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domingo, 24 de fevereiro de 2019

A Balada do Black Tom e O Horror em Red Hook - Victor LaValle e H.P. Lovecraft

Nick Hayes
As pessoas que se mudam para Nova Yorque sempre cometem o mesmo erro. Não conseguem enxergar o lugar. Essa é a verdade para Manhattan, mas também para bairros mais distantes, seja Flushing Meadows, no Queens, ou Red Hook, no Brooklyn. Elas vêm em busca de magia, seja boa ou má, e nada vai convencê-lo a de que a tal magia não está aqui. Porém, isso não era de todo ruim. Alguns nova-iorquinos aprenderam como ganhar a vida com essa ideia equivocada. Charles Thomas Tester, por exemplo. - Victor LaValle

Se a modernidade é uma declaração de guerra contra a tradição, isso é claro. Todo o resultado de uma paranoia mistificada se instala nos modernos como um cancro que se espalha para todos os cantos. Os escritores sempre foram vinculados a uma espécie de tradição, mas parece que se esqueceram disso. Criaram guetos intelectuais, e mesmo suspirando por ela - a tradição - detesta qualquer sinal verdadeiro da mesma.

A tradição vem do hábito. De escolher coisas boas, seleciona-lás em detrimento de coisas ruins. E a obra que a Editora Morro Branco traz vai totalmente nesse sentido. O livro de LaValle é totalmente diferente das demais porque segue a risca esse método. Seria o que podemos chamar de a verdadeira "resistência" encontrada nos Cthulhu Mytos. Essa resistência pega ou é aceita porque é filiada a um conceito banal: todos tem medo do que desconhecem e do que pensam.

Victor LaValle e H.P. Lovecraft

Com um cenário o Harlem da década de 20, somos apresentados a Charles Thomas Tester, um malandro que sobrevive de golpes e furtos. Filho de um pedreiro e uma doméstica, viu no pai Otis a inspiração de continuar batalhando, mas não herdou seu talento -  era um péssimo instrumentista. A relação da música afro-americana com o sobrenatural e o mal remonta às suas origens. Ante mesmo do surgimento do blues, o jazz chegou a carregar este rótulo. Na década em que se passa o livro, o jazz tomava conta das rádios norte-americanas com grande força.

Tudo muda quando encontra dois personagens da obra de outro autor. Robert Suydam, um milionário excêntrico e Malone, um policial branco que não se mostra racista (e, até certo ponto tem compaixão de Thomas, ou Tommy, como era conhecido). São personagens retirados originalmente do conto O Horror em Red Hook de H.P. Lovecraft. Foi através dessa narrativa e de outras histórias, que conseguiu extravasar a raiva que tinha contra imigrantes. Sua ex-mulher Sonia Greene conta que, quando ela e seus colegas de imprensa amadores andavam por Nova York com Lovecraft, ele ficava furioso com os imigrantes que via. 


The Rats in the Walls da Zest Magazine de 1956

O nome do personagem é um pouco peculiar. Talvez seja em referência a Zest Magazine, volume n° 1, de Janeiro de 1956. Publicado originalmente em 1923, The Rats in the Walls (Os Ratos nas Paredes) trazia o gato do protagonista com o nome de Nigger Man - nigger é algo ofensivo, um adjetivo pejorativo para pessoa uma pessoa negra norte-americana. Quando a história foi reimpressa na revista Zest (década de 1950), esse nome foi mudado para Black Tom.

Lovecraft caiu em desgraça nos últimos anos, coincidindo com um foco intenso em seu racismo, anti-semitismo e desprezo pela religião ao ponto de que o troféu World Fantasy Award não ter mais o busto do autor como prêmio. Ele era dado desde a sua criação em 1975, desenhado pelo cartunista Gahan Wilson. A nova estatua com o novo design - vencedor de um concurso em 2016 - vem do escultor e artista Vincent Villafranca, (imagens abaixo).

A esquerda, o design de Gahan Wilson. A direita, o de Vicent Villafranca

LaVelle consegue criar uma narrativa onde o racismo, a xenofobia e toda violência cotidiana que o protagonista sofre culmina no encaldamento sangrento entre o autor e Lovecraft, onde Tommy vira Black Tom. Se assemelha bastante a Carrie, a Estranha de Stephen King: a origem do ódio e o ressentimento culminados com a destruição sangrenta de todo o ambiente repressivo.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

O Sabujo - H.P. Lovecraft


EM MEUS TORTURADOS ouvidos ressoa um pesadelo zumbindo e vibrando incessantemente e o longínquo uivo de um gigantesco sabujo. Não é sonho. Temo ser plena loucura. Há muito tive essa piedosa dúvida. St. John é um cadáver dilacerado. Só eu sabia o motivo. E sei tanto, que estou a ponto de estourar meus miolos por medo de ser mutilado da mesma maneira. Sob escuros e ilimitados corredores de contos góticos, perambula e negra e informe Nêmesis, que me induz à autodestruição. - H.P. Lovecraft

Escrito em setembro de 1922 e publicado originalmente na Weird Tales em fevereiro de 1924, The Hound, traduzido como O sabujo. O título original é uma menção a um grupo de cães de caráter único, próprio e exclusivo por ter um poderoso olfato, servindo perfeitamente como cães de caça. Nisso, a uma variedade enorme de espécies que podem realizar esse feito (do Springer Spaniel Inglês até um Foxhound americano), e o Lovecraft não estabelece uma raça, então acho que o título já faz uma indução do leitor. Provavelmente, "Cão de caça", seja um título menos questionável.

HQ - link aqui
Esse conto marca a primeira menção ao Necronomicon, embora a primeira referência ao Abdul Alhazred, o árabe louco por trás do compêndio blasfemo tenha aparecido um ano antes (1921), em “A cidade sem nome” mas pelo resto da vida Lovecraft expandiu os comentários e menções ao tomo proscrito nas obras como O caso de Charles Dexter Ward (1927) e Sussurros na Escuridão (1930). Apesar da aparente riqueza de referências, muitas alusões são extremamente vagas. Podemos dizer que o livro funesto traz informações relativas a lugares, assuntos e entidades (nesse caso, um amuleto de jade que simboliza o culto de necrófagos de Leng, na Ásia Central).

Um debate levantando a algum tempo em um grupo sobre o autor, é se a relação entre o personagem narrador (sem nome) e seu amigo St. John mantinham uma relação homossexual. Não há nenhuma peculiaridade que fuja muito dos protagonistas de Lovecraft e que indique esse caminho. Ambos tem gostos extravagante e funestos, lendo livros proscritos e com o passatempo nada convencional de violarem túmulos e enfeitaram uma sala inteira com tesouros usurpados dos mortos e com cadáveres incluindo de carniças.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

O modelo de Pickman - H.P. Lovecraft



VOCÊ não precisa achar que sou louco, Eliot — muitas pessoas têm superstições ainda mais estranhas. Por que você não ri do avô de Oliver, que se recusa a andar de carro? Se eu não gosto daquele maldito metrô, o problema é meu; e além disso chegamos mais depressa de táxi. Com o metrô, precisaríamos ter subido o morro desde a Park Street.

Eu sei que estou mais nervoso do que estava quando você me viu ano passado, mas você também não precisa criar caso. Tenho bons motivos, só Deus sabe, e considero-me um homem de sorte por não ter enlouquecido. Mas afinal, por que esse interrogatório? Você não era tão inquisitivo.

Bem, se você quer saber, não vejo por que não contar. Talvez você deva saber mesmo, pois me escreveu como um pai preocupado quando soube que eu havia deixado o Art Club e me afastado de Pickman. Agora que ele sumiu eu apareço no clube de vez em quando, mas os meus nervos já não são mais os mesmos.

Não, não sei que fim levou Pickman, e não gosto sequer de imaginar. Você deve ter concluído que eu tinha alguma informação privilegiada quando o abandonei — e é por isso que eu não quero nem imaginar para onde ele foi. A polícia que trate de descobrir o quanto puder — não vai ser muita coisa, sendo que até agora eles ainda não sabem de nada a respeito do velho estúdio que Pickman alugava em North End sob o nome de Peters.

Nem eu sei se saberia voltar lá — e de qualquer forma não pretendo tentar, nem mesmo à luz do dia!

Sim, eu sei, ou temo saber, por que ele o alugava. Já vou chegar lá. E acho que antes de eu acabar você vai entender por que não comunico a polícia. Eles me pediriam para guiá-los, mas eu não conseguiria voltar lá nem que soubesse o caminho. Havia alguma coisa lá — e agora não consigo mais andar de metrô nem (fique à vontade para rir disto também) descer a porão algum.

Achei que você saberia que eu não me afastei de Pickman pelas mesmas razões estúpidas que levaram velhas caprichosas como o dr. Reid ou Joe Minot ou Rosworth a abandoná-lo. A arte mórbida não me choca, e quando um homem tem o gênio de Pickman eu me sinto honrado ao conhecê-lo, independente do caráter de sua arte. Boston jamais teve um pintor maior do que Richard Upton Pickman. Eu disse e repito, e não mudei em nada a minha opinião quando ele me mostrou aquele Ghoul se alimentando. Você lembra? Foi naquela época que Minot o cortou.

Sabe, é preciso um profundo talento e uma profunda compreensão da Natureza para produzir obras como as de Pickman. Qualquer amador que desenhe capas de revistas pode espalhar a tinta de um jeito qualquer e chamar o resultado de pesadelo ou de sabá das bruxas ou de retrato do demônio, mas só um grande pintor consegue fazer uma coisa dessas parecer realmente assustadora ou convincente. É por isso que só um artista de verdade conhece a fundo a anatomia do terror ou a psicologia do medo — o tipo exato de linhas e proporções que se ligam a instintos latentes ou memórias hereditárias de pavor, e os contrastes e a iluminação que despertam o sentimento de estranheza adormecido. Não preciso dizer a você por que um Fuseli faz nossos ossos literalmente se enregelarem, enquanto um frontispício de história de terror só nos faz rir. Existe alguma coisa que esses sujeitos captam — algo além da vida — que eles conseguem nos fazer captar por um breve instante. Com Doré era assim. Com Sime é assim. Com Angarola, de Chicago, é assim. E quanto a Pickman — nenhum homem jamais foi como ele e, por Deus, espero que jamais seja outra vez.

Não me pergunte o que eles veem. Você sabe, na arte convencional existe uma enorme diferença entre as coisas vivas, de verdade, criadas a partir da natureza ou de modelos, e o lixo artificial que os peixes pequenos em geral produzem num estúdio precário. Bem, devo dizer que um artista realmente excêntrico tem um tipo de visão que cria modelos, ou invoca alguma coisa equivalente a cenas reais do mundo espectral em que vive. Seja como for, Pickman consegue resultados que se distinguem dos sonhos alucinados de um impostor mais ou menos como os resultados obtidos por um pintor da natureza distinguem-se das garatujas de um cartunista formado por correspondência. Se eu alguma vez tivesse visto o que Pickman via — mas não! Escute, vamos beber alguma coisa antes de continuar o assunto. Meu Deus, eu não estaria vivo hoje se tivesse visto o que aquele homem — se é que era um homem — via!

Você lembra que o forte de Pickman eram os rostos. Acho que ninguém, desde Goya, foi capaz de representar o inferno em estado bruto nos traços de um rosto ou em uma expressão contorcida. E antes de Goya você precisa voltar até os sujeitos medievais que fizeram os gárgulas e as quimeras em Notre-Dame e em Mont Saint-Michel. Eles acreditavam em todo tipo de coisa — e talvez também vissem todo tipo de coisa, afinal a Idade Média teve umas fases bem curiosas. Eu lembro que uma vez, um ano antes da sua partida, você perguntou a Pickman de onde raios ele tirava aquelas ideias e visões. Foi bem macabra a risada que ele deu, não? Em parte foi por causa daquela risada que Reid se afastou dele. Reid, você sabe, mal havia começado a estudar patologia comparada e já estava cheio de “conhecimentos especializados” pomposos sobre a importância biológica ou evolutiva deste ou daquele sintoma mental ou físico. Ele disse que Pickman o repelia mais a cada dia, e que nos últimos tempos quase o assustava — que os traços e a expressão no rosto dele aos poucos se desenvolviam de um modo que não o agradava; de um modo que não era humano. Reid veio cheio de conversas sobre alimentação e disse que Pickman deveria ser anormal e excêntrico ao extremo. Imagino que você tenha dito a Reid, se vocês trocaram alguma correspondência a respeito, que os nervos ou a imaginação dele ficavam muito abalados com as pinturas de Pickman. Eu ao menos disse — na época.

Mas lembre que eu não me afastei de Pickman por nada disso. Pelo contrário, minha admiração por ele só aumentava; aquele Ghoul se alimentando era uma obra magnífica. Como você sabe, o clube se recusou a exibi-lo, e o Museu de Belas Artes não o aceitou nem de presente; além do mais, ninguém queria comprá-lo, então o quadro ficou pendurado na casa de Pickman até o dia em que ele sumiu. Agora está com o pai dele em Salem — você sabe que Pickman vem de uma antiga família de Salem, e que algum antepassado dele foi enforcado por bruxaria em 1692.

Habituei-me visitar Pickman com certa frequência, em especial depois que comecei a tomar notas para escrever uma monografia sobre arte fantástica. Foi provavelmente o trabalho dele que enfiou essa ideia na minha cabeça e, de qualquer modo, ele se revelou uma verdadeira mina de informações e sugestões quando resolvi levar o projeto adiante. Pickman me mostrou todas as pinturas e desenhos que tinha; inclusive alguns rascunhos em bico-de-pena que, acredito, teriam rendido uma expulsão do clube se os outros membros tivessem-nos visto. Logo eu tinha virado quase um seguidor, e ficava como um colegial, escutando, por horas a fio, teorias estéticas e especulações filosóficas loucas o bastante para que o internassem no hospício de Danvers. Essa devoção ao meu herói, somada ao fato de que em geral as pessoas tinham cada vez menos contato com ele, levaram-no a depositar muita confiança em mim; e em uma certa noite ele insinuou que se eu ficasse de bico fechado e não fizesse alarde, ele me mostraria algo um tanto incomum — algo um pouco mais forte do que qualquer outra coisa na casa.

“Você sabe”, disse ele, “certas coisas não foram feitas para a Newbury Street — coisas que ficam deslocadas e que de qualquer modo são impensáveis aqui. O meu interesse é captar as sutilezas da alma, e você não vai achar nada parecido com isso em um conjunto de ruas cheias de novos-ricos em um aterro. A Back Bay não é Boston — ainda não é nada, porque não teve tempo de guardar memórias e atrair espíritos locais. Se existem fantasmas aqui, são os fantasmas mansos de um pântano salgado e de uma pequena gruta; mas eu quero fantasmas humanos — fantasmas de seres inteligentes o bastante para terem visto o inferno e compreendido o que viram.

“O lugar ideal para um artista morar é o North End. Se os estetas fossem sinceros, aguentariam os bairros pobres em nome das tradições acumuladas. Por Deus! Você não vê que lugares como aquele não foram simplesmente construídos, mas cresceram de verdade? Gerações e mais gerações viveram e sofreram e morreram por lá, e numa época em que as pessoas não tinham medo de viver e sofrer e morrer. Você não sabe que havia um moinho em Copp’s Hill em 1632, e que metade das ruas atuais já existiam em 1650? Posso mostrar para você casas que estão de pé há mais de dois séculos e meio; casas que presenciaram coisas que fariam uma casa moderna desabar em ruínas. O que os modernos entendem sobre a vida e as forças que se escondem por trás dela? Você diz que a bruxaria de Salem é uma mera superstição, mas eu aposto que a vó da minha bisavó teria histórias para contar. Ela morreu enforcada em Gallows Hill, sob o olhar farisaico de Cotton Mather. Mather, que o diabo o carregue, temia que alguém conseguisse escapar dessa maldita prisão de monotonia — como eu queria que alguém o tivesse enfeitiçado ou chupado seu sangue à noite!

“Posso mostrar a você a casa onde ele morava e também uma outra onde tinha medo de entrar, apesar de todo aquele falatório destemido. Ele sabia de coisas que não ousou escrever naquela estupidez de Magnalia ou nos deslumbres pueris de Wonders of the Invisible World. Escute, você sabia que por todo o North End havia um conjunto de túneis que ligavam as casas umas às outras, e também ao cemitério e ao mar? Os caçadores de bruxas podiam procurar à vontade na superfície — dia após dia aconteciam coisas fora do alcance deles, e vozes indefiníveis riam à noite!

“Ah, pegue dez casas construídas antes de 1700 ainda no terreno original e aposto que em oito delas eu descubro alguma coisa estranha no porão. É raro passar um mês sem que você leia uma notícia sobre trabalhadores que, ao demolir construções antigas, descobrem arcadas fechadas com tijolos e poços que não levam a lugar nenhum — no ano passado dava para ver uma casa assim quando o trem elevado passava pela Henchman Street. Havia bruxas e o que os feitiços delas invocavam; piratas e o que traziam do mar; corsários — é o que eu digo, antigamente as pessoas sabiam viver e ampliar os horizontes da vida! Esse não era o único mundo que um homem sábio e destemido podia conhecer — pfui! E pensar nos dias de hoje, com intelectos tão apagados que até mesmo um clube de supostos artistas sente calafrios e convulsões se uma pintura ofende a sensibilidade de uma mesa de chá na Beacon Street!

“O único aspecto positivo do presente é que ele é estúpido demais para fazer perguntas detalhadas acerca do passado. O que os mapas e registros e guias de viagem nos informam a respeito do North End? Ha! Eu garanto que vou levá-lo a trinta ou quarenta vielas e emaranhados de vielas ao norte da Prince Street que não são conhecidos por mais de dez pessoas além dos estrangeiros que se amontoam por lá. E o que aqueles carcamanos entendem disso? Não, Thurber, esses lugares antigos têm sonhos maravilhosos e transbordam enlevo e horror e fugas dos lugares-comuns, mas nem assim aparece uma vivalma que os compreenda ou se beneficie deles. Ou melhor, existe uma alma — afinal, não estive revirando o passado a troco de nada!

“Quem diria, você se interessa por essas coisas. E se eu dissesse que tenho um outro estúdio por lá, onde posso captar o espírito noturno de horrores ancestrais e pintar coisas que eu não conseguiria sequer imaginar na Newbury Street? Claro que as titias velhas do clube não sabem disso — com Reid, maldito seja, espalhando boatos de que sou algum tipo de monstro descendo o tobogã da evolução reversa. É, Thurber, há muito tempo eu decidi que, assim como a beleza, também se deve pintar o terror a partir da observação, então explorei alguns lugares onde eu tinha motivos para acreditar que o terror habitava.

“Além de mim, não mais do que três homens nórdicos devem ter visto o lugar. Não fica muito longe do trem elevado, mas em relação à alma são séculos de distância. Escolhi ficar lá por causa do velho poço de tijolos no porão — um dos que mencionei há pouco. A construção está prestes a cair, então ninguém quer morar por lá, e eu detestaria contar a você a bagatela que estou pagando. As janelas estão fechadas com tábuas, mas isso é ainda melhor para mim, já que não preciso de luz solar para o meu trabalho. Eu pinto no porão, onde a inspiração atinge o grau máximo, mas também tenho outras salas no térreo. O proprietário é siciliano, e aluguei o estúdio sob o nome Peters.

“Se você estiver a fim, posso levá-lo hoje à noite até lá. Acho que você iria gostar dos quadros, pois, como eu disse, deixei a imaginação correr solta. Não é longe — às vezes faço o trajeto a pé, porque não quero chamar atenção aparecendo de táxi num lugar daqueles. Podemos pegar o trem na South Station em direção à Battery Street, e de lá é só uma caminhada curta.”

Bem, Eliot, não me restou muita coisa a fazer depois de todo esse falatório senão conter a vontade de sair correndo e pegar o primeiro táxi livre que aparecesse na nossa frente. Trocamos para o trem elevado na South Station e, por volta do meio-dia, já tínhamos descido a escadaria da Battery Street e chegado ao antigo porto depois de Constitution Wharf. Eu não prestei atenção nas ruas transversais e não saberia dizer em qual delas entramos, mas sei que não foi em Greenough Lane.

Quando dobramos, foi para subir pela desolação da viela mais antiga e mais imunda que eu já vi em toda a minha vida, cheia de empenas que pareciam prestes a desmoronar, janelinhas quebradas e chaminés arcaicas que se erguiam meio decrépitas contra o céu enluarado. Acho que eu não vi nem três casas construídas depois da época de Cotton Mather — tenho certeza de que vi pelo menos duas com beirais, e lá pelas tantas tive a impressão de ver um telhado de duas águas anterior às mansardas, embora os antiquários digam que não restou nenhuma casa assim em Boston.

Ao sair dessa viela, que tinha iluminação tênue, dobramos à esquerda em direção a uma outra viela tão silenciosa quanto e ainda mais estreita, sem iluminação alguma: em seguida, no escuro, fizemos o que eu acredito ter sido uma curva em ângulo obtuso à direita. Logo Pickman sacou uma lanterna e revelou uma porta antediluviana de dez painéis que parecia devastada pelos cupins. Depois de abrila, ele me levou por um corredor vazio guarnecido com o que em outras épocas tinham sido lambris de carvalho escuro — um mero detalhe, mas que fazia pensar em Andros e em Phipps e na bruxaria. Então passamos por uma porta à esquerda, ele acendeu uma lamparina a óleo e disse que eu podia ficar à vontade.

Eliot, você sabe que eu sou o tipo de sujeito que costumam chamar de “durão”, mas confesso que fiquei perturbado com o que vi nas paredes daquele cômodo. Eram as pinturas — as pinturas que Pickman não podia pintar nem exibir na Newbury Street — e ele tinha toda a razão quando disse que havia deixado a imaginação “correr solta”. Vamos — peça outra bebida — eu, ao menos, preciso de mais uma!

Nem adianta eu tentar descrever os quadros para você, porque o horror blasfemo e a inacreditável repulsa e decadência moral vinham de toques discretos, muito além do poder descritivo das palavras. Não havia nenhum elemento da técnica exótica que se vê nas obras de Sidney Sime, nada parecido com os cenários trans-saturnianos e fungos lunares que Clark Ashton Smith usa para nos gelar o sangue. Os cenários eram em grande parte igrejas antigas, bosques densos, escarpas à beira-mar, túneis de cimento, antigos corredores com lambril ou simples arcadas em cantaria. O cemitério de Copp’s Hill, que não podia ficar muito longe daquela casa, era um dos cenários mais frequentes.

A loucura e a monstruosidade ficavam por conta das figuras em primeiro plano — pois a arte mórbida de Pickman consistia acima de tudo em retratos demoníacos. As figuras raramente eram humanas, mas muitas vezes apresentavam vários traços humanoides. Os corpos, apesar de bípedes, em sua maioria eram curvados para a frente e tinham traços vagamente caninos. A textura parecia algo borrachuda e era um tanto desagradável. Ugh! É como se eu os estivesse vendo nesse instante! As ocupações deles — bem, não me peça para entrar em detalhes. Em geral estavam se alimentando — não direi do quê. De vez em quando apareciam aos bandos em cemitérios ou passagens subterrâneas, e muitas vezes pareciam disputar uma presa — ou, melhor dizendo, um tesouro. E que expressividade incrível Pickman dava aos rostos inertes daqueles espólios macabros! Às vezes as criaturas apareciam saltando por janelas abertas à noite, ou agachadas sobre o peito de pessoas adormecidas, observando suas gargantas. Uma tela mostrava as criaturas latindo em volta de uma bruxa enforcada em Gallows Hill, cuja expressão cadavérica guardava uma estreita semelhança com a expressão delas.

Mas não ache que foi a escolha dos temas e cenários tétricos o que me levou a fraquejar. Não sou nenhuma criança, e já vi muita coisa assim antes. Eram os rostos, Eliot, aqueles malditos rostos com sorrisos de escárnio e fios de baba pendente que pareciam sair da tela com o sopro da vida! Por Deus, eu pensei que estivessem vivos! Aquele mago repulsivo tinha despertado os fogos do inferno em pigmento, e o pincel dele conjurou terríveis pesadelos. Passe-me a garrafa, Eliot!

Havia um quadro chamado A lição — Deus me perdoe por ter visto aquilo! Escute — você consegue imaginar um grupo de seres caninos inomináveis, agachados em círculo num cemitério, ensinando uma criança a se alimentar como eles? O preço de uma criança trocada, imagino — você conhece a velha lenda sobre pessoas estranhas que deixavam suas crias nos berços em troca dos bebês humanos que raptavam. Pickman estava mostrando o que acontece às crianças raptadas — como é a vida delas — e então eu comecei a ver uma semelhança pavorosa entre os rostos humanos e os inumanos. Pickman, com todas as gradações de morbidez entre o manifestamente inumano e a humanidade degradada, estabelecia uma linhagem e uma evolução sardônica. As criaturas caninas descendiam de humanos!

Eu mal havia me perguntado o que aconteceria às crias daqueles seres deixadas ao cuidado de humanos quando avistei uma pintura que materializava esse mesmo pensamento. Era o interior de uma antiga casa puritana — um cômodo com inúmeras vigas e gelosias, um arquibanco e outros móveis desengonçados do século XVII, com toda a família sentada enquanto o pai lia uma passagem da Bíblia. Todos os rostos, com a exceção de um, tinham uma expressão nobre e reverente, mas aquele um refletia o escárnio das profundezas. Era o rosto de um garoto, sem dúvida tido por filho daquele pai tão devoto, mas que na verdade tinha parentesco com os seres impuros. Era a outra criança trocada — e, num espírito de suprema ironia, Pickman havia pintado o rosto do garoto com notável semelhança ao seu próprio.

Nesse ponto Pickman já havia acendido uma lamparina no cômodo ao lado e, com excelentes modos, segurou a porta aberta para que eu passasse; perguntou se eu gostaria de ver seus “estudos modernos”. Eu não tinha conseguido comunicar a ele as minhas impressões — o pavor e a repulsa me emudeciam — mas acho que ele entendeu o que se passava e considerou tudo aquilo um grande elogio. E mais uma vez, Eliot, faço questão de repetir que não sou nenhum maricas que sai gritando ao ver qualquer coisa que se afaste um pouco do trivial. Sou um homem de meia-idade, sofisticado, e você me viu na França e sabe que não me deixo afetar por qualquer coisa. Também não esqueça que eu mal havia recuperado o fôlego e me acostumado àquelas figuras pavorosas que transformavam a Nova Inglaterra colonial em um anexo do inferno. Mas, bem, apesar de tudo isso, o cômodo seguinte me fez soltar um grito, e precisei me agarrar ao vão da porta para não cair. O primeiro aposento mostrava grupos de ghouls e de bruxas à solta no mundo de nossos antepassados, mas esse outro trazia o horror para a nossa vida cotidiana!

Meu Deus, como aquele homem pintava! Ele tinha um estudo chamado Acidente no metrô em que um bando das criaturas vis saía de alguma catacumba desconhecida por uma rachadura no piso da estação na Boston Street e atacava a multidão de pessoas que aguardava na plataforma. Um outro mostrava um baile entre os túmulos de Copp’s Hill, com uma paisagem contemporânea ao fundo. Além disso, havia inúmeras cenas em porões com monstros passando através de buracos e frestas na cantaria e rindo agachados atrás de barris ou fornalhas enquanto esperavam a primeira vítima descer as escadas.

Uma tela repugnante parecia mostrar uma parte de Beacon Hill tomada por exércitos dos monstros mefíticos enfiados em inúmeras tocas que conferiam ao chão o aspecto de um favo de mel. Bailes nos cemitérios de hoje eram temas recorrentes, e uma outra composição me chocou mais do que todas as outras — uma cena no interior de uma arcada desconhecida, onde inúmeras criaturas amontoavam-se em torno de uma outra, que tinha nas mãos um famoso guia de Boston e estava sem dúvida lendo em voz alta. Todos apontavam para uma certa passagem, e cada um daqueles rostos parecia tão desfigurado pelas risadas epilépticas e reverberantes que eu quase pude ouvir os ecos demoníacos. O título da obra era Holmes, Lowell e Longfellow enterrados em Mount Auburn.

Enquanto aos poucos eu me recompunha e habituava-me ao segundo aposento de crueldade e morbidez, comecei a analisar algumas características da minha repulsa. Em primeiro lugar, disse eu para mim mesmo, aquelas coisas me repeliam devido ao caráter absolutamente inumano e à crueza impiedosa que revelavam em Pickman. O sujeito deveria ser um inimigo ferrenho de toda a humanidade para sentir tamanho júbilo com a tortura de carnes e miolos e a degradação do invólucro mortal. Em segundo lugar, me aterrorizavam justamente por causa de sua grandeza. Aquele era o tipo de arte que convence — ao ver as pinturas, víamos os próprios demônios e sentíamos medo. E o mais estranho era que Pickman não obtinha esse efeito com requintes fantásticos ou bizarrias. Não havia elementos borrados, distorcidos ou estilizados; os contornos eram nítidos e realistas, e os detalhes, executados à perfeição. E os rostos!

Não era a simples interpretação de um artista o que víamos; era o pandemônio encarnado, claro e objetivo como um cristal. Céus! Aquele homem não era um romântico ou um fantasista, não! Ele sequer tentava representar o caráter inquieto, prismático e efêmero dos sonhos; em vez disso, com frieza e sarcasmo, refletia um mundo de horror perene, mecanístico e bem-estabelecido, que ele enxergava com abrangência, brilhantismo, objetividade e decisão. Só Deus sabe onde aquele mundo poderia estar, ou onde Pickman teria vislumbrado as formas blasfemas que andavam, corriam e arrastavam-se por lá; mas qualquer que fosse a assombrosa origem das imagens, uma coisa estava clara. Pickman era, em todos os sentidos — na composição e na execução — um realista talentoso, esmerado e quase científico.

Meu anfitrião conduziu-me pelas escadas até o porão onde ficava o estúdio propriamente dito, e eu me preparei para mais cenas demoníacas em meio às telas inacabadas. Quando chegamos ao fim da úmida escadaria ele virou a lanterna para um canto do amplo espaço à nossa frente, revelando um contorno circular de tijolos que sem dúvida era um grande poço no chão de terra batida. Chegamos mais perto e eu vi que o poço deveria ter um metro e meio de diâmetro, com paredes de uns trinta centímetros de espessura a cerca de quinze centímetros do chão — uma sólida construção do século XVII, a não ser que eu estivesse muito enganado. Aquilo, disse Pickman, era o tipo de coisa sobre as quais vinha falando — um acesso ao sistema de túneis que existia sob o morro. Percebi quase sem querer que a abertura do poço não estava cimentada, e que um disco de madeira fazia as vezes de tampa. Ao pensar nas coisas que aquele poço evocava se os comentários de Pickman não fossem pura retórica, estremeci de leve; então me virei para subir mais um degrau e atravessar uma porta estreita que conduzia a um aposento bastante amplo, com piso de madeira e equipado como estúdio. Uma lamparina a acetileno providenciava a iluminação necessária para o trabalho.

As telas inacabadas sobre os cavaletes ou apoiadas de encontro à parede eram tão macabras quanto as do andar superior, e demonstravam a apurada técnica do artista. As cenas pareciam esboçadas com extremo cuidado, e os contornos a lápis denunciavam a técnica minuciosa que Pickman usava para obter a perspectiva e as proporções corretas. O homem era genial — e digo isso agora, mesmo sabendo de tudo o que eu sei. Uma enorme câmera fotográfica em cima de uma mesa chamou a minha atenção, e Pickman me disse que a usava para fotografar os cenários e pintá-los a partir das fotografias, no estúdio, em vez de sair carregando toda a sua parafernália pela cidade. Ele achava que uma fotografia servia tão bem quanto um cenário ou um modelo real, e declarou que as usava com bastante frequência.

Havia algo de muito perturbador naqueles esboços nauseantes e monstruosidades inacabadas que escarneciam ao nosso redor, e quando Pickman de repente levantou o pano que cobria uma enorme tela no lado mais afastado da luz eu não consegui evitar um grito — o segundo que soltei naquela noite. O grito ecoou e ecoou pelas arcadas tenebrosas do antigo e nitroso porão, e precisei sufocar uma reação impetuosa que ameaçava irromper como um surto de gargalhadas histéricas. Misericórdia! Eliot, eu não sei o quanto era real e o quanto era delírio. Não me parece possível que a Terra abrigue um sonho como aquele!

Era uma blasfêmia colossal, inominável, com olhos em brasa, e trazia nas garras ossudas algo que podia ser um homem ao mesmo tempo em que lhe roía a cabeça como uma criança mordisca um doce. A criatura estava meio agachada, e dava a impressão de que a qualquer momento poderia largar a presa em busca de uma refeição mais suculenta. Mas para o inferno com tudo, não era o tema demoníaco o que fazia daquela pintura uma fonte imortal de pavor — nem sequer o rosto canino com orelhas pontudas, olhos injetados, nariz achatado e lábios salivantes. Não eram as garras escamadas nem o corpo recoberto de mofo nem os cascos — não, mesmo que alguns desses elementos pudessem ter levado um homem impressionável à loucura.

Era a técnica, Eliot — aquela técnica ímpia, maldita, sobrenatural! Assim como eu estou vivo, em nenhuma outra ocasião vi o sopro da vida tão presente em uma tela. O monstro estava lá — roendo com raiva e com raiva roendo — e eu sabia que só uma suspensão das leis da Natureza poderia facultar a um homem pintar uma coisa daquelas sem ter um modelo — sem vislumbrar o mundo das profundezas jamais vislumbrado pelos mortais que não venderam a alma ao Diabo.

Preso com um percevejo a um canto vazio da tela havia um papel enrolado — provavelmente, imaginei, uma fotografia que Pickman estava usando a fim de pintar um cenário tão hediondo quanto o pesadelo que deveria incrementar. Estendi a mão para desenrolá-lo e ver do que se tratava quando, de repente, vi Pickman dar um sobressalto tão grande como se houvesse levado um tiro. Ele vinha prestando muita atenção aos sons ambientes desde que o meu grito de horror despertou ecos estranhos no porão escuro, e naquele instante pareceu levar um susto que, embora pequeno em relação ao meu, era de natureza muito mais física do que espiritual. Pickman sacou um revólver e fez um gesto pedindo silêncio, então deixou o aposento rumo ao porão principal e fechou a porta atrás de si.

Acho que fiquei paralisado por um instante. Atentando aos sons como Pickman, julguei ter ouvido um leve rumor em algum lugar, e uma série de grunhidos ou batidas em uma direção que eu não conseguia determinar. Pensei em ratos gigantes e estremeci. Então sobreveio um ruído que me deu calafrios pelo corpo inteiro — um ruído furtivo, incerto, embora nem eu saiba ao certo como pôr isso em palavras. Era como o som de madeira caindo na pedra ou em tijolos — madeira em tijolos — no que isso me fez pensar?

O ruído voltou, mais alto. Na segunda vez tive a impressão de que a madeira havia caído um pouco mais longe do que na primeira. Logo depois ouvi um rangido estridente, uma frase incompreensível de Pickman e a descarga ensurdecedora dos seis cartuchos do revólver, deflagrados de modo espetacular, como um domador de leões atira para o alto a fim de impressionar a plateia. Um grunhido ou um chiado e a seguir uma batida. Então mais uma vez o atrito de madeira contra tijolos, uma pausa, e porta se abriu — e nesse ponto eu confesso que dei um sobressalto violento. Pickman reapareceu com o revólver fumegante, amaldiçoando os ratos inchados que infestavam o antigo poço.

“Nem o diabo sabe o que eles comem, Thurber”, disse ele, sorrindo, “afinal esses túneis arcaicos se ligavam a cemitérios e covis de bruxas e orlas marítimas. Mas, seja o que for, deve ter acabado, porque eles estavam loucos para sair. Acho que o seu grito os deixou agitados. É melhor tomar cuidado nesses lugares antigos — nossos amigos roedores são a única desvantagem, mesmo que às vezes eu os considere úteis para criar a atmosfera ideal.”

Bem, Eliot, esse foi o fim da minha aventura noturna. Pickman tinha prometido me mostrar o estúdio, e Deus sabe que ele cumpriu a promessa. Tenho a impressão de que depois ele me conduziu para longe daquele emaranhado de vielas por um outro caminho, pois quando avistamos um poste de iluminação estávamos numa rua meio familiar com fileiras monótonas de condomínios e casas antigas. Era a Charter Street, mas eu ainda estava muito impressionado para notar a altura exata. Já era tarde demais para pegar o trem elevado, e assim caminhamos até o centro pela Hanover Street. Lembro bem daquele muro. Da Tremont pegamos a Beacon, e Pickman me deixou na esquina com a Joy, de onde parti. Nunca mais falei com ele.

Por que eu me afastei? Não seja tão impaciente. Espere até eu pedir um café. Já bebemos um bocado, mas eu ainda preciso tomar alguma coisa. Não — não foi por causa das pinturas que vi naquele lugar; mas eu juro que elas seriam o suficiente para causar o ostracismo de Pickman em nove de cada dez lares e clubes de Boston, e acho que agora você deve entender por que não entro mais em metrôs nem em porões. Foi — foi por causa de uma coisa que eu achei no bolso do meu casaco na manhã seguinte. Era o papel enrolado que estava preso àquela horrível tela no porão, sabe; a coisa que eu imaginei ser uma fotografia de alguma cena que ele pretendesse usar como cenário para o monstro. O último susto veio quando eu estava estendendo a mão para desenrolá-lo, e acho que inadvertidamente o pus no bolso. Ah, aqui está o café — tome-o puro, Eliot, se você for capaz.

Sim, foi por causa daquele papel que eu me afastei de Pickman; Richard Upton Pickman, o maior artista que eu conheci — e o ser mais asqueroso a ultrapassar os limites da vida rumo às profundezas do mito e da loucura. Eliot — o velho Reid tinha razão. Pickman não era humano. Ou ele nasceu em uma estranha região sombria, ou então descobriu um jeito de abrir os portais secretos. Mas agora não vem ao caso; Pickman desapareceu — em meio às trevas fabulosas que tanto gostava de visitar. Escute, vamos acender o lustre.

Não me pergunte ou sequer faça conjecturas a respeito do que eu queimei. Também não me pergunte o que havia por trás daqueles ruídos parecidos com os de toupeiras que Pickman fez questão de atribuir aos ratos. Você sabe, existem segredos que podem ter sobrevivido desde os antigos tempos de Salem, e Cotton Mather fala sobre coisas ainda mais estranhas. E você lembra de como as pinturas de Pickman eram realistas — de como todos nós nos perguntávamos de onde ele tirava aqueles rostos.

Bem — aquele papel não era a fotografia de um cenário. Mostrava simplesmente o ser monstruoso que ele estava pintando naquela tela horrenda. Era o modelo de Pickman — e o cenário ao fundo era apenas a parede do estúdio no porão. Mas por Deus, Eliot, era uma fotografia!

domingo, 29 de abril de 2018

O que é o Ciclo de Yig?

They walked lithely and sinuously erect on pre-mammalian members, their pied and hairless bodies bending with great suppleness. There was a loud and constant hissing of formulae as they went to and fro. – The Seven Geases, Clark Ashton Smith. 

Introdução


H.P. Lovecraft nunca teve um emprego. Viveu da fortuna quase esgotada de sua família, e do pouco que conseguia ganhar como revisor e escritor. Estava sempre dividido entre o desejo de sucesso monetário literário e o ideal do cavalheiro aristocrata que não se preocupa com finanças. Suas primeiras tentativas de vender seus contos tiveram êxito com Edwin Baird, editor da revista Weird Tales, aceitando os primeiros cinco contos enviados de uma vez por Lovecraft - Dagon , Arthur Jermyn, Os Gatos de Ulthar, O Cão de Caça e O Depoimento de Randolph Carter. Seus contos apareceram em nove dos onze números da revista publicados entre 1923 e 1925.

Quando a revista Weird Tales mudou, e Farnsworth Wright  passou a ser seu editor, guinando definitivamente para o horror -  Baird não tinha tanta sensibilidade para a weird fiction, aceitando praticamente tudo o que recebia - a sorte de Lovecraft mudou. Sendo mais criterioso e rigoroso, não tinha a mesma apreciação pelos contos de Lovecraft, e o escritor passou a receber mais rejeições do que aceitações da revista. Alguns dos contos que foram rejeitados são agora clássicos do gênero, como O Chamado de Cthulhu, só foram publicados depois de serem rejeitados repetidas vezes pela Weird Tales.


Nas Montanhas da Loucura, de Lovecraft
Wright, o novo editor, rejeitou ainda Nas Montanhas da Loucura e A Sombra Vinda do Tempo, que foram mais tarde publicados pela revista Astounding Stories e que também se tornaram clássicos. A Amazing Stories publicou A Cor que caiu do Espaço e pagou muito pouco considerando o tamanho da história, mesmo se tornando uma das obras mais populares do autor, e continuou sendo seu conto favorito. O Caso de Charles Dexter Ward só foi publicado anos depois da morte do escritor. Os Sonhos na Casa da Bruxa só foi publicado porque August Derleth enviou, em segredo, o conto a Wright, pedindo que o editor o aceitasse para publicação.

Nesse período que, ironicamente, Lovecraft trabalhou muito como ghost writer (escrito anônimo), vendendo contos para serem publicados por outros autores. Ele recebia de outro “autor” uma série de ideias e escrevia então uma história completa. Contos como The Curse of Yig (1929) e The Mound (1940), de Zelia Bishop, e The Horror in the Museum (1932) e Out of the Aeons (1935), de Hazel Heald, foram, na verdade, 90% ou mais criações de H.P. Lovecraft. Embora esses contos tenham sido aceitos por Wright, os contos que Lovecraft escrevia sob seu próprio nome continuavam a ser mal pagos ou rejeitados, deixando o autor cansado e se sentido rejeitado, começando a se recusar a enviar seus contos para editoras.

Em outras obras


A prática de um autor mencionar em suas histórias as divindades, livros e temas criados por outros autores era comum nessa época, e Lovecraft fez isso em vários de seus contos. Nos contos de Bishop aparecem Cthulhu e Tsathoggua, criados por Lovecraft, e também aparece Yig, as três divindades sendo veneradas por uma raça de humanos que vive nos subterrâneos. Com essa prática também, Robert E. Howard e Clark Ashton Smith também desenvolvem essa linha desse mito em especial, em duas histórias específicas: O Reino Sombrio (1929) e The Seven Geases (1934).

Robert E. Howard nos apresenta os adoradores de Yig. Criados originalmente pelo autor, as criaturas chamadas de povo-serpente estão presentes na narrativa O Reino Sombrio, que mostram Kull, o guerreiro atlante que se tornou soberano da Valúsia, que descobre, estarrecido, que os eles, os homens-serpentes de uma raça que no longínquo passado haviam guerreado a humanidade, estavam aos poucos dominando o país, graças ao seu poder de mimetismo e que os reis anteriores da Valúsia haviam sido assassinados em segredo, e homens-serpentes tomaram seu lugar, pois podiam por sugestão hipnótica ser vistos com a aparência humana, idêntica à dos mortos.



Já em The Seven Geases se depara com uma viagem tragicômica dos horrores e maravilhas dos não-humanos que existem sob "the black Eiglophian Mountains", nas quais a humanidade, representada pelo personagem principal, o magistrado Ralibar Vooz, é apenas uma reflexão tardia, uma mera distração, e não a propulsora de tudo. A colaboração de Clark Ashton Smith foi significativa pelo seu humor negro e bucólico. O protagonista monta uma equipe de vinte homens e vai em busca de criaturas subumanas chamadas Voormis, caracterizadas como subproduto de homens-serpentes que andaram na terra no passado após adorar Tsathoggua e não o Pai das Serpentes.

Esses homens-serpentes sempre adoraram um deus, que foi identificado mais tarde como Yig pelo circulo dos autores do Cthulhu Mythos, e antes disso, nas histórias de Conan, era chamado de Set (vide O deus na urna em 1932). Esses homens pareciam serpentes eretas, com cabeças ofídicas e escamas, mas com dois braços e pernas. Possuíam caudas e, em seus melhores dias, trajavam túnicas.

Povo-Serpente


O primeiro reino do povo-serpente foi a Valúsia, localizado na costa oeste do continente principal de Thuria. Esse reino veio muito antes dos dinossauros caminharem sobre a Terra, com cidades de basaltos negros e guerras travadas em um curto período de espaço: antes ou durante o Período Pérmico. Com a chegada dos dinossauros no Período Triássico, o primeiro reino ruiu e o povo-serpente se retirou para fortalezas nas profundezas do subterrâneo, a maior delas era Yoth. Nessa época, o povo-serpente tornou-se também cientificamente avançado, capaz de manipular a vida em si.

Já na pré-história humana, o povo-serpente ergueu seu segundo reinado no centro do continente Thuriano. Este sucumbiu ainda mais rápido que a Valúsia, derrubado desta vez pelos humanos, que mais tarde reivindicaram as terras como suas. Nessas guerras travadas, acabaram sendo expulsos e muitos foram mortos. Após um conflito, eles foram esquecido, mas dominaram o imaginário popular, e por muito tempo foram lendas. Os que sobreviveram se infiltraram na sociedade e governaram secretamente através de um feitiço comum de ilusão, que transforma a aparência do feiticeiro na de um humano normal. Isso veio a acabar quando o Rei Kull, um bárbaro atlante, foi coroado rei da Valúsia. Ele, se aliando com os pictos que sabiam dessas trocas de homens comuns por homens-serpentes, se unem e colocam fim a esse reinado.

Esses acontecimentos destacam como o povo-serpente era composto por grandes cientistas e feiticeiros, que dedicaram muito tempo a invocar demônios terríveis e criar venenos potentes. Se retirando pela última vez para Yoth, no mundo atual suas cavernas se localizam nas Américas.

O que é Yig


Yig nunca foi retratado muito claramente. Meio humano e meio serpente, pode parecer um homem forte escamoso com uma cabeça de serpente ou uma cabeça normal. Seu culto é realizado por tribos da planície central e praticantes de vodu, podendo estar também conectado de alguma forma a Quetzalcoatl (deus asteca) e Kukulcán (deus maia). Ele é ainda adorado pelo povo-serpente e seus descendentes. Adoradores recebem alguma imunidade a veneno de cobras, a habilidade de falar com cobras, alguns rituais arcanos e feitiços. Se alguém expõe os segredos ou prejudica o culto, Yig envia uma serpente sagrada para matar o transgressor. A sua maldição, denominada de “Maldição de Yig” se refere a crianças loucas e deformadas.

Yig é uma divindade que demanda constantes sacrifícios e rituais macabros por parte de seus seguidores. Sua ira mortal se traduz na visita de serpentes venenosas na calada da noite. Um dos Grandes Antigos, ele age como um deus que envia seus subordinados ou filhos para punir todos os que assassinaram uma cobra no passado, matando-os ou transformando-se em uma criatura parecida com uma cobra como ele. São nessas histórias que a coletânea da Editora Clock Tower se baseia. Disponível em edição limitada, O Circulo de Yig pode ser adquirido aqui nesse link. Trata-se de um livro com obras de H.P. Lovecraft sobre os Mitos de Yig: A Colina, A Maldição de Yig e Vindo dos Éons, todos já mencionados aqui: trabalhos com Zelia Bishop e Hazel Heald. O livro também trás extras, como carta da Zelia e ilustrações exclusivas.


quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Notícias - Novas edições de H.P. Lovecraft e Robert E. Howard no Brasil


Ignorados por décadas, H.P. Lovecraft e Robert E. Howard tem atraído olhares de todos recentemente. O homem moderno parece que ganhou medos nunca antes imaginados e tem que tirar coragem de algum lugar - e nisso, os dois autores se complementam para esse tão necessitado público.

O primeiro tem sido o destaque. No 80° aniversário de sua morte, Lovecraft trás edições de luxo de duas editoras diferentes: Martin Claret e DarkSide Books. A primeira já tinha trabalhado com o autor em outras oportunidades - uma pequena coletânea chamada em 2011 Histórias de Horror: O Mito de Cthulhu, uma participação em 2014 em Contos de Terror - Tomo I  com "The Colour out of Space" e em 2016 Grandes Contos: H.P. Lovecraft - um livro que tem mais de 1000 páginas de conteúdo. Mais recentemente, nesse ano dois tombos de contos do autor vão ser publicados em pouco tempo.

Vale lembrar também que a Martin Claret também tem um livro de R.E.H. no catálogo: Rosto de Caveira, os Filhos da Noite e Outros Contos, um volume que trás narrativas como "Rosto de caveira", "Os filhos da noite", "A maldição do mar", "A hiena", "A serpente do sonho", "Na floresta de Villefore" e outras.


Já a DarkSide trás dois livros - um com duas edições diferentes e outro com o selo infantil. Com o slogan Lovecraft para todos, a editora preparou duas opções em capa dura para a Coleção Medo Clássico: Miskatonic Edition e Cosmic Edition. O texto das duas edições é o mesmo, mas cada uma delas reflete a personalidade de seus peculiares leitores: enquanto um é voltado para leitores mais sérios e acadêmicos, o outro é voltado para descolados e psicodélicos. Já o selo infantil Caveirinha é inaugurado O Fantástico Alfabeto Lovecraft - ajudando os pequenos a darem seus primeiros passos no mundo mágico da fantasia e da imaginação e do autor mais influente do último século.



Já a Editora Pipoca & Nanquim anunciou mais um lançamento para o ano de 2017: desta vez, um livro. O primeiro de uma série de três volumes, a saga apresentará na íntegra todas as aventuras de Conan, o Bárbaro seguindo a ordem em que foram publicadas originalmente na emblemática revista Weird Tales. O livro de 308 páginas terá acabamento de luxo, ilustrações de artistas como Mark Schultz e Gary Gianni, diversos extras, sobrecapa de acetato transparente e, pela primeira vez no Brasil, as capas originais de Frank Frazetta.

Um fato a se considerar a comprar na pré-venda é que todos que adquirem o livro antes do dia 18 de Dezembro (data do lançamento) na Amazon ganharão o e-book O Guia Definitivo da Espada & Feitiçaria, de autoria do próprio Pipoca & Nanquim, que será enviado aos compradores no dia de lançamento. Há também o podcast da própria editora que eles falam do personagem, que, nascido na literatura na década de 1930, o cimério foi o principal marco do surgimento de um gênero que hoje se destaca como um dos mais fortes em qualquer mídia: Espada & Feitiçaria.



quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Augusto dos Anjos e Lovecraft: uma tangente sobre a condição humana

Arte de Zdzislaw Beksinski
Já faz alguns anos desde que entrei em contato com a obra do meu poeta favorito, Augusto dos Anjos. Nesses tempos, eu já era familiarizado com a ficção do Lovecraft e começava a conhecer as entranhas do terror cósmico, gênero que tem como maior popularizador, sem sombra de dúvidas, o cavalheiro de Providence mencionado acima. E é curioso como sempre relacionei esses dois autores...

Sempre soube que havia algo que os ligava, mas demorei para começar a compreender o que era. Em primeiro lugar, tentava justificar minhas analogias entre os célebres artistas contando sobre suas vidas: ambos morreram muito jovens em decorrência de doenças fatais na época: Augusto pela pneumonia, Lovecraft pelo câncer intestinal. Doenças essas, aliás, agravadas pelas parcas condições financeiras dos dois escritores, cujas obras tiveram pouco reconhecimento enquanto eles viviam, e os autores, consequentemente, possuíram a vida adulta marcada pela pobreza. Tanto Lovecraft quanto Augusto nunca tiveram filhos; o paraibano chegou mais perto da paternidade, mas seu filho nasceu morto com 7 meses incompletos. Um estado emocional agravado pela tristeza foi recorrente nas vidas de Augusto e Lovecraft, e isso reflete em suas obras.

Augusto dos Anjos e H.P. Lovecraft, respectivamente
Mas os fatos biográficos pouco eram relevante para uma analogia entre os dois escritores, obviamente. Por mais que suas vidas sejam tragicamente interessantes, o legado escrito, a sua obra, é o que nos interessa, e é o que é digno de analogias. Foi só mais recentemente, relendo os versos de Augusto e aprofundando meus conhecimentos acerca do terror cósmico, que pude clarear um pouco esses cenários tão sombrios que mostravam-se timidamente a mim, já há um bom tempo. Anteriormente, eu via essa analogia entre os dois como dois pontos amarelos na escuridão, apenas os olhos brilhantes de um felino. Com o passar do tempo, ao desenvolver certa maturidade no assunto da Literatura, pude aumentar a luz da minha ótica sobre a escuridão, assim revelando as listras e os dentes daquele tigre que espreitava. Talvez a semelhança entre as obras fosse a temática como aquela abordada no poema "O Pântano", de Augusto dos Anjos, mas não: vai muito além dos fatores visuais da construção narrativa.

Portanto, vamos ao ponto: o americano nutria uma aversão à humanidade, enquanto Augusto parecia demonstrar pena dos seres humanos, talvez uma insatisfação com a sórdida condição de seus irmãos de espécie. Isso sustenta minha analogia: a visão dos autores sobre o ser humano. Em lugares diferentes do mundo, trabalhando um conceito semelhante, desenvolveram obras-primas que, apesar de destoarem em inúmeros fatores, coincidem no que concerne à análise das condições humanas perante o universo. Lovecraft escracha suas opiniões acerca da pequenez e da insignificância humana frente ao Cosmos. É bem evidente. Augusto também o faz, às vezes nas entrelinhas, outras vezes um pouco mais visivelmente. A obra do brasileiro é carregada de opiniões e sentimentos próprios, é claro, por isso é um pouco difícil apontar claramente os pontos em que essas duas linhas paralelas formam um ponto de tangência. Trago aqui um exemplo, para finalizar meu ponto de vista, com uma estrofe do magnífico "As Cismas do Destino":

Espaço - esta abstração spencereana
Que abrange as relações de coexistência
E só! Não tem nenhuma dependência
Com as vértebras mortais da espécie humana!

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

"Em sua morada em R'lyeh o adormecido Cthulhu espera sonhando" - O chamado de Cthulhu (H.P. Lovecraft)


A COISA MAIS MISERICORDIOSA no mundo, eu acho, é a incapacidade da mente humana correlacionar todos seus conteúdos. Nós vivemos em uma plácida ilha de ignorância no meio de um oceano negro infinito, e não era para que pudéssemos navegar para longe. As ciências, cada uma esticando a corda em sua própria direção, nos causaram pouco mal até agora; mas algum dia esse mosaico de conhecimento dissociado nos legará um terrível panorama da realidade e de nossa pavorosa amedrontadora posição neste lugar, tão terrível, que ficaremos loucos diante da revelação ou fugiremos covardemente da luz mortífera para a paz e a segurança de uma nova Idade Negra. - H.P. Lovecraft

Achar algo para dizer de um dos contos mais comentados nos últimos anos no Brasil e no mundo inteiro é realmente algo difícil: não há nada, absolutamente nada que não foi dito. Já foi dito que ele foi o ponta pé de todos os Mythos, que influenciou uma gama de escritores, de games, de filmes e todas as artes em geral.

O que dizer de O chamado de Cthulhu?

O autor aqui parte de uma conversa informal com Oscar Nestarez, Mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP. Quando o procurei tentei ser sincero: tudo sobre esse texto já foi dito, não tenho mais nada o que escrever ou acrescentar. Foi quando ele falou algo que nunca esqueci: Sinta o texto. Então, ai vou tentar fazer uma analise do que senti no texto. Espero corresponder as expectativas dos seguidores e leitores ocasionais dessa página.

A princípio o estranhamento. Nada faz sentido com nada no início. Temos uma introdução no primeiro parágrafo que dá um pouco o tom do que será trabalhado, e nisso o narrador vai discorrendo sobre eventos anteriores a ele - como a morte do tio e a estranha pesquisa dele - até eventos e ocasiões de busca, onde ele mesmo tenta fazer a própria pesquisa, mantendo o trabalho de seu familiar.

O narrador observa todo o desespero de seu tio ao se deparar com coisas que ele nunca tinha visto em toda a sua vida acadêmica - coisas sobrenaturais envoltos em sonhos, aparições e artes esculpidas em argila.

O terror na narrativa busca sempre os efeitos ocasionados pela coisa. A caixa com informações desconexas que começavam a se encaixar em manuscritos, sociedades secretas, ceitas ocultas, surtos de esquizofrenia e relatos de pesadelos ligados a criatura de argila: algo humanoide com rosto de polvo e asas de dragão.

Talvez esse seja o sentir que o Oscar fale: se deixar levar pelas longas e cansativas descrições, cair nas sugestões, pensar que existe mais coisas entre nós e o mundo lá fora - Lovecraft conseguiu fazer com isso seu o espaço, demonstrar seu talento e conquistar amigos e leitores.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

"Se ele é Mr. Hyde, tenho de ser Mr. Seek"* - O médico e o monstro (Robert Louis Stevenson)


Um autor, de uma obra específica, que tem total influência no que eu pretendo (e espero alcançar) nas minhas histórias, é Robert Louis Stevenson, que escreveu O médico e o monstro. - Gustavo Ávila, em entrevista para o Golem

Seguindo a tradição de ficção psicológica e tecnicista moderna, de Mary Shelley e seu terrível Frankenstein, Robert Louis Stevenson (1850-1894) nos brindou com um divisor de águas e um clássico. Em vida sua reputação literária flutuou: há quem o considerava um autor menor, e há os que o vêem como um grande entre os grandes, tanto pela nitidez límpida e leve do estilo como pelo núcleo moral de todas as suas narrativas.

Lançado em 1886, o livro aborda a questão do bem e do mal de uma maneira diferente, marcado pelo cientificismo da época vitoriana. A sociedade inglesa debatia os cem anos da execução do marceneiro escocês William Brodie, que de dia era um cidadão exemplarinstalando fechaduras e armários e, de madrugada, roubava as casas de seus clientes ricos com as copias das chaves.

Mergulhado em um Londres que antecede Jack, o Estripador, Robert Louis Stevenson narra a trágica vida do respeitado médico escocês, o dr. Jekyll, que busca em fórmulas químicas a resposta para os impulsos e sentimentos humanos mais profundos, acabando por criar uma droga que libera seus aspectos mais primitivos, o animal adormecido sob a capa do homem civilizado. Começa aqui a conversa sobre comportamentos dúbios que mais tarde se transformou em transtorno bipolar.

É curioso pensar como o personagem tem feito parte da cultura pop mesmo que descaracterizado e até relido nos tempos atuais. O enredo de Robert Lois Stevenson poderia se encaixar muito bem no Incrível Hulk, a versão furiosa do dr. Banner. Virando os olhos para o Universo Cinematográfico da Marvel, a função do personagem no Dark Universe, criado pela Universal Pictures, seria a mesma de Nick Fury (ou até mais recentemente como a Claire Temple) para o MCU: responsável por unir todos os monstros em um mesmo universo em torno da Prodigium, uma organização científica secreta que tem filiais em todo o globo, que tem como missão rastrear, estudar e quando necessário, destruir o mal encarnado sob a forma de monstros em nosso mundo.

*Frase que faz alusão ao jogo de esconde-esconde, hide and seek, em inglês. A palavra hide (que se pronuncia do mesmo modo que se pronuncia o nome do personagem Hyde) significa esconder, ocultar enquanto seek é procurar, achar. No caso, Mr. Hyde é a “versão oculta” do bom dr. Jekyll.

Circulo das Ideias - Dark Universe (Universo das Trevas)


O universo compartilhado com monstros da produtora Universal Pictures foi oficialmente intitulado como Dark Universe. Os chamados filmes de entretenimento, devem muito a Universal e seus famosos monstros, como Drácula, Frankenstein e Lobisomem, só para citar alguns, cujos primeiros filmes datam lá da década de 1930. Na época, essas produções faziam gelar o sangue do incauto público, que nunca havia presenciado nada do tipo (lembrem-se que há poucos anos o cinema havia sido criado, e as pessoas ficavam com medo de trens que chegavam às estações na tela, achando que viriam verdadeiramente para cima delas). A produtora resolveu reformular seus monstros utilizando a fórmula inovadora da Marvel podendo assim ter uma reunião no futuro, assim como acontecerá em Vingadores: Guerra Infinita. Inspirado nesse Universo das Trevas, o Golem trás para você uma seleção de livros e novelas que compõe esse novo universo cinematográfico e que podem incrementar o seu repertório no que se diz de literatura gótica, fantástica e científica. Os livros estão em ordem cronológica.


Frankenstein - Mary Shelley (1818)

O Corcunda de Notre Dame - Victor Hugo (1831)

Drácula - Bram Stoker (1897)

O Homem Invisível - H. G. Wells (1897)

O Fantasma da Ópera - Gaston Leroux (1909)

A Hora do Lobisomem - Stephen King (1983)