domingo, 7 de junho de 2026

Uma Tradição Pagã no Interior do Ceará - Caretas - via O Sesyom


No mais profundo sertão brasileiro, uma figura misteriosa e barulhenta ganha as ruas durante a Semana Santa: os Caretas. Vestidos com trajes coloridos e máscaras assustadoras, eles mantêm viva uma tradição secular que mescla rituais pagãos ancestrais com a fé cristã. Essa manifestação me intriga desde que a conheci, por causa de sua energia e simbologia, ao mesmo tempo em que me encanta por sobreviver ao passar dos séculos. Pois, apesar de ser uma festa que hoje ocorre no mais isolado dos sertões com forte influência do cristianismo, ela remonta a antigos rituais pagãos que aconteciam há pelo menos 2000 anos.

No interior do Ceará, especialmente em regiões entre os Cariris e os Inhamuns, a brincadeira dos Caretas é parte inseparável da Semana Santa. Mas, antes de entrarmos nos contextos históricos e entendermos como essa festa chegou ao Brasil, acho que vale explicar primeiro como tudo funciona.

Basicamente, um Careta é algo parecido com isso aí que vocês estão vendo — e já já falamos mais sobre a indumentária. Vale ressaltar que existem diversos tipos de Caretas no Ceará, no Nordeste e no Brasil como um todo. A coisa varia bastante de lugar para lugar. E nem precisa mudar de estado — às vezes, de uma vila para outra, a brincadeira já muda completamente, alterando o sentido, a forma de brincar e o jeito de se vestir. Então, já comenta aí se você conhece alguma outra versão diferente da que vamos falar aqui.

Os Caretas que eu escolhi trazer neste vídeo são esses com roupas de retalhos e máscaras de couro. Porque, além de serem os que eu tive mais contato, acredito que são os mais próximos das origens da tradição — algo mais bárbaro, rural e visceral. Máscaras de borracha com personagens da cultura pop me parecem distantes da essência original da festa, da ideia que ela carrega e do seu espírito folclórico e rural.

Mas vamos lá.

A coisa toda começa na Segunda-feira Santa. A turma de Caretas se reúne e sai pelas cidades, vilas e sítios pedindo esmola — literalmente. Essas esmolas podem ser legumes, animais ou dinheiro. Tudo o que for arrecadado será usado no "circo", que acontece no Sábado de Aleluia.

Durante a semana, os Caretas continuam a jornada. Em alguns lugares, eles param na sexta-feira para preparar os detalhes da festa: o circo e o boneco do Judas. Mas, enquanto estão rodando, a farra corre solta: dançam forró, tocam, cantam, comem e bebem... enfim, é uma celebração. Afinal de contas, é época de colheita. Se a festa está acontecendo, é sinal de que a terra deu com fartura e os agricultores estão dispostos a doar para o evento acontecer.

E assim se segue a semana, com os Caretas guiados pelo som dos chocalhos, dos chicotes, do zabumba e do búzio. Até que chega o Sábado de Aleluia — o ápice da brincadeira. Nesse dia, é montado um "circo", uma espécie de arena cercada por cordas e madeira. Dentro, tudo é enfeitado com o que estiver disponível, como pés de milho, e as esmolas recolhidas ao longo da semana são colocadas ali — para serem roubadas por quem tiver coragem.

Sim, é isso mesmo. Quem quiser entrar e pegar o que conseguir, pode ficar com o que levar. Mas tem um detalhe: os Caretas estão dentro do circo e, a partir do momento em que você entra até o momento em que sai, o chicote estrala. E olha... tem louco que entra nisso sem camisa. Muita cachaça na mente.

Ah, e claro, o mais importante: no centro do circo há um pau fincado no chão, onde colocam o boneco do Judas, cheio de dinheiro dentro. Ele representa literalmente Judas e as moedas que recebeu por trair Cristo. Quem conseguir subir no pau e pegar o dinheiro, fica com a bufunfa.

E bem, como bom curioso que sou, desde a época em que morei lá até hoje, vendo os vídeos postados por amigos, eu fico me perguntando de onde vem tudo isso. Como começou? Porque, apesar dos traços cristãos, a influência pagã da festa é escancarada — e isso em um lugar onde muita gente nem sabe o que é paganismo. Então fui atrás, pesquisei um pouco, e é isso que vamos explorar a partir de agora.

A origem exata dos Caretas cearenses se perde no tempo, mas provavelmente suas raízes mergulham em rituais pagãos agrários trazidos pelos colonizadores ibéricos. As mascaradas populares na Península Ibérica – de onde derivam os nossos Caretas – são festas de fundo agrário e de origem arcaica, dedicadas ao culto ao Sol e à Natureza. Em sua essência, tais rituais celebravam o fim de um ciclo e o começo de outro: eram festejos de fertilidade, de renovação do mundo e da colheita, marcados pela comunhão entre o sagrado e o profano, pelo riso e pela transgressão.

Durante essas celebrações, acreditava-se que as fronteiras entre o divino e o terreno se dissolviam, permitindo à comunidade extravasar suas tensões. Era o momento de bagunçar mesmo, para só depois restaurar a ordem. Não por acaso, muitos mascarados expunham em praça pública os “pecados” da aldeia de forma satírica, numa catarse coletiva que visava banir esses erros e prevenir sua repetição.

Essa natureza subversiva e pouco ortodoxa das mascaradas fez com que a Igreja Católica, ao longo dos séculos, as visse com maus olhos. Documentos históricos mostram que, já no século IV d.C., autoridades religiosas condenavam as danças de mascarados, e na Idade Média elas chegaram a ser proibidas em alguns mosteiros. Durante a Inquisição, alguns participantes até foram perseguidos e punidos, tamanha a suspeita de heresia associada a essas festas de origem pagã.

No entanto, as tradições eram resilientes. De origem imemorial, atravessaram impérios e eras – sobrevivendo à romanização, à cristianização medieval e à modernidade. Incapaz de eliminar esses “cultos pagãos” profundamente enraizados no povo, a Igreja adotou a estratégia de demonizar para, depois, assimilar.

Primeiro, tolerou a presença dos mascarados nas festas cristãs, porém pintando-os como “espíritos malignos”. Depois, procurou enquadrá-los dentro de confrarias e tradições locais já cristianizadas, limitando seus “exageros pagãos” e dando-lhes novos significados ligados ao calendário religioso. Em outras palavras, ao invés de proibir totalmente, a Igreja introduziu essas manifestações na própria liturgia da Semana Santa, transformando os antigos rituais de expulsão do mal na queima e no castigo do traidor Judas.