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sábado, 22 de agosto de 2020

No centenário de Ray Bradbury, coletânea investiga origens de 'Fahrenheit 451'- via O Estado de S.Paulo

Contos reunidos no livro ‘Prazer em Queimar’ mostram a evolução das ideias do autor ao longo da carreira até alcançar sua obra-prima distópica

André Cáceres

O escritor americano Ray Bradbury nasceu há 100 anos, em 22 de agosto de 1920, e seu centenário está sendo celebrado no Brasil com o lançamento da coletânea de contos Prazer em Queimar pela editora Biblioteca Azul. A obra reúne 16 narrativas do autor, boa parte delas inédita em português e outras já inclusas em As Crônicas Marcianas e A Cidade Inteira Dorme. Cada um dos contos presentes no livro mostra como Bradbury tratou de temas recorrentes em sua obra, como autoritarismo, vigilância, ameaça nuclear e anti-intelectualismo, e como essas preocupações evoluíram ao longo de sua carreira para desaguar na obra-prima Fahrenheit 451.

Ray Bradbury descreveu como nenhum outro autor o prazer e o poder subversivos da leitura Foto: Ethan Pines/The New York Times

Lançado em 1953, o livro é um dos maiores clássicos da literatura distópica no século 20, ao lado de 1984, de George Orwell, Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, Nós, de Ievguêni Zamiátin, e Kallocaína, de Karin Boye. Em Fahrenheit 451 , após o surgimento de edificações à prova de fogo e a proibição da posse de livros, os bombeiros deixaram de apagar incêndios e seu trabalho passou a consistir em queimar livros. O romance acompanha a jornada subversiva de Guy Montag, um bombeiro que começa a se encantar por esses objetos tão perigosos feitos de papel e de ideias.

Refazendo o percurso das temáticas sobre as quais Bradbury escreveu ao longo da carreira e que o levaram a escrever Fahrenheit 451, a coletânea Prazer em Queimar começa inusitada, com duas histórias de zumbis contadas pela perspectiva dos mortos-vivos. Em O Reencarnado, um homem volta à vida para rever a mulher que deixou, mas se vê rejeitado por ela em sua nova forma. Nesse conto, ainda há um vislumbre de esperança, pois ela está grávida e ele sabe que continuará vivendo por meio de seu filho. Já em Pilar de Fogo, todos os cemitérios são destruídos e os corpos, queimados em nome do progresso. O último defunto da Terra se levanta e parte em uma jornada de vingança contra os vivos. Não há aí qualquer tipo de reconciliação.

O conflito entre vivos e mortos parece ter pouca relação com o enredo de Fahrenheit 451, mas é importante compreender que Bradbury associa os cadáveres à ideia de memória e o fogo à noção de purificação asséptica. Nessa chave de leitura, a ojeriza dos vivos em relação aos mortos seria uma espécie de negação da memória, uma elegia da ignorância contra o conhecimento dos antigos. Os falecidos são o passado – que queimem, portanto, dizem os vivos.

É o mesmo impulso purificador e moralista que leva os personagens de Bradbury a queimar livros. Em Pilar de Fogo, as obras de fantasia, horror e ficção científica, por serem mentirosas e enganadoras, ou seja, impuras, haviam sido queimadas em um grande expurgo. Ao saber disso, o protagonista, o último defunto da Terra, pensa: “Sou tudo o que restou de Edgar Allan Poe, sou tudo o que restou de Ambrose Bierce e tudo o que restou de um homem chamado Lovecraft (...) Hoje à noite, todos nós, Poe, Bierce e o pai de Hamlet, queimaremos juntos”.

A noção de que os livros mantêm seus autores vivos após a morte é fundamental para se compreender que sua queima, em Fahrenheit 451, além de uma ode à ignorância, é uma revolta contra o passado, a memória e os mortos. Esse aspecto fica evidente nesses contos que, não por acaso, abrem a coletânea. 

Por isso é lícito afirmar que Prazer em Queimar é, justamente, uma investigação sobre o percurso das principais ideias que Bradbury foi desenvolvendo ao longo da carreira e que se uniram para formar o escopo de Fahrenheit 451. E uma das questões mais caras à obra de Bradbury é a oposição entre livros e armas, ou intelecto e truculência.

Esse contraste fica claro nos contos A Biblioteca e Fênix Brilhante. Neste, um grupo de soldados armados é designado para entrar em uma biblioteca e queimar alguns volumes. O diálogo entre o bibliotecário, que quer dificultar a entrada dos militares, e o comandante da tropa é exemplar: 

“– Meus homens são minhas referências. Estão esperando pelos livros lá fora. Eles são perigosos. 
– Esses homens sempre são. 
– Não, não, estou falando dos livros, seu idiota. Os livros são perigosos.”

A noção de que uma simples canetada pode colocar em risco o legado cultural de um povo é uma das maiores preocupações que Bradbury expõe nos contos reunidos em Prazer em Queimar. Em diversas ocasiões, os personagens se referem às leis que aprovaram os expurgos literários: “Aprovaram uma lei. Ah, tudo começou tão pequeno. Séculos atrás, era um grão de areia. Aí começaram a controlar os livros e, é claro, os filmes, de um jeito ou de outro, um grupo ou outro, tendência política, preconceito religioso, pressão dos sindicatos, sempre tinha uma minoria com medo de algo e uma grande maioria com medo do escuro, com medo do futuro, com medo do passado, com medo do presente, com medo deles mesmos e das sombras deles mesmos”, explica o protagonista em Carnaval da Loucura. 

É esse sentimento que leva os personagens, em O Sorriso, a destruir em praça pública a Mona Lisa. “Tem a ver com o ódio. Ódio por tudo no passado”, explica um dos insurgentes. “Você odeia tudo que te derrubou e te arruinou”, ele diz, tentando encontrar algum tipo de racionalidade por trás do irracional ato de destruir uma pintura. Nesse conto, entretanto, há uma ponta de esperança. Uma criança em meio à multidão enfurecida acaba ficando com o sorriso da Mona Lisa para si e, em vez de destruí-lo, encanta-se com ele e decide guardá-lo consigo. Enquanto isso, um dos homens da turba diz ter saudades da civilização. “Alguém, algum dia, virá com imaginação e irá repará-la. Pode anotar o que eu digo. Alguém com um coração”, ele diz. “Alguém com alma para coisas bonitas.”

No conto A Fogueira, se vê que a destruição do intelecto, para Bradbury, é um indício da célebre frase do poeta alemão Heinrich Heine: “Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas”. Pois, a partir dessa narrativa, o extermínio das obras passa a ser acompanhado da crescente ameaça da bomba: “E demorou milhões de anos para que surgisse o homem. Fico chocado que alguns poucos homens no alto escalão podem estalar os dedos e acabar com tudo. Meu único consolo é que eles também vão queimar”. Não por acaso, em seu livro As Crônicas Marcianas, cujas questões elaboradas se relacionam com os contos elencados em Prazer em Queimar, a Terra acaba por ser destruída em uma guerra nuclear.

Para Bradbury, o ódio aos livros – que simbolizava o anti-intelectualismo, a negação da memória, o revisionismo histórico, a recusa do conhecimento – está sempre intimamente conectado ao autoritarismo, à vigilância, à perseguição ideológica. Isso fica claro em Um Grilo na Lareira, conto doméstico em que um casal começa a suspeitar que o governo instalou uma escuta em sua casa e, embora não tenha feito nada de errado, passa a se autocensurar, com medo de que possa ser punido por algum comportamento. É um dos contos mais ilustrativos do Macarthismo (a perseguição política empreendida pelo senador Joseph McCarthy aos comunistas nos EUA dos anos 1950, que acabou virando uma caça às bruxas generalizada), mas, em tempos de linchamentos morais em redes sociais e extinção da privacidade, esse conto se torna ainda mais relevante.

Após passear por todas essas temáticas – vigilância, autoritarismo, ameaça nuclear, negacionismo –, Prazer em Queimar traz Muito Depois da Meia-noite e O Bombeiro, duas novelas de cerca de 90 páginas cada que são praticamente rascunhos de Fahrenheit 451, com os mesmos personagens e situações, incluindo muitos dos eventos que iriam ser narrados no romance. Ler o fascínio com que o bombeiro Montag lê um livro que deveria queimar tem ainda mais potência após passar pelas narrativas anteriores, que tão bem demonstram a coerência temática da obra de Bradbury.

Prazer em queimar: histórias de Fahrenheit 451 - por Ray Bradbury

Em Muito Depois da Meia-noite, numa cena quase idêntica à que o autor escreveria em Fahrenheit 451, o bombeiro Montag queimava uma biblioteca clandestina quando, por acidente, é mordido pelo fascínio que os livros exercem e começa a se libertar de sua ignorância. “Ele ergueu as mãos e um livro pousou obedientemente nelas, como uma flor aberta! Na luz fraca, abriu em uma página, e era como uma pétala com palavras que floresciam com delicadeza. No meio daquele fervor e correria, só teve tempo de ler uma linha, mas ela ardeu em sua mente pelo minuto seguinte, como se tivesse sido gravada com ferro em brasa.” 

Com essa novela, o percurso de ideias galgado pelos contos reunidos em Prazer em Queimar finalmente se encontra mais explicitamente com Fahrenheit 451, oferecendo até mesmo novas perspectivas para reler o clássico distópico.

O agora centenário Ray Bradbury transmitiu como nenhum outro escritor o poder e o prazer subversivos do conhecimento que só a literatura é capaz de proporcionar e que faz o autoritarismo, em todas as suas formas, tanto temê-la e combatê-la.

domingo, 6 de janeiro de 2019

De Aldous Huxley para George Orwell



Wrightwood. Cal.

21 de outubro de 1949

Querido Sr. Orwell,

Foi muito gentil da sua parte pedir aos editores que me enviassem uma cópia do seu livro. Ela chegou enquanto eu estava em meio a um trabalho que me demandava muita leitura e consultas de referências; e como a falta de visão faz com que seja necessário racionar a minha leitura, eu tive que esperar por muito tempo antes de ser capaz se embarcar em 1984.

Concordando com tudo o que a crítica escreveu sobre isso, eu não preciso te dizer, mais uma vez, o quão bom e profundamente importante o livro é. No lugar, posso falar sobre o que o livro aborda, — a revolução definitiva? as primeiras pistas de uma filosofia da revolução definitiva? — a revolução que está além da política e da economia, que aponta para a subversão total da psicologia e fisiologia do indivíduo — que podem ser encontradas em Marquês de Sade, que se considerava o continuador, o consumador de Robespierre e Babeuf. A filosofia da minoria dominante em 1984 é de um sadismo que foi levado à sua conclusão lógica, indo além do sexo e negando-o. 

Se a política do “boot-on-the-face” realmente pode continuar indefinidamente me parece duvidoso. Minha crença é de que a oligarquia dirigente irá achar formas menos árduas e perdulárias de governar e de satisfazer a sua cobiça por poder, e estas formas irão se assemelhar àquelas que eu descrevo em Admirável Mundo Novo. Recentemente, eu tive a oportunidade de pesquisar sobre a história do magnetismo e do hipnotismo animal, e fiquei bastante impressionado pela forma que, por 150 anos, o mundo se recusou a reconhecer seriamente as descobertas de Mesmer, Braid, Esdaile e o restante.

Em parte por causa do materialismo prevalecente e em parte por causa da respeitabilidade predominante, filósofos do século 19 e homens da ciência não estavam inclinados à investigar os fatos mais estranhos da psicologia para homens práticos, como políticos, soldados e policiais, para aplicar no campo do governo. Graças à ignorância voluntária dos nosso pais, o advento da revolução definitiva foi adiado em cinco ou seis gerações. Outro incidente da sorte foi a incapacidade de Freud de hipnotizar pacientes com sucesso e seu descrédito ao hipnotismo. Isso atrasou a aplicação geral do hipnotismo na psiquiatria por pelo menos 40 anos. Mas agora psico-análises estão sendo combinadas com a hipnose; e a hipnose se tornou fácil e indefinidamente extensível através do uso de barbitúricos, que induzem a um estado hipnótico e sugestivo mesmo nos assuntos mais recalcitrantes.

Dentro da próxima geração, eu acredito que os governadores do mundo irão descobrir que o condicionamento infantil e a narco-hipnose são mais eficientes, como instrumentos de governança, do que porretes e prisões, e que a cobiça pelo poder pode ser completamente satisfeita ao sugerir que as pessoas amem a sua servidão, ao invés de chicoteá-las e chutá-las à obediência. Em outras palavras, eu sinto que o pesadelo de 1984 está destinado a ser modulado ao pesadelo de um mundo mais semelhante ao que eu imaginei em Admirável Mundo Novo. A mudança surgirá como resultado de uma necessidade sentida [pelo governo] para o aumento da eficiência. Enquanto isso, claro, pode haver uma guerra atômica e em maior escala biológica — caso em que teremos pesadelos de tipos diferentes e inimagináveis.

Obrigada mais uma vez pelo livro.

Atenciosamente,
Aldous Huxley.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Fenômeno na TV americana, 'The Handmaid's Tale' estreia no Brasil

Elisabeth Moss (E) como Offred e Alexis Bledel como Ofglen em 'O Conto da Aia' Foto: George Kraychyk/Hulu

Inspirada em obra de ficção científica da escritora canadense Margaret Atwood, série dominou a última edição do Emmy


LOS ANGELES - Com quase um ano de atraso, chega ao Brasil The Handmaid’s Tale – O Conto da Aia, a produção vencedora de oito Emmy e dois Globos de Ouro, incluindo melhor série dramática e melhor atriz dramática (Elisabeth Moss). A série estreia hoje, às 21h, no Paramount Channel, que vai ter sinal aberto nas operadoras Oi, SKY e Vivo. 

Baseada no romance distópico de Margaret Atwood, The Handmaid’s Tale se passa após a Segunda Guerra Civil americana, que deixou o país destroçado e substituído por Gilead, uma sociedade totalitária e religiosa que sofre com a baixa natalidade. As poucas mulheres férteis são obrigadas a ser escravas sexuais dos homens proeminentes. Offred (Elisabeth Moss) é uma dessas mulheres, as aias, forçadas a usar longas vestes vermelhas e chapéus que tapam sua visão periférica. Só podem sair de casa acompanhadas de outras como elas. Na residência dos Waterford, Offred precisa lidar não apenas com Fred (Joseph Fiennes), mas também com sua mulher Serena (Yvonne Strahovski) e tomar cuidado com cada respiro, até porque um espião está na casa. As aias que desobedecem são duramente punidas.

Desde sua estreia nos Estados Unidos, em abril do ano passado, a série virou um fenômeno cultural, com mulheres que viram seus direitos ameaçados se vestindo como Offred. A “resistência” da série serviu como modelo e espelho da “resistência” liderada pelas mulheres contra o governo de Donald Trump. Em entrevista à imprensa, o showrunner Bruce Miller disse que sempre tentou encarar o que se passa em The Handmaid’s Tale como algo que real, não uma possibilidade. “São coisas que ocorreram em algum lugar em algum momento. É muito fácil virar exploração do sofrimento das mulheres, então a gente precisa manter o realismo para evitar isso.” Ele confessa, porém, que teve de fazer uma alteração na primeira temporada, que foi substituir o slogan “make america great again” (“torne os Estados Unidos grandes novamente”) depois que foi adotado pela campanha presidencial de Donald Trump.

A escritora canadense Margaret Atwood Foto: Lucy Nicholson/ Reuters
Em flashbacks, a série mostra como era a vida de Offred no passado, quando era casada e tinha uma filha, antes que o fundamentalismo religioso tomasse conta. As transformações da sociedade acontecem aos poucos. Apesar de ser vítima de muitas crueldades, a protagonista expressa bom humor em certas ocasiões, sempre na narração em off. “Ela é engraçada, a situação, nunca.

Ela sempre tem uma atitude de: ‘Mas que p... é essa?’. Ela somos nós. Se ela perder esse lado, se perde”, disse Miller. Por isso, a série precisava de uma atriz capaz de quase tudo. “Sabíamos que o diálogo era esparso e muitas vezes contradiz o que a personagem está pensando. Ela ainda usa aquelas roupas e aquele chapéu. A dificuldade é enorme. Então sempre que escrevemos algo desafiador, pensamos: Será que Elisabeth vai conseguir? E a resposta até agora foi sempre sim”, diz o showrunner. 

Moss, que foi indicada outras sete vezes ao Emmy – seis por Mad Men e uma por Top of the Lake – “comunica muito só com o rosto, sem ação ou diálogo”, acrescentou o produtor Warren Littlefield. Para a atriz, por mais experiência que tenha acumulado na televisão, The Handmaid’s Tale é diferente. “Nunca estive tão próxima da câmera. É novidade para mim”, disse a atriz. Ela esmiúça cada cena e, se preciso, conversa longas horas ao telefone com Miller. “Sempre tenho uma ideia muito clara do que quero na cena. E essa é melhor parte do meu trabalho, não o resultado final.”

Especulativa. Lançado em 1985, O Conto de Aia (Rocco), de Margaret Atwood, logo se encaixou na fileira de grandes romances distópicos, como 1984, de George Orwell, ou Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Curiosamente, ela rejeitou, na época, que o livro fosse rotulado como ficção científica, preferindo “ficção especulativa”.

De fato, o livro, que ganhou novo fôlego com a série de TV, tornou-se profético depois da eleição de Donald Trump, alçando Margaret a uma posição de profetisa. “O que o torna tão moderno é o retrato do totalitarismo americano”, comentou.

Ambientado em um futuro próximo, o enredo mostra um país onde não existe imprensa, ou mesmo cultura. Atos banais tornaram-se crimes, como cantar qualquer canção que contenha palavras proibidas pelo regime, como “liberdade”. Nesse Estado teocrático e totalitário, as mulheres são as vítimas preferenciais, anuladas por uma opressão sem precedentes. O nome dessa república é Gilead, mas já foi chamada de EUA.

“Quando escrevi, eu vivia em Berlim, nos anos 1980. O muro ainda dividia a cidade e nada indicava alguma mudança – mal sabíamos que, cinco anos depois, ele seria derrubado”, observou. “Hoje, sentimos que é uma realidade possível. Vivemos uma era de mudanças”.

No Brasil, o livro chegou em 1987, pela Marco Zero, como A História da Aia.

Mariane Morisawa, Especial para O Estado de S. Paulo

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

O exército brasileiro está, de fato, se tornando uma força policial

Governo federal decide decretar intervenção na segurança pública do RJ
Uma matéria escrita no The Economist no dia 6 de Julho do ano passado mostra como é o papel fundamental do exército como garantidor da ordem e democracia, desmontando a crença de um país pacífico e sem conflitos.

Patrulhar na fronteira e nas ruas da cidade é uma parte crescente do que o exército faz


A ÚLTIMA VEZ QUE uma grande cidade brasileira foi atacada foi em 1711, quando um corsário francês capturou brevemente o Rio de Janeiro. O relatório oficial de defesa do país afirma que "no momento, o Brasil não tem inimigos". No entanto, o Brasil mantém o 15º maior exército permanente do mundo e gasta mais em defesa do que Israel.

Uma das tarefas centrais das forças armadas é o policiamento de 150 km (93 milhas) ao lado da fronteira terrestre de 16,8 mil quilômetros do país. Criminosos internacionais têm sido atraídos pela tamanho descomunal da fronteira: Pablo Escobar, um traficante de drogas colombiano, disse uma vez possuir um avião de carga que agora fica fora do zoológico na cidade fronteiriça de Tabatinga. O exército também é responsável por "operações de lei e ordem", e as tropas são uma visão comum durante grandes eventos, como eleições ou as Olimpíadas de 2016.

No entanto, os trabalho e obrigações do exército se expandiram para o campo policial. Décadas de gastos excessivos e uma longa recessão drenaram a maioria dos cofres dos estados brasileiros. Embora apenas 20% das solicitações de reforços militares para assistência de emergência sejam aprovados, esse trabalho compõe uma parcela crescente da carga de trabalho do exército. Durante o ano passado, os soldados brasileiros passaram quase 100 dias patrulhando as ruas da cidade - o dobro do número dos nove anos anteriores combinados.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Sexo no blockchain - Luiz Felipe Pondé


O tema assédio está na moda. Entre os extremos, a vida segue seu curso, às vezes, dando a impressão de que poderá se tornar irrespirável em algum momento.

Num lado extremo dessa realidade das relações sexuais, homens violentos (ou mulheres violentas, em bastante menor número) que tornam a vida no trabalho ou nos espaços de lazer um inferno para suas vítimas. No outro extremo, o sentimento de risco (real) que muitos homens sentem de que a simples demonstração de desejo por uma mulher poderá ser tachada de assédio.

Ou, pior, de que, mesmo tendo tido seu consentimento, ela poderá, posteriormente, dizer que o "retirou", ou que o cara mentiu sobre ela ter dado o consentimento, ou que a entendeu errado e que, portanto, o suposto "date" foi estupro.

É justamente na área privada do consentimento que residem algumas das paranoias contemporâneas que ameaçam transformar as relações cotidianas entre homens e mulheres num tédio contínuo preenchido por pessoas civilizadas, limpinhas e imóveis. Mas, como tudo mais no mundo contemporâneo, principalmente em se tratando de relações humanas e serviços, o espírito do Vale do Silício oferece uma solução.


Os holandeses criaram um aplicativo chamado Legal Fling, que visa garantir que pessoas (principalmente, homens) se defendam da acusação de assédio ou estupro quando houve consentimento prévio para o ato sexual ou a abordagem.

A expressão em inglês "fling" é ambivalente. Entre o substantivo, que nos remete à ideia de um momento de diversão, gostoso, e o verbo, que pode significar um arremesso violento de algo, ou seja, algum tipo de ato com risco de violência, reside a realidade ambivalente do tema.

"Legal fling" seria, portanto, essa ambivalência tornada "legítima", levando essa arriscada ambivalência para o universo "garantido" pelo novo oráculo, a tecnologia blockchain (base de registro que funciona como prova de um acordo ou transação). Será verdade um aplicativo assim?

Nem todos concordam que o aplicativo ofereça de fato a segurança absoluta contra acusações de que consentimentos supostamente dados se transformem em acusações supostamente falsas. O "supostamente" aqui é essencial.



Voltamos ao caráter privado do tema. É difícil saber o que acontece entre quatro paredes. O combate à violência sexual tem razão em se preocupar com os abusos em geral. A crítica feita à tentativa de judicializar as relações entre homem e mulher também tem razão quando aponta a cultura da paranoia como fato dado no mundo presente.

É possível um "meio-termo" ou "bom senso" nesse assunto? Não creio. O mundo vai, pouco a pouco, sucumbindo à ambivalência criada pela modernização, na sua contínua tentativa de organizar e limpar tudo.

Zygmunt Bauman (1925-2017) acertou em cheio no seu "Modernidade e Ambivalência" ao apontar para esse caráter de "jardineiro" que o Estado moderno (e a sociedade como um todo) tem em querer fazer do mundo um "jardim do bem".

O aplicativo funciona basicamente assim: você preenche um cadastro onde afirma aceitar ou não sair e fazer sexo com fulano, depois detalha o que gosta, tipo, sei lá, sexo anal, no carro, oral, se gosta ou não de apanhar, se gosta ou não de ser tratada ou tratado de forma humilhante, se gosta de ser chamado ou chamada por termos como "cachorra", "vadia", "filho da puta" e por aí vai.


Sei. Pensar numa lista assim parece ridículo. Mas, se você tiver como princípio de entendimento do mundo contemporâneo o fato de que caminhamos para um contrato social baseado no ridículo como forma de vínculo, não estranhará tanto assim um aplicativo como esse.

O aplicativo lançará então esse "contrato" numa plataforma blockchain e, portanto, você não terá como impedir que a "humanidade em cadeia" tenha ciência de que, sim, você gosta de apanhar no sexo ou que você, sim, aceitou ser amante do seu chefe, quem sabe, em troca de uma promoção no trabalho.

O que salvaguardará juridicamente a legitimidade do ato sexual em questão será de uma ordem análoga à de uma moeda virtual, como o bitcoin. Neste caso, a "moeda" é a exposição pública da intimidade, em nome da segurança de cada cidadão envolvido em atos sexuais.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Sociedade do futuro será derivação do sistema de multas de trânsito atual - Luiz Felipe Pondé

Editoria de Arte/Folhapress

Artigo publicado originalmente na Folha de São Paulo, 11 de dezembro de 2017

Não acredito em evolução social. Suspeito que andamos em círculos, indo pra lugar nenhum.

Com isso não quero negar que "ganhamos algum terreno" em relação a situações desagradáveis aqui e ali (aumento de longevidade, eliminação em grande escala da escravidão e coisas semelhantes) nem que sejamos absolutamente dominados pela contingência cega.

Conseguimos controlar várias dimensões da vida. E são exatamente estas formas de controle que apontam para o "futuro da democracia".

A condição humana é tal que combatemos constantemente a contingência e a nós mesmos, em nossa infinita capacidade de criar sofrimentos. Mas a democracia, evidentemente, pode acabar um dia, inclusive pelas mãos de gente que a "defende", principalmente porque o termo "democracia" pode significar coisas opostas.

Quer ver um exemplo banal dessa "instabilidade semântica" do termo "democracia"?

Tem partidos políticos por aí que pretendem, em nome da democracia, intervir na mídia para garantir igualdade de oportunidades, por exemplo, destruir pessoas e grupos na mídia para colocar seus parceiros ideológicos no lugar dessas pessoas e grupos. O argumento é "democratizar a mídia".

Por outro lado, deixar a mídia inteiramente livre (portanto, democrática) pode significar, por exemplo, a geração de discursos de ódio e a exclusão social de quem não conseguiu alcançar a posição de trabalho num desses grandes grupos de mídia.

Independente dessa questão "escolástica" (se não conhecer o termo, olhe no Google), de onde está a verdadeira democracia na mídia e em outros níveis, acho que o futuro nos reserva a sociedade mais controladora que o mundo já viu e, portanto, num sentido comum do termo, menos democrática.

Dito de forma direta: marchamos para um mundo totalitário, com controle cada vez mais maior dos comportamentos, mesmo que pessoas trans possam ser o que quiserem (dou esse exemplo como mero clichê de "liberdade individual") ou você possa ter o perfil que quiser no Face ou odiar livremente quem você quiser nas redes.

O modelo de sociedade do futuro está mais para o sistema de multas de trânsito atual do que para o debate sobre "o que é a verdadeira democracia".

O que é este sistema de multas de trânsito atual? Ele é o paradigma do controle em nome do "bem científico e social". Existem quatro instâncias nesse sistema que fazem dele paradigmático da sociedade de controle do futuro.

A primeira é a participação do mercado faturando muita grana na venda de equipamentos de controle dos comportamentos. Empresas as mais variadas venderão equipamentos e formarão pessoal treinado para oferecer ao Estado e a sociedades esses "serviços".

A segunda é a pesquisa e instalação cada vez maior de "inteligência algorítmica" no controle audiovisual e de localização espacial das pessoas, seus veículos e instrumentos cotidianos de uso.

A medida que a pesquisa nessa área avançar, mais dinheiro se ganhará com o avanço técnico e efetivo do controle.

A terceira é o esquema gigantesco de arrecadação que isso significará para o Estado, em parceria com o mercado.

Quando finalmente não dirigirmos acima de 50 km por hora, seremos obrigados a dirigir abaixo de 30 km por hora em toda parte. E assim até a imobilidade total...

A quarta é o ganho civilizador: a diminuição dos acidentes de trânsito. Não ache que esta é a menos importante. Pelo contrário, esta instância é a essencial em todo o paradigma. Ela é a razão "científica e social" da instalação crescente e inevitável do controle: a melhoria da qualidade do trânsito e, por tabela, da vida.

Esta contradição é inerente ao processo modernizador. Modernidade implica controle da contingência a serviço da melhoria da qualidade dos materiais e códigos envolvidos na vida em sociedade.

Controle de comportamentos, instituições, bens, menor custo e maior benefício nas transações. Dane-se o que quer dizer "a verdadeira democracia". Eu apostaria que este será o nome de algum jogo idiota que pessoas com cabelos azuis e indefinição sexual jogarão nas redes.

Cinco potenciais crimes que gerações futuras terão receio de cometer - João Pereira Coutinho

Angelo Abu/Folhapress
Artigo publicado originalmente na Folha de São Paulo, 21 de novembro de 2017

Quando estou em São Paulo, alguns amigos aconselham-me a não usar o celular enquanto caminho na calçada. Sempre ri do conselho — mas, supersticioso como sou, evito. Quando o celular toca, eu paro. E depois entro numa loja — ou, no mínimo, fico à porta — e atendo.

Os meus amigos preocupam-se com a minha segurança. Mas eles, sem o saberem, são autênticos visionários. Exibir o celular em público não é apenas um convite ao assalto. É uma forma de sofrer acidentes graves ou mesmo fatais.

Na capital do Havaí, foi aprovada uma lei que criminaliza o uso do celular enquanto caminhamos. Informa a revista "Time" que milhares de pessoas são atendidas nos hospitais porque a junção desses gestos — caminhar e usar o celular — não dá bons resultados.

Pior: o número de acidentes com celular suplanta o número de acidentes de viação.

O caso não me espanta. Se virmos bem, a criminalização da insegurança tem sido uma constante nas sociedades ocidentais. Pode ser insegurança física -como dirigir sem cinto. Pode ser insegurança metafísica -como escutar opiniões ofensivas em público. A rede aumenta.

Aliás, a rede aumenta sempre. Dias atrás, esteve em Lisboa o filósofo Jonathan Jacobs, um autor versado em questões de ética criminal. Duas ideias ficaram da visita.

A primeira é que o número de condutas que merecem punição legal tem aumentado nos Estados Unidos de forma dramática. A segunda é que isso não torna uma sociedade mais virtuosa.

Pelo contrário: a obsessão do Estado em controlar todos os comportamentos dos cidadãos tem como resultado um enfraquecimento da responsabilidade moral e cívica dos mesmos. A lei deveria ser o último recurso — depois da educação, da ética, da negociação e do compromisso entre os indivíduos. É agora o primeiro recurso.

Assino por baixo. Entendo que a sociedade moderna não se pode resumir aos Dez Mandamentos que Moisés trouxe do Sinai. E muitos comportamentos que os nossos antepassados consideravam "normais" — violência doméstica, por exemplo — são hoje punidos como crimes públicos (e ainda bem).

Mas como garantir que outros comportamentos normais (agora sem aspas) não serão apanhados pela rede da sobrecriminalização?

Imagino cinco potenciais crimes que os filhos dos nossos filhos terão receio de cometer:

Crime de imposição de gênero
Os pais deverão abster-se de identificar o gênero dos filhos tomando como referência o sexo biológico dos mesmos.

Durante os primeiros 16 anos de vida da descendência, as tradicionais distinções entre "feminino" e "masculino" serão abolidas — na linguagem, no vestuário, nos brinquedos, até na onomástica. "Ele" e "ela", por exemplo, darão origem à palavra "el@" (pronunciada "el-arroba", como em "El-arroba já voltou da escola?").

Crime de ódio privado
Qualquer cidadão que expresse preconceitos raciais, sexuais, culturais ou religiosos em privado poderá conhecer denúncia se alguma testemunha entender fazê-lo. Com a evolução tecnológica, os apartamentos serão obrigatoriamente equipados com sensores antiódio, bastante semelhantes aos sensores antifumo, diretamente conectados com a delegacia do bairro.

Crime de apropriação cultural
Serão severamente punidos os cidadãos que, alegando interesse cultural ou razões artísticas, se apropriem de práticas e temáticas de um grupo étnico a que não pertencem. (Exemplos: caucasianos preparando sushi; escritor asiático publicando romance sobre personagem negro).

Crime de envelhecimento público
Com os avanços da medicina, será intolerável que um cidadão recuse tratamentos/cirurgias para ocultar/reverter o seu processo de envelhecimento, exibindo em público as marcas da decadência física e/ou neurológica. A imposição da velhice à sociedade será equiparada a um ato obsceno.

Crime de interesse sentimental não solicitado
Será punido qualquer adulto que manifeste interesse sentimental não solicitado por outro adulto — através de sorriso, elogio, convite para jantar etc.

O interesse sentimental de um adulto por outro será mediado por um advogado que apresentará ao advogado da parte desejada as intenções do seu cliente. Só mediante autorização da parte desejada é que o proponente poderá avançar para contato telefônico ou digital.

Qualquer outro ato sentimental que envolva "risco de intimidade" implica obrigatoriamente a presença de um tabelião. 

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Notícias: Edgar Allan Poe, Romances utópicos, Clube LeYa de Ficção Fantástica e Lançamento de Livros

EDGAR ALLAN POE


Mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP e autor de livros e ensaios de horror, Oscar Nestarez vai falar do papel fundamental de Poe na constituição das narrativas de horror como a conhecemos atualmente, baseando no ensaio A filosofia da composição. Também será apresentada uma biografia resumida do autor, cuja vida é inseparável da produção ficcional e encerrando a apresentação, será realizada uma breve análise do conto Os fatos no caso do senhor Valdemar, de modo a comprovar as hipóteses propostas na palestra. Será a partir das 10 horas, na Casa do Saber Fantástico (Casafan): Rua Fradique Coutinho, 1139, na Vila Madalena (a poucas quadras do metrô Fradique Coutinho). O evento é gratuito.

ROMANCES UTÓPICOS E MOEDAS DISTÓPICAS


O segundo encontro de discussão de leitura mediado pela escritora Ana Rüsche terá como tema O conto da Aia da Margaret Atwood, e a convidada para participar será  Renata Corrêa, escritora, feminista e roteirista. Ao início da sessão, contextualização de autor e obra, comentários sobre o romance, informações técnicas e leitura de alguns trechos. O livro será usado no especial Circulo das Ideias - Dystopic Universe do Golem. O encontro será na biblioteca e livraria Tapera Taperá na Avenida São Luiz, n° 187, 2º andar, loja 29 - Galeria Metrópole às 11 horas (término previsto as 13). Para se cadastrar, clique aqui.

CLUBE LeYa DE FICÇÃO FANTÁSTICA - 4ª Edição


A LeYa Brasil e a Fnac, em parceria com os colegas do site Acervo do Leitor e o grupo Reino dos Livros apresentam a nova edição do Clube LeYa de Ficção Fantástica. Em sua 4ª edição, o tema levado a debate é Fantasia Urbana e Super-Heróis: debatendo gêneros literários. A conversa se desenvolve na investigação sobre os conceitos e definições de Fantasia Urbana, sobre as principais obras do gênero e os maiores filmes de super-heróis da atualidade e como seria o mundo real se os super-heróis estivessem entre nós. A Fnac desse evento fica na Praça dos Omaguás, n° 34. A duração será das 16:00 às 18:00

LANÇAMENTO DE LIVROS - Raphael Draccon e Carolina Munhóz


Na outra Fnac, na Paulista, faz uma parceria com a Editora Rocco e trazem de volta a São Paulo - capital - Carolina Munhóz e Raphael Draccon para lançar seus novos livros "Por um toque de magia", volume final da trilogia Leprechaun, e "O coletor de espíritos", stand-alone de Draccon. O endereço é: Avenida Paulista, 901 às 17:00. Dracoon que comemorou ontem dez anos de lançamento de sua magnum opus Dragões de Éter - o primeiro livro da trilogia chegou ao público em 13 de setembro de 2007 na Bienal do Livro do RJ e tem previsão para ganhar mais um volume: Estandartes de névoa. O prólogo foi divulgado ontem pelo autor em sua página nas redes sociais. Para ler, ele segue abaixo.

DRAGÕES DE ÉTER - ESTANDARTES DE NÉVOA
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Dizem que o nome dele significa “mau conselho”.

Talvez isso seja uma invenção depreciativa, pois é normal que o homem comum se vingue de pessoas a ele extraordinárias de formas assim. Dizem que é filho dos pais errados, que se casou com as mulheres incorretas e que tomou as piores decisões. Há diferentes versões de sua origem, de sua paternidade, de seus ideais e de seus motivos. Talvez tenha matado menos homens do que deveria. Talvez mais. Talvez ele tudo tivesse feito acreditando ser o melhor para a própria pátria e toda humanidade afetada por ela, pois existe um fardo nas mãos dos homens que fazem História, que sempre é difícil de ser julgado.

O fato é que muito se diz e muito pouco se tem certeza. Não se sabe exatamente hoje em dia em que local ele está. Que aparência assumiu. Quantos aliados viajam com ele, e mesmo se ainda existe um aliado disposto ao feito. Na verdade, não se sabe mesmo se aquele homem tem aliados. E, se tiver, uma taberna inteira apostaria ainda assim que nenhum seria capaz de admitir isso.

Isolado como um urso, diziam no sul que viajava por caravanas com nomes falsos e roupas maltrapilhas, cheirando pior do que mendigos e gerando reações parecidas com a passagem de um leproso. Já ouvi um bardo manco dizer, entretanto, que um homem com lepra chama muito atenção e um renegado jamais iria querer isso para si. Parece um raciocínio sensato. No norte, costumam dizer que viajava cheirando pior do que orcos, o que convenhamos é mais depreciativo do que a comparação do sul, e que carregava sua armadura consigo e se apresentava como um cavaleiro longe de casa.

Não deixaria de ser uma mentira.

Quando caminhava, costumava fazer em silêncio, como se ninguém quisesse ouvir sua voz. Ou suas explicações. Quando de pé parecia sempre curvado, mas não como uma bruxa corcunda de poucos dentes, mas simplesmente um homem que carregava um mundo nas costas. Quando desembainhava a espada, não parecia diferenciar a frieza com que a embainhava. Quando dormia, precisava ainda assim estar em alerta, como se houvesse sempre alguém pré-disposto a matá-lo.

Muitos já o viram lutar e essas histórias ao menos possuem relações. Porque em todas elas, seja nas versões do sul ou do norte, existiam referências à sua habilidade para matar. Algumas histórias comentam que suas vitórias eram baseadas na experiência, afinal, um homem caçado o tempo inteiro tinha de aprender alguma coisa. Outras insistiam que possuía um estilo sujo como sua índole, e ludibriava os inimigos de maneiras desonrosas. 

Essas, porém, não eram as melhores histórias.

Verdadeiras ou não, as melhores narrativas contavam como aquele homem seria hoje o maior cavaleiro em atividade em todo o mundo. Se não fosse, claro, renegado por todas as ordens de cavalaria.

Desenhos de seu rosto, baseados em suposições e relatos incompletos, enfeitavam as paredes de estabelecimentos de regiões diferentes, e variavam a recompensa escrita em letras garrafais. Não importava o valor, contudo, pago por uma coroa real. Todos os valores valiam à pena. Mercenários de muitos lugares o perseguiram. Caçadores de recompensas buscaram não apenas o pagamento pelo trabalho assassino, mas também a fama de concluí-lo. De fato, muitos tentaram o feito.

Ele matou todos.

Atrás de seus caminhos desenhava-se um rastro de sangue que corria como um rio torto. Era um homem cuja passagem vertia lágrimas. Era um espírito condenado à escravidão da própria escuridão ao seu redor. E, quando um homem caminha com muita treva ao redor de si próprio, ele possui apenas dois caminhos: acabar cego ou acostumado. No primeiro caso, ele jamais voltará a enxergar qualquer claridade. No segundo, ele pode se acostumar com o breu e passar a se incomodar com a luz. 

Não importa qual caminho ele escolha nesse caso.

Ambos lhe custarão a paz interna.

Logo, era um homem indiferente à guerra ou à paz. Provavelmente o fardo que o perseguia houvesse influenciado isso. As pessoas dirão que não, que era sua índole e que ele merecia padecer em Aramis com os glóbulos oculares arrancados dentro de tigelas de água borbulhando, escutando o gargalhar de bruxas que se divertiam com a desgraça do mundo. Como dito, contudo, é difícil julgar o fardo dos homens que fazem História. Assim como também é difícil condenar a recepção do mundo a esse tipo de fardo.

Mas uma coisa, não importa em qual lenda, não importa em que cultura ou continente, recaía unanime sobre ele.

Todos o odiavam.

Talvez aquele homem tenha matado mais do que deveria. Talvez menos. Mas um único homem morto por ele fora suficiente para torná-lo o homem mais odiado do mundo.

Porque um dia ele matou Arthur Pendragon.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Antônio Carlos: "O que houve no Brasil, e em grande parte do mundo, foi a desarticulação da classe trabalhadora por meio do dinamismo do capital e da fragmentação da classe dominada por meio de intenso trabalho de alienação ideológica"


Mestre pela Universidade Nove de Julho (UNINOVE), Antônio Carlos, é escritor, filósofo, teólogo e advogado - Especialista em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho pela Faculdade de Direito Professor Damásio de Jesus e nos deu uma pequena entrevista sobre o Brasil e sobre todas as atualidades.


Embora a teoria marxista tenha sido um divisor de águas na história da filosofia política proporcionando um novo olhar sobre a estrutura do Estado, é importante entender que tal teoria foi escrita no século XIX diante dos problemas postos àquela época

A direita cresce no Brasil e algumas pesquisas apontam que o conservadorismo subiu no país comparado a alguns anos, mesmo o governo tendendo mais a esquerda. Como isso é explicável? 
Ao meu ver a Direita não cresce no Brasil, a Direita é o Brasil. Qual é a real situação da esquerda brasileira? Entendo que os partidos simpatizantes com ideais de esquerda no Brasil (apenas ideologicamente porque não prática nunca romperam com o sistema de classes),começando pelo PT (Partido dos Trabalhadores), que era, ao menos, a espinha dorsal, acabou se aristocratizando e transformando-se em refúgio de intelectuais, artistas, teóricos, predominantemente da da classe média alta.Os sindicatos se perderam em burocracia e interesses alheios à organização da classe proletária, servindo, em alguns casos, muito mais à interesses da classe dominante (banqueiros e grandes empresas) do que com a multidão de trabalhadores marginalizados. O que houve no Brasil, e em grande parte do mundo, foi a desarticulação da classe trabalhadora por meio do dinamismo do capital e da fragmentação da classe dominada por meio de intenso trabalho de alienação ideológica pela massificação da cultura e pela política do consumismo. Não devemos esquecer que o Estado nasceu em sua gênese para atender os interesses econômicos de uma classe e assim vem se portando ao longo da História, sendo a classe trabalhadora mera "massa de manobra".

Vários aspectos do marxismo são alvos de críticas. Diversos autores levantaram objeções ao pensamento político e filosófico de Karl Marx. Elas tem razão em algum aspecto?
Ao criticarmos Marx (e eu me incluo nesse time), devemos, sobretudo considerar que o seu objeto de pesquisa é a sociedade industrial burguesa do século 19. Em meu livro: A Eficiência do Estado no Mundo Globalizado, lançado recentemente pela Editora Lumen Juris, eu dialogo com autores marxistas, o que nos proporciona fazer uma abordagem crítica ao processo de evolução histórica do Estado ocidental, desde a modernidade, cotejando a ligação dos propósitos estatais aos interesses econômicos, sobretudo aos interesses de uma classe economicamente dominante: a burguesia. O problema é que, embora a teoria marxista tenha sido um divisor de águas na história da filosofia política proporcionando um novo olhar sobre a estrutura do Estado, é importante entender que tal teoria foi escrita no século XIX diante dos problemas postos àquela época. Marx construiu uma teoria de base até hoje utilizada e válida, mas, quando fazemos uma análise do Estado, temos que chamar a atenção para alguns conceitos, principalmente no que concerne à sociedade de classes na pós-modernidade, ou seja, o papel do Estado "burguês" na modernidade líquida com diversas identidades que se recriaram. Marx morreu em 1883, o primeiro volume de sua principal obra, "O Capital", completou 150 anos agora em 2017 e apesar de Marx não ter assistido a consolidação do capitalismo, a Revolução Russa, o crack da bolsa de Nova York, a Guerra Civil Espanhola, a ascensão dos Estados Totalitários (fascista e nazista), a crise do petróleo da década de 1970, o Consenso de Washington, o neoliberalismo e a Globalização, seu diagnóstico sobre o futuro da sociedade de: "produção-consumo", foi perfeito.

Estamos embriagados por senso comum, ou estamos caminhando para o bom senso?
Gosto de dizer que na nova classe dominante figuram os atores responsáveis pela reorganização geoeconômica global, como as corporações transnacionais que disputam o controle do espaço econômico no mundo e as poderosas instituições ligadas ao sistema financeiro mundial. Além da elite capitalista local, que partilham comumente de uma condição socioeconômica privilegiada e detém comum interesse nas relações do poder político e do controle social. Por outro lado, temos uma nova classe de dominados, desestruturada e fragmentada, escondidos na figura da "classe média". A dominação agora se retrata na exploração das nações ricas e do capital transnacional em detrimento das nações pobres do globo, gerando uma multidão de excluídos. Nesse contexto a alienação de classe continua e grande parte da sociedade continua presa na ideologia. Muitas vezes reproduzem os ideais da classe dominante porque sequer têm consciência que pertencem à uma classe. Essa ideia foi diluída na pós-modernidade com a "morte das ideologias" (o que costumo chamar de fim dos "ismos": socialismo, comunismo, anarquismo e etc.). Nesse sentido acredito que estamos longe de uma emancipação e de uma consciência de classe, mas cada vez mais alienados em um sistema de falseamento da realidade e das estruturas sociais em benefício de um novo capital, um capital "sem rosto", especulativo, flutuante e invisível.

Na sua opinião, porque tantas pessoas foram às ruas? Tanto a direita e a esquerda parecem descontentes com o país. O que os difere? Estamos vivendo uma anomia política e sociocultural?
Escrevi um artigo em 2013, no auge das manifestações sociais no Brasil, denominado Desobediência civil na sociedade brasileira: reflexões sobre participação politica e representatividade sob a luz do pensamento de Hannah Arendt, nele trabalhei a ideia de que o "Gigante Acordou" não passa de "ondas sociais", termo cunhado por Durkheim, visto que permaneço reticente a esta ideia. Ora, a ideologia é um processo no qual as ideias, os valores, da classe dominante se transformam em ideias e valores prevalecentes de todas as classes sociais. Por isso, uma sociedade controlada ideologicamente se assemelha a uma sociedade totalitária, o que não se ajusta com o sentido de democracia. Sendo plenamente possível concebermos, sob esse prisma, uma sociedade controlada/manipulada ideologicamente por meio da "grande mídia" com a manutenção velada do status quo de dominação e exploração e que se apresente como "social democracia", no sentido de liberdade de escolha e consenso social. Por isso, gosto muito da famosa citação do escritor inglês Aldous Huxley, extraída da obra Admirável Mundo Novo, de que: "A ditadura perfeita terá a aparência de democracia, uma prisão sem muros onde os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura, onde graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão". Essa idiota bipolarização da politica é algo incentivado pela "grande mídia", pois o povo dividido é mais fácil de ser dominado. É evidente que o "inimigo" é comum, mas não sabemos disso, justamente por estarmos presos (alienados) pela ideologia.

Em uma entrevista recente para esse blog, sobre as reformas propostas pelo Governo, Rodolfo Gatti, membro do Livres, disse que o seu ideal de previdência, educação e trabalho se resumiam no fim da Previdência, do MEC e da CLT. Está bom do jeito que está? E em meio a tantas reformas educacionais nesse momento do país, como a educação e os seus professores te levaram ao ponto que você está hoje?
Um ponto muito crítico e ao mesmo tempo crucial de emancipação social é a Educação. Nenhuma grande nação do mundo emancipou-se sem passar por um projeto sério de educação de seu povo. Não é preciso mencionar que um povo educado, cidadão, ciente de seus direitos e, sobretudo, seus deveres, é uma ameaça à ordem dominante vigente. Por isso vejo as discussões neste nível sempre de forma demagoga, pois resta evidente que a Educação é um bem restrito à poucos, à mesma elite dominante à séculos. Vez que um povo ignorante é mais fácil de ser dominado/controlado. A Industria Cultural tem feito seu papel de imbecilização das massas, filmes, musicas, programas, novelas, entretenimento em geral, cada vez de pior qualidade que impedem às pessoas, sobretudo os jovens, de refletir a real estrutura que o cerca: a eterna luta: capital x trabalho, o inequívoco: "motor da história". Mas me alegra saber que pessoas rompem essa cortina de alienação e quebram paradigmas. As ações afirmativas, nesse sentido, tem sido essencial. Gostaria de ter a "fórmula mágica da paz", mas não há outro caminho senão a libertação, a autonomia pessoal, o desenvolvimento e emancipação humana por meio da EDUCAÇÃO. A Constituição "cidadã", promulgada no bojo do Estado do Bem-Estar Social (que está sendo esfacelado para implementação da ideologia neoliberal) deu as chaves do castelo. Precisamos buscar essa consciência e lutar para que tais direitos sejam assegurados. Não há outro caminho!

Após as eleições municipais foram aparecendo possíveis nomes e forças políticas para a eleição de 2018. Se a eleição para presidente fosse hoje, em quem você votaria?
Estou observando a movimentação politica do pais e temo por esse cenário de "esvaziamento" político. O nazismo, o fascismo e outras forças autoritárias surgiram em ambientes semelhantes. Estou esperando a movimentação das forças de resistência à globalização hegemônica, estudando as propostas, mas ainda não tenho um nome, justamente por falta de um projeto politico bem definido pelos partidos que ai estão. Já me senti coercitivamente levado à pensar no Lula, mas minha consciência não permitiria diante de tantas denuncias irrefutáveis de indícios e materialidade de autoria em crimes contra o erário. Já flertei com Ciro Gomes, por acha-lo um nome mais preparado e com uma proposta mais coesa. Mas, sinceramente não tenho um nome. Temo pelos incautos que querem eleger um "salvador da pátria" em forma de "mito", ou tenhamos que ficar naquela situação de eleger o "menos pior". Isso é um péssimo cenário político.

Quais autores te influenciaram? Você tem alguma dica para leitura (literatura, política, economia, etc)?
Muitos autores me influenciaram, desde Karl Marx à Adam Smith, de Boaventura Sousa Santos à Fernando Henrique Cardoso. Mas alguns livros eu acho obrigatórios para o entendimento da formação do povo brasileiro: Casa Grande e Senzala (Gilberto Freyre), Raízes do Brasil (Sérgio Buarque de Holanda), Formação do Brasil Contemporâneo (Caio Prado Jr.), O Povo Brasileiro (Darcy Ribeiro). Além disso, impossível não citarmos: O Principe (Nicolau Maquiavel), Discurso Sobre a origem da Desigualdade entre os Homens (Jean-Jacques Rousseau), A Política (Aristóteles) e Modernidade Liquida (Zygmunt Bauman).

OUTRAS OBRAS DO AUTOR:
Curso Básico de Sociologia
Introdução a História da Filosofia 1
A Eficiência do Estado no Mundo Globalizado

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Rodolfo Gatti: "O meu ideal de previdência, educação e trabalho se resumem no fim de três coisinhas: Previdência, MEC e CLT"

Tirado da Sentimentaligrafia
Quem olha parece não acreditar no que vê: Rodolfo Gatti é músico e empreendedor e graduando em Ciências Econômicas e criador do Capitalista Morena. A página de humor e voltada para a direita tem feito sucesso e causado polêmicas. Membro do PSL e ligado a corrente do Livres - em suas palavras "que defende uma liberdade inteira".

Sou liberal, mas não tenho problema algum com conservadores e ancaps - diz um post em sua página, que resume seu pensamento, esclarecendo alguns pontos sobre ele mesmo e sobre o seu pensamento. Sobre a reformas ele diz:

O meu ideal de previdência, educação e trabalho se resumem no fim de três coisinhas: Previdência, MEC e CLT

De onde você tirou a ideia da página Capitalista Morena? É um dialogo com a Socialista Morena ou só uma piada que tomou proporções maiores?
A criação da Capitalista Morena aconteceu na minha transição do socialismo para o liberalismo, que também foi quando conheci a senhorita Socialista Morena. As coisas que ela postava não faziam sentido e me reviravam o estômago. A criação da Capitalista Morena veio, de início, para zombar da irmã socialista, uma ideia que deu super certo e que agora, apesar de ainda brincar com a irmã socialista, está tomando uma forma própria e próspera.

O que seria o politicamente correto e como ele é manifestado? Ele toma ares de opinião pública?
Eu vejo o politicamente correto como uma ameaça a liberdade. A expressão "politicamente correto" (PC) surgiu na década de 70 e significava ser "inclusivo", tem haver com não discriminar o próximo. Você vê isso e pensa "porra, que legal, inclusão e blá blá", mas o PC funciona como uma forma de acabar com a liberdade de expressão. Piadas com mulheres, portugueses, gordos, magros, brancos, negros, japoneses, gays passam a ser vistas como preconceito. Veja, eu sou um cara tranquilo, respeito todos e faço piada de tudo. Se alguém ouve ou vê e se sente ofendido o problema é da pessoa. Recentemente você até percebe que esse pensamento entra no âmbito político de "não pode falar mal de político", "não pode xingar" e etc. E no futebol então? Comerciais de TV? Claro, o comercial é privado, o publicitário sabe o que faz, a empresa sabe o que faz, mas assim como a Marvel vinha perdendo dinheiro com esse tipo de marketing, totalmente forçado, outras também perderam aqui no Brasil. Tem uma frase de um escritor chamado Salman Rushdie que gosto muito: O que é liberdade de expressão? Sem a liberdade de ofender não existe liberdade de expressão. E nessa linha de pensamento deixo claro que o politicamente correto enquanto não totalitário pode existir numa boa, enquanto não usarem dinheiro público para manifestarem ele, tranquilo, agora a partir do momento que pessoas passam a ser caladas e o dinheiro público começa a ser injetado em campanhas forçadas, ai não dá.

Na sua opinião, porque tantas pessoas foram as ruas? Tanto a direita e a esquerda parecem descontentes com o país. O que os difere?
As pessoas foram as ruas porque realmente estão insatisfeitas. Estão de saco cheio dos políticos, mas é aquilo, muitos parecem perdidos, pois não confiam nos políticos e querem o estado cada vez maior, não faz sentido! A diferença da esquerda e da direita nas ruas é clara: o fim. A esquerda não queria derrubar a Dilma, mas agora querem derrubar o Temer. A direita queria Dilma fora e já está saturada do Temer também, mas ainda assim, tira-lo agora, próximo das eleições não faz sentido, a não ser que cassem a chapa, aí é outra história. A direita vai as ruas por menos estado, a esquerda vai pras ruas pedindo mais intervenção estatal. A verdade é que sempre veremos a esquerda nas ruas contra reformas que podem melhorar o país.

Nova versão cinematográfica de 1984 de George Orwell
Você é membro do Livres - uma corrente liberal que está na renovação do PSL - poderia falar mais sobre ele (Livres) e dar mais detalhes sobre a iniciativa e se ela pretende abraçar - ou criar - um movimento estudantil igual ou similar aos apresentados pelos partidos identificados com a esquerda?
O Livres é o agente de mudanças no PSL. A mudança será tanta que o partido mudará de nome. O Livres, na minha visão, é o único partido que defende uma liberdade inteira. Me sinto representado ali, por isso faço parte. Claro, nunca concordaremos com tudo, por isso digo que uns 90% eu concordo com o Livres, mas isso faz parte, divergências são comuns até entre torcedores do mesmo time (risos). Sobre o movimento estudantil creio que o Livres abraçará isso sim. Não quero alongar a respeito por não ter detalhes.

Sobre as reformas propostas pelo Governo, no que você mudaria? Está bom do jeito que está? E em meio a tantas reformas educacionais nesse momento do país, como a educação e os seus professores te levaram ao ponto que você está hoje?
A reforma trabalhista, principalmente, tem pontos muito bons que darão mais liberdade, mas tem ponto que a tornarão mais paternalistas como o pagamento de despesas em home-office, que deveria ser combinado entre empregado e empregador, ao invés de obrigar o empregador a arcar com as despesas. Claro, temos que pensar na ótica da Janela de Overton: as reformas podem não ser a melhor coisa do mundo, mas se estiver caminhando para dar mais liberdade, isso é ótimo. O meu ideal de previdência, educação e trabalho se resumem no fim de três coisinhas: Previdência, MEC e CLT. Tive bons professores tanto na particular e na pública, mas não diria que sou quem sou graças a eles. Não quero desmerecer, mas para que eles me prepararam? Para ser um empregado, fazer greve e passar no vestibular? Empreendedorismo? Não. Mises? Não. Nem Adam Smith! Tem 2 anos que venho aprendendo sobre muitas coisas que paro, penso e logo chego a conclusão: porque raios não me ensinaram isso na escola?

Após as eleições municipais foram aparecendo possíveis nomes e forças políticas para a eleição de 2018. Se a eleição para presidente fosse hoje, em quem você votaria?
Se fosse hoje: Pensando num cenário entre Lula, Bolsonaro, Dória, Marina e Ciro Gomes, eu votaria no Dória. Apesar de saber que ele é contra o armamento, a favor de regulamentar a Uber e outros pontos negativos, ainda assim, acho melhor candidato que os outros e (por enquanto) com menos pontos negativos que os outros. Claro, só se fosse hoje, pois sei que surgirão novos nomes, ouço algumas coisas por aí (risos). Temos que pensar uma coisa, bem louca, que é bem possível de ser verdade: a estratégia das tesouras. Se realmente há uma manutenção entre PT e PSDB e Dória é uma das ferramentas para isso, eu votaria no Bolsonaro com o objetivo de quebrar esse estamento burocrático.

Quais autores te influenciaram e se você tem alguma dica para leitura (literatura, política, economia, etc)?
Autores que estão me influenciando através de vídeos e livros: Ayn Rand, Mises, Adam Smith e Hayek. Não sou nenhum expert ainda, mas desses quatro a Rand é a que mais estudo, principalmente o objetivismo que é uma linha que me identifico demais. Indico fortemente a primeira leitura que fiz quando comecei a me tornar um liberal: As seis lições de Ludwig von Mises que pode ser encontrada no formato e-book na biblioteca do Instituto Mises Brasil e 1984 do George Orwell que era de esquerda, mas escreveu sobre coisas que a esquerda mais sabe praticar: o autoritarismo. Deixo um aviso: esquerdistas, 1984 não é um manual!