Se tem algo que devemos valorizar são as boas coisas, sejam análises, sejam narrativas. Uma afirmação muito precisa e sagaz de H.P. Lovecraft no seu Supernatural Horror in Literature (1927) foi sobre o autor M.R. James: "In inventing a new type of ghost, he has departed considerably from the conventional Gothic tradition; for where the older stock ghosts were pale and stately, and apprehended chiefly through the sense of sight, the average James ghost is lean, dwarfish, and hairy — a sluggish, hellish night-abomination midway betwixt beast and man — and usually touched before it is seen."
Um dos maiores nomes de horror e erudito medievalista, Montague Rhodes James (M.R. James) faria 160 anos em 2022 se estivesse vivo. Historiadores medievais conhecem James principalmente como o compilador de muitos catálogos de manuscritos de Cambridge e como o tradutor dos apócrifos do Novo Testamento, mas ele também foi o autor de várias coleções de histórias de fantasmas, com Ghost Stories of an Antiquary (1904), More Ghost Stories of an Antiquary (1911), A Thin Ghost and Others (1919) e A Warning to the Curious and Other Ghost Stories (1925).
Não é segredo que o interesse de James por histórias de fantasmas foi uma extensão direta de suas pesquisas acadêmicas. Crítico da literatura, não gostava do trabalho de James Joyce, Lytton Strachey e Aldous Huxley, sendo também antipático em relação ao comunismo. Especialista em história medieval e reitor do King's College e do Eton College, era filho de um pastor anglicano e dês de criança se sentia atraído por bibliotecas e igrejas descuidadas. Durante a juventude estudou em Cambridge e seus méritos acadêmicos o levaram para outros países: Chipre, Dinamarca, Alemanha, Áustria e Suécia. Ao lado de Vernon Lee (o apelido de Violet Paget) e Arthur Machen, produziu seus melhores trabalhos no final da Era Vitoriana. Hauntings de Vernon Lee, coletânea destacada por seu perturbador "Amour Dure" (presente na coletânea de Contos fantásticos do século XIX escolhidos por Italo Calvino), surgiu em 1890. As principais obras de Machen, como The Great God Pan (1894), foram produtos boêmios das décadas de 1870 e 1880 de Londres. Ghost Stories of an Antiquary de M.R. James, mesmo publicado em 1904, era a reunião de narrativas lidas em Cambridge durante a época do Natal ao longo da década anterior.
Seu estilo narrativo permanece eficaz por duas razões: sua habilidade soberba em criar tramas bem elaboradas e o explorar dos nossos medos primitivos. São dispositivos simples, sem dúvida, mas são usados de forma bastante eficaz, não só atraindo os leitores, mas fazendo com que os eventos fantásticos pareçam mais críveis. É algo de se observar o regionalismo do autor, uma vez que seus contos são ambientados em locais que James morou ou visitou: em Oh, Whistle, and I'll Come to You, My Lad (1904) e A Warning to the Curious (1925), o autor tinha Felixstowe em mente; em Canon Alberic’s Scrap-book (1904) o pequeno vilarejo no sul da França de Saint-Bertrand-de-Comminges foi visitado por ele. Os casarões do tempo da rainha Anne aparecem em Lost Hearts (1904), The Ash-Tree (1904) e Mr Humphreys and His Inheritance (1911). Viborg, na Dinamarca, é o cenário de Number 13 (1904) e Vestergothland, na Suécia, é o palco de Count Magnus (1904). Há o suficiente em sua obra cor local para deixar seus leitores de cabelos em pé e arrepiados.
Sua habilidade chamou tanto a atenção que, no prefácio de More Ghost Stories of an Antiquary (1911), sua segunda coletânea de contos, ele expôs suas principais ideias de como conceber a história. Segundo James, a narrativa ideal para fantasmas deve sempre incluir o personagem principal da trama ser um estudioso de uma grande metrópole que se depara em uma cidade antiga ou do interior com um objeto amaldiçoado que inicia a perseguição da assombração (esse método de narrativa leva seu nome, "Jamesian", com textos sendo conhecidos como clássicos jamesianos). Em sua estrutura básica, o autor deve nos apresentar um local verossímil, um fantasma estritamente maléfico e a prevalência do mistério. Apesar de usar elementos tidos como essencialmente góticos, como fantasmas, castelos e catedrais, o uso que o autor faz deles é sumariamente diferente.