sábado, 31 de outubro de 2026

DALAI LAMA & COMPUTAÇÃO QUÂNTICA feat Jorge Luis Borges - via Meteoro Brasil


Vídeo original aqui

O Conto e a Imensidão da Biblioteca de Babel

Está neste livro aqui, Ficções, aquele que pode ser o meu conto preferido: A Biblioteca de Babel. Essa história bem curtinha propõe um exercício de imaginação que é, ao mesmo tempo, simples e poderoso. Imagina uma biblioteca tão grande, mas tão grande, que é lícito cogitar a hipótese de que ela seja infinita. Parece simples de imaginar, só que o poder dessa ideia e das suas implicações é grande demais.

Para começar, que tipo de conteúdo você esperaria encontrar numa biblioteca assim tão grande? O conto de Jorge Luis Borges estabelece que boa parte dos livros parece não fazer sentido nenhum para o leitor. Grande parte dos textos contidos nessa biblioteca são indecifráveis, sequências aparentemente aleatórias de letras. Num determinado momento do conto, o narrador nos provoca ao escrever que em um livro constavam as letras M, C, V repetidas malevolamente da primeira linha até a última. Outro livro é um simples labirinto de letras, mas a penúltima página diz: "Ó tempo tuas pirâmides".

Essa biblioteca proposta por Jorge Luis Borges contém todos os livros possíveis, e livros são meras combinações de letras. Algumas combinações são isso mesmo: labirintos de letras. Só que outras pode resultar em obras importantes e revolucionárias, como Principia Mathematica, de Isaac Newton.

A Felicidade Extravagante e o Desespero Humano

No conto de Borges, a existência desta biblioteca gera, num primeiro momento, o que ele chama de "extravagante felicidade". A humanidade se sente abençoada porque sabe que, ali dentro, em alguma prateleira, em algum livro, existe a solução para qualquer problema que eventualmente tenha que enfrentar.

Porém, a extravagante felicidade vira uma depressão excessiva no momento em que os humanos percebem que achar o livro certo com a informação certa é quase impossível. Borges escreve que a certeza de que livros preciosos eram inacessíveis acabou se tornando intolerável para a maioria dos seres humanos.

Diferentes homens lidaram com essa depressão de diferentes formas. Alguns acharam que o melhor era destruir os livros que pareciam inúteis, eliminando aqueles labirintos de letras para facilitar o acesso aos livros que realmente importavam. Só que aí vem a questão: como é que alguém poderia saber se esses livros, depois de decifrados, não esconderiam também informações preciosas?

Computação Quântica e a Antecipação da Ciência

Essa aqui é uma conversa entre o Dalai Lama e o premiado físico Anton Zeilinger. Zeilinger está tentando explicar ao Dalai Lama os mistérios de uma coisa chamada computação quântica. Ele explica que o básico está na ideia de que um computador clássico — esses que a gente tem em casa — opera com uma memória feita de bits. Cada bit guarda um 1 ou um 0, um "sim" ou um "não". Das diferentes combinações possíveis entre esses uns e zeros sai tudo aquilo que um computador pode fazer.

Já um computador quântico usa um conjunto de qubits. Um qubit pode conter um 1, um 0 ou então uma sobreposição dessas duas coisas. O Dalai Lama quer saber o que isso significa na prática; ele quer saber o que um computador quântico seria capaz de fazer. Nesse momento, Zeilinger lembra justamente da Biblioteca de Babel: ele comenta que o conto do autor argentino Jorge Luis Borges descreve uma biblioteca infinita que contém todos os livros possíveis.

Ele explica ao Dalai Lama que procurar uma informação específica dentro de um volume infinito de dados é um desafio imenso. A biblioteca contém o Universo inteiro, mas também contém variações infinitas de conteúdos sem sentido. Achar o livro correto exige algoritmos e métodos de busca capazes de lidar com essa imensidão — exatamente o tipo de problema que a computação quântica busca resolver.

A intensa conversa que você acabou de ver foi gravada em 2007. Jorge Luis Borges escreveu A Biblioteca de Babel em 1944. Para alcançar a imaginação desse homem, a ciência levou mais de 60 anos.

A Sabedoria de Borges

Aqui, Jorge Luis Borges aparece em uma entrevista concedida em 1977. Há um trecho dessa conversa que pode nos levar de volta para a Biblioteca de Babel, muito embora, nessa ocasião, o conto nem tenha sido mencionado. Borges diz o que pensa sobre J. R. R. Tolkien, autor de O Senhor dos Anéis. A obra de Tolkien pode não contar com um especial apreço de Borges, mas ela sem dúvida é importante para a cultura. É difícil imaginar o mundo sem a obra de Tolkien.

E aqui está mais uma razão para rejeitar a atitude dos homens que entravam na Biblioteca de Babel e destruíam os livros que não compreendiam ou de que não gostavam: nem mesmo Borges, um dos maiores escritores de todos os tempos, estaria qualificado para a função de entrar na Biblioteca de Babel e decidir quais livros deveriam ficar e quais deveriam sair de lá. Nem mesmo Borges, tão iluminado e tão culto, seria um bom censor — até porque a função de censor nem deveria existir.

Versões Digitais

Isso que você está vendo é o Library of Babel (libraryofbabel.info), um site que tenta reproduzir a Biblioteca de Babel conforme foi imaginada por Jorge Luis Borges. Você pode navegar por esse site ou fazer buscas específicas. Navegando por ele, você terá uma experiência interessante... ou talvez não, depende da sorte. Às vezes a aleatoriedade faz sentido, mas normalmente não. Definitivamente não.

Já a Biblioteca de Babel 3D, feita na Unity, tenta reproduzir com polígonos a detalhada descrição da biblioteca com suas salas hexagonais que Borges nos oferece logo no início do conto. É curioso passear dentro dessa biblioteca porque, embora ela seja infinita (ou quase), ainda assim dá para se sentir preso dentro dela de algum jeito. Esse é um espaço imenso e infinitamente claustrofóbico. Não é uma experiência ruim, mas nem de longe é tão boa quanto o próprio conto — que você pode ler, mas só se quiser!

Pensando nisso agora: a gente podia fazer uma leitura de A Biblioteca de Babel no próximo podcast do Meteoro. Mas só se vocês quiserem também. Valeu!