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sábado, 10 de fevereiro de 2018

O tesão de Salomé - Luiz Felipe Pondé


"A ópera entra nos ossos." Era assim que Charles Baudelaire, poeta e ensaísta francês, definia o que óperas causavam nele. Concordo com o que dizia o famoso melancólico, crítico do tédio moderno, enquanto flanava pelas ruas de Paris profetizando o fracasso das promessas modernas.

A ópera "Salomé", que foi levada ao Theatro Municipal nas últimas semanas, é um exemplo dessa dor nos ossos. De autoria de Richard Strauss, o mesmo que compôs a famosa "Assim Falou Zaratustra", que carrega o nome de uma das principais obras de Nietzsche e compõe a trilha sonora do filme "2001 - Uma Odisseia no Espaço" de Kubrick, "Salomé" é baseada na peça homônima escrita pelo grande irlandês Oscar Wilde. Nosso irlandês maldito é conhecido por seu erotismo e seu flerte com o niilismo.

Sua Salomé é uma vítima do desejo. Esse mesmo, que hoje em dia se fala muito, se diz ser o centro da vida, mas que murcha sob a bota da vida correta e saudável. Nunca se desejou tão pouco, como nos dias atuais, em que se fala tanto de sexo. A morte do desejo salta aos olhos nas besteiras teóricas de gente que diz que sexo é construção social (teorias de gênero). O sexo brocha diante do gênero.

Temo que, se fosse escrita hoje em dia, "Salomé" seria censurada sob a acusação de ser "machista". Oscar Wilde seria considerado mais uma vez um incorreto. Os corretinhos, que vão acabar com a inteligência de uma vez por todas em algum momento do século 21, nunca entenderão que não existe "arte correta", só sob regimes fascistas.

E por que "Salomé" seria incorreta? Porque a peça fala de como Salomé, enlouquecida pelo profeta João Batista, que a despreza, manda cortar sua cabeça. E a ideia de que uma mulher mande cortar a cabeça do homem que a despreza, por tesão e ressentimento, parece um absurdo no mundo dos corretinhos em que vivemos.

Todos conhecem a história do Novo Testamento na qual a princesa da Judeia Salomé pede ao seu padrasto Herodes (o filho, não o pai, o grande arquiteto e reformador do segundo templo de Jerusalém) a cabeça do profeta João Batista, que acusava sua mãe de prostituta.

Supostamente, Salomé, que é objeto de desejo enlouquecido do padrasto, faz esse pedido, após dançar para ele, por conta das ofensas do profeta contra sua mãe.

Aí vem a grande sacada de Oscar Wilde. Haveria outro motivo para um pedido tão monstruoso? O desejo de Herodes por ela é conhecido, mas e se ela fosse apaixonada pelo profeta?

Seu pedido seria, para Oscar Wilde, na verdade, uma vingança passional contra o amante que a desprezou (coisa comum desde a pré-história, mas que agora é moda dizer que é "fruto da opressão").

Homens também se vingam por paixão, mas os afetos masculinos não estão na moda, a menos que seja como parte da própria "opressão" da frase acima. Um homem teria atravessado a amante que o desprezou com uma faca, não pedido que cortasse sua cabeça para por entre as pernas.

Salomé é atraída pelo profeta preso. Manda tirá-lo da cela, usando o amor do capitão da guarda por ela (que acaba por se matar de ciúmes).

À medida que o profeta canta seu amor por Deus e seu desprezo pelo mundo da carne, ela vai ficando com tesão. A castidade dele a enlouquece (muitas mulheres sonham em pôr a perder padres e pastores casados).

Salomé, então, será devorada de tesão. Quer seu corpo, seus cabelos, sua boca, quer beijá-lo, lambê-lo. Ele a despreza. Ela enlouquece e pede sua cabeça para que possa beijar, enfim, sua boca, mesmo que cheia de sangue. Manda matá-lo por raiva e tesão.

O desejo desorganiza, mas é delicioso. Com o sangue dele entre as pernas, nos seios, nos cabelos e na boca, Salomé aperta o morto assim como quem quer engoli-lo por inteiro.

Mas, imagino que num mundo no qual sexo será de uma vez por todas careta como tudo que é correto, esta Salomé não existirá. Provavelmente, estará por aí, sendo fálica, lutando com uma espada, querendo ser homem.

Mas a Salomé encantadora é aquela que morre de tesão, aperta a cabeça do profeta morto entre as pernas e bebe seu sangue, com os olhos vidrados de dor.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Sexo no blockchain - Luiz Felipe Pondé


O tema assédio está na moda. Entre os extremos, a vida segue seu curso, às vezes, dando a impressão de que poderá se tornar irrespirável em algum momento.

Num lado extremo dessa realidade das relações sexuais, homens violentos (ou mulheres violentas, em bastante menor número) que tornam a vida no trabalho ou nos espaços de lazer um inferno para suas vítimas. No outro extremo, o sentimento de risco (real) que muitos homens sentem de que a simples demonstração de desejo por uma mulher poderá ser tachada de assédio.

Ou, pior, de que, mesmo tendo tido seu consentimento, ela poderá, posteriormente, dizer que o "retirou", ou que o cara mentiu sobre ela ter dado o consentimento, ou que a entendeu errado e que, portanto, o suposto "date" foi estupro.

É justamente na área privada do consentimento que residem algumas das paranoias contemporâneas que ameaçam transformar as relações cotidianas entre homens e mulheres num tédio contínuo preenchido por pessoas civilizadas, limpinhas e imóveis. Mas, como tudo mais no mundo contemporâneo, principalmente em se tratando de relações humanas e serviços, o espírito do Vale do Silício oferece uma solução.


Os holandeses criaram um aplicativo chamado Legal Fling, que visa garantir que pessoas (principalmente, homens) se defendam da acusação de assédio ou estupro quando houve consentimento prévio para o ato sexual ou a abordagem.

A expressão em inglês "fling" é ambivalente. Entre o substantivo, que nos remete à ideia de um momento de diversão, gostoso, e o verbo, que pode significar um arremesso violento de algo, ou seja, algum tipo de ato com risco de violência, reside a realidade ambivalente do tema.

"Legal fling" seria, portanto, essa ambivalência tornada "legítima", levando essa arriscada ambivalência para o universo "garantido" pelo novo oráculo, a tecnologia blockchain (base de registro que funciona como prova de um acordo ou transação). Será verdade um aplicativo assim?

Nem todos concordam que o aplicativo ofereça de fato a segurança absoluta contra acusações de que consentimentos supostamente dados se transformem em acusações supostamente falsas. O "supostamente" aqui é essencial.



Voltamos ao caráter privado do tema. É difícil saber o que acontece entre quatro paredes. O combate à violência sexual tem razão em se preocupar com os abusos em geral. A crítica feita à tentativa de judicializar as relações entre homem e mulher também tem razão quando aponta a cultura da paranoia como fato dado no mundo presente.

É possível um "meio-termo" ou "bom senso" nesse assunto? Não creio. O mundo vai, pouco a pouco, sucumbindo à ambivalência criada pela modernização, na sua contínua tentativa de organizar e limpar tudo.

Zygmunt Bauman (1925-2017) acertou em cheio no seu "Modernidade e Ambivalência" ao apontar para esse caráter de "jardineiro" que o Estado moderno (e a sociedade como um todo) tem em querer fazer do mundo um "jardim do bem".

O aplicativo funciona basicamente assim: você preenche um cadastro onde afirma aceitar ou não sair e fazer sexo com fulano, depois detalha o que gosta, tipo, sei lá, sexo anal, no carro, oral, se gosta ou não de apanhar, se gosta ou não de ser tratada ou tratado de forma humilhante, se gosta de ser chamado ou chamada por termos como "cachorra", "vadia", "filho da puta" e por aí vai.


Sei. Pensar numa lista assim parece ridículo. Mas, se você tiver como princípio de entendimento do mundo contemporâneo o fato de que caminhamos para um contrato social baseado no ridículo como forma de vínculo, não estranhará tanto assim um aplicativo como esse.

O aplicativo lançará então esse "contrato" numa plataforma blockchain e, portanto, você não terá como impedir que a "humanidade em cadeia" tenha ciência de que, sim, você gosta de apanhar no sexo ou que você, sim, aceitou ser amante do seu chefe, quem sabe, em troca de uma promoção no trabalho.

O que salvaguardará juridicamente a legitimidade do ato sexual em questão será de uma ordem análoga à de uma moeda virtual, como o bitcoin. Neste caso, a "moeda" é a exposição pública da intimidade, em nome da segurança de cada cidadão envolvido em atos sexuais.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Sociedade do futuro será derivação do sistema de multas de trânsito atual - Luiz Felipe Pondé

Editoria de Arte/Folhapress

Artigo publicado originalmente na Folha de São Paulo, 11 de dezembro de 2017

Não acredito em evolução social. Suspeito que andamos em círculos, indo pra lugar nenhum.

Com isso não quero negar que "ganhamos algum terreno" em relação a situações desagradáveis aqui e ali (aumento de longevidade, eliminação em grande escala da escravidão e coisas semelhantes) nem que sejamos absolutamente dominados pela contingência cega.

Conseguimos controlar várias dimensões da vida. E são exatamente estas formas de controle que apontam para o "futuro da democracia".

A condição humana é tal que combatemos constantemente a contingência e a nós mesmos, em nossa infinita capacidade de criar sofrimentos. Mas a democracia, evidentemente, pode acabar um dia, inclusive pelas mãos de gente que a "defende", principalmente porque o termo "democracia" pode significar coisas opostas.

Quer ver um exemplo banal dessa "instabilidade semântica" do termo "democracia"?

Tem partidos políticos por aí que pretendem, em nome da democracia, intervir na mídia para garantir igualdade de oportunidades, por exemplo, destruir pessoas e grupos na mídia para colocar seus parceiros ideológicos no lugar dessas pessoas e grupos. O argumento é "democratizar a mídia".

Por outro lado, deixar a mídia inteiramente livre (portanto, democrática) pode significar, por exemplo, a geração de discursos de ódio e a exclusão social de quem não conseguiu alcançar a posição de trabalho num desses grandes grupos de mídia.

Independente dessa questão "escolástica" (se não conhecer o termo, olhe no Google), de onde está a verdadeira democracia na mídia e em outros níveis, acho que o futuro nos reserva a sociedade mais controladora que o mundo já viu e, portanto, num sentido comum do termo, menos democrática.

Dito de forma direta: marchamos para um mundo totalitário, com controle cada vez mais maior dos comportamentos, mesmo que pessoas trans possam ser o que quiserem (dou esse exemplo como mero clichê de "liberdade individual") ou você possa ter o perfil que quiser no Face ou odiar livremente quem você quiser nas redes.

O modelo de sociedade do futuro está mais para o sistema de multas de trânsito atual do que para o debate sobre "o que é a verdadeira democracia".

O que é este sistema de multas de trânsito atual? Ele é o paradigma do controle em nome do "bem científico e social". Existem quatro instâncias nesse sistema que fazem dele paradigmático da sociedade de controle do futuro.

A primeira é a participação do mercado faturando muita grana na venda de equipamentos de controle dos comportamentos. Empresas as mais variadas venderão equipamentos e formarão pessoal treinado para oferecer ao Estado e a sociedades esses "serviços".

A segunda é a pesquisa e instalação cada vez maior de "inteligência algorítmica" no controle audiovisual e de localização espacial das pessoas, seus veículos e instrumentos cotidianos de uso.

A medida que a pesquisa nessa área avançar, mais dinheiro se ganhará com o avanço técnico e efetivo do controle.

A terceira é o esquema gigantesco de arrecadação que isso significará para o Estado, em parceria com o mercado.

Quando finalmente não dirigirmos acima de 50 km por hora, seremos obrigados a dirigir abaixo de 30 km por hora em toda parte. E assim até a imobilidade total...

A quarta é o ganho civilizador: a diminuição dos acidentes de trânsito. Não ache que esta é a menos importante. Pelo contrário, esta instância é a essencial em todo o paradigma. Ela é a razão "científica e social" da instalação crescente e inevitável do controle: a melhoria da qualidade do trânsito e, por tabela, da vida.

Esta contradição é inerente ao processo modernizador. Modernidade implica controle da contingência a serviço da melhoria da qualidade dos materiais e códigos envolvidos na vida em sociedade.

Controle de comportamentos, instituições, bens, menor custo e maior benefício nas transações. Dane-se o que quer dizer "a verdadeira democracia". Eu apostaria que este será o nome de algum jogo idiota que pessoas com cabelos azuis e indefinição sexual jogarão nas redes.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Idiotas que creem na salvação pela tecnologia ignoram essência humana - Luiz Felipe Pondé


A fenomenologia científica da idiotia contemporânea ocupará muito tempo nos anais dos congressos de antropologia e etnopsiquiatria nos próximos mil anos. Isso se esses mil anos não forem tomados por esses tipos sofisticados de idiotas que dominam, em grande parte, o mundo "rico" atual.

Você não sabe o que é um idiota da tecnologia? Veja o filme "O Círculo", com Emma Watson e Tom Hanks. A personagem interpretada por ela é o exemplo típico de um idiota da tecnologia. O personagem interpretado por ele, o vilão, é mais saudável do que ela, a "santinha" da história.

Eis uma primeira característica desse tipo de comportamento: o idiota da tecnologia é alguém que vê o avanço da tecnologia como fato evidente de que o mundo será melhor e de que, retirando de circulação os poucos vilões (como o personagem do Hanks no filme em questão), o resto da humanidade (a maioria soberana) caminhará em direção a um futuro de "uso responsável" da ferramenta.

A ferramenta de redes sociais do filme é simples: todos veem todos o tempo todo. Como diz a personagem da Watson: "Every secret is a lie" (todo segredo é uma mentira).

Ao longo do filme, algo de terrível acontece com ela e um amigo seu, mas, diante do horror da destruição da privacidade, ela opta por comparar os riscos dessa ferramenta com aviões que raramente caem, mas que nem por isso deixamos de voar.

Nessa comparação reside a identidade do idiota da tecnologia. Ele é um incapaz de apreender que o ser humano, quando exposto a demasiada luz, dissolve. Torna-se um monstro. É na sombra que a alma sobrevive. Na ausência de informação plena. Numa certa tensão com a impossibilidade, com o fracasso. Só idiotas "creem" no sucesso como redenção do humano -ou quem nunca teve sucesso na vida.

Num dado momento, ao ser entrevistada para entrar no "Círculo", a empresa em questão, ela diz que o pior que pode acontecer à humanidade é "ter potencialidades não realizadas". Outro traço do idiota da tecnologia. Não entende que a realização da potencialidade absoluta é a "demonização" do humano. E que os inteligentinhos da tecnologia não me venham com seu mimimi. É um descrente que aqui vos escreve. Quem defende o humano pleno (o "pós-humano" como dizem por aí), ou o faz por ignorância ou por má-fé.

No filme, nossa idiota, após levar seu melhor amigo à morte por conta do assédio de um bando de pessoas, que como um enxame de abelhas o localizam e o acossam por meio de seus celulares e da ferramenta de localização do "Círculo", chega à conclusão de que eliminando o dono da empresa (o capitalista egoísta interpretado por Hanks) e abrindo a ferramenta para o mundo inteiro, todo o risco acabará.

Na última cena, todo mundo vê todo mundo no mundo todo, em tempo real. Quem não percebe a distopia nessa sequência é um idiota da tecnologia.

A ideia de transparência absoluta da vida é uma monstruosidade em que, infelizmente, muitos creem. A democracia plena.

O fato de que a falta de transparência pode levar à corrupção faz com que os idiotas da tecnologia achem que instalando a transparência plena (todos veem todos o tempo todo em tempo real) acontecerá a pureza absoluta no mundo.

Não. Levará a outro tipo de corrupção: aquela já descrita, ainda de forma "fascista", na obra "1984" de George Orwell. Não há tirano maior do que o controle de todos por todos. A soberania absoluta do "povo" sobre as pessoas é pior do que a tirania de Lênin ou Stálin. O maior fascismo é a democracia de todos contra o indivíduo. Não há onde se esconder.

Fiodor Dostoiévski (1821-1881), o maior profeta desse tipo de horror moderno (entre outros profetizados por ele), viu o sonho da "democracia das redes sociais plena" em 1851 no Hyde Park em Londres: o Palácio de Cristal, a casa do futuro (fato ao qual o autor alude em seu livro "Memórias do Subsolo").

Diante do delírio dos que viam nessa casa transparente a beleza das tecnologias do progresso, em que todos seriam "objetos da informação", Dostoiévski fez o diagnóstico que vale para esses idiotas das tecnologias da informação hoje: só o homem escondido no subsolo sobreviverá.

Luiz Felipe Pondé é filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência.

sábado, 8 de abril de 2017

O casal Macbeth

Macbeth: Act 1, Scene 3
VOCÊ JÁ leu ou viu a peça "Macbeth", de Shakespeare? Você lê clássicos assim não apenas pelo deleite estético (gosto de ler), mas pra saber quem você é.

Em épocas de conversa fiada sobre "nativos digitais", onde muita gente fica "fazendo vento" falando de como os jovens "evoluíram" porque olham pra telas de computador e falam amenidades no celular o tempo todo, eu, como cético que sou, prefiro fazer os jovens lerem Shakespeare.

Eu sei que tem uma turminha por ai que diz que não se pode comparar Shakespeare com, digamos, "poemas neandertais". Mas, eu, que não respeito a "nova censura", comparo e digo: Shakespeare é melhor.

Outra coisa: se você é um frequentador de jantares inteligentes, dou uma dica. Nunca fale mal de Shakespeare, ou qualquer outro clássico, porque se tiver alguém ali que não seja "fake" vai saber que você é um bobo. Você passa, Shakespeare fica. Mas, vamos ao que interessa.

Na peça, Macbeth, um cavaleiro medieval, decide matar seu rei porque quer tomar seu lugar e acaba desgraçado e morto. Há aí, entre tantas outras coisas, três questões que valem a pena se você quiser saber o que é um ser humano.

Para dizer isso, eu pedirei ajuda a outro gigante, G. K. Chesterton (século 20). Aliás, recomendo fortemente a leitura da recém-publicada coletânea de seus ensaios, "O Tempero da Vida e Outros Ensaios", da editora Graphia. Nessa coletânea, Chesterton comenta no ensaio "Macbeths" o casal Macbeth da peça homônima de Shakespeare.

Uma primeira questão são as qualidades (ou "competências" - detesto essa palavra!) de Macbeth: como homem corajoso e inteligente que é se destaca dos outros em batalha. E por isso ganha títulos de nobreza. Mas Macbeth se perguntará: sou melhor do que os outros, por que não posso ser eu o rei?

Quem nunca se sentiu "injustiçado" pelo destino? Entra em cena sua ambição. Hoje em dia, nessa época brega em que vivemos, talvez Macbeth pudesse ser modelo de "liderança" em workshops de recursos humanos. Mas, Shakespeare não era brega.

Outra questão é sua relação com o sobrenatural: as feiticeiras o alertam para o destino de "sucesso" que o espera. As crenças religiosas sempre serviram para nos fazer crer que somos "acompanhados" por alguém. De novo, na época brega em que vivemos, talvez se diria que Macbeth acreditou que o universo conspiraria a seu favor.

Pobre idiota é aquele que não vê que o destino é sempre contra nós porque somos mortais.

Mas fica uma questão: qual a medida certa da ambição? Quantos de nós já moveram mundos para ao final se verem na condição de Macbeth no quinto ato: "A vida é um conto contado por um idiota, cheio de som e de fúria, significando nada".

O que adianta ganhar o mundo se você perdeu sua alma? Alguns, cínicos, diriam: quem precisa de alma quando temos grana? Essa resposta merece um texto à parte...

Outra questão é o famoso poder da Lady Macbeth sobre o marido. Para muitos especialistas, ela teria sido a causa definitiva para seu marido decidir assassinar o rei Duncan da Escócia. A análise de Chesterton é interessante porque aponta um traço da relação mulher-homem típica da vida real.

Qual relação? Sabe-se que num dado momento Macbeth entra em crise e recua na certeza de cometer o assassinato. Sua esposa, então, o convence a continuar no projeto, "motivando-o" da forma correta. E qual é essa forma? Desafiando sua virilidade e coragem.

Aqui Shakespeare põe o dedo na ferida: o homem morre de medo de ser fraco diante da mulher. Chesterton defende Lady Macbeth da acusação comum de ser "pouco feminina" dizendo, com razão, que ela é sim muito feminina no modo de conduzir seu marido para o que ela quer: que ele tome o trono da Escócia como prova de sua coragem e virilidade. Mentiras bonitinhas à parte, nada mudou: ou o homem é "forte" ou não vale nada.

Quando você não souber mais onde parar em sua ambição, lembre de Macbeth. Quando você se sentir um miserável porque um simples olhar feminino lhe destrói, lembre de Macbeth. Quando você sentir que a vida é um "conto idiota", lembre de Macbeth.

*Texto do filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé, colunista da FSP às segundas-feiras.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

As almas se dividem entre as próximas de Tolstói ou de Dostoiévski

Ricardo Cammarota/Folhapress
Existem dois tipos de alma: ou você está próximo de Dostoiévski (1821-1881) ou de Tolstói (1828-1910). Talvez pareça excessivamente chique uma divisão dessas, mas, ao fim dessa coluna, espero que fique menos obscuro esse critério.

Essa é a tese do crítico George Steiner em seu maravilhoso livro "Tolstói ou Dostoiésvki", da editora Perspectiva. Um dos livros mais belos que já li na vida. Próximo ao "Obras do Amor" de Kierkegaard (1813-1855), que é de longe o livro mais belo escrito em filosofia ou teologia que conheço.

A beleza e o amor suspendem a vida acima da banalidade do cotidiano. Despertá-los talvez seja a missão mais sublime que alguém pode ter na vida com relação aos seus semelhantes.

Uma das forças da literatura clássica é nos fazer conhecer a nós mesmos. Sei que está na moda dizer que não existe literatura clássica, mas deixemos de lado essa discussão entediante.

A tipologia que nos propõe Steiner deita raízes nos dois estilos gregos: o épico e o trágico. Tolstói estaria no primeiro, Dostoiévski no segundo. E, por consequência, são dois modos distintos de viver a vida. Ambos carregando a grandiosidade de espíritos avassaladores, como os dois escritores russos.

O épico seria o estilo em que a vida está envolvida pela presença do mito ou da religião, fundando uma ação fincada na esperança prática do transcendente (mundo dos deuses) e, por consequência, na esperança da redenção do mundo. Salvar o mundo é sua marca. Pessoas épicas sentiriam que suas vidas são acompanhadas por forças que as tornam capazes de redimir o mundo de suas misérias. Sua virtude central é a esperança.

Por "prática" aqui, quero dizer que não se trata de um espírito religioso meramente teórico ou alienado do mundo, mas profundamente enraizado nas agonias e demandas do mundo.

Para Steiner, Tolstói tem esse espírito de modo bem evidente, entre outros momentos, no período em que escreve "Ressurreição", que começou a ser publicado na Rússia em fascículos em 1899. O Conde Tolstói nessa época estava bastante envolvido na luta contra as injustiças da Rússia czarista, e abraçou, no final da vida, uma forma de anarquismo cristão pietista bastante radical.

O trágico seria o estilo em que o olhar para a vida se mantém fincado na fragilidade dela.

A precariedade é a estrutura dinâmica da vida. Nas palavras do escritor americano Henry James (1843-1916), uma vida tomada pela "imaginação do desastre". Aqui não há redenção, há coragem de enfrentar esse "desastre" que é a existência humana. Para Steiner, esse é a alma dostoievskiana. Sua virtude central é a coragem.

Aqui, mesmo que haja o divino, como há em Dostoiévski, o peso do drama cai sobre as costas do homem que caminha sozinho pelo chão do mundo. A beleza de Deus, na forma de "taborização" de seus místicos, como se fala na teologia russa, em referência à transfiguração do Cristo no Monte Tabor, aparece sempre como iluminação da agonia humana a sua volta (basta ver o Príncipe Mishkin do romance "O Idiota").

O místico em Dostoiévski ilumina por contraste. Sua luz divina faz a doçura do perdão brotar na consciência atormentada do pecador.

Uma alma tolstoiana é uma alma iluminada pela esperança e pela vitalidade que Deus a empresta. Seu elemento é a força de atuar no mundo social e político.

Uma alma dostoievskiana é iluminada pela dor e pela coragem que a mantém de pé. Seu elemento é a misericórdia como substância de sua psicologia espiritual.

E como passamos dessa alta teologia para o chão do cotidiano de nós mortais?

Almas tolstoianas lutam a cada dia contra a miséria do mundo, fazendo deste um campo de batalha contra o mal, movidas por uma certeza que parece alucinada.

Almas dostoievskianas, um tanto mais delicadas, suportam o sofrimento encantando o mundo a sua volta com piedade e sinceridade avassaladoras.

Felizes são aqueles que convivem com pessoas assim. A vida se transfigura em esperança e coragem. Duas faces da graça que sustenta o caminho dos homens. Mas, sem humildade, como sempre, seremos cegos a essas virtudes de Deus.

*Texto do filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé, colunista da FSP às segundas-feiras.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Abandonados, "os burros" sentem que seu esforço cotidiano não tem valor


Passado o frenesi da indignação com o ocorrido nas prisões, podemos pensar um pouco sobre aquele inferno. Digo de cara que não acredito na indignação regada a queijos e vinhos. Vamos dos argumentos mais óbvios (e nem por isso menos verdadeiros), aos menos óbvios.

Chegando mesmo aos que parecem obscuros aos inteligentinhos.

Óbvios: o Estado brasileiro é canalha, irresponsável, os dirigentes mentem, não estão nem aí para a vida dos presos (nem de ninguém), prender todo mundo num cubículo de lata é querer que se matem, o crime organizado cresce em meio ao vácuo do poder público, há uma crise no sistema prisional, há corrupção, as autoridades não fazem diferença entre um ladrão de galinha e um serial killer, pobre e preto sempre vai mais preso do que branco coxinha.

Tudo verdade. Menos óbvios: esse tema dá aos foucaultianos um gozo que beira o orgasmo porque Foucault achava que soltando os presos faríamos a verdadeira revolução. Será que ele alguma vez teve que encarar algum bandido querendo mata-lo? O PCC chega mesmo a tirar lágrimas de alguns foucaultianos com sua declaração de fundação regada a direitos humanos.

Uma das razões que torna muito do que os intelectuais falam risível é o fato de que vivem uma vida muito segura em seus casulos corporativos em universidades blindadas ao conhecimento e a qualquer tipo de risco.

Para foucaultianos sofisticados, os bandidos são vítimas da ordem social repressiva e mostram em seu comportamento a doença social, por isso, os trancamos nas cadeias para "esquecermos" de nossa patologia social. Esse tom surgiu em algumas indignações, mas com um certo cuidado porque essa moçada está um pouco assustada com a "revolta dos burros".

Quase obscuros: o que vem a ser essa "revolta dos burros"? Primeiro um reparo geopolítico mais amplo. Com a vitória de Trump, a inteligência pública começou a falar de novo em populismo. O segredo do Trump é ele falar o que o povo americano "burro" pensa. Os "burros" que falam inglês.

A inteligência pública há muito tempo está alienada do "povo", entrincheirada nas universidades e nas redações da mídia, falando sempre a mesma coisa: "como esse povo é burro e fala que bandido bom é bandido morto?" A inteligência pública está de costas para o povo comum e preocupada com sua carreira e seu sucesso nas redes sociais.

Avancemos um pouco mais nesses argumentos obscuros. Pois é. Os populistas atuais crescem na mesma medida em que insistimos em pensar que vivemos uma "revolta dos burros", mesmo que não digamos dessa forma explícita.

A inteligência está tão acostumada com queijos e vinhos que esquece o tal do povo. Os populistas crescem na mesma medida em que os "burros" sentem que o sistema político profissional e os inteligentes não estão nem aí pra eles. Por isso sentem que os inteligentes "só defendem os bandidos".

Um adendo: existe "burro" preto e pobre e "burro" branco e rico, ok? Vamos "ouvir os burros" um pouco? Pelo menos imaginar que podemos ouvi-los.

Quem sabe essa "revolta dos burros" pode indicar algo importante por detrás? Eu arriscaria dizer que esses "burros" se sentem abandonados pelo Estado e pela inteligência pública de forma crassa no seu dia a dia.

Esquecidos em seus impostos, acharcados por uma burocracia assassina e destruidora de qualquer iniciativa profissional que não seja apenas viver de salário e "direitos trabalhistas", em suas filas da saúde e do transporte público. Escolas são um lixo.

Andam com medo nas ruas. E não dá pra convencer ninguém que de fato pode ser assaltado ou morto por um bandido de que Foucault tem razão e que quando você é assaltado, você é o bandido, e o bandido é a vítima. Risadas?

Abandonados a sua solidão de "cidadãos honestos" (atenção! Os inteligentinhos acham que ninguém é mais honesto do que um traficante de drogas), "os burros" sentem que seu esforço cotidiano para viver dentro da lei, cuidando de suas famílias (mas que coisa mais classe média, não?) não tem nenhum valor. E estão aprendendo a dizer o que pensam.

Ai virá a "revolta dos burros" de carga.

*Texto do filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé, colunista da FSP às segundas-feiras.