Os Enderbys estavam em seu "quarto de música" — era como o chamavam, embora fosse apenas o quarto sobressalente. Antigamente, pensaram que seria o berçário do pequeno James ou da pequena Jill Enderby, mas após dez anos de tentativas, parecia cada vez mais improbável que um "Bebê Querido" surgisse do Nada para o Aqui. Eles haviam feito as pazes com a falta de filhos. Pelo menos tinham trabalho, o que era uma bênção em um ano em que homens ainda faziam fila para ganhar pão. Havia períodos de escassez, era verdade, mas quando o trabalho aparecia, podiam se dar ao luxo de não pensar em mais nada, e ambos gostavam que fosse assim.
O Sr. Enderby estava lendo o The New York Journal-American, um novo diário que não tinha nem meio ano de publicação. Era um tipo de tabloide, mas nem tanto. Ele costumava começar pelos quadrinhos, mas quando estavam "no trabalho", voltava-se primeiro para as notícias da cidade, percorrendo as histórias rapidamente, especialmente o boletim policial. A Sra. Enderby sentava-se ao piano, que fora um presente de casamento de seus pais. Ocasionalmente, ela acariciava uma tecla, mas não a pressionava. Esta noite, a única música no quarto de música era a sinfonia do tráfego noturno na Terceira Avenida, que entrava pela janela aberta. Terceira Avenida, terceiro andar. Um bom apartamento em um prédio de arenito resistente.
Eles raramente ouviam seus vizinhos de cima ou de baixo, e os vizinhos raramente os ouviam. O que era muito bom. Do armário atrás deles veio um único baque. Depois outro. A Sra. Enderby estendeu as mãos como se fosse tocar, mas quando os baques pararam, ela as colocou de volta no colo.
"Ainda nenhum pio sobre o nosso amigo George Timmons", disse o Sr. Enderby, balançando o jornal.
"Talvez você deva verificar o Albany Herald", disse ela. "Acredito que a banca na Lexington com a 60ª o venda".
"Não é necessário", disse ele, voltando-se finalmente para as tirinhas. "O Journal-American é bom o suficiente para mim. Se o Sr. Timmons foi dado como desaparecido em Albany, que os interessados o procurem por lá".
"Tudo bem, querido", disse a Sra. Enderby. "Eu confio em você." Na verdade, não havia motivo para não confiar; até o momento, o trabalho tinha corrido perfeitamente. O Sr. Timmons era o sexto convidado deles no armário especialmente reforçado.
O Sr. Enderby soltou uma risadinha. "Os Katzenjammer Kids aprontaram de novo. Desta vez pegaram o Capitão pescando ilegalmente — disparando uma rede de um canhão, na verdade. É muito divertido. Quer que eu leia para você?".
Antes que a Sra. Enderby pudesse responder, outro baque veio do armário, e sons fracos que poderiam ter sido gritos. Era difícil dizer, a menos que se encostasse o ouvido diretamente na madeira, e ela não tinha intenção de fazer isso. O banco do piano era o mais perto que pretendia chegar do Sr. Timmons, até que chegasse a hora de se livrar dele. "Eu gostaria que ele parasse".
"Ele vai, querida. Logo, logo".
Outro baque, como que para refutar isso.
"Foi o que você disse ontem".
"Parece que fui prematuro", disse o Sr. Enderby, e então: "Puxa vida — Dick Tracy está mais uma vez à caça do Cara-de-Passa (Pruneface)".
"O Cara-de-Passa me dá arrepios", disse ela, sem se virar. "Gostaria que o Detetive Tracy o prendesse de vez".
"Isso nunca vai acontecer, querida. As pessoas dizem torcer pelo herói, mas são dos vilões que elas se lembram".
A Sra. Enderby não respondeu. Estava esperando pelo próximo baque. Quando viesse — se viesse — ela esperaria pelo seguinte. A espera era a pior parte. O pobre homem estava com fome e sede, é claro; eles haviam parado de alimentá-lo e dar água há três dias, depois que ele assinou o último cheque, aquele que esvaziou sua conta. Eles haviam esvaziado a carteira dele de imediato, quase duzentos dólares. Em uma depressão tão profunda quanto esta, duzentos era um prêmio acumulado, e o relógio dele poderia render outros vinte aos ganhos deles (embora, ela admitisse para si mesma, isso pudesse ser um pouco otimista).
A conta corrente do Sr. Timmons no Albany National tinha sido a verdadeira mina de ouro: oitocentos dólares. Uma vez que ele sentiu fome suficiente, ficou feliz em assinar vários cheques nominais ao portador com a anotação "Despesas de Negócios" escrita no local apropriado de cada um.
Em algum lugar, uma esposa e criancinhas poderiam estar dependendo daquele dinheiro quando o pai não voltasse de sua viagem a Nova York, mas a Sra. Enderby não se permitia pensar nisso. Ela preferia imaginar a Sra. Timmons tendo pais ricos no Distrito das Mansões de Albany, um casal generoso saído de um romance de Dickens. Eles a acolheriam e cuidariam dela e de seus filhos, garotinhos que poderiam ser travessos adoráveis como Hans e Fritz, os Katzenjammer Kids.
"O Sluggo quebrou a janela de um vizinho e está culpando a Nancy", disse o Sr. Enderby com uma risadinha. "Eu juro, ele faz os Katzenjammers parecerem anjos!".
"Aquele chapéu horrível que ele usa!", disse a Sra. Enderby. Outro baque do armário, e um bem forte vindo de um homem que deveria estar à beira da inanição. Mas o Sr. Timmons era um homem grande. Mesmo após uma dose generosa de hidrato de cloral em seu copo de vinho no jantar, ele quase dominara o Sr. Enderby. A Sra. Enderby teve que ajudar. Ela sentou-se no peito do Sr. Timmons até que ele se acalmasse. Nada feminino, mas necessário. Naquela noite, a janela para a Terceira Avenida fora fechada, como sempre era quando o Sr. Enderby trazia um convidado para o jantar. Ele os conhecia em bares. Muito sociável, era o Sr. Enderby, e muito bom em identificar empresários que estavam sozinhos na cidade — sujeitos que também eram sociáveis e gostavam de fazer novos amigos. Especialmente novos amigos que pudessem se tornar novos clientes de um negócio ou outro. O Sr. Enderby os julgava por seus ternos e sempre estava atento a uma corrente de relógio de ouro.
"Más notícias", disse o Sr. Enderby, com uma ruga de preocupação na testa.
Ela retesou-se no banco do piano e virou-se para encará-lo. "O que foi?".
"Ming, o Impiedoso, aprisionou Flash Gordon e Dale Arden nas minas de rádio de Mongo. Existem essas criaturas que parecem jacarés...".
Agora veio do armário um grito fraco e lamentoso. Dentro de seus confins à prova de som, deve ter sido um berro alto o suficiente para romper as cordas vocais do pobre homem. Como o Sr. Timmons ainda podia ter força para dar tal uivo? Ele já havia durado um dia a mais do que qualquer um dos cinco anteriores, e sua vitalidade de certa forma macabra começara a afetar os nervos dela. Ela esperava que esta noite trouxesse o fim dele.
O tapete no qual ele seria enrolado estava esperando no quarto deles, e o furgão com "ENDERBY ENTERPRISES" pintado na lateral estava estacionado na esquina, abastecido e pronto para outra viagem aos Pine Barrens de Nova Jersey. Quando se casaram, realmente existia uma Enderby Enterprises. A depressão — o que o Journal-American passara a chamar de Grande Depressão — acabara com isso dois anos atrás. Agora eles tinham esse novo trabalho.
"Dale está com medo", continuou o Sr. Enderby, "e Flash está tentando animá-la. Ele diz que o Dr. Zarkov vai...".
Agora veio uma fuzilaria de baques: dez, talvez uma dúzia, acompanhados de mais daqueles gritos, abafados, mas ainda assim arrepiantes. Ela podia imaginar o sangue brotando nos lábios do Sr. Timmons e pingando de seus nós dos dedos rachados. Podia imaginar como o pescoço dele teria ficado magro e como seu rosto anteriormente rechonchudo teria se alongado conforme seu corpo consumia a gordura e a musculatura para permanecer vivo.
Mas não. Um corpo não poderia canibalizar a si mesmo para permanecer vivo, poderia? A ideia era tão anticientífica quanto a frenologia. E como ele deve estar com sede agora!.
"É tão irritante!", ela explodiu. "Eu odeio que ele continue sem parar! Por que você teve que trazer para casa um homem tão forte, querido?".
"Porque ele também era um homem rico", disse o Sr. Enderby calmamente. "Pude ver isso quando ele abriu a carteira para pagar nossa segunda rodada de bebidas. O que ele contribuiu nos manterá por três meses. Cinco, se economizarmos".
Baque, baque e baque. A Sra. Enderby colocou os dedos nas têmporas e começou a esfregar.
O Sr. Enderby olhou para ela com simpatia. "Eu posso dar um fim nisso, se você quiser. Ele não será capaz de lutar muito no estado atual; certamente não depois de ter gasto tanta energia. Um corte rápido com sua faca de açougueiro mais afiada. É claro que, se eu fizer o serviço, você terá que fazer a limpeza. É justo".
A Sra. Enderby olhou para ele, chocada. "Podemos ser ladrões, mas não somos assassinos".
"Não é o que as pessoas diriam se fôssemos pegos." Ele falou de forma apologética, mas firme, apesar de tudo.
Ela apertou as mãos no colo de seu vestido vermelho com força suficiente para branquear os nós dos dedos e olhou diretamente nos olhos dele. "Se fôssemos chamados ao banco dos réus, eu manteria minha cabeça erguida e diria ao juiz e ao júri que fomos vítimas das circunstâncias".
"E tenho certeza de que você seria muito convincente, querida".
Outro baque vindo de trás da porta do armário, e outro grito. Macabro. Essa era a palavra para a vitalidade dele, a palavra exata. Macabro.
"Mas não somos assassinos. Nossos convidados simplesmente carecem de sustento, como tantos nestes tempos terríveis. Nós não os matamos; eles simplesmente definham".
Outro grito veio do homem que o Sr. Enderby trouxera do McSorley's há mais de uma semana. Poderiam ter sido palavras. Poderia ter sido pelo amor de Deus.
"Não vai demorar agora", disse o Sr. Enderby. "Se não for hoje à noite, será amanhã. E não teremos que voltar ao trabalho por um bom tempo. E, no entanto...".
Ela olhou para ele daquela mesma forma firme, mãos entrelaçadas. "E, no entanto?".
"Parte de você gosta disso, eu acho. Não desta parte, mas do momento real em que os pegamos, como um caçador abate um animal na floresta".
Ela considerou isso. "Talvez eu goste. E certamente gosto de ver o que eles têm nas carteiras. Isso me lembra das caças ao tesouro que papai costumava fazer para mi e meu irmão quando éramos crianças. Mas depois..." Ela suspirou. "Eu nunca fui boa em esperar".
Mais baques. O Sr. Enderby voltou-se para a seção de negócios. "Ele veio de Albany, e as pessoas que vêm de lá recebem o que merecem. Toque algo, querida. Isso vai te animar".
Então ela pegou suas partituras no banco do piano e tocou "I'll Never Be the Same". Depois tocou "I'm in a Dancing Mood" e "The Way You Look Tonight". O Sr. Enderby aplaudiu e pediu um bis desta última, e quando as notas finais morreram, os baques e gritos vindos do armário à prova de som e especialmente reforçado haviam cessado.
"Música!", proclamou o Sr. Enderby. "Ela tem o poder de acalmar a fera selvagem!".
Isso os fez rir juntos, confortavelmente, da maneira que as pessoas fazem quando estão casadas há muitos anos e passaram a conhecer a mente um do outro.
