orelhas de perro. Daí a dias, um comboio pernoitou na latada. Narraram-se assombramentos e caçadas. José Francisco historiou o caso. Um do grupo, adoidado e façanheiro, bateu na coronha do bacamarte, jurando morte ao monstrengo assustador. Veio a treva. Ao nascer da lua, pelas proximidades da meia-noite, ouviram o tonitroar dos cães e a marcha resfolegada de um bicho correndo. Aperraram as armas. De gatilho alçado, esperaram. De repente o abantesma surgiu. Estalaram as espoletas e uma descarga relampejou num estrondo pelo pátio deserto e mudo. O animal, num ronquejo horrendo, caiu pela barranca do rio já seco no verão escaldante que se iniciava. Correram para lá. Era um lobisomem. Ferido de morte, não se desanimalizara inteiramente. Da cintura para cima, era um homem moreno, forte, de nariz aprumado, mãos delicadas, cabeleira castanha, encaracolada, um desses mestiços de família, criados na ociosidade das vilas sertanejas: da cintura para baixo, semelhava um porco, sarrudo, cheio de lama e de garranchos, os cascos firmemente cravados na areia frouxa do rio. Enterraram-no ali mesmo. José Francisco de Paula mudou-se para Estivas onde morreu anos depois, sem nunca esquecer a noite da caçada impressionante e trágica.

Francisco Teixeira, Seo Nô, por muito tempo nosso guarda num sítio, reproduziu, inconscientemente, a narrativa de Niceros, no Satiricon petroniano. Trabalhando num engenho de açúcar, Nô passava o serão levando em descrédito as aparições e bruxarias comentadas pelos companheiros. Um deles, João Severino, meio zangado, declarou-lhe que, em breve tempo, se arrependeria de zombar dos lobisomens. Os colegas do eito foram explicando ao Nô que ele andasse armado e não fosse muito longe das casas. Uma noite atravessando uma varjota, Nô encontrou-se com um bezerro grande, todo negro e peludo que se precipitou num salto sobre ele. Nô bateu mão da faca e lutou deveras. Sentindo-se cansado, sacudiu uma facada bem dirigida, apanhando o agressor no pescoço. Este, grunhindo, correu. Pela manhã, não vendo João Severino entre os habituais cortadores de cana, inquiriu e veio a saber que ele estava doente. Correndo até a casa, encontrou-o de nuca amarrada e bebendo mezinhas. Estava com um corte no pescoço. Se Nô soubesse latim teria citado Petrônio: intellexi illum versipellem esse.

Os milhares de histórias de lobisomens são quase iguais. É sempre o animal atacando ou fugindo com uma picadela de mais. O antídoto é o “sino saimão”, “sino salamão” ou sinal de Salomão, a cruz feita em dois triângulos, com a palha santa no domingo de Ramos. Põe-na no lugar dos encantamentos. Vendo-a, o versipelio nunca mais beiradeja córregos e bufa, aos trancos, por descampados e várzeas. Se esconderem a roupa, ficará sempiternamente lobisomem.

Acredito que essas superstições, de cunho rigidamente moral, tenham sido postas em circulação pelos letrados, como elemento de ordem ética, equilibrando para uma melhor conduta, a gente semi-bárbara do Sertão.

O medo ao sobrenatural, o castigo após a morte, a vastidão das penas, o tempo sem fim do remorso, são, através das idades, bases naturais das religiões. Seria inútil mostrar como a Igreja Católica soube inteligentemente popularizar os seus dogmas, usando lendas cultuadas desde a mais remota ancianidade.

Os Neuros de Heródoto e Pomponius Mela, os homens-serpentes dos Vedas, são necessariamente utilizados como persuasão e terror. Aqui já se não dá o auto-milagre dos Neuros. O lobisomem é castigo, uma penalidade infamante e arriscada a morte certa. Por isso, talvez, o elemento letrado, indicando maior tendência à moralização dos costumes, não obstou a propagação da crendice, ajudando-a, antes, porque ela expressava um meio idêntico, com maior eficácia. Dá-se como ultrajante e hórrida, sorte a deste animal vagabundo semipoderoso e semifrágil. Para atemorizar o sertanejo se fez mister uma pena, prolongada após a morte. Sem temer a lei, zombando da força e habituado às batalhas dos elementos, o sertanejo, sub-raça que se adaptara a todos os climas, necessitava desta ambiação mítica, pressão à sua luxúria porejante, à sua avareza latente, ao seu temperamento irrequieto, dentro de aparente insensibilidade.

Estranho, misterioso, surgindo do intricado negro dos juremais, saltando, inopinado, da sombra escura das faveleiras e cardeiros esguios, correndo pelo ondulado relvoso das pradarias, o lobisomem, pecado vivo, dentro da grande noite supersticiosa, mantém sempre acesa a perene formação de assombros.

Agora que estamos tentando possuir uma literatura brasileira, sem o estreito regionalismo e pondo na Arte o mundo poliforme das esperanças nativas, o folclore sertanejo terá um papel eficiente e decisivo fixando a fisionomia espiritual do Povo, nas suas manifestações de crença, atitude ancestralmente definidora da moral coletiva em face duma geração que interroga e analisa.

É o coração humano, inquieto e palpitando em presença do susto, do sobrenatural e do inexplicável.

Sob a jaqueta de lã do Bretão ou na gibona de couro do vaqueiro, o pavor é idêntico, vendo, debaixo das oiticicas imensas ou na penumbra dos menhirs batidos pelo luar, a figura ligeira e negra, impressionadora e terrível do loup-garou, do lobisomem, capelobo dos índios, erudito versipellio, herança atávica do medo na alma triste dos homens...

LUÍS DA CÂMARA CASCUDO

**Fonte:** *Revista do Brasil*, São Paulo, Ano VIII, n. 94 p. 129-133, out. 1923.

Acervo do Instituto Câmara Cascudo – Ludovicus


domingo, 7 de junho de 2026

Uma Tradição Pagã no Interior do Ceará - Caretas - via O Sesyom


No mais profundo sertão brasileiro, uma figura misteriosa e barulhenta ganha as ruas durante a Semana Santa: os Caretas. Vestidos com trajes coloridos e máscaras assustadoras, eles mantêm viva uma tradição secular que mescla rituais pagãos ancestrais com a fé cristã. Essa manifestação me intriga desde que a conheci, por causa de sua energia e simbologia, ao mesmo tempo em que me encanta por sobreviver ao passar dos séculos. Pois, apesar de ser uma festa que hoje ocorre no mais isolado dos sertões com forte influência do cristianismo, ela remonta a antigos rituais pagãos que aconteciam há pelo menos 2000 anos.

No interior do Ceará, especialmente em regiões entre os Cariris e os Inhamuns, a brincadeira dos Caretas é parte inseparável da Semana Santa. Mas, antes de entrarmos nos contextos históricos e entendermos como essa festa chegou ao Brasil, acho que vale explicar primeiro como tudo funciona.

Basicamente, um Careta é algo parecido com isso aí que vocês estão vendo — e já já falamos mais sobre a indumentária. Vale ressaltar que existem diversos tipos de Caretas no Ceará, no Nordeste e no Brasil como um todo. A coisa varia bastante de lugar para lugar. E nem precisa mudar de estado — às vezes, de uma vila para outra, a brincadeira já muda completamente, alterando o sentido, a forma de brincar e o jeito de se vestir. Então, já comenta aí se você conhece alguma outra versão diferente da que vamos falar aqui.

Os Caretas que eu escolhi trazer neste vídeo são esses com roupas de retalhos e máscaras de couro. Porque, além de serem os que eu tive mais contato, acredito que são os mais próximos das origens da tradição — algo mais bárbaro, rural e visceral. Máscaras de borracha com personagens da cultura pop me parecem distantes da essência original da festa, da ideia que ela carrega e do seu espírito folclórico e rural.

Mas vamos lá.

A coisa toda começa na Segunda-feira Santa. A turma de Caretas se reúne e sai pelas cidades, vilas e sítios pedindo esmola — literalmente. Essas esmolas podem ser legumes, animais ou dinheiro. Tudo o que for arrecadado será usado no "circo", que acontece no Sábado de Aleluia.

Durante a semana, os Caretas continuam a jornada. Em alguns lugares, eles param na sexta-feira para preparar os detalhes da festa: o circo e o boneco do Judas. Mas, enquanto estão rodando, a farra corre solta: dançam forró, tocam, cantam, comem e bebem... enfim, é uma celebração. Afinal de contas, é época de colheita. Se a festa está acontecendo, é sinal de que a terra deu com fartura e os agricultores estão dispostos a doar para o evento acontecer.

E assim se segue a semana, com os Caretas guiados pelo som dos chocalhos, dos chicotes, do zabumba e do búzio. Até que chega o Sábado de Aleluia — o ápice da brincadeira. Nesse dia, é montado um "circo", uma espécie de arena cercada por cordas e madeira. Dentro, tudo é enfeitado com o que estiver disponível, como pés de milho, e as esmolas recolhidas ao longo da semana são colocadas ali — para serem roubadas por quem tiver coragem.

Sim, é isso mesmo. Quem quiser entrar e pegar o que conseguir, pode ficar com o que levar. Mas tem um detalhe: os Caretas estão dentro do circo e, a partir do momento em que você entra até o momento em que sai, o chicote estrala. E olha... tem louco que entra nisso sem camisa. Muita cachaça na mente.

Ah, e claro, o mais importante: no centro do circo há um pau fincado no chão, onde colocam o boneco do Judas, cheio de dinheiro dentro. Ele representa literalmente Judas e as moedas que recebeu por trair Cristo. Quem conseguir subir no pau e pegar o dinheiro, fica com a bufunfa.

E bem, como bom curioso que sou, desde a época em que morei lá até hoje, vendo os vídeos postados por amigos, eu fico me perguntando de onde vem tudo isso. Como começou? Porque, apesar dos traços cristãos, a influência pagã da festa é escancarada — e isso em um lugar onde muita gente nem sabe o que é paganismo. Então fui atrás, pesquisei um pouco, e é isso que vamos explorar a partir de agora.

A origem exata dos Caretas cearenses se perde no tempo, mas provavelmente suas raízes mergulham em rituais pagãos agrários trazidos pelos colonizadores ibéricos. As mascaradas populares na Península Ibérica – de onde derivam os nossos Caretas – são festas de fundo agrário e de origem arcaica, dedicadas ao culto ao Sol e à Natureza. Em sua essência, tais rituais celebravam o fim de um ciclo e o começo de outro: eram festejos de fertilidade, de renovação do mundo e da colheita, marcados pela comunhão entre o sagrado e o profano, pelo riso e pela transgressão.

Durante essas celebrações, acreditava-se que as fronteiras entre o divino e o terreno se dissolviam, permitindo à comunidade extravasar suas tensões. Era o momento de bagunçar mesmo, para só depois restaurar a ordem. Não por acaso, muitos mascarados expunham em praça pública os “pecados” da aldeia de forma satírica, numa catarse coletiva que visava banir esses erros e prevenir sua repetição.

Essa natureza subversiva e pouco ortodoxa das mascaradas fez com que a Igreja Católica, ao longo dos séculos, as visse com maus olhos. Documentos históricos mostram que, já no século IV d.C., autoridades religiosas condenavam as danças de mascarados, e na Idade Média elas chegaram a ser proibidas em alguns mosteiros. Durante a Inquisição, alguns participantes até foram perseguidos e punidos, tamanha a suspeita de heresia associada a essas festas de origem pagã.

No entanto, as tradições eram resilientes. De origem imemorial, atravessaram impérios e eras – sobrevivendo à romanização, à cristianização medieval e à modernidade. Incapaz de eliminar esses “cultos pagãos” profundamente enraizados no povo, a Igreja adotou a estratégia de demonizar para, depois, assimilar.

Primeiro, tolerou a presença dos mascarados nas festas cristãs, porém pintando-os como “espíritos malignos”. Depois, procurou enquadrá-los dentro de confrarias e tradições locais já cristianizadas, limitando seus “exageros pagãos” e dando-lhes novos significados ligados ao calendário religioso. Em outras palavras, ao invés de proibir totalmente, a Igreja introduziu essas manifestações na própria liturgia da Semana Santa, transformando os antigos rituais de expulsão do mal na queima e no castigo do traidor Judas.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Blood Legionaire - Dariusz Zawadzki


A dark, brooding piece from Dariusz Zawadzki's popular 'Legion" series of paintings.

Reminiscent of a tragic figure from WWI, this Legionaire is obviously from an even darker, more remote world.

Expertly painted in deep, dark colors, this is another exceptional work by this Polish master.

24" x 36" (62cm x 90cm)

Oil on Masonite

SOLD

domingo, 10 de maio de 2026

O Quarto de Música - Stephen King


Room in New York (1932), por Edward Hopper. Tela que inspirou a criação do conto “The Music Room”

Os Enderbys estavam em seu "quarto de música" — era como o chamavam, embora fosse apenas o quarto sobressalente. Antigamente, pensaram que seria o berçário do pequeno James ou da pequena Jill Enderby, mas após dez anos de tentativas, parecia cada vez mais improbável que um "Bebê Querido" surgisse do Nada para o Aqui. Eles haviam feito as pazes com a falta de filhos. Pelo menos tinham trabalho, o que era uma bênção em um ano em que homens ainda faziam fila para ganhar pão. Havia períodos de escassez, era verdade, mas quando o trabalho aparecia, podiam se dar ao luxo de não pensar em mais nada, e ambos gostavam que fosse assim.

O Sr. Enderby estava lendo o The New York Journal-American, um novo diário que não tinha nem meio ano de publicação. Era um tipo de tabloide, mas nem tanto. Ele costumava começar pelos quadrinhos, mas quando estavam "no trabalho", voltava-se primeiro para as notícias da cidade, percorrendo as histórias rapidamente, especialmente o boletim policial. A Sra. Enderby sentava-se ao piano, que fora um presente de casamento de seus pais. Ocasionalmente, ela acariciava uma tecla, mas não a pressionava. Esta noite, a única música no quarto de música era a sinfonia do tráfego noturno na Terceira Avenida, que entrava pela janela aberta. Terceira Avenida, terceiro andar. Um bom apartamento em um prédio de arenito resistente.

Eles raramente ouviam seus vizinhos de cima ou de baixo, e os vizinhos raramente os ouviam. O que era muito bom. Do armário atrás deles veio um único baque. Depois outro. A Sra. Enderby estendeu as mãos como se fosse tocar, mas quando os baques pararam, ela as colocou de volta no colo.

"Ainda nenhum pio sobre o nosso amigo George Timmons", disse o Sr. Enderby, balançando o jornal.

"Talvez você deva verificar o Albany Herald", disse ela. "Acredito que a banca na Lexington com a 60ª o venda".

"Não é necessário", disse ele, voltando-se finalmente para as tirinhas. "O Journal-American é bom o suficiente para mim. Se o Sr. Timmons foi dado como desaparecido em Albany, que os interessados o procurem por lá".

"Tudo bem, querido", disse a Sra. Enderby. "Eu confio em você." Na verdade, não havia motivo para não confiar; até o momento, o trabalho tinha corrido perfeitamente. O Sr. Timmons era o sexto convidado deles no armário especialmente reforçado.

O Sr. Enderby soltou uma risadinha. "Os Katzenjammer Kids aprontaram de novo. Desta vez pegaram o Capitão pescando ilegalmente — disparando uma rede de um canhão, na verdade. É muito divertido. Quer que eu leia para você?".

Antes que a Sra. Enderby pudesse responder, outro baque veio do armário, e sons fracos que poderiam ter sido gritos. Era difícil dizer, a menos que se encostasse o ouvido diretamente na madeira, e ela não tinha intenção de fazer isso. O banco do piano era o mais perto que pretendia chegar do Sr. Timmons, até que chegasse a hora de se livrar dele. "Eu gostaria que ele parasse".

"Ele vai, querida. Logo, logo".

Outro baque, como que para refutar isso.

"Foi o que você disse ontem".

"Parece que fui prematuro", disse o Sr. Enderby, e então: "Puxa vida — Dick Tracy está mais uma vez à caça do Cara-de-Passa (Pruneface)".

"O Cara-de-Passa me dá arrepios", disse ela, sem se virar. "Gostaria que o Detetive Tracy o prendesse de vez".

"Isso nunca vai acontecer, querida. As pessoas dizem torcer pelo herói, mas são dos vilões que elas se lembram".

A Sra. Enderby não respondeu. Estava esperando pelo próximo baque. Quando viesse — se viesse — ela esperaria pelo seguinte. A espera era a pior parte. O pobre homem estava com fome e sede, é claro; eles haviam parado de alimentá-lo e dar água há três dias, depois que ele assinou o último cheque, aquele que esvaziou sua conta. Eles haviam esvaziado a carteira dele de imediato, quase duzentos dólares. Em uma depressão tão profunda quanto esta, duzentos era um prêmio acumulado, e o relógio dele poderia render outros vinte aos ganhos deles (embora, ela admitisse para si mesma, isso pudesse ser um pouco otimista).

A conta corrente do Sr. Timmons no Albany National tinha sido a verdadeira mina de ouro: oitocentos dólares. Uma vez que ele sentiu fome suficiente, ficou feliz em assinar vários cheques nominais ao portador com a anotação "Despesas de Negócios" escrita no local apropriado de cada um.

Em algum lugar, uma esposa e criancinhas poderiam estar dependendo daquele dinheiro quando o pai não voltasse de sua viagem a Nova York, mas a Sra. Enderby não se permitia pensar nisso. Ela preferia imaginar a Sra. Timmons tendo pais ricos no Distrito das Mansões de Albany, um casal generoso saído de um romance de Dickens. Eles a acolheriam e cuidariam dela e de seus filhos, garotinhos que poderiam ser travessos adoráveis como Hans e Fritz, os Katzenjammer Kids.

"O Sluggo quebrou a janela de um vizinho e está culpando a Nancy", disse o Sr. Enderby com uma risadinha. "Eu juro, ele faz os Katzenjammers parecerem anjos!".

"Aquele chapéu horrível que ele usa!", disse a Sra. Enderby. Outro baque do armário, e um bem forte vindo de um homem que deveria estar à beira da inanição. Mas o Sr. Timmons era um homem grande. Mesmo após uma dose generosa de hidrato de cloral em seu copo de vinho no jantar, ele quase dominara o Sr. Enderby. A Sra. Enderby teve que ajudar. Ela sentou-se no peito do Sr. Timmons até que ele se acalmasse. Nada feminino, mas necessário. Naquela noite, a janela para a Terceira Avenida fora fechada, como sempre era quando o Sr. Enderby trazia um convidado para o jantar. Ele os conhecia em bares. Muito sociável, era o Sr. Enderby, e muito bom em identificar empresários que estavam sozinhos na cidade — sujeitos que também eram sociáveis e gostavam de fazer novos amigos. Especialmente novos amigos que pudessem se tornar novos clientes de um negócio ou outro. O Sr. Enderby os julgava por seus ternos e sempre estava atento a uma corrente de relógio de ouro.

"Más notícias", disse o Sr. Enderby, com uma ruga de preocupação na testa.

Ela retesou-se no banco do piano e virou-se para encará-lo. "O que foi?".

"Ming, o Impiedoso, aprisionou Flash Gordon e Dale Arden nas minas de rádio de Mongo. Existem essas criaturas que parecem jacarés...".

Agora veio do armário um grito fraco e lamentoso. Dentro de seus confins à prova de som, deve ter sido um berro alto o suficiente para romper as cordas vocais do pobre homem. Como o Sr. Timmons ainda podia ter força para dar tal uivo? Ele já havia durado um dia a mais do que qualquer um dos cinco anteriores, e sua vitalidade de certa forma macabra começara a afetar os nervos dela. Ela esperava que esta noite trouxesse o fim dele.

O tapete no qual ele seria enrolado estava esperando no quarto deles, e o furgão com "ENDERBY ENTERPRISES" pintado na lateral estava estacionado na esquina, abastecido e pronto para outra viagem aos Pine Barrens de Nova Jersey. Quando se casaram, realmente existia uma Enderby Enterprises. A depressão — o que o Journal-American passara a chamar de Grande Depressão — acabara com isso dois anos atrás. Agora eles tinham esse novo trabalho.

"Dale está com medo", continuou o Sr. Enderby, "e Flash está tentando animá-la. Ele diz que o Dr. Zarkov vai...".

Agora veio uma fuzilaria de baques: dez, talvez uma dúzia, acompanhados de mais daqueles gritos, abafados, mas ainda assim arrepiantes. Ela podia imaginar o sangue brotando nos lábios do Sr. Timmons e pingando de seus nós dos dedos rachados. Podia imaginar como o pescoço dele teria ficado magro e como seu rosto anteriormente rechonchudo teria se alongado conforme seu corpo consumia a gordura e a musculatura para permanecer vivo.

Mas não. Um corpo não poderia canibalizar a si mesmo para permanecer vivo, poderia? A ideia era tão anticientífica quanto a frenologia. E como ele deve estar com sede agora!.

"É tão irritante!", ela explodiu. "Eu odeio que ele continue sem parar! Por que você teve que trazer para casa um homem tão forte, querido?".

"Porque ele também era um homem rico", disse o Sr. Enderby calmamente. "Pude ver isso quando ele abriu a carteira para pagar nossa segunda rodada de bebidas. O que ele contribuiu nos manterá por três meses. Cinco, se economizarmos".

Baque, baque e baque. A Sra. Enderby colocou os dedos nas têmporas e começou a esfregar.

O Sr. Enderby olhou para ela com simpatia. "Eu posso dar um fim nisso, se você quiser. Ele não será capaz de lutar muito no estado atual; certamente não depois de ter gasto tanta energia. Um corte rápido com sua faca de açougueiro mais afiada. É claro que, se eu fizer o serviço, você terá que fazer a limpeza. É justo".

A Sra. Enderby olhou para ele, chocada. "Podemos ser ladrões, mas não somos assassinos".

"Não é o que as pessoas diriam se fôssemos pegos." Ele falou de forma apologética, mas firme, apesar de tudo.

Ela apertou as mãos no colo de seu vestido vermelho com força suficiente para branquear os nós dos dedos e olhou diretamente nos olhos dele. "Se fôssemos chamados ao banco dos réus, eu manteria minha cabeça erguida e diria ao juiz e ao júri que fomos vítimas das circunstâncias".

"E tenho certeza de que você seria muito convincente, querida".

Outro baque vindo de trás da porta do armário, e outro grito. Macabro. Essa era a palavra para a vitalidade dele, a palavra exata. Macabro.

"Mas não somos assassinos. Nossos convidados simplesmente carecem de sustento, como tantos nestes tempos terríveis. Nós não os matamos; eles simplesmente definham".

Outro grito veio do homem que o Sr. Enderby trouxera do McSorley's há mais de uma semana. Poderiam ter sido palavras. Poderia ter sido pelo amor de Deus.

"Não vai demorar agora", disse o Sr. Enderby. "Se não for hoje à noite, será amanhã. E não teremos que voltar ao trabalho por um bom tempo. E, no entanto...".

Ela olhou para ele daquela mesma forma firme, mãos entrelaçadas. "E, no entanto?".

"Parte de você gosta disso, eu acho. Não desta parte, mas do momento real em que os pegamos, como um caçador abate um animal na floresta".

Ela considerou isso. "Talvez eu goste. E certamente gosto de ver o que eles têm nas carteiras. Isso me lembra das caças ao tesouro que papai costumava fazer para mi e meu irmão quando éramos crianças. Mas depois..." Ela suspirou. "Eu nunca fui boa em esperar".

Mais baques. O Sr. Enderby voltou-se para a seção de negócios. "Ele veio de Albany, e as pessoas que vêm de lá recebem o que merecem. Toque algo, querida. Isso vai te animar".

Então ela pegou suas partituras no banco do piano e tocou "I'll Never Be the Same". Depois tocou "I'm in a Dancing Mood" e "The Way You Look Tonight". O Sr. Enderby aplaudiu e pediu um bis desta última, e quando as notas finais morreram, os baques e gritos vindos do armário à prova de som e especialmente reforçado haviam cessado.

"Música!", proclamou o Sr. Enderby. "Ela tem o poder de acalmar a fera selvagem!".

Isso os fez rir juntos, confortavelmente, da maneira que as pessoas fazem quando estão casadas há muitos anos e passaram a conhecer a mente um do outro.

domingo, 26 de abril de 2026

Robert Browning e o poema que inspirou “A Torre Negra” - via stephenking.com.br

Robert Browning foi um dramaturgo e poeta inglês nascido em Camberwell, Surrey, Inglaterra em 7 de maio de 1812. De família rica, Robert desistiu da carreira de diplomata para se dedicar a literatura. Produziu uma extensa obra baseada no valor superior da arte, como pura expressão da emoção humana. Casou-se com a poetiza Elizabeth Barrett e posteriormente mudou-se para a Itália, onde viveu boa parte de sua vida e veio a falecer em 1846, na cidade de Veneza. Entre seus poemas mais conhecidos está o que inspirou Stephen King a escrever a saga “The Dark Tower” (A Torre Negra), “Childe Roland à Torre Negra Chegou”. O título faz menção às ultimas palavras do poema, além de ser uma passagem da peça “O Rei Lear” do também dramaturgo inglês, William Shakespeare. Segue abaixo o poema completo com tradução de Fabiano Morais:


Childe Roland à Torre Negra chegou 

Robert Browning


I

Primeiro pensei: ele mentiu a cada sentença

O coxo encanecido, com olhos cheios de malícia

Ávidos por ver nos meus de sua mentira a perícia

E com a boca sem conter a alegria intensa

Que repuxava seus cantos na crença

De que o predador outra vez se sacia.


II

Qual outro seria o intuito, com seu cajado?

Qual senão emboscar e laçar os andarilhos

Que porventura o encontram pelos trilhos

E vêm pedir direção? Que risada má eu teria escutado,

quem deixaria meu epitáfio marcado

por diversão nos terrosos caminhos,


III

Se ao seu conselho eu devesse me desviar

Para aquele curso sinistro que, é sabido,

Esconde a Torre Negra? Porém eu, de boa-fé imbuído,

Tomei o indicado caminho, sem orgulho demonstrar

Nem esperança rediviva ao ver o fim se aproximar,

Mas sim gratidão pela idéia de algum fim existir.


IV

Pois, se depois de o mundo todo vagar

Se na minha busca ano a ano estendida

Minha esperança tornou-se uma sombra encardida

E incapaz de com o gozo ruidoso da vitória lidar,

A festa no meu coração eu mal pude refrear

Quando este entreviu a batalha perdida.


V

Assim como um doente à beira da morte

Já parece morto, e pressente o pranto fatal,

e recebe de todos a despedida amical,

E escuta ao longe a saída de outro consorte

Para respirar lá fora, (não se muda a sorte,

ele diz, e o pesar não se alivia com o golpe final)


VI

Enquanto outros debatem junto às covas

Se há espaço para o caixão e que hora

É a mais apropriada para levá-lo embora,

Sem esquecer dos estandartes, hinos e estolas,

O homem ouve cada uma dessas estórias

E, respeitando tanta candura, quer partir sem demora.


VII

Assim, já sofro há tanto nessa jornada

Já ouvi do fracasso o vaticínio e a confirmação

Para tantos e tantos companheiros da Afiliação

de cavaleiros que da Torre Negra atendem a chamada,

Que falhar como eles me pareceu a coisa acertada

E a única dúvida era: não seria essa minha função?


VIII

Tão quieto quanto o desespero eu dei as costas

àquele coxo odioso, abandonando sua via

e adentrando o caminho apontado. Todo o dia

havia sido lúgubre, e as sombras, sobrepostas,

fechavam-se a minha volta, mas uma olhadela torta,

rubra e carrancuda, ele lançou à planície todavia.


IX

Por Deus! Logo assim que me encontrei

Jurado à planície, após não mais que uma passada,

Parei para um último olhar à segurança da estrada

E nada mais havia, só a planura cinza avistei

Nada senão a vastidão sob o céu do astro rei.

Sem mais a fazer, decidi seguir caminhada.


X

Assim, fui adiante. E creio nunca ter visto

Natureza tão miserável e ignóbil, onde nada medra:

Pois as flores – ou mesmo um cedro entre a pedra,

Embora murchando como pela sua lei previsto,

Mesmo no abandono perduram, pensaria você;

Descobrem-se tesouros quando a casca quebra.


XI

Mas não! Penúria, feiúra, inércia

Em condição estranha está essa parte da terra

“Veja, ou feche os olhos”, a Natureza berra

“Não há escapatória: ela é de todo néscia,

Só o fogo do Julgamento Final trará a panacéia,

Calcinando o chão e livrando os presos que ele cerra.”


XII

Se havia ali alguma ressequida haste de cardo,

Seus colegas não se achavam, e o talo estava decepado.

O que fez aqueles buracos e rasgos no folhado

escuro e duro da bardana, tão machucado

que era impossível pensá-lo regenerado?

Era preciso que um bruto as tivesse pisoteado.


XIII

Quanto à relva, era como o cabelo escasso

Dos leprosos; magras lâminas secas na lama

Que parecia ter por baixo uma sangüínea trama.

Um cavalo cego e rijo, ossos à vista, lasso,

Parava ali, estúpido; havia chegado àquele pedaço:

Rebento que o garanhão do diabo não reclama!


XIV

Vivo? A meu ver poderia muito bem já ter partido,

Com seu pescoço rubro, descarnado e macilento.

E os olhos fechados por sob o pêlo bolorento;

Nunca o grotesco andou à desgraça tão unido;

E jamais senti por criatura ódio tão ardido:

Ele deve ser mau para merecer tal sofrimento.


XV

Fecho meus olhos, e os volto para o meu coração,

Como um homem que pede vinho antes de lutar,

Visão mais feliz, de outro tempo, eu quis saborear

Para ficar mais apto a encarar minha missão.

Pensar antes, lutar depois, eis do soldado o bordão:

Um vislumbre do passado pode a tudo acertar.


XVI

Mas não! Imaginei de Cuthbert a face corada

Em meio a seu adorno de cachos dourados,

Querido amigo, eu quase o senti laçar meus braços

Para me colocar a postos na caminhada

Como ele sempre fez. Ai, noite desgraçada!

O fogo no meu coração se apagou, deixando-o gelado.


XVII

Giles então surge – ele que é da honra a alma,

Leal como há dez anos, quando tornou-se cavaleiro

Capaz de ousar tudo que ousaria um homem verdadeiro

Mas – argh – a cena se modifica! Um carrasco infama

seu peito com um aviso que para todos informa:

Desprezado e amaldiçoado; traidor rasteiro.


XVIII

Do que um passado assim, melhor este presente

Que eu volte então para meu caminho triste

Nenhum som, nada que se veja ao longe em riste.

Aparecerá morcego ou coruja após o poente?

Perguntei quando algo na planície descrente

capturou e dominou meu pensamento num despiste.


XIX

Um súbito córrego atravessava meu caminho

Veio tão inesperado quanto uma cobra

Sem o lento escorrer que a atmosfera desdobra

Poderia ser um banho, com seu burburinho,

Para o casco do demônio, a ver seu redemoinho

Negro borbulhar com espuma e faísca rubra.


XX

Tão pequeno e ao mesmo tempo tão mau

Amieiros o cercavam, rasteiros e mirrados;

Salgueiros afundavam-se e afogavam-se desesperados

Numa síncope muda, num atropelo mortal:

Quem os destruiu foi esse carrasco manancial,

E, fosse ele o que fosse, fluía sem ser desviado.


XXI

Bom Deus, ao adentrar seu leito, quanto medo

De pisar o rosto de algum cadáver humano,

A cada passo – tateando com um ramo

A cata de buracos – seus cabelos entre meus dedos.

Um rato-d’água talvez tenha por acaso lancetado,

Mas, argh, parecia o grito de um menino.


XXII

Estava feliz quando cheguei ao outro lado.

Agora terras melhores me esperam. Vã esperança!

Quais foram os contendores? Qual foi a matança?

Que trotar selvagem pôde fazer desse solo molhado

Um atoleiro? Sapos em um tanque infectado

Ou gatos selvagens numa cela em incandescência –


XXIII

Assim deve ter sido a luta naquela arena decadente

O que os trouxe até lá, se tinham toda a planície?

Nenhuma pegada na direção daquela imundície

Nenhuma dela se afastando. Alguma poção demente

Agiu em seus cérebros, sem dúvida, como no da gente

Escrava – judia e cristã – que o turco atiçava por malícia.


XXIV

E além de tudo – a uma milha -, o que era aquele achado?

Para que mau intuito servia aquela máquina, aquela polia –

Um travão, não uma polia -, aquela grade que fiaria

Corpos humanos como se fossem seda? O ar desonrado

Dos rituais de Tophet, na terra perdido, ou invocado

Para afiar o enferrujado metal da sua gradaria.


XXV

Então uma terra de galhos, que um dia foi floresta;

Depois algo como um pântano; e agora apenas terra dura

Desesperada e acabada (um tolo encontra ventura,

Faz algo e em seguida o destrói, seu humor desembesta

E ele o abandona!). Por dez ares, chão que cresta,

Lamaçal, seixos, areia, e uma esterilidade negra, impura.


XXVI

Agora, pústulas inflamam-se em cor forte,

E medonha. Agora, remendos onde a aridez do chão

Tornou-se musgo, ou substâncias em ebulição;

Surge então um carvalho, e nele há um corte

Como uma boca distorcida que cava seu porte

Num bocejo para a morte, morrendo em seu repuxão.


XXVII

E tão longe como nunca o fim se afigura!

Nada no horizonte senão a noite, nada

Que direcionasse adiante minha passada!

Isso pensei, e surgiu um pássaro de imensa negrura

Amigo de Satã, a asa de dragão, na largura,

roçou meu gorro – talvez esta fosse a guia procurada.


XXVIII

Ao olhar para cima, apesar do anoitecer,

Vi com mais clareza. A planície dera lugar

às montanhas que a cercavam – nome muito invulgar

Para meras alturas feias e montes a não mais ver.

Como poderiam elas ter-me surpreendido, tente esclarecer!

Como vencê-las também não era fácil deslindar.


XXIX

Mas ainda assim, pareci reconhecer certo truque

Do qual fui vítima, Deus sabe quando –

Talvez em um mau sonho. Aqui estava terminando

O progresso por este caminho. Quando fiz que

desistia, mais uma vez, soou um clique

Como o de um alçapão atrás de mim se fechando.


XXX

Veio a mim de imediato, como fogo em um milharal,

Era este o lugar! À direita, esses dois morros, agachados,

como dois búfalos com os chifres enganchados;

Enquanto à esquerda, uma montanha alta… Boçal,

Imbecil, vacilar logo na hora mais crucial,

Você que treinou uma vida para ter olhos afiados!


XXXI

E se a própria Torre estivesse no centro? Redonda

e atarracada, cega como um coração rasteiro,

Feita de pedra marrom, sem igual no mundo inteiro.

O elfo, caçoando da tempestade que o ronda,

Aponta ao timoneiro o banco que ninguém sonda.

Ele aporta, por pouco não rompendo do casco o madeiro.


XXXII

Não vê-la? Talvez por conta da noite? – se o dia

Ressurgiu para isto! E antes de partir novamente

O poente brilhou por uma fenda rente:

As colinas, como gigantes caçadores na tocaia,

Esperando que a presa na armadilha caia –

“Agora ataquem e matem a criatura, inclementes”.


XXXIII

Não ouvi-la? Com tantos sons à volta! O ribombar

dos sinos cada vez mais alto. Nomes nos meus ouvidos

Todos os aventureiros, meus companheiros perdidos –

Como, se um era tão forte, outro de tão corajoso bradar,

Outro tão afortunado, como foram perdidos acabar?

Um instante trazia tantos anos de sofrimentos renascidos.


XXXIV

Ali estavam eles, pelos lados dos montes, unidos

Para assistir meu fim. Eu, uma moldura animada

Para mais um quadro! Numa súbita labareda

Eu os vi e reconheci a todos. E, destemido,

Deixei meus lábios formarem um bramido:

“Childe Roland à Torre Negra chegou”, foi minha chamada.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Vou-me embora pra Pasárgada - Manuel Bandeira - Libertinagem (1930)

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Pe. Antônio Vieira - Sermão de Quarta-feira de Cinzas


Ora, senhores, já que somos cristãos, já que sabemos que havemos de morrer e que somos imortais, saibamos usar da morte e da imortalidade. Tratemos desta vida como mortais, e da outra como imortais. Pode haver loucura mais rematada, pode haver cegueira mais cega que empregar-me todo na vida que há de acabar, e não tratar da vida que há de durar para sempre? Cansar-me, afligir-me, matar-me pelo que forçosamente hei de deixar, e do que hei de lograr ou perder para sempre, não fazer nenhum caso! Tantas diligências para esta vida, nenhuma diligência para a outra vida? Tanto medo, tanto receio da morte temporal, e da eterna nenhum temor? Mortos, mortos, desenganai estes vivos. Dizei-nos que pensamentos e que sentimentos foram os vossos quando entrastes e saístes pelas portas da morte? A morte tem duas portas: Qui exaltas me de portis mortis. Uma porta de vidro, por onde se sai da vida, outra porta de diamante, por onde se entra à eternidade. Entre estas duas portas se acha subitamente um homem no instante da morte, sem poder tornar atrás, nem parar, nem fugir, nem dilatar, senão entrar para onde não sabe, e para sempre. Oh! que transe tão apertado! Oh! que passo tão estreito! Oh! que momento tão terrível!

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Utumno: A Fortaleza Esquecida de Morgoth! - via Cine Jam


O Legado de Udûn: A Primeira Fortaleza do Mal

Quando Gandalf enfrenta o Balrog na Ponte de Khazad-dûm e pronuncia a frase: "O fogo negro não vai lhe ajudar em nada, chama de Udûn", ele não está usando apenas um nome antigo para soar solene ou ameaçador. Essa palavra, Udûn, carrega uma memória muito mais profunda do que Moria, mais antiga do que os próprios reinos dos Anões e infinitamente anterior a Mordor.

Udûn é o nome em Sindarin para Utumno, a primeira e maior fortaleza do mal em Arda. Ela foi construída quando o mundo ainda era jovem, antes da Primeira Era, antes até mesmo da Era das Árvores, antes da queda aberta de Morgoth e antes de o mal assumir formas reconhecíveis. Para entender o peso dessa palavra, é preciso voltar a um tempo em que a Terra-média ainda não conhecia guerras, impérios ou anéis de poder, mas já estava sendo silenciosamente corrompida em suas fundações. Se você quer conhecer a fortaleza anterior a Angband, me acompanhe até o final deste vídeo.

A Ascensão de Melkor e a Criação das Lâmpadas

Nos primeiros dias de Arda, a terra encontrava-se em um estado de equilíbrio frágil, no qual a criação ainda estava em processo e a história, como a conhecemos, mal havia começado. Por um longo período, Melkor atrapalhou o trabalho dos Valar de dar forma à terra, gerando conflitos constantes. Foi apenas com a chegada de Tulkas, o Vala voltado para o combate, que Melkor fugiu de Arda. Com a sua partida, a terra teve paz por uma longa era, permitindo que os Valar dessem ordem aos mares, terras e montanhas.

Na ausência de Melkor, os Valar se estabeleceram em Almaren, uma ilha no coração do mundo. Lá, criaram dois grandes luzeiros para iluminar a terra recém-formada: Illuin, ao norte, e Ormal, ao sul. Estas eram as Duas Lâmpadas, erguidas para trazer ordem e luz à criação.

O Surgimento de Utumno: A Ferida no Norte

Enquanto os Valar descansavam e celebravam o desabrochar de sua obra, Melkor retornou secretamente a Arda. Desta vez, ele não escolheu o confronto direto imediato; preferiu o segredo. Utumno nasceu dessa decisão: não como um castelo elevado a céu aberto, mas como uma ferida aberta no subsolo do mundo, cavada nas regiões mais frias e sombrias do norte, onde a luz das Lâmpadas chegava pálida.

Utumno foi escavada de forma desmedida, indo muito além do que qualquer construção posterior ousaria tentar. Seus corredores se estendiam por profundidades desconhecidas, com fossos cheios de fogo, salões ocultos por engano e vastas câmaras onde criaturas eram reunidas, corrompidas ou aprisionadas. Tolkien descreve o lugar como "oculto pela fraude". Utumno não operava apenas pela força, mas pela mentira e pela corrupção lenta. Dali, o ódio de Melkor contaminava a própria Arda, transformando o norte em uma região estéril e arruinada.

A Corrupção da Primavera de Arda

É a partir de Utumno que a Primavera de Arda é maculada. Em O Silmarillion, lemos que: "E, embora os Valar ainda nada soubessem a respeito, mesmo assim a perversidade de Melkor e a influência maléfica de seu ódio emanavam de lá, e a Primavera de Arda foi destruída."

Esse conceito refere-se à perda da harmonia original. O objetivo de Melkor não era apenas destruir, mas deformar a criação por dentro, tornando-a permanentemente imperfeita. Diferente de Sauron, que concentrava seu poder em objetos, Melkor dispersava sua essência na própria matéria do mundo. Foi nesse processo de corrupção que ele começou a enfraquecer e perder sua força inicial, um conceito detalhado no livro Morgoth's Ring.

O Caos e o Refúgio dos Valar

Quando se sentiu forte o suficiente, Melkor desferiu o primeiro golpe aberto: derrubou as Duas Lâmpadas, lançando o mundo no caos. Após o ataque, ele recuou para Utumno. Os Valar, embora poderosos, não puderam persegui-lo de imediato, pois sua força era necessária para conter as catástrofes geográficas e salvar o que restava de sua obra. Por medo de que uma guerra total destruísse o local onde os Elfos deveriam despertar, os Valar retiraram-se para o Oeste (Valinor), deixando o norte da Terra-média sob a sombra de Melkor.

Dentro de Utumno, Melkor reuniu hostes de espíritos corrompidos, incluindo alguns dos Ainur que haviam se aliado a ele. Entre esses seres estavam os Balrogs, os demônios de fogo. Surgiram também monstros moldados em zombaria aos seres vivos, horrores primordiais criados sem limite ou medida. Utumno era o centro de distorção onde a vida era torcida até perder sua forma original.

A Origem dos Orcs e a Guerra das Potestades

Os relatos mais trágicos associados a Utumno referem-se à captura dos primeiros Elfos após o despertar em Cuiviénen. Segundo O Silmarillion, os Elfos capturados eram levados aos abismos de Utumno e, por lentas artes de crueldade, foram corrompidos e escravizados, dando origem à "horrenda raça dos Orcs". Independentemente de revisões posteriores de Tolkien, o ponto central é que Utumno funcionava como um laboratório de profanação.

A existência da fortaleza só chegou ao fim quando os Valar decidiram proteger os recém-despertos Elfos. Eles marcharam contra o norte com força total na Guerra das Potestades. A batalha foi tão violenta que a própria geografia da Terra-média foi alterada e os mares se alargaram. Utumno foi sitiada e, após um cerco angustiante, seus portões foram arrombados. Tulkas imobilizou Melkor e ele foi levado prisioneiro com a corrente Angainor.

O Eco de Udûn na Terceira Era

Embora Utumno tenha sido deixada em ruínas e "destelhada", a malignidade do local não foi totalmente expurgada. Muitas masmorras profundas não foram descobertas, e seres malignos — incluindo Sauron — permaneceram escondidos nas sombras.

Após sua libertação e posterior retorno, Melkor não reconstruiu Utumno, focando-se em Angband, que era uma sombra da escala da primeira fortaleza. No entanto, o nome sobreviveu. Em Sindarin, Utumno tornou-se Udûn (abismo ou inferno). Na Terceira Era, Sauron nomeou o vale ao norte de Mordor como Udûn, uma homenagem deliberada à maior obra de seu mestre.

Utumno foi o primeiro modelo de mal organizado. Angband, Mordor e Barad-dûr são apenas herdeiros dessa ideia original. Mesmo enterrada, seu nome ainda ecoa como o primeiro inferno da história da Terra-média.