domingo, 14 de junho de 2026

LICANTROPIA SERTANEJA – por Luís da Câmara Cascudo

Idealizada pelas editoras Clepsidra e Ex Machina, em parceria com o canal Fantasticursos, a coleção Contos Clássicos surge justamente para suprir essa lacuna, oferecendo ao leitor brasileiro antologias de peso capazes de explorar a fundo cada uma das grandes tradições da literatura fantástica, mas com rígidos critérios editoriais. O primeiro volume foi Contos Clássicos de Fantasma, e hoje estamos muito felizes de apresentar-lhes os dois próximos volumes: contos clássicos, raros e obscuros de Vampiros e Lobisomens. Para melhor divulgação, deixo abaixo o brilhante texto de Câmara Cascudo sobre lobisomens. Para saber mais da campanha, clique aqui. Para download do texto do folclorista, clique aqui.

Ao ilustre amigo Dr. Robert Lehmann Nitsche.

Lycaon, filho de Pelasgo, rei da Arcádia, tornou-se hóspede duma noite. Foi transformado em lobo. Para conjurar tamanho castigo, os Árcades construíram um templo a Júpiter-Lyceo (do grego, Lycos, lobo). Na Grécia, vindo dessa origem mítica, registrou-se gravemente o fenômeno. Desaparecendo a forma de um suplício, surgiu a licantropia. Era uma moléstia.

Durante o mês de Fevereiro, os licantropos pululavam. Heródoto assela-os em sua história. Em Roma, Pan era Luperco (do latim, Lupus, lobo). Daí as Lupercaes, festas votivas em Fevereiro, justamente comemoração solene dos Mortos entre os gregos e multiplicação de licantropos. Acca Laurentia, a loba, foi deificada. Em todas as estátuas e medalhas, signos e camafeus, era representada sob a forma lupina.

Para Pomponius Mela, os Neuros podiam transmudar-se em lobos. Os Neuros habitavam a Scythia, e, segundo Aristeus Proconnesius, Isigonus Nicaeieinsis, Ctesias, Onescritus, Polystephanus e Hegesias, citados por Aulo Gello, era um país de assombros. Os Scythas eram antropófagos. Nas regiões vizinhas, moravam raças espantosas, desde os Arismaspes, que tinham um só olho no meio da testa como ciclopes, até os outros homens que possuíam os calcanhares às avessas, gênese dos Matuyus que o Padre Simão de Vasconcellos devia encontrar no Brasil. Vem a série dos firmes credores do licantropo. Foram Isocrates, Varrão (em Santo Agostinho), Heródoto, Pompinius Mela, Petrônio, e Plínio, o Antigo.

Petrônio descreve detalhadamente a licantropia.

Pedem a Niceros, conviva do faustoso Trimalcion, uma narrativa de aventuras. Historia o interrogado que, tendo de ir a Capua, convidou um soldado valente, seu velho camarada. Era noite de lua. Atravessando um cemitério, o soldado conjurou as estrelas, despiu-se, pôs urina nas roupas e tornou-se lobo, uivando e correndo pelo mato. Niceros não pode recolher as roupas do companheiro porque haviam tomado a forma de pedras. Atemorizado, fugiu para casa de Melissa de Tarento. Esta contou-lhe o assalto de um grande lobo ao redil e subsequente luta com um fâmulo que ferira o animal no pescoço. No outro dia, Niceros encontrou o amigo nas mãos dum médico – tinha um profundo ferimento na nuca. Era um Versipelio, no dizer de Plínio.

A origem da lenda é naturalmente religiosa e comum ao Egito, aos Vedas, à Caldéia, às regiões da Ásia e África. Com o Império Romano espalhou-se a crendice, amalgamando outras, adaptando-se aos novos ambientes. É a repetição do caso de domínio contraproducente. O país vencedor é quase sempre influído pelo derrotado. Depois de Grécia vencida é que os Romanos conheceram a Hellade. Veio o Versipelio para Portugal com a conquista. Deve ter aí tomado o nome que hoje usa.

A licantropia deve ser de origem ética. Vingança de um ser divino em quem desobedeceu as leis sagradas de hospedagem. Os eternos viajantes gregos podiam ter posto curso a esta história antecipando pelo terror um melhor tratamento nas paragens visitadas. As narrativas de Platão, Ovídio e Pausanias sobre Licaon, tornaram-no tipo de mau hospedador. A justiça vinda do alto Olimpo caía sobre o crime de um príncipe na pessoa de um deus.

No Brasil, as complicadas teogonias selvagens exilam o versipelio. Criaram o Capelobo, animal fantástico, invulnerável, velocíssimo e perseguidor dos índios e caçadores ousados. O Capelobo é criado pelo ramo racial dos mamelucos. Não pode ser autóctone como o Anhangá e o Caipora. Para algumas tribos é o velho que já esqueceu a idade. Noutras, é um animal como o Tapuaiauara, misto de paquiderme e felino, com patas de anta e orelhas de cão.

O licantropo grego, o versipelio latino, o loup-garou de França, o vou-kadlak dos Eslavos, o verfölfe alemão, o capelobo ameríndio, estão absolutamente irmanados com o Lobisomem sertanejo.

Em Portugal o lobisomem é o filho que nasce depois de uma série de sete filhas. Em geral fica pálido, doente, tristonho, cheio de manias, quase sempre geófago contumaz. Encontrando o lugar onde os animais se espolinham, o predestinado se espoja e "vira" lobisomem. Isto às terças ou sextas-feiras. Sob a pele do fenômeno, terá de correr as sete partidas do mundo, sete adros, sete vilas, sete outeiros, sete encruzilhadas. Ao terceiro cantar do galo retoma a forma humana. É de notar o uso de um número que a astrológica caldaica tornou fatídico – o 7. Para desencantá-lo é mister o signo de Salomão, a estrela de dois triângulos. Vendo-a, perde o veso das correrias. Podem matá-lo também. Invulnerável a tiro, é sensível a qualquer ferro aguçado. Quem manchar-se no sangue do lobisomem, herda o hábito.

Para o Sertão o lobisomem está fixado em dois modos: como castigo e como moléstia. A reminiscência de Licaon é patente no primeiro caso. Júpiter, pai dos homens, castigou um filho espúrio, fazendo-o lobo. O mau filho é candidato a lobisomem. O "doente" é pessoa apontada comumente. Magro, descarnado, vacilante, de olhos apagados e face decaída, o licantropo sertanejo é um tipo vulgar de opíparo, uma vítima da verminose, mais filho do helminto que de Belzebu.

Em casos especiais, o malefício se opera determinado por uma lei de punição suprema.

É o raríssimo incesto. O incestuoso ou seu descendente mais próximo, será lobisomem. Semelha à manceba do vigário que é a "Burrinha de Padre", trotando pelos descampados, se, por funesto acaso o pároco esqueceu de amaldiçoá-la antes de celebrar missa.

O cerimonial para ser-se lobisomem é simples. Na noite da quinta para a sexta-feira, antes das 11 horas, o futuro loup-garou matuto dirige-se ao local onde os animais se espojam. Quase sempre na encruzilhada existe o capim machucado e revolto pelos irracionais preguiçando. Depois de despir-se, põe a roupa pelo avesso, dá sete nós na camisa e rola da esquerda para a direita, reunindo os pés e as mãos. Daí em diante, como na história de Petrônio, lupus factus est, ululare coepit, et in silvas fugit.

Até o terceiro cantar do galo, o lobisomem galopa e rincha, berra e foge, espalhando terror. Ataca os caminhantes solitários para sugar-lhes o sangue. Vendo duas pessoas, esconde-se. Picando-o à faca, "quebram" o fado por aquela noite. É vulnerável a tiro. Somese ouvindo o canto do galo. O galo, em todas as histórias e lendas sertanejas, é o libertador do medo, o vencedor das trevas, augúrio do Sol, arauto do dia longínquo. Não há fantasma ou alma penada que resista a seu canto sonoro. Curioso é lembrar-se que Apolônio de Tiana evocou a sombra de Aquiles e esta desapareceu após o galo ter cantado. Quando a coruja, o mocho e o corvo servem de emblemas às bruxarias e maldades, o galo é o símbolo da alegria, das forças sadias e votadas ao Bem. É ele, ancestralmente, o inimigo do Demônio.

Laetos tenebris noctium,

Gallo canente exterritos

Sparsim temere, et cedere.

Cantava o poeta Prudêncio, já cristão e amável louvador do ilustre galináceo. De um antiquíssimo canto que fazia parte da liturgia na diocese de Salisbury, havia estrofes cheias de amizade e carinho, onde se destacava esta afirmativa:

Gallo canente spes redit.

Acresce aos atributos divinos do Galo, além de fazer reaparecer a esperança, a honra de ter sido a primeira ave a anunciar o nascimento de Jesus. Cristo nasceu! É o canto dos galos na noite de Natal.

Com o estridor sonoro de seu grito, o lobisomem grune e rosna, mas, receia e foge.

Todos aqueles que anotaram a vida sertaneja, dedicam largas páginas ao Lobisomem. Henry Koster registrou-o em sua viagem de Recife a Camocim. Gustavo Barroso, um dos verdadeiros conhecedores do Sertão, ilustre e consciente folclorista, narra uma história ouvida por mim vezes diversas.

Um casal ia visitar um amigo que morava distante. Atravessando uma capoeira, o marido pretextou ligeira necessidade e meteu-se pelo mato. Daí a minutos a mulher era assaltada por um animal furioso. Defendendo-se, sacudiu o xale de lã vermelha na goela da fera e fugiu, trepando numa árvore. O bicho sumiu-se. No outro dia, a mulher, reparando na dentadura do marido que dormia ressupino, encontrou nos dentes, as felpas do xale vermelho: o marido era o lobisomem. O monstro não respeita rezas nem invocações aos Santos. Antonio Ferreira, morador em Estivas, teve uma luta com um lobisomem durante duas horas. Gritou pelo Céu inteiro, tentando ferir o bicho à faca. Pela madrugada, semiexausto, pode segurar um galho de aroeira e salvar-se. A velha Victoria Maria, pernoitando numa casinha entre Timbó e Curral de Baixo, município de Ceará-Mirim, teve ocasião de assistir um encantamento, pondo fim ao bruxedo com um pequeno golpe de machadinha no braço do pseudo fantasma.

Uma das mais extraordinárias histórias é a do vaqueiro José Francisco de Paula na Fazenda São Tomé, em Santa Cruz, largamente conhecida pelos comboieiros e traficantes de algodão e sal. Sob o alpendrado, rara seria a noite em que, cinco ou seis vaqueiros e mascateantes, não dormissem, contando, à ceia, aventuras e viagens. Numa noite em que estava o casal sozinho, ouviu-se o latido desenfreado dos grandes cães de caça que José Francisco possuía. Não prestou atenção. Em cada semana, da quinta para a sexta-feira, os cães “acuavam” barulhosamente. Finalmente o vaqueiro entreabriu, altas horas, a janela e viu passar, seguido pelos cachorros enfurecidos, um animal corpulento, meio-baixo, roncando e batendo insistentemente as largas orelhas de perro. Daí a dias, um comboio pernoitou na latada. Narraram-se assombramentos e caçadas. José Francisco historiou o caso. Um do grupo, adoidado e façanheiro, bateu na coronha do bacamarte, jurando morte ao monstrengo assustador. Veio a treva. Ao nascer da lua, pelas proximidades da meia-noite, ouviram o tonitroar dos cães e a marcha resfolegada de um bicho correndo. Aperraram as armas. De gatilho alçado, esperaram. De repente o abantesma surgiu. Estalaram as espoletas e uma descarga relampejou num estrondo pelo pátio deserto e mudo. O animal, num ronquejo horrendo, caiu pela barranca do rio já seco no verão escaldante que se iniciava. Correram para lá. Era um lobisomem. Ferido de morte, não se desanimalizara inteiramente. Da cintura para cima, era um homem moreno, forte, de nariz aprumado, mãos delicadas, cabeleira castanha, encaracolada, um desses mestiços de família, criados na ociosidade das vilas sertanejas: da cintura para baixo, semelhava um porco, sarrudo, cheio de lama e de garranchos, os cascos firmemente cravados na areia frouxa do rio. Enterraram-no ali mesmo. José Francisco de Paula mudou-se para Estivas onde morreu anos depois, sem nunca esquecer a noite da caçada impressionante e trágica.

Francisco Teixeira, Seo Nô, por muito tempo nosso guarda num sítio, reproduziu, inconscientemente, a narrativa de Niceros, no Satiricon petroniano. Trabalhando num engenho de açúcar, Nô passava o serão levando em descrédito as aparições e bruxarias comentadas pelos companheiros. Um deles, João Severino, meio zangado, declarou-lhe que, em breve tempo, se arrependeria de zombar dos lobisomens. Os colegas do eito foram explicando ao Nô que ele andasse armado e não fosse muito longe das casas. Uma noite atravessando uma varjota, Nô encontrou-se com um bezerro grande, todo negro e peludo que se precipitou num salto sobre ele. Nô bateu mão da faca e lutou deveras. Sentindo-se cansado, sacudiu uma facada bem dirigida, apanhando o agressor no pescoço. Este, grunhindo, correu. Pela manhã, não vendo João Severino entre os habituais cortadores de cana, inquiriu e veio a saber que ele estava doente. Correndo até a casa, encontrou-o de nuca amarrada e bebendo mezinhas. Estava com um corte no pescoço. Se Nô soubesse latim teria citado Petrônio: intellexi illum versipellem esse.

Os milhares de histórias de lobisomens são quase iguais. É sempre o animal atacando ou fugindo com uma picadela de mais. O antídoto é o “sino saimão”, “sino salamão” ou sinal de Salomão, a cruz feita em dois triângulos, com a palha santa no domingo de Ramos. Põe-na no lugar dos encantamentos. Vendo-a, o versipelio nunca mais beiradeja córregos e bufa, aos trancos, por descampados e várzeas. Se esconderem a roupa, ficará sempiternamente lobisomem.

Acredito que essas superstições, de cunho rigidamente moral, tenham sido postas em circulação pelos letrados, como elemento de ordem ética, equilibrando para uma melhor conduta, a gente semi-bárbara do Sertão.

O medo ao sobrenatural, o castigo após a morte, a vastidão das penas, o tempo sem fim do remorso, são, através das idades, bases naturais das religiões. Seria inútil mostrar como a Igreja Católica soube inteligentemente popularizar os seus dogmas, usando lendas cultuadas desde a mais remota ancianidade.

Os Neuros de Heródoto e Pomponius Mela, os homens-serpentes dos Vedas, são necessariamente utilizados como persuasão e terror. Aqui já se não dá o auto-milagre dos Neuros. O lobisomem é castigo, uma penalidade infamante e arriscada a morte certa. Por isso, talvez, o elemento letrado, indicando maior tendência à moralização dos costumes, não obstou a propagação da crendice, ajudando-a, antes, porque ela expressava um meio idêntico, com maior eficácia. Dá-se como ultrajante e hórrida, sorte a deste animal vagabundo semipoderoso e semifrágil. Para atemorizar o sertanejo se fez mister uma pena, prolongada após a morte. Sem temer a lei, zombando da força e habituado às batalhas dos elementos, o sertanejo, sub-raça que se adaptara a todos os climas, necessitava desta ambiação mítica, pressão à sua luxúria porejante, à sua avareza latente, ao seu temperamento irrequieto, dentro de aparente insensibilidade.

Estranho, misterioso, surgindo do intricado negro dos juremais, saltando, inopinado, da sombra escura das faveleiras e cardeiros esguios, correndo pelo ondulado relvoso das pradarias, o lobisomem, pecado vivo, dentro da grande noite supersticiosa, mantém sempre acesa a perene formação de assombros.

Agora que estamos tentando possuir uma literatura brasileira, sem o estreito regionalismo e pondo na Arte o mundo poliforme das esperanças nativas, o folclore sertanejo terá um papel eficiente e decisivo fixando a fisionomia espiritual do Povo, nas suas manifestações de crença, atitude ancestralmente definidora da moral coletiva em face duma geração que interroga e analisa.

É o coração humano, inquieto e palpitando em presença do susto, do sobrenatural e do inexplicável.

Sob a jaqueta de lã do Bretão ou na gibona de couro do vaqueiro, o pavor é idêntico, vendo, debaixo das oiticicas imensas ou na penumbra dos menhirs batidos pelo luar, a figura ligeira e negra, impressionadora e terrível do loup-garou, do lobisomem, capelobo dos índios, erudito versipellio, herança atávica do medo na alma triste dos homens...

LUÍS DA CÂMARA CASCUDO

**Fonte:** *Revista do Brasil*, São Paulo, Ano VIII, n. 94 p. 129-133, out. 1923.

Acervo do Instituto Câmara Cascudo – Ludovicus


domingo, 7 de junho de 2026

Uma Tradição Pagã no Interior do Ceará - Caretas - via O Sesyom


No mais profundo sertão brasileiro, uma figura misteriosa e barulhenta ganha as ruas durante a Semana Santa: os Caretas. Vestidos com trajes coloridos e máscaras assustadoras, eles mantêm viva uma tradição secular que mescla rituais pagãos ancestrais com a fé cristã. Essa manifestação me intriga desde que a conheci, por causa de sua energia e simbologia, ao mesmo tempo em que me encanta por sobreviver ao passar dos séculos. Pois, apesar de ser uma festa que hoje ocorre no mais isolado dos sertões com forte influência do cristianismo, ela remonta a antigos rituais pagãos que aconteciam há pelo menos 2000 anos.

No interior do Ceará, especialmente em regiões entre os Cariris e os Inhamuns, a brincadeira dos Caretas é parte inseparável da Semana Santa. Mas, antes de entrarmos nos contextos históricos e entendermos como essa festa chegou ao Brasil, acho que vale explicar primeiro como tudo funciona.

Basicamente, um Careta é algo parecido com isso aí que vocês estão vendo — e já já falamos mais sobre a indumentária. Vale ressaltar que existem diversos tipos de Caretas no Ceará, no Nordeste e no Brasil como um todo. A coisa varia bastante de lugar para lugar. E nem precisa mudar de estado — às vezes, de uma vila para outra, a brincadeira já muda completamente, alterando o sentido, a forma de brincar e o jeito de se vestir. Então, já comenta aí se você conhece alguma outra versão diferente da que vamos falar aqui.

Os Caretas que eu escolhi trazer neste vídeo são esses com roupas de retalhos e máscaras de couro. Porque, além de serem os que eu tive mais contato, acredito que são os mais próximos das origens da tradição — algo mais bárbaro, rural e visceral. Máscaras de borracha com personagens da cultura pop me parecem distantes da essência original da festa, da ideia que ela carrega e do seu espírito folclórico e rural.

Mas vamos lá.

A coisa toda começa na Segunda-feira Santa. A turma de Caretas se reúne e sai pelas cidades, vilas e sítios pedindo esmola — literalmente. Essas esmolas podem ser legumes, animais ou dinheiro. Tudo o que for arrecadado será usado no "circo", que acontece no Sábado de Aleluia.

Durante a semana, os Caretas continuam a jornada. Em alguns lugares, eles param na sexta-feira para preparar os detalhes da festa: o circo e o boneco do Judas. Mas, enquanto estão rodando, a farra corre solta: dançam forró, tocam, cantam, comem e bebem... enfim, é uma celebração. Afinal de contas, é época de colheita. Se a festa está acontecendo, é sinal de que a terra deu com fartura e os agricultores estão dispostos a doar para o evento acontecer.

E assim se segue a semana, com os Caretas guiados pelo som dos chocalhos, dos chicotes, do zabumba e do búzio. Até que chega o Sábado de Aleluia — o ápice da brincadeira. Nesse dia, é montado um "circo", uma espécie de arena cercada por cordas e madeira. Dentro, tudo é enfeitado com o que estiver disponível, como pés de milho, e as esmolas recolhidas ao longo da semana são colocadas ali — para serem roubadas por quem tiver coragem.

Sim, é isso mesmo. Quem quiser entrar e pegar o que conseguir, pode ficar com o que levar. Mas tem um detalhe: os Caretas estão dentro do circo e, a partir do momento em que você entra até o momento em que sai, o chicote estrala. E olha... tem louco que entra nisso sem camisa. Muita cachaça na mente.

Ah, e claro, o mais importante: no centro do circo há um pau fincado no chão, onde colocam o boneco do Judas, cheio de dinheiro dentro. Ele representa literalmente Judas e as moedas que recebeu por trair Cristo. Quem conseguir subir no pau e pegar o dinheiro, fica com a bufunfa.

E bem, como bom curioso que sou, desde a época em que morei lá até hoje, vendo os vídeos postados por amigos, eu fico me perguntando de onde vem tudo isso. Como começou? Porque, apesar dos traços cristãos, a influência pagã da festa é escancarada — e isso em um lugar onde muita gente nem sabe o que é paganismo. Então fui atrás, pesquisei um pouco, e é isso que vamos explorar a partir de agora.

A origem exata dos Caretas cearenses se perde no tempo, mas provavelmente suas raízes mergulham em rituais pagãos agrários trazidos pelos colonizadores ibéricos. As mascaradas populares na Península Ibérica – de onde derivam os nossos Caretas – são festas de fundo agrário e de origem arcaica, dedicadas ao culto ao Sol e à Natureza. Em sua essência, tais rituais celebravam o fim de um ciclo e o começo de outro: eram festejos de fertilidade, de renovação do mundo e da colheita, marcados pela comunhão entre o sagrado e o profano, pelo riso e pela transgressão.

Durante essas celebrações, acreditava-se que as fronteiras entre o divino e o terreno se dissolviam, permitindo à comunidade extravasar suas tensões. Era o momento de bagunçar mesmo, para só depois restaurar a ordem. Não por acaso, muitos mascarados expunham em praça pública os “pecados” da aldeia de forma satírica, numa catarse coletiva que visava banir esses erros e prevenir sua repetição.

Essa natureza subversiva e pouco ortodoxa das mascaradas fez com que a Igreja Católica, ao longo dos séculos, as visse com maus olhos. Documentos históricos mostram que, já no século IV d.C., autoridades religiosas condenavam as danças de mascarados, e na Idade Média elas chegaram a ser proibidas em alguns mosteiros. Durante a Inquisição, alguns participantes até foram perseguidos e punidos, tamanha a suspeita de heresia associada a essas festas de origem pagã.

No entanto, as tradições eram resilientes. De origem imemorial, atravessaram impérios e eras – sobrevivendo à romanização, à cristianização medieval e à modernidade. Incapaz de eliminar esses “cultos pagãos” profundamente enraizados no povo, a Igreja adotou a estratégia de demonizar para, depois, assimilar.

Primeiro, tolerou a presença dos mascarados nas festas cristãs, porém pintando-os como “espíritos malignos”. Depois, procurou enquadrá-los dentro de confrarias e tradições locais já cristianizadas, limitando seus “exageros pagãos” e dando-lhes novos significados ligados ao calendário religioso. Em outras palavras, ao invés de proibir totalmente, a Igreja introduziu essas manifestações na própria liturgia da Semana Santa, transformando os antigos rituais de expulsão do mal na queima e no castigo do traidor Judas.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Blood Legionaire - Dariusz Zawadzki


A dark, brooding piece from Dariusz Zawadzki's popular 'Legion" series of paintings.

Reminiscent of a tragic figure from WWI, this Legionaire is obviously from an even darker, more remote world.

Expertly painted in deep, dark colors, this is another exceptional work by this Polish master.

24" x 36" (62cm x 90cm)

Oil on Masonite

SOLD

domingo, 10 de maio de 2026

O Quarto de Música - Stephen King


Room in New York (1932), por Edward Hopper. Tela que inspirou a criação do conto “The Music Room”

Os Enderbys estavam em seu "quarto de música" — era como o chamavam, embora fosse apenas o quarto sobressalente. Antigamente, pensaram que seria o berçário do pequeno James ou da pequena Jill Enderby, mas após dez anos de tentativas, parecia cada vez mais improbável que um "Bebê Querido" surgisse do Nada para o Aqui. Eles haviam feito as pazes com a falta de filhos. Pelo menos tinham trabalho, o que era uma bênção em um ano em que homens ainda faziam fila para ganhar pão. Havia períodos de escassez, era verdade, mas quando o trabalho aparecia, podiam se dar ao luxo de não pensar em mais nada, e ambos gostavam que fosse assim.

O Sr. Enderby estava lendo o The New York Journal-American, um novo diário que não tinha nem meio ano de publicação. Era um tipo de tabloide, mas nem tanto. Ele costumava começar pelos quadrinhos, mas quando estavam "no trabalho", voltava-se primeiro para as notícias da cidade, percorrendo as histórias rapidamente, especialmente o boletim policial. A Sra. Enderby sentava-se ao piano, que fora um presente de casamento de seus pais. Ocasionalmente, ela acariciava uma tecla, mas não a pressionava. Esta noite, a única música no quarto de música era a sinfonia do tráfego noturno na Terceira Avenida, que entrava pela janela aberta. Terceira Avenida, terceiro andar. Um bom apartamento em um prédio de arenito resistente.

Eles raramente ouviam seus vizinhos de cima ou de baixo, e os vizinhos raramente os ouviam. O que era muito bom. Do armário atrás deles veio um único baque. Depois outro. A Sra. Enderby estendeu as mãos como se fosse tocar, mas quando os baques pararam, ela as colocou de volta no colo.

"Ainda nenhum pio sobre o nosso amigo George Timmons", disse o Sr. Enderby, balançando o jornal.

"Talvez você deva verificar o Albany Herald", disse ela. "Acredito que a banca na Lexington com a 60ª o venda".

"Não é necessário", disse ele, voltando-se finalmente para as tirinhas. "O Journal-American é bom o suficiente para mim. Se o Sr. Timmons foi dado como desaparecido em Albany, que os interessados o procurem por lá".

"Tudo bem, querido", disse a Sra. Enderby. "Eu confio em você." Na verdade, não havia motivo para não confiar; até o momento, o trabalho tinha corrido perfeitamente. O Sr. Timmons era o sexto convidado deles no armário especialmente reforçado.

O Sr. Enderby soltou uma risadinha. "Os Katzenjammer Kids aprontaram de novo. Desta vez pegaram o Capitão pescando ilegalmente — disparando uma rede de um canhão, na verdade. É muito divertido. Quer que eu leia para você?".

Antes que a Sra. Enderby pudesse responder, outro baque veio do armário, e sons fracos que poderiam ter sido gritos. Era difícil dizer, a menos que se encostasse o ouvido diretamente na madeira, e ela não tinha intenção de fazer isso. O banco do piano era o mais perto que pretendia chegar do Sr. Timmons, até que chegasse a hora de se livrar dele. "Eu gostaria que ele parasse".

"Ele vai, querida. Logo, logo".

Outro baque, como que para refutar isso.

"Foi o que você disse ontem".

"Parece que fui prematuro", disse o Sr. Enderby, e então: "Puxa vida — Dick Tracy está mais uma vez à caça do Cara-de-Passa (Pruneface)".

"O Cara-de-Passa me dá arrepios", disse ela, sem se virar. "Gostaria que o Detetive Tracy o prendesse de vez".

"Isso nunca vai acontecer, querida. As pessoas dizem torcer pelo herói, mas são dos vilões que elas se lembram".

A Sra. Enderby não respondeu. Estava esperando pelo próximo baque. Quando viesse — se viesse — ela esperaria pelo seguinte. A espera era a pior parte. O pobre homem estava com fome e sede, é claro; eles haviam parado de alimentá-lo e dar água há três dias, depois que ele assinou o último cheque, aquele que esvaziou sua conta. Eles haviam esvaziado a carteira dele de imediato, quase duzentos dólares. Em uma depressão tão profunda quanto esta, duzentos era um prêmio acumulado, e o relógio dele poderia render outros vinte aos ganhos deles (embora, ela admitisse para si mesma, isso pudesse ser um pouco otimista).

A conta corrente do Sr. Timmons no Albany National tinha sido a verdadeira mina de ouro: oitocentos dólares. Uma vez que ele sentiu fome suficiente, ficou feliz em assinar vários cheques nominais ao portador com a anotação "Despesas de Negócios" escrita no local apropriado de cada um.

Em algum lugar, uma esposa e criancinhas poderiam estar dependendo daquele dinheiro quando o pai não voltasse de sua viagem a Nova York, mas a Sra. Enderby não se permitia pensar nisso. Ela preferia imaginar a Sra. Timmons tendo pais ricos no Distrito das Mansões de Albany, um casal generoso saído de um romance de Dickens. Eles a acolheriam e cuidariam dela e de seus filhos, garotinhos que poderiam ser travessos adoráveis como Hans e Fritz, os Katzenjammer Kids.

"O Sluggo quebrou a janela de um vizinho e está culpando a Nancy", disse o Sr. Enderby com uma risadinha. "Eu juro, ele faz os Katzenjammers parecerem anjos!".

"Aquele chapéu horrível que ele usa!", disse a Sra. Enderby. Outro baque do armário, e um bem forte vindo de um homem que deveria estar à beira da inanição. Mas o Sr. Timmons era um homem grande. Mesmo após uma dose generosa de hidrato de cloral em seu copo de vinho no jantar, ele quase dominara o Sr. Enderby. A Sra. Enderby teve que ajudar. Ela sentou-se no peito do Sr. Timmons até que ele se acalmasse. Nada feminino, mas necessário. Naquela noite, a janela para a Terceira Avenida fora fechada, como sempre era quando o Sr. Enderby trazia um convidado para o jantar. Ele os conhecia em bares. Muito sociável, era o Sr. Enderby, e muito bom em identificar empresários que estavam sozinhos na cidade — sujeitos que também eram sociáveis e gostavam de fazer novos amigos. Especialmente novos amigos que pudessem se tornar novos clientes de um negócio ou outro. O Sr. Enderby os julgava por seus ternos e sempre estava atento a uma corrente de relógio de ouro.

"Más notícias", disse o Sr. Enderby, com uma ruga de preocupação na testa.

Ela retesou-se no banco do piano e virou-se para encará-lo. "O que foi?".

"Ming, o Impiedoso, aprisionou Flash Gordon e Dale Arden nas minas de rádio de Mongo. Existem essas criaturas que parecem jacarés...".

Agora veio do armário um grito fraco e lamentoso. Dentro de seus confins à prova de som, deve ter sido um berro alto o suficiente para romper as cordas vocais do pobre homem. Como o Sr. Timmons ainda podia ter força para dar tal uivo? Ele já havia durado um dia a mais do que qualquer um dos cinco anteriores, e sua vitalidade de certa forma macabra começara a afetar os nervos dela. Ela esperava que esta noite trouxesse o fim dele.

O tapete no qual ele seria enrolado estava esperando no quarto deles, e o furgão com "ENDERBY ENTERPRISES" pintado na lateral estava estacionado na esquina, abastecido e pronto para outra viagem aos Pine Barrens de Nova Jersey. Quando se casaram, realmente existia uma Enderby Enterprises. A depressão — o que o Journal-American passara a chamar de Grande Depressão — acabara com isso dois anos atrás. Agora eles tinham esse novo trabalho.

"Dale está com medo", continuou o Sr. Enderby, "e Flash está tentando animá-la. Ele diz que o Dr. Zarkov vai...".

Agora veio uma fuzilaria de baques: dez, talvez uma dúzia, acompanhados de mais daqueles gritos, abafados, mas ainda assim arrepiantes. Ela podia imaginar o sangue brotando nos lábios do Sr. Timmons e pingando de seus nós dos dedos rachados. Podia imaginar como o pescoço dele teria ficado magro e como seu rosto anteriormente rechonchudo teria se alongado conforme seu corpo consumia a gordura e a musculatura para permanecer vivo.

Mas não. Um corpo não poderia canibalizar a si mesmo para permanecer vivo, poderia? A ideia era tão anticientífica quanto a frenologia. E como ele deve estar com sede agora!.

"É tão irritante!", ela explodiu. "Eu odeio que ele continue sem parar! Por que você teve que trazer para casa um homem tão forte, querido?".

"Porque ele também era um homem rico", disse o Sr. Enderby calmamente. "Pude ver isso quando ele abriu a carteira para pagar nossa segunda rodada de bebidas. O que ele contribuiu nos manterá por três meses. Cinco, se economizarmos".

Baque, baque e baque. A Sra. Enderby colocou os dedos nas têmporas e começou a esfregar.

O Sr. Enderby olhou para ela com simpatia. "Eu posso dar um fim nisso, se você quiser. Ele não será capaz de lutar muito no estado atual; certamente não depois de ter gasto tanta energia. Um corte rápido com sua faca de açougueiro mais afiada. É claro que, se eu fizer o serviço, você terá que fazer a limpeza. É justo".

A Sra. Enderby olhou para ele, chocada. "Podemos ser ladrões, mas não somos assassinos".

"Não é o que as pessoas diriam se fôssemos pegos." Ele falou de forma apologética, mas firme, apesar de tudo.

Ela apertou as mãos no colo de seu vestido vermelho com força suficiente para branquear os nós dos dedos e olhou diretamente nos olhos dele. "Se fôssemos chamados ao banco dos réus, eu manteria minha cabeça erguida e diria ao juiz e ao júri que fomos vítimas das circunstâncias".

"E tenho certeza de que você seria muito convincente, querida".

Outro baque vindo de trás da porta do armário, e outro grito. Macabro. Essa era a palavra para a vitalidade dele, a palavra exata. Macabro.

"Mas não somos assassinos. Nossos convidados simplesmente carecem de sustento, como tantos nestes tempos terríveis. Nós não os matamos; eles simplesmente definham".

Outro grito veio do homem que o Sr. Enderby trouxera do McSorley's há mais de uma semana. Poderiam ter sido palavras. Poderia ter sido pelo amor de Deus.

"Não vai demorar agora", disse o Sr. Enderby. "Se não for hoje à noite, será amanhã. E não teremos que voltar ao trabalho por um bom tempo. E, no entanto...".

Ela olhou para ele daquela mesma forma firme, mãos entrelaçadas. "E, no entanto?".

"Parte de você gosta disso, eu acho. Não desta parte, mas do momento real em que os pegamos, como um caçador abate um animal na floresta".

Ela considerou isso. "Talvez eu goste. E certamente gosto de ver o que eles têm nas carteiras. Isso me lembra das caças ao tesouro que papai costumava fazer para mi e meu irmão quando éramos crianças. Mas depois..." Ela suspirou. "Eu nunca fui boa em esperar".

Mais baques. O Sr. Enderby voltou-se para a seção de negócios. "Ele veio de Albany, e as pessoas que vêm de lá recebem o que merecem. Toque algo, querida. Isso vai te animar".

Então ela pegou suas partituras no banco do piano e tocou "I'll Never Be the Same". Depois tocou "I'm in a Dancing Mood" e "The Way You Look Tonight". O Sr. Enderby aplaudiu e pediu um bis desta última, e quando as notas finais morreram, os baques e gritos vindos do armário à prova de som e especialmente reforçado haviam cessado.

"Música!", proclamou o Sr. Enderby. "Ela tem o poder de acalmar a fera selvagem!".

Isso os fez rir juntos, confortavelmente, da maneira que as pessoas fazem quando estão casadas há muitos anos e passaram a conhecer a mente um do outro.

domingo, 26 de abril de 2026

Robert Browning e o poema que inspirou “A Torre Negra” - via stephenking.com.br

Robert Browning foi um dramaturgo e poeta inglês nascido em Camberwell, Surrey, Inglaterra em 7 de maio de 1812. De família rica, Robert desistiu da carreira de diplomata para se dedicar a literatura. Produziu uma extensa obra baseada no valor superior da arte, como pura expressão da emoção humana. Casou-se com a poetiza Elizabeth Barrett e posteriormente mudou-se para a Itália, onde viveu boa parte de sua vida e veio a falecer em 1846, na cidade de Veneza. Entre seus poemas mais conhecidos está o que inspirou Stephen King a escrever a saga “The Dark Tower” (A Torre Negra), “Childe Roland à Torre Negra Chegou”. O título faz menção às ultimas palavras do poema, além de ser uma passagem da peça “O Rei Lear” do também dramaturgo inglês, William Shakespeare. Segue abaixo o poema completo com tradução de Fabiano Morais:


Childe Roland à Torre Negra chegou 

Robert Browning


I

Primeiro pensei: ele mentiu a cada sentença

O coxo encanecido, com olhos cheios de malícia

Ávidos por ver nos meus de sua mentira a perícia

E com a boca sem conter a alegria intensa

Que repuxava seus cantos na crença

De que o predador outra vez se sacia.


II

Qual outro seria o intuito, com seu cajado?

Qual senão emboscar e laçar os andarilhos

Que porventura o encontram pelos trilhos

E vêm pedir direção? Que risada má eu teria escutado,

quem deixaria meu epitáfio marcado

por diversão nos terrosos caminhos,


III

Se ao seu conselho eu devesse me desviar

Para aquele curso sinistro que, é sabido,

Esconde a Torre Negra? Porém eu, de boa-fé imbuído,

Tomei o indicado caminho, sem orgulho demonstrar

Nem esperança rediviva ao ver o fim se aproximar,

Mas sim gratidão pela idéia de algum fim existir.


IV

Pois, se depois de o mundo todo vagar

Se na minha busca ano a ano estendida

Minha esperança tornou-se uma sombra encardida

E incapaz de com o gozo ruidoso da vitória lidar,

A festa no meu coração eu mal pude refrear

Quando este entreviu a batalha perdida.


V

Assim como um doente à beira da morte

Já parece morto, e pressente o pranto fatal,

e recebe de todos a despedida amical,

E escuta ao longe a saída de outro consorte

Para respirar lá fora, (não se muda a sorte,

ele diz, e o pesar não se alivia com o golpe final)


VI

Enquanto outros debatem junto às covas

Se há espaço para o caixão e que hora

É a mais apropriada para levá-lo embora,

Sem esquecer dos estandartes, hinos e estolas,

O homem ouve cada uma dessas estórias

E, respeitando tanta candura, quer partir sem demora.


VII

Assim, já sofro há tanto nessa jornada

Já ouvi do fracasso o vaticínio e a confirmação

Para tantos e tantos companheiros da Afiliação

de cavaleiros que da Torre Negra atendem a chamada,

Que falhar como eles me pareceu a coisa acertada

E a única dúvida era: não seria essa minha função?


VIII

Tão quieto quanto o desespero eu dei as costas

àquele coxo odioso, abandonando sua via

e adentrando o caminho apontado. Todo o dia

havia sido lúgubre, e as sombras, sobrepostas,

fechavam-se a minha volta, mas uma olhadela torta,

rubra e carrancuda, ele lançou à planície todavia.


IX

Por Deus! Logo assim que me encontrei

Jurado à planície, após não mais que uma passada,

Parei para um último olhar à segurança da estrada

E nada mais havia, só a planura cinza avistei

Nada senão a vastidão sob o céu do astro rei.

Sem mais a fazer, decidi seguir caminhada.


X

Assim, fui adiante. E creio nunca ter visto

Natureza tão miserável e ignóbil, onde nada medra:

Pois as flores – ou mesmo um cedro entre a pedra,

Embora murchando como pela sua lei previsto,

Mesmo no abandono perduram, pensaria você;

Descobrem-se tesouros quando a casca quebra.


XI

Mas não! Penúria, feiúra, inércia

Em condição estranha está essa parte da terra

“Veja, ou feche os olhos”, a Natureza berra

“Não há escapatória: ela é de todo néscia,

Só o fogo do Julgamento Final trará a panacéia,

Calcinando o chão e livrando os presos que ele cerra.”


XII

Se havia ali alguma ressequida haste de cardo,

Seus colegas não se achavam, e o talo estava decepado.

O que fez aqueles buracos e rasgos no folhado

escuro e duro da bardana, tão machucado

que era impossível pensá-lo regenerado?

Era preciso que um bruto as tivesse pisoteado.


XIII

Quanto à relva, era como o cabelo escasso

Dos leprosos; magras lâminas secas na lama

Que parecia ter por baixo uma sangüínea trama.

Um cavalo cego e rijo, ossos à vista, lasso,

Parava ali, estúpido; havia chegado àquele pedaço:

Rebento que o garanhão do diabo não reclama!


XIV

Vivo? A meu ver poderia muito bem já ter partido,

Com seu pescoço rubro, descarnado e macilento.

E os olhos fechados por sob o pêlo bolorento;

Nunca o grotesco andou à desgraça tão unido;

E jamais senti por criatura ódio tão ardido:

Ele deve ser mau para merecer tal sofrimento.


XV

Fecho meus olhos, e os volto para o meu coração,

Como um homem que pede vinho antes de lutar,

Visão mais feliz, de outro tempo, eu quis saborear

Para ficar mais apto a encarar minha missão.

Pensar antes, lutar depois, eis do soldado o bordão:

Um vislumbre do passado pode a tudo acertar.


XVI

Mas não! Imaginei de Cuthbert a face corada

Em meio a seu adorno de cachos dourados,

Querido amigo, eu quase o senti laçar meus braços

Para me colocar a postos na caminhada

Como ele sempre fez. Ai, noite desgraçada!

O fogo no meu coração se apagou, deixando-o gelado.


XVII

Giles então surge – ele que é da honra a alma,

Leal como há dez anos, quando tornou-se cavaleiro

Capaz de ousar tudo que ousaria um homem verdadeiro

Mas – argh – a cena se modifica! Um carrasco infama

seu peito com um aviso que para todos informa:

Desprezado e amaldiçoado; traidor rasteiro.


XVIII

Do que um passado assim, melhor este presente

Que eu volte então para meu caminho triste

Nenhum som, nada que se veja ao longe em riste.

Aparecerá morcego ou coruja após o poente?

Perguntei quando algo na planície descrente

capturou e dominou meu pensamento num despiste.


XIX

Um súbito córrego atravessava meu caminho

Veio tão inesperado quanto uma cobra

Sem o lento escorrer que a atmosfera desdobra

Poderia ser um banho, com seu burburinho,

Para o casco do demônio, a ver seu redemoinho

Negro borbulhar com espuma e faísca rubra.


XX

Tão pequeno e ao mesmo tempo tão mau

Amieiros o cercavam, rasteiros e mirrados;

Salgueiros afundavam-se e afogavam-se desesperados

Numa síncope muda, num atropelo mortal:

Quem os destruiu foi esse carrasco manancial,

E, fosse ele o que fosse, fluía sem ser desviado.


XXI

Bom Deus, ao adentrar seu leito, quanto medo

De pisar o rosto de algum cadáver humano,

A cada passo – tateando com um ramo

A cata de buracos – seus cabelos entre meus dedos.

Um rato-d’água talvez tenha por acaso lancetado,

Mas, argh, parecia o grito de um menino.


XXII

Estava feliz quando cheguei ao outro lado.

Agora terras melhores me esperam. Vã esperança!

Quais foram os contendores? Qual foi a matança?

Que trotar selvagem pôde fazer desse solo molhado

Um atoleiro? Sapos em um tanque infectado

Ou gatos selvagens numa cela em incandescência –


XXIII

Assim deve ter sido a luta naquela arena decadente

O que os trouxe até lá, se tinham toda a planície?

Nenhuma pegada na direção daquela imundície

Nenhuma dela se afastando. Alguma poção demente

Agiu em seus cérebros, sem dúvida, como no da gente

Escrava – judia e cristã – que o turco atiçava por malícia.


XXIV

E além de tudo – a uma milha -, o que era aquele achado?

Para que mau intuito servia aquela máquina, aquela polia –

Um travão, não uma polia -, aquela grade que fiaria

Corpos humanos como se fossem seda? O ar desonrado

Dos rituais de Tophet, na terra perdido, ou invocado

Para afiar o enferrujado metal da sua gradaria.


XXV

Então uma terra de galhos, que um dia foi floresta;

Depois algo como um pântano; e agora apenas terra dura

Desesperada e acabada (um tolo encontra ventura,

Faz algo e em seguida o destrói, seu humor desembesta

E ele o abandona!). Por dez ares, chão que cresta,

Lamaçal, seixos, areia, e uma esterilidade negra, impura.


XXVI

Agora, pústulas inflamam-se em cor forte,

E medonha. Agora, remendos onde a aridez do chão

Tornou-se musgo, ou substâncias em ebulição;

Surge então um carvalho, e nele há um corte

Como uma boca distorcida que cava seu porte

Num bocejo para a morte, morrendo em seu repuxão.


XXVII

E tão longe como nunca o fim se afigura!

Nada no horizonte senão a noite, nada

Que direcionasse adiante minha passada!

Isso pensei, e surgiu um pássaro de imensa negrura

Amigo de Satã, a asa de dragão, na largura,

roçou meu gorro – talvez esta fosse a guia procurada.


XXVIII

Ao olhar para cima, apesar do anoitecer,

Vi com mais clareza. A planície dera lugar

às montanhas que a cercavam – nome muito invulgar

Para meras alturas feias e montes a não mais ver.

Como poderiam elas ter-me surpreendido, tente esclarecer!

Como vencê-las também não era fácil deslindar.


XXIX

Mas ainda assim, pareci reconhecer certo truque

Do qual fui vítima, Deus sabe quando –

Talvez em um mau sonho. Aqui estava terminando

O progresso por este caminho. Quando fiz que

desistia, mais uma vez, soou um clique

Como o de um alçapão atrás de mim se fechando.


XXX

Veio a mim de imediato, como fogo em um milharal,

Era este o lugar! À direita, esses dois morros, agachados,

como dois búfalos com os chifres enganchados;

Enquanto à esquerda, uma montanha alta… Boçal,

Imbecil, vacilar logo na hora mais crucial,

Você que treinou uma vida para ter olhos afiados!


XXXI

E se a própria Torre estivesse no centro? Redonda

e atarracada, cega como um coração rasteiro,

Feita de pedra marrom, sem igual no mundo inteiro.

O elfo, caçoando da tempestade que o ronda,

Aponta ao timoneiro o banco que ninguém sonda.

Ele aporta, por pouco não rompendo do casco o madeiro.


XXXII

Não vê-la? Talvez por conta da noite? – se o dia

Ressurgiu para isto! E antes de partir novamente

O poente brilhou por uma fenda rente:

As colinas, como gigantes caçadores na tocaia,

Esperando que a presa na armadilha caia –

“Agora ataquem e matem a criatura, inclementes”.


XXXIII

Não ouvi-la? Com tantos sons à volta! O ribombar

dos sinos cada vez mais alto. Nomes nos meus ouvidos

Todos os aventureiros, meus companheiros perdidos –

Como, se um era tão forte, outro de tão corajoso bradar,

Outro tão afortunado, como foram perdidos acabar?

Um instante trazia tantos anos de sofrimentos renascidos.


XXXIV

Ali estavam eles, pelos lados dos montes, unidos

Para assistir meu fim. Eu, uma moldura animada

Para mais um quadro! Numa súbita labareda

Eu os vi e reconheci a todos. E, destemido,

Deixei meus lábios formarem um bramido:

“Childe Roland à Torre Negra chegou”, foi minha chamada.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Vou-me embora pra Pasárgada - Manuel Bandeira - Libertinagem (1930)

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Pe. Antônio Vieira - Sermão de Quarta-feira de Cinzas


Ora, senhores, já que somos cristãos, já que sabemos que havemos de morrer e que somos imortais, saibamos usar da morte e da imortalidade. Tratemos desta vida como mortais, e da outra como imortais. Pode haver loucura mais rematada, pode haver cegueira mais cega que empregar-me todo na vida que há de acabar, e não tratar da vida que há de durar para sempre? Cansar-me, afligir-me, matar-me pelo que forçosamente hei de deixar, e do que hei de lograr ou perder para sempre, não fazer nenhum caso! Tantas diligências para esta vida, nenhuma diligência para a outra vida? Tanto medo, tanto receio da morte temporal, e da eterna nenhum temor? Mortos, mortos, desenganai estes vivos. Dizei-nos que pensamentos e que sentimentos foram os vossos quando entrastes e saístes pelas portas da morte? A morte tem duas portas: Qui exaltas me de portis mortis. Uma porta de vidro, por onde se sai da vida, outra porta de diamante, por onde se entra à eternidade. Entre estas duas portas se acha subitamente um homem no instante da morte, sem poder tornar atrás, nem parar, nem fugir, nem dilatar, senão entrar para onde não sabe, e para sempre. Oh! que transe tão apertado! Oh! que passo tão estreito! Oh! que momento tão terrível!

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Utumno: A Fortaleza Esquecida de Morgoth! - via Cine Jam


O Legado de Udûn: A Primeira Fortaleza do Mal

Quando Gandalf enfrenta o Balrog na Ponte de Khazad-dûm e pronuncia a frase: "O fogo negro não vai lhe ajudar em nada, chama de Udûn", ele não está usando apenas um nome antigo para soar solene ou ameaçador. Essa palavra, Udûn, carrega uma memória muito mais profunda do que Moria, mais antiga do que os próprios reinos dos Anões e infinitamente anterior a Mordor.

Udûn é o nome em Sindarin para Utumno, a primeira e maior fortaleza do mal em Arda. Ela foi construída quando o mundo ainda era jovem, antes da Primeira Era, antes até mesmo da Era das Árvores, antes da queda aberta de Morgoth e antes de o mal assumir formas reconhecíveis. Para entender o peso dessa palavra, é preciso voltar a um tempo em que a Terra-média ainda não conhecia guerras, impérios ou anéis de poder, mas já estava sendo silenciosamente corrompida em suas fundações. Se você quer conhecer a fortaleza anterior a Angband, me acompanhe até o final deste vídeo.

A Ascensão de Melkor e a Criação das Lâmpadas

Nos primeiros dias de Arda, a terra encontrava-se em um estado de equilíbrio frágil, no qual a criação ainda estava em processo e a história, como a conhecemos, mal havia começado. Por um longo período, Melkor atrapalhou o trabalho dos Valar de dar forma à terra, gerando conflitos constantes. Foi apenas com a chegada de Tulkas, o Vala voltado para o combate, que Melkor fugiu de Arda. Com a sua partida, a terra teve paz por uma longa era, permitindo que os Valar dessem ordem aos mares, terras e montanhas.

Na ausência de Melkor, os Valar se estabeleceram em Almaren, uma ilha no coração do mundo. Lá, criaram dois grandes luzeiros para iluminar a terra recém-formada: Illuin, ao norte, e Ormal, ao sul. Estas eram as Duas Lâmpadas, erguidas para trazer ordem e luz à criação.

O Surgimento de Utumno: A Ferida no Norte

Enquanto os Valar descansavam e celebravam o desabrochar de sua obra, Melkor retornou secretamente a Arda. Desta vez, ele não escolheu o confronto direto imediato; preferiu o segredo. Utumno nasceu dessa decisão: não como um castelo elevado a céu aberto, mas como uma ferida aberta no subsolo do mundo, cavada nas regiões mais frias e sombrias do norte, onde a luz das Lâmpadas chegava pálida.

Utumno foi escavada de forma desmedida, indo muito além do que qualquer construção posterior ousaria tentar. Seus corredores se estendiam por profundidades desconhecidas, com fossos cheios de fogo, salões ocultos por engano e vastas câmaras onde criaturas eram reunidas, corrompidas ou aprisionadas. Tolkien descreve o lugar como "oculto pela fraude". Utumno não operava apenas pela força, mas pela mentira e pela corrupção lenta. Dali, o ódio de Melkor contaminava a própria Arda, transformando o norte em uma região estéril e arruinada.

A Corrupção da Primavera de Arda

É a partir de Utumno que a Primavera de Arda é maculada. Em O Silmarillion, lemos que: "E, embora os Valar ainda nada soubessem a respeito, mesmo assim a perversidade de Melkor e a influência maléfica de seu ódio emanavam de lá, e a Primavera de Arda foi destruída."

Esse conceito refere-se à perda da harmonia original. O objetivo de Melkor não era apenas destruir, mas deformar a criação por dentro, tornando-a permanentemente imperfeita. Diferente de Sauron, que concentrava seu poder em objetos, Melkor dispersava sua essência na própria matéria do mundo. Foi nesse processo de corrupção que ele começou a enfraquecer e perder sua força inicial, um conceito detalhado no livro Morgoth's Ring.

O Caos e o Refúgio dos Valar

Quando se sentiu forte o suficiente, Melkor desferiu o primeiro golpe aberto: derrubou as Duas Lâmpadas, lançando o mundo no caos. Após o ataque, ele recuou para Utumno. Os Valar, embora poderosos, não puderam persegui-lo de imediato, pois sua força era necessária para conter as catástrofes geográficas e salvar o que restava de sua obra. Por medo de que uma guerra total destruísse o local onde os Elfos deveriam despertar, os Valar retiraram-se para o Oeste (Valinor), deixando o norte da Terra-média sob a sombra de Melkor.

Dentro de Utumno, Melkor reuniu hostes de espíritos corrompidos, incluindo alguns dos Ainur que haviam se aliado a ele. Entre esses seres estavam os Balrogs, os demônios de fogo. Surgiram também monstros moldados em zombaria aos seres vivos, horrores primordiais criados sem limite ou medida. Utumno era o centro de distorção onde a vida era torcida até perder sua forma original.

A Origem dos Orcs e a Guerra das Potestades

Os relatos mais trágicos associados a Utumno referem-se à captura dos primeiros Elfos após o despertar em Cuiviénen. Segundo O Silmarillion, os Elfos capturados eram levados aos abismos de Utumno e, por lentas artes de crueldade, foram corrompidos e escravizados, dando origem à "horrenda raça dos Orcs". Independentemente de revisões posteriores de Tolkien, o ponto central é que Utumno funcionava como um laboratório de profanação.

A existência da fortaleza só chegou ao fim quando os Valar decidiram proteger os recém-despertos Elfos. Eles marcharam contra o norte com força total na Guerra das Potestades. A batalha foi tão violenta que a própria geografia da Terra-média foi alterada e os mares se alargaram. Utumno foi sitiada e, após um cerco angustiante, seus portões foram arrombados. Tulkas imobilizou Melkor e ele foi levado prisioneiro com a corrente Angainor.

O Eco de Udûn na Terceira Era

Embora Utumno tenha sido deixada em ruínas e "destelhada", a malignidade do local não foi totalmente expurgada. Muitas masmorras profundas não foram descobertas, e seres malignos — incluindo Sauron — permaneceram escondidos nas sombras.

Após sua libertação e posterior retorno, Melkor não reconstruiu Utumno, focando-se em Angband, que era uma sombra da escala da primeira fortaleza. No entanto, o nome sobreviveu. Em Sindarin, Utumno tornou-se Udûn (abismo ou inferno). Na Terceira Era, Sauron nomeou o vale ao norte de Mordor como Udûn, uma homenagem deliberada à maior obra de seu mestre.

Utumno foi o primeiro modelo de mal organizado. Angband, Mordor e Barad-dûr são apenas herdeiros dessa ideia original. Mesmo enterrada, seu nome ainda ecoa como o primeiro inferno da história da Terra-média.



sábado, 7 de fevereiro de 2026

Senhor dos Anéis: A criatura mais sombria criada por Tolkien - por Nerd Curioso



As duas criaturas mais enigmáticas do universo de Tolkien são Tom Bombadil e Ungoliant. Tom Bombadil, dentre outros motivos, por ser o único ser na Terra Média completamente imune ao Um Anel de Sauron. Já Ungoliant, por seu potencial de aumentar tanto o seu poder quanto o seu tamanho à medida que se alimentasse, de modo virtualmente infinito. Eu inclusive já postei outro vídeo de curiosidades sobre ela aqui no canal, mas não me aprofundei tanto quanto farei neste aqui.

Recentemente, eu me aprofundei no livro The Book of Lost Tales (O Livro dos Contos Perdidos) e descobri que Ungoliant é o personagem que Tolkien mais modificou ao longo do tempo. É a figura que mais possui origens e destinos alternativos. Por exemplo: em determinada versão, Laracna não existiria; Frodo esbarraria na própria Ungoliant, que estaria escondida dos Valar na Terra Média.

Em outra versão — e essa é a que eu mais gosto — Ungoliant teria outro nome: se chamaria Móru e seria um ser oriundo do Vazio. Nesta versão, Tolkien diz que ela teria existido desde sempre e que nem os Valar sabiam o que ela era. Neste vídeo, vamos analisar o que o Professor planejava fazer.

O Contexto da Criação
Pra gente compreender direito o trecho a seguir, precisamos antes de um pouco de contexto. Na versão oficial publicada, apenas um único ser existiu desde sempre. Este ser chama-se Eru Ilúvatar, a versão de Tolkien de um deus criador. Eru significa literalmente "O Único" e transmite a ideia de que ele era o único a existir. Antes de tudo, por meio de seu pensamento, ele criou os Ainur (os Valar e os Maiar) e, finalmente, juntos, eles criaram o universo (Eä).

Como diz n'O Silmarillion:

"Havia Eru, o Único, que em Arda é chamado de Ilúvatar. Ele criou primeiro os Ainur, os Sagrados, gerados por seu pensamento; e eles lhe faziam companhia antes que tudo mais fosse criado."

A Natureza de Móru
Agora vamos ao trecho do livro dos Contos Perdidos:

"Ali habitava o espírito primordial Móru, de quem nem mesmo os Valar sabem de onde ou quando veio. Talvez ela tenha sido gerada das névoas e da escuridão nos confins dos mares sombrios, naquela treva absoluta que surgiu entre a queda das Lâmpadas e o ascender das Árvores. Mas é mais provável que ela tenha sempre existido. E é ela quem ainda ama habitar aquele lugar escuro, assumindo a forma de uma aranha repulsiva."

A ideia original do espírito primordial Móru é definida como a personificação da Noite Primordial. Aqui temos algumas questões. Como acabamos de ver, Tolkien diz que o mais provável é que ela tenha sempre existido. Isso mudaria tudo: implicaria que ela seria da "mesma raça" de Ilúvatar, um ser que existiu antes do tempo.

Em segundo lugar, ela seria a personificação da noite. Isso soa muito mais metafísico e até como um horror cósmico do que estamos habituados no universo de O Senhor dos Anéis. Mesmo na versão publicada, ela tem feitos assustadores. Além de aumentar seu poder quase infinitamente, ela demonstrou ter um poder chamado "Antiluz", que nem mesmo o líder dos Valar foi capaz de enxergar através.

Uma Ameaça além de Arda
Em outra ocasião, ela chegou a atacar o próprio Morgoth, que sentiu medo e pediu ajuda aos seus Balrogs. Pouquíssimos seres dentro do Legendário conseguiriam replicar esse feito de sobreviver sozinho a um embate contra o primeiro Senhor Escuro e seus sete Balrogs. Tudo isso a eleva ao nível de ameaça cósmica.

Para entendermos melhor essa parte, precisamos lembrar do seguinte: na obra de Tolkien, existem dois lugares que ficam além dos limites do universo físico: os Salões da Eternidade e o Vazio Atemporal. Os Salões são onde Deus e os espíritos que não desceram ao mundo habitam. Já o Vazio Atemporal é para onde Morgoth foi banido após sua derrota.

Como diz n'O Silmarillion:

"Os Valar empurraram Morgoth pela Porta da Noite para além das Muralhas do Mundo, para o Vazio Atemporal."

Quando o Professor diz que nem os Valar sabem de onde ela surgiu, isso é perturbador. Os Valar criaram o universo sob o comando de Eru; se essa abominação simplesmente "apareceu" lá dentro, sua origem é um mistério absoluto.

Evolução da Obra e o Dagor Dagorath
Alguém pode pensar: "Isso tudo foi cortado da versão oficial". Será mesmo? De fato, Tolkien modificou muitas coisas em direção ao monoteísmo católico, mas nem tudo foi apagado. Na Carta 107, ele diz que imaginava Gandalf semelhante ao deus nórdico Odin. A descrição de alguns Valar, como Ulmo, Tulkas e Oromë, é claramente inspirada na mitologia grega.

Mesmo no material publicado, há trechos que sustentam a origem externa de Ungoliant:

"Embora os Valar não compreendessem plenamente o que havia acontecido, percebiam que Melkor havia recorrido a algum auxílio de fora dos limites de Arda."

E sobre os Elfos:

"Os Eldar não sabiam de onde ela teria vindo, mas alguns diziam que, em épocas muito remotas, ela descera da escuridão que cerca Arda."

Isso nos leva ao Dagor Dagorath, o apocalipse de Tolkien. Segundo a profecia de Mandos, Morgoth retornará pelos Portões da Noite, derrotará os guardiões do Sol e da Lua (Arien e Tilion) e espalhará o caos. O problema é que, ao fim da Primeira Era, Morgoth estava enfraquecido e mutilado. Como ele voltaria a ser uma ameaça total?

Christopher Tolkien percebeu que seu pai faleceu antes de resolver essa questão: o que Morgoth encontrou no Vazio que o tornou poderoso novamente? A sugestão nos Contos Perdidos é que ele encontraria "deuses antigos" ou criaturas como Ungoliant no Vazio. Artistas como John Howe retratam Morgoth retornando acompanhado de dragões e criaturas sombrias.

Os Três Destinos de Ungoliant
Para fechar, vamos às três versões de seu destino:

1914–1940: Ela seria morta por Eärendil (pai de Elrond), o portador da luz de uma das Silmarils.

1944–1951: Ela substituiria a Laracna. O encontro de Frodo e Sam no antro seria com a própria Ungoliant.

1958 em diante: Tolkien criou Laracna como uma descendente. O destino de Ungoliant passou a ser o mais aceito hoje: em sua fome insaciável, ela devorou a si mesma.

Como diz o trecho oficial:

"Do destino de Ungoliant não há história que se fale. Contudo, há quem tenha dito que teve seu fim há muito tempo, quando, em sua fome extrema, ela própria acabou devorando a si mesma."

Realmente é uma pena que Tolkien não tenha tido tempo de concluir todas as pontas dessa mitologia fantástica.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

O simbolismo dos dragões ao longo dos tempos - Kelly Faircloth via National Geographic

Desde a Grécia Antiga a Onyx Storm: o nosso interesse pelos dragões não é novo, mas a domesticação do animal mágico é.

Dragões são frequentemente símbolos da sorte
Lane Turner, The Boston Globe via Getty Images

Na China, os dragões são frequentemente símbolos da sorte e do poder do estado, dependendo do contexto. Nove Dragões, uma famosa obra da autoria de Chen Rong, um artista e político chinês da Dinastia Song do Sul, datada de 1244.

“Eu desejava dragões com um desejo profundo”, disse, em tempos, o autor de fantasia J.R.R. Tolkien sobre a sua imaginação infantil, por ser tão fascinado por estas criaturas mitológicas. Esse desejo moldou a obra de Tolkien para o resto da sua vida e Smaug, o grande vilão cuspidor de fogo de O Hobbit, tornou-se uma presença forte no imaginário cultural, mas esteve longe de ser o único merecedor do seu fascínio.

Culturas de todo mundo contaram histórias sobre enormes e poderosas criaturas semelhantes a serpentes durante séculos. Desde a Mesopotâmia à China, passando pela Grécia Antiga, o dragão deslizou ao longo da humanidade, com o seu folclore evoluindo constantemente, embora muitos dos clichés ainda hoje soem familiares: escondem-se em grutas, deitando-se sobre pilhas de ouro, tresandam a enxofre, aguardam por heróis intrépidos ou sobem pelos ares, tal como sombras agoirentas que voam sobre nós, descendo, por vezes, para capturar gado ou até seres humanos para comer. O dragão cuspidor de fogo e guardador de tesouros da cultura popular da actualidade é uma compilação nascida de diversas fontes e tradições. Na história da Europa, porém, matar um dragão era a derradeira proeza heróica, um elemento fundamental das sagas épicas e das vidas dos santos medievais.

E o encanto dos dragões não mostra sinais de diminuir. Desde a série House of the Dragon, da HBO, à colecção de livros Empyrean, de Rebecca Yarros, os dragões continuam a fascinar-nos. O recente terceiro volume da colecção de Yarros, Onyx Storm, tornou-se a edição para adultos mais rapidamente vendida dos últimos 20 anos aquando do seu lançamento. A história acompanha Violet Sorrengail ao longo da sua jornada numa academia de guerra para cavaleiros de dragões, a sua transformação desde estudante sossegada a prodígio aéreo, forjando uma aliança com um dos maiores e mais temíveis dragões do seu mundo. É um par improvável que apela ao nosso interesse duradouro – e em perpétua mutação – por este animal mítico.

Gravura de um baixo-relevo escavado na antiga cidade assíria
Pictures from History/CPA Media Pte Ltd/Alamy Stock Photo

Nesta gravura de um baixo-relevo escavado na antiga cidade assíria de Nimrud, um monstro do caos, retratado como um dragão, é expulso de um templo pelo Deus Sol mesopotâmico.

O que haverá nos dragões que atrai os contadores de história uma e outra vez? Os dragões são uma força assustadora da natureza, uma recordação gigantesca e com escamas de que os seres humanos nem sempre estiveram no topo da cadeia alimentar. É isso que lhes confere o seu poder narrativo e os torna tão perfeitos para demonstrar a bravura, a inteligência, a força, a tenacidade ou até a piedade de uma figura individual – sejam quais forem as virtudes que determinada cultura mais valorize. São uma ameaça que respira enxofre, um agente do caos com uma cauda que abana como um chicote e é natural que estejam novamente em alta, nesta época de turbulência, num mundo recentemente virado de pernas para o ar por uma pandemia global e mil e um outros desastres, tanto naturais como artificiais.

Após anos de tumulto, parece perfeitamente possível que um dragão aparecesse, subitamente, no horizonte, cuspindo fogo e levando consigo os aldeões. Não admira que a cultura pop seja tão interessada em heróis e heroínas suficientemente fortes para domesticar um animal que cospe fogo.

Pintura do artista barroco italiano Guido Reni
Fine Art Images/Heritage Images/Getty Images

Uma pintura do artista barroco italiano Guido Reni retrata o semi-deus grego e romano Hércules a matar a Hidra de Lerna. Esta obra foi concluída por volta de 1620 e encontra-se exposta no Louvre, em Paris.

Dos drakons da Grécia antiga a São Jorge e o cristianismo primitivo

Os dragões da tradição ocidental remontam à Grécia antiga, séculos antes do nascimento de Cristo. (O termo grego drakon deu origem ao latim draco, ao inglês dragon e ao português dragão.) Os dragões aparecem repetidamente nos mitos gregos. Quando Jasão e os seus Argonautas finalmente chegaram à Cólquida, o local onde se encontrava o mágico Tosão de Ouro, ele teve de enfrentar o seu dragão-guardião. O deus Apolo também matou um drakon associado ao oráculo profético de Delfos, reivindicando para si o local sagrado. A cavalaria romana tinha imagens de dragões nos seus estandartes de batalha.

Ânfora grega do século VI d.C. mostra Hércules a derrotar a Hidra
Album, Alamy Stock Photo

Uma ânfora grega do século VI d.C. mostra Hércules a derrotar a Hidra. Os dragões da tradição ocidental remontam à Grécia antiga. O termo grego drakon deu origem ao latim draco, ao inglês dragon e ao português dragão.

Os dragões desempenham frequentemente um papel muito diferente, muito mais benevolente, nas tradições asiáticas. Na China, por exemplo, são frequentemente símbolos da sorte e do poder do estado, dependendo do contexto, enquanto na Europa foram historicamente considerados uma ameaça mortal. Beowulf, o herói da grande epopeia anglo-saxónica composta algures entre os séculos VII e X d.C., acaba por morrer ao combater um terrível dragão cuspidor de fogo:

“O dragão começou a cuspir chamas e a queimar casas. Havia um brilho quente que assustava todos, pois a vil criatura alada não deixava nada vivo no seu encalço.”

Em Völsunga, uma antiga saga nórdica do século XIII, o herói Sigurd mata Fáfnir, um dragão deslizante que cospe veneno, agachando-se dentro de um poço para emboscar a criatura.

À medida que o cristianismo se ia impondo como a religião dominante da Europa, os dragões passaram a ser frequentemente retratados como antagonistas malvados em histórias sobre o triunfo cristão. “Desde a costa norte de África às Terras Altas da Escócia, nas visões dos mártires e nos feitos dos missionários, os dragões eram um obstáculo ameaçador ao avanço da fé cristã”, escreve o historiador Scott G. Bruce.

Rafael retratou São Jorge matando o dragão
Sepia Times/Universal Images Group/Getty Images

Rafael retratou São Jorge matando o dragão numa pintura a óleo em 1506. Jorge a trucidar o dragão foi um elemento típico da tradição visual cristã durante séculos.

Santa Margarida de Antioquia foi engolida por um dragão, enquanto no Livro da Revelação, o Arcanjo São Miguel derrota Satanás, que assume a forma de um dragão vermelho com sete cabeças. No entanto, o mais famoso de todos é, evidentemente, São Jorge, o mártir dos primórdios do cristianismo, que se tornou uma figura simbólica importante nas Cruzadas enquanto santo guerreiro.

A história da sua batalha contra o dragão foi incorporada naLegenda Aurea, a Lenda Dourada ou A Vida dos Santos, um relato sobre a vida dos santos redigido no século XIII por Jacobus de Voragine, que se tornou popular em toda a Europa medieval. Voragine diz que São Jorge era natural da Capadócia, na actual Turquia, e que viajou para Silene, na Líbia, onde descobriu que um dragão tinha “envenenado” a área em seu redor. Os moradores tentaram aplacá-lo com as suas crianças e jovens, até, por fim, chegar a vez da filha do rei. São Jorge decidiu ajudá-la em nome de Jesus, golpeando o dragão com a sua lança.

Christian Wilhelm Ernst Dietrich retrata Jasão matando o Dragão da Cólquida
Art Images/Heritage Images/Alamy Stock Photo

Nesta imagem, o pintor alemão Christian Wilhelm Ernst Dietrich retrata Jasão matando o Dragão da Cólquida, o guardião do Tosão de Oouro. Historicamente, matar um dragão é a derradeira proeza heróica.

Jorge a trucidar tornou-se um elemento típico da tradição visual cristã, aparecendo ao longo de centenas de anos em pinturas, vitrais e esculturas, frequentemente com o dragão a ser pisado pelos pés do santo, ou pelos cascos do seu cavalo, enquanto este lhe espeta a lança. (Isto faz com que o dragão não pareça muito impressionante – aproximadamente do tamanho de um golden retriever ou uma lontra particularmente grande.)

A hagiografia de São Jorge é particularmente importante no Reino Unido, onde Eduardo III o nomeou santo padroeiro da sua Ordem da Jarreteira em 1349. O lugar ocupado pelo santo na consciência nacional até sobreviveu à Reforma, embora com alguns ajustes: Ainda existe uma procissão chamada Lord Mayor’s Procession, que atravessa a cidade de Norwich encabeçada por um dragão mecânico chamado “Snap”, desenhado com uma boca que se abre e fecha para morder as multidões. Ao longo do tempo, São Jorge, com a sua armadura anacronisticamente reluzente da Idade Média tardia tornou-se o protótipo do cavaleiro matador de dragões na tradição de língua inglesa.

Esboço renascentista de Leonardo da Vinci
Vincenzo Fontana, Corbis/Getty Images

Este esboço renascentista de Leonardo da Vinci mostra uma luta entre um dragão e um leão.

O Hobbit e a ascensão das histórias de espadas e feitiçaria

Ninguém fez jus ao dragão como Tolkien. Antes de se tornar famoso enquanto autor de O Hobbit e O Senhor dos Anéis, Tolkien foi, durante muitos anos, professor de anglo-saxão na Universidade de Oxford – e obras como Beowulf e a Saga Völsunga influenciaram consideravelmente a sua ficção. Anos mais tarde, ele faria remontar a sua paixão pelos dragões aos seus encontros com essas histórias épicas durante a infância: “O mundo que continha sequer a imaginação de Fáfnir era mais rico e mais belo, independentemente do custo do perigo”, escreveu no seu ensaio On Fairy Stories, de 1947.

Influenciado pelos contos populares, ele criou um dos maiores dragões da ficção do século XX: Smaug, o enorme dragão vermelho que expulsa os anões do seu lar na Montanha Solitária, desencadeando os acontecimentos de O Hobbit. Em toda a sua glória cuspidora de fogo e destruidora de aldeias, Smaug é um descendente claro do dragão de Beowulf, embora seja uma personagem por direito próprio, com uma voz e personalidade. Smaug é uma figura maliciosa, comodamente instalado sobre uma enorme pilha de ouro e tesouros pela qual matou muitas, muitas pessoas. E gosta de se gabar disso, contando ao hobbit que dá nome ao livro sobre todos os homens que matou e a força das suas garras, dentes, armadura e asas. Apesar disso, o dragão é derrotado, com uma combinação de bravura, capacidade de observação e sorte.

Tolkien definiu a norma para as gerações de autores de fantasia que lhe sucederam.

Domesticando o dragão

A enorme popularidade de Tolkien contribuiu para transformar a fantasia num fenómeno de massas, no qual os dragões assumiram proporções gigantescas. Não é de admirar que quando Gary Gygax e Dave Arneson criaram um jogo de tabuleiro de role playing, no início da década de 1970, lhe tenham chamado Dungeons and Dragons.

Contudo, no meio dos movimentos feministas e de contracultura das décadas de 1960 e 1970, deu-se uma reviravolta: e se os dragões não estivessem meramente destinados a serem abatidos por heróis? Dragões companheiros e amigáveis tornaram-se típicos no mercado infantil. A canção “Puff the Magic Dragon”, lançada em 1962 pelo famoso trio folk Peter, Paul e Mary, contribuiu para os cânones do folclore dos dragões, seguido pela produção da Disney Pete’s Dragon, em 1977. (Essa tradição ainda hoje existe, com a série Como Treinares o Teu Dragão, por exemplo). Os autores também começaram a imaginar os dragões como companheiros e aliados em tempos de guerra – mais frequente e especificamente como aliados de mulheres.

Em Dragonflight, de 1968, a escritora Anne McCaffrey imaginou um futuro num planeta distante, mas feudal, chamado Pern, onde dragões geneticamente modificados eram usados por uma força treinada de cavaleiros de dragões para combater uma ameaça do espaço sideral. Essencial para o apelo da obra de McCaffrey foi o facto de as suas protagonistas serem frequentemente mulheres jovens e de ela apresentar uma nova narrativa: já ninguém estava à espera de que São Jorge os viesse salvar. A colecção teve um sucesso incrível, entrando para as listas dos livros mais vendidos e tornando McCaffrey a primeira mulher a conquistar um Nebula e um Hugo, os primeiros prémios do género da ficção especulativa.

No entanto, foi um sucessor seu que popularizou os cavaleiros de dragões: George R.R. Martin e as suas Crónicas de Gelo e Fogoe a adaptação televisiva da HBO, que apresentou milhões de espectadoras à cavaleira de dragões Daenerys Targaryen, uma personagem tão adorada que houve pais que chamaram “Khaleesi” às suas filhas. O universo dos fãs era tão grande que, anos mais tarde, a HBO ainda transmite uma prequela especificamente sobre os seus antepassados cavaleiros de dragões. Os dragões de Martin são menos domesticados do que os de McCaffrey. São perigosos e mortíferos, mas leais a Daenerys, em particular. Este ponto de vista era compatível com a história que ele estava a tentar contar, dando um novo enfoque às realidades brutais da guerra e fazendo uma abordagem mais dura aos aspectos pragmáticos da construção de mundos de fantasia, após décadas de obras escritas por imitadores de Tolkien.

Yarros é a mais recente autora a aventurar-se no cliché com a sua incrivelmente popular colecção Empyrean. A sua heroína, Violet, é uma estudante fisicamente frágil que se inscreve relutantemente no brutal programa de treino de cavaleiros de dragões, mas acaba por ficar determinada em alcançar o sucesso. Afinal, a sua recompensa é nada menos do que o poder de voar: “Ele alcança o topo de picos cobertos de neve e ali ficamos durante numa fracção de segundo antes de ele se virar, mergulhando novamente no mesmo ângulo assustador. É o momento mais aterrador e emocionante da minha vida.”

Herói Sigurd mata Fáfnir
Keith Corrigan, Alamy Stock Photo

Em Völsunga, uma antiga saga nórdica do século XIII, o herói Sigurd mata Fáfnir, um dragão que desliza e cospe veneno. A Saga Völsunga veio a influenciar J.R.R. Tolkien. Esta ilustração de John Bauer mostra um Lindworm sueco, 1911.

Os autores modernos de fantasia, desde McCaffrey a Martin e Yarros, brincaram com as histórias de dragões tradicionais, ajustando-as e reinventando-as, e perguntando o que pode acontecer quando os dragões não são um inimigo jurado, mas um aliado domesticável. Mesmo assim, estão a edificar a sua obra sobre o leito de uma tradição narrativa antiga, uma narrativa que imagina os dragões como um adversário colossal e poderoso da humanidade, uma força mortífera de poder natural em estado bruto, incrivelmente maior do que nós, com a pele grossa, não fina, e naturalmente blindados, com dentes carnívoros, não rombos. O poder narrativo de uma pequena figura humana diante de um dragão grande e malvado é enorme e, não só não mostra sinais de desvanecimento, como parece mais apelativa do que nunca, neste momento em que, por vezes, os dragões parecem prestes a soltar-se sobre a Terra. Sinceramente, é difícil não nos identificarmos com os cidadãos de Silene e as dificuldades por eles enfrentadas.

Continuamos a desejar os dragões, tal como Tolkien os desejava há décadas, porque as histórias sobre dragões e cavaleiros de dragões tornam os dragões metafóricos da realidade quotidiana literais e, ao fazê-lo, proporcionam-nos uma catarse satisfatória.