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quarta-feira, 24 de março de 2021

Dossiê Macabro: TÁXI - Editora Diário Macabro


Os pontos brilhantes no campo de visão de Rafael agora se dissipavam como vaga-lumes em fuga na mata – finalmente abriu os olhos, após um longo e doloroso apertar dos mesmos –, mas o sono persistia, por mais que os esfregasse, cantarolasse ou assistisse à TV para passageiros em seu táxi. Olhou para o relógio no painel: nem 11 da noite ainda! Verbalizou um palavrão e deixou a cabeça cair para trás, apoiando-a no encosto do banco, forçando-se a permanecer alerta. Precisava do dinheiro, precisava mesmo, mas achou que nada valeira uma noite mal dormida – e nada seria mais caro que sofrer um acidente, machucando-se com gravidade. O caminho entre o Aeroporto do Galeão, onde, no momento, encontrava-se parado, em uma das vagas destinadas aos táxis, e a sua casa em Campo Grande era longo e arriscado – poderia dormir ao volante, e aquilo seria ruim. — Davi Busquet, Vetor
Perturbador. Não tem outra palavra para definir essa antologia.

Com os autores que conversei, antes e depois de ler o livro, confessei que, durante a leitura (e até mesmo na abertura do edital) pensei que a antologia ia pelo caminho trilhado pelo folclorista Walcyr Monteiro, famoso por seu livro Visagens e Assombrações de Belém, que contem a lenda urbana da "Moça do Taxi". Essa história que virou episódio de programa de televisão infantil e atrai turistas para a cidade de Belém mostra como a força desses causos podem impactar a imaginação dos telespectadores, moradores e viajantes, e no caso desse livro da Editora Diário Macabro, leitores.

Organizada e prefaciada por Júlia do Passo Ramalho e Fábio Aresi, a obra trás dezenove viagens totalmente malucas a bordo do clássico e icônico veículo amarelo. Junto dos organizadores formam a escrete Guilherme Schrago, Johnatan Gomes, Bruno Sorc, Igor Cabrardo, Úrsula Antunes, Roberto Schima, Davi Busquet, Gabriela Leão, Thiago Oliveira Lima Matiolli, Paulo H. P. Lima, Marcos Tadeu Mageste, Alvaro Caxone, Heclair Pimentel Filho, Mario Sergio Ribeiro, Daniel L. Costa, R. A. Tsuchiya e Alysson Steimacher.

Uma das narrativas presentes no livro é Vetor de Davi Busquet (que me enviou o livro). Sua narrativa conta a história de Rafael, o motorista que faz uma corrida indesejada e pega um cliente peculiar, alguém que conseguia descrever o pecado de cada pessoa que, de alguma forma, cruzava seu caminho. A cada página, a cada parágrafo, nós nos encontramos em uma área nebulosa, de pessoas cinzentas, com virtudes e pecados que remete ao leitor mais atencioso, ao livro Podres de Mimados e A Faca Entrou de Theodore Dalrymple.

Contrariando a aparente normalidade do ato de pegar a condução por um completo estranho, temos aqui histórias reunidas de taxistas sanguinários, passageiros perigosos, carros assustadores, corridas de outro mundo que são abarcadas pela perturbação. A leitura pode deixar desconfortável o leitor mais sensível e que não tem costume de consumir livros com cenas de violência.

Para saber mais sobre o livro, clique aqui.

sábado, 22 de agosto de 2020

Neuroses de Lovecraft impulsionaram horror inovador de sua ficção - via Folha de São Paulo

Pouco valorizado em vida, mestre do terror tem sua obra celebrada nos 130 anos de seu nascimento


Marcelo Miranda
Jornalista, pesquisador, curador e crítico de cinema. Produz e apresenta o Saco de Ossos, podcast de entrevistas com criadores e estudiosos de ficção de horror no Brasil

[resumo] Nos 130 anos de seu nascimento, o escritor H.P. Lovecraft tem explosão de lançamentos no Brasil, incluindo ensaio do francês Michel Houellebecq sobre seu trabalho, e é inspiração para as mais variadas obras de arte. Pouco celebrado em vida, tornou-se um nome central da literatura de horror ao fazer de suas neuroses o impulso de uma obra inovadora e pessimista, na qual o ser humano é insignificante diante da natureza.

Dificilmente Howard Phillips Lovecraft acreditaria que o palavreado impronunciável de nomes criados por ele —como Cthulhu, Azathoth, Shoggoth, Shub-Niggurath e Yog-Sothoth— se tornaria cultuado em todo o mundo e fonte de inspiração para variadas manifestações artísticas.

Morto em 1937, aos 46 anos, Lovecraft teve pouco reconhecimento em vida. Quase um século depois —nos 130 anos de seu nascimento, completados na última quinta-feira (20)—, é um dos autores mais estudados e referenciados da literatura norte-americana. Não só pelas obras que escreveu (cerca de 70 ficções, entre contos e novelas), mas também por sua presença constante como fonte basilar em filmes, videogames, quadrinhos, RPGs, livros e um conjunto inesgotável de derivações.

A mais recente é a nova série da HBO “Lovecraft Country”, adaptação do romance de Matt Ruff que se utiliza do imaginário de Lovecraft para falar da segregação racial nos EUA dos anos 1950. Escritores como Neil Gaiman, Stephen King e Joyce Carol Oates ou cineastas como Guillermo del Toro e John Carpenter constantemente assumem inspiração em Lovecraft.

Montagem com o escritor H.P. Lovecraft cercado por tentáculos, referência central em sua obra

Tendo entrado em domínio público em janeiro de 2008, a obra do escritor nascido em Providence (Rhode Island) ganha atenção crescente de editoras, produtoras e artistas interessados em se enveredar pelos tentáculos de um criador que inventou muitos dos conceitos consagrados de horror e ficção científica.

Ao menos sete casas editoriais brasileiras, entre grupos expressivos e outros nem tanto, estão com livros de Lovecraft circulando, para além da quantidade incalculável de trabalhos realizados a partir do imaginário do autor.

A pioneira a explorar com atenção e cuidado a obra do escritor por aqui foi a Hedra, em um projeto capitaneado pelo editor Bruno Costa a partir de 2009. Com tradução do pesquisador Guilherme da Silva Braga, as edições da Hedra apresentaram os contos do norte-americano a toda uma nova geração de leitores.

“Elas foram as primeiras, no Brasil, a trabalhar não apenas com tradução de alto nível, mas também com critérios editoriais claros e aparato crítico do qual éramos tão carentes: introduções, notas, cartas, esboços e artes de capa exclusivas, criadas por Tulio Caetano”, destaca Costa.

Histórias como “Um Sussurro nas Trevas” (1930), “Nas Montanhas da Loucura” (1931), “A Sombra de Innsmouth” (1931), “A Cor que Caiu do Espaço” (1927) e o incontornável “O Chamado de Cthulhu” (1926), entre várias outras, conquistaram centenas de leitores e chamaram a atenção para o potencial de Lovecraft.

Reprodução/HBO

Em 2017, pela editora Ex Machina, o mesmo Bruno Costa promoveu um financiamento coletivo para a edição de “Contos Reunidos do Mestre do Horror Cósmico”, mais portentosa edição dedicada ao escritor no Brasil. São 612 páginas contendo 61 contos (tradução de Francisco Innocêncio), além de apêndice com artigos, ensaios, iconografia, bibliografia, filmografia e um “bestiário” sobre as principais entidades lovecraftianas.

Uma segunda edição, revista e ampliada, está com nova campanha aberta no Catarse, em uma parceria da Ex Machina com a editora Clepsidra, que relançará também o ensaio “Mitologia Lovecraftiana: A Totalidade pelo Horror”, de Caio Bezarias.

Outras editoras embarcaram no apelo de Lovecraft, como a DarkSide, que o inseriu no selo Medo Clássico e lançou, no final de 2017, uma antologia com duas capas à escolha do leitor, com tradução de Ramon Mapa.

Em 2019, dois lançamentos de peso se somaram no mesmo mês de novembro: o box em dois volumes “Os Mitos de Cthulhu” (Nova Fronteira, tradução de Alexandre Barbosa de Souza, Regiane Winarsrki e Alexandre Gambarotto) e o primeiro volume da “Biblioteca H.P. Lovecraft” (Companhia das Letras, tradução de Guilherme da Silva Braga), a ser composta, no futuro, por outros três livros.

O escritor Oscar Nestarez, pesquisador de Lovecraft, exalta a efervescência de títulos disponíveis de um ficcionista tão fundador, mas aponta cautela. “A redundância pode levar à saturação, já que vários lançamentos trazem os mesmos textos ou edições precipitadas, sem contextualização adequada. Para quem não conhece a obra de Lovecraft, contexto é indispensável.”

Bruno Costa também detecta um círculo vicioso de publicações e defende que outros materiais sejam disponibilizados ao leitor brasileiro. “As editoras poderiam explorar as cartas, os ensaios e a poesia do Lovecraft, mas preferem ad infinitum a mesma fórmula ou seleção de contos em traduções e edições muitas vezes bastante discutíveis. Publicar uma dezena de histórias com capinha bonitinha é fácil, duro é ter coerência editorial.”

Cena do filme "A Cor que Caiu do Espaço" (2019), inspirado na obra de H. P. Lovecraft - Divulgação

Em boas ou más edições, Lovecraft é cada vez mais inevitável. O fascínio por sua literatura, os enigmas em torno de sua mitologia e as controversas questões de sua vida pessoal são praxe em círculos não só de leitores, mas de uma gama imensa de admiradores de outras mídias.

“Ele criou um universo habitado por monstros e horrores que mexem com a imaginação. Essa obra deixou de pertencer ao nicho da literatura de horror e de ficção científica para adentrar, de forma definitiva, na cultura pop”, aponta Guilherme Braga.

Para a pesquisadora Nathalia Sorgon Scotuzzi, autora de “Relances Vertiginosos do Desconhecido: A Desolação da Ciência em H.P. Lovecraft” (ed. Diário Macabro), um elemento intrigante é a ambientação das narrativas em um mundo em tudo como o nosso, acrescido de criaturas ancestrais e da detalhada mitologia de acontecimentos do passado, que fazem do ser humano mero detalhe insignificante.

“Sua proposta era criar uma realidade que preenchesse lacunas na nossa própria, oferecendo possibilidades monstruosas nas camadas desconhecidas da natureza”, diz Scotuzzi.

“Ao entrar em contato com isso, a humanidade estaria perdida, mas a natureza ainda seria a mesma. Somado a tudo está o conceito de que Cthulhu, Azathoth, Yog-Sothoth ou qualquer outra entidade criada pelo autor não são deuses e sim seres poderosos que desconhecem ou pouco se importam com nossa existência.”

Esse é, afinal, o conceito de horror cósmico, vertente ficcional notabilizada por Lovecraft. Apesar de admirador do gótico e sobrenatural Edgar Allan Poe (1809-1849), ele expandiu suas próprias referências, que passavam também por Algernon Blackwood (1869-1951) e Ambrose Bierce (1842-1914), para arquitetar cuidadosamente um mundo singular.

“O embasamento filosófico do horror cósmico está ligado ao conceito de sublime que encontramos no filósofo irlandês Edmund Burke e segue muito alinhado a pensamentos e fatos científicos atuais”, diz Oscar Nestarez. “Todos os contos de Lovecraft nos lembram do quão impotentes e insignificantes somos diante da natureza —e, em última instância, diante do universo.”

Neste ano, quando o mundo enfrenta o surto de coronavírus, Lovecraft soa bastante atual. Cthulhu, afinal, é o “alto sacerdote” que um dia caminhou pela Terra, foi banido para “a grandiosa cidade submersa de R’lyeh” e estaria às vésperas de caminhar novamente para “impor seu jugo” por meio de destruição, morte e desolação. Em suma: é um apocalipse abafado por milênios, no aguardo de ascender “quando as estrelas estivessem alinhadas”.

A descrição de Lovecraft para horrores além da compreensão humana e da capacidade de qualquer enfrentamento —elementos magistralmente trabalhados na mais recente adaptação do autor para os cinemas, “A Cor que Caiu do Espaço”, de Richard Stanley, disponível no Telecine Play— está intimamente relacionada ao seu modo de viver e pensar.

Filho de um comerciante com a filha de um aristocrata descendente dos primeiros colonizadores dos EUA, Lovecraft cresceu abastado e isolado em meio a crises mentais dos pais. Adulto, defendia a tradição e a cultura anglo-saxã contra a modernidade e a intersecção entre povos.

Carrie (1976) de Brian de Palma, inspirado no livro de Stephen King. Ilustração de Leander Moura

Lovecraft tinha pensamentos racistas, xenófobos e eugenistas, expostos em várias dos milhares de cartas que trocou com interlocutores. Algo disso resvalou na sua ficção, especialmente depois da curta e desastrosa temporada em Nova York ao lado da esposa, Sonia Greene, com quem se casou em 1924.

Após algumas semanas de tranquilidade e empolgação com a nova vida no Brooklyn, Lovecraft passou a ter dificuldades financeiras. Recebia muito pouco pelas histórias que publicava em revistas “pulp”, disputava e perdia empregos para imigrantes e foi incapaz de se sustentar financeiramente após Greene buscar trabalho em outra cidade. Em 1926, ele retornou a Providence. Pouco tempo depois, ele e Greene, que já viviam distantes, se separaram.

“Em relação às culturas de outros países que chegavam aos EUA, Lovecraft não só se sentia invadido, mas também tinha medo daquilo que não conhecia —algo que é um dos elementos-chave em sua obra, o medo do desconhecido”, afirma Nathalia Scotuzzi.

A esse medo, somaram-se o ódio e a neurose, conforme analisa o francês Michel Houellebecq no ensaio “H.P. Lovecraft: contra o Mundo, contra a Vida”, originalmente lançado na França em 1991 e recentemente publicado no Brasil pela Nova Fronteira.

Para o controverso romancista de “O Mapa e o Território” e “Submissão”, o caldo cultural que caracterizou a América no começo do século 20 amplificou os sentimentos ruins de Lovecraft, que os canalizou em uma escrita raivosa e profundamente inventiva.

Escreve Houellebecq: “Toda grande paixão, seja ela amor ou ódio, acaba por produzir uma obra autêntica. Podemos deplorá-lo, mas é preciso reconhecê-lo: Lovecraft está mais do lado do ódio”. Do período pós-Nova York até sua morte, segundo o francês, o escritor produziu seus grandes textos, justamente os mais influentes até hoje.

H.P. Lovecraft: contra o mundo, contra a vida - via Tati Feltrin

Houellebecq lança afirmações provocativas, como ao refletir que a “visão alucinada” de Lovecraft em relação ao indivíduo diferente dele “está diretamente na origem das descrições de entidades pesadelares que povoam o ciclo de Cthulhu”, o que culminava em um “estado de transe poético em que ele supera a si mesmo no batimento rítmico e louco das frases malditas”.

O reacionarismo de Lovecraft, nesse sentido, virava impulso ao turbilhão imaginativo que ele desenvolveu em um período de dez anos. Guilherme Braga acredita que “enfrentar sentimentos destrutivos no plano da criação é o que fazem quase todos os artistas com os quais vale a pena se envolver”.

Na opinião de Scotuzzi, a constatação do racismo de Lovecraft não deve suplantar outras questões de sua produção literária, que se baseava principalmente na impotência. “Ele nunca se deu ao trabalho de desenvolver profundamente personagens, sejam eles protagonistas ou antagonistas. No desfecho de suas obras, etnias, classes sociais, preconceitos ou qualquer outro elemento ligado especificamente ao humano não têm importância alguma, já que Lovecraft coloca toda a humanidade no mesmo barco ao apresentar ameaças alienígenas que acabariam, se quisessem, com sua soberania em poucos instantes.”

Lovecraft transfigurou seus horrores pessoais em horrores de ficção. Não viveu para ver no que isso iria dar. Pessimista e autocomplacente como era, ficaria surpreso ao descobrir que seus escritos delirantes interessariam a mais gente além dele mesmo e de amigos próximos.

Conforme Houellebecq, “esse homem que não conseguiu viver conseguiu, finalmente, escrever”, para enfim se tornar “um iniciador essencial a um universo diferente, situado muito além dos limites da experiência humana e, contudo, de um impacto emocional terrivelmente preciso”.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

CAPA REVELADA!


"Wieland, ou a transformação", de Charles Brockden Brown, foi o primeiro livro de Literatura Gótica escrito e publicado nos EUA. 

Mais de 200 anos depois,a obra finalmente chegará ao Brasil, pelas mãos da Editora Diário Macabro!

Em publicação inédita, você poderá conhecer um dos textos clássicos da literatura do medo, o qual inspirou diversos outros que vieram após ele. Entre os temas principais da trama estão o fanatismo religioso, a manipulação psicológica e fenômenos inexplicáveis que retiram uma família comum e pacata de seu bem-estar. 

O livro será publicado por meio de financiamento coletivo, uma espécie de pré-venda, pela plataforma Catarse.

A arte utilizada na capa foi feita em aquarela, pelo artista Preto Pasin, inspirada pela pintura "American Gothic" de Grant Wood.

Nos vemos no dia 09!


Um agradecimento fantasmagórico a você



Olá,

Em meio as turbulências da quarentena e tempestades no Sul estou passando aqui nesta manhã com uma ótima notícia para você que já apoiou nossa campanha para publicação da melhor coletânea de fantasmas já feita em língua portuguesa.

Batemos 100 da meta com apenas dezenove dias de campanha!

O que fazemos, fazemos por respeito e amor a vocês, nossos leitores. E nada é mais reconfortante do que saber que estamos batalhando para um público que corresponde tão positivamente aos nossos projetos. 

Obrigado! Vocês viabilizaram nosso novo livro, e em agradecimento vamos divulgar em breve novas metas estendidas além das inicialmente prometidas. 

A campanha continua! 

Aguardem e fiquem com nossos sinceros agradecimentos! 

Alexander Meireles da Silva, Bruno Costa e Cid Vale Ferreira 

P.S. E se você ainda não apoiou, garanta a sua edição de Contos Clássicos de Fantasma, uma co-produção das editoras Ex-machina e Sebo Clepsidra com a Organização e Prefácio do Fantasticursos, CLICANDO AQUI.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Contos Clássicos de Fantasma: financiamento coletivo tem início amanhã


As editoras Ex Machina e Sebo Clepsidra apresentam sua primeira coedição: a mais completa antologia de contos de fantasma já produzida em língua portuguesa, cobrindo um amplo espectro do cânone ocidental, assim como uma seleção de oito obras nacionais (que por si só já renderiam um volume). São 26 narrativas ao todo, muitas das quais inéditas em português. Além da alentada introdução do professor e especialista em Literatura Fantástica Alexander Meireles da Silva, todos os contos são acompanhados de um breve texto sinóptico de abertura elaborado para contextualizar o autor e a obra em questão.

A antologia conta com a organização de Alexander Meireles da Silva (que também assina a extensa introdução, com 25 páginas que cobrem toda a história do gênero), e a edição de Bruno Costa, o idealizador e editor da mais completa reunião dos contos de H.P. Lovecraft já realizada em língua portuguesa, o projeto de Literatura/ficção que conquistou a maior arrecadação do Catarse em 2016. A tradução é de Marta Chiarelli, veterana profissional com farta experiência na literatura fantástica. Trata-se, portanto, da mesma equipe responsável pela antologia Contos clássicos de vampiro (2012), seu projeto mais bem-sucedido, cuja edição foi selecionada pelo PNBE e adotada como parte do currículo de centenas de escolas em todo o país. A essa equipe junta-se o editor Cid Vale Ferreira, que traz sua experiência de 16 anos de trabalho no mercado editorial e a expertise de sua especialização em edição de obras góticas e de horror à frente da editora do Sebo Clepsidra.

Livro + Marcador de página + Cartão postal.
O resultado do sorteio será anunciado nas novidades do projeto no dia 25/08.
O livro terá 360 páginas em papel Pólen light (levemente amarelado para tornar a leitura mais confortável), seu tamanho será de 16 cm de largura por 23 cm de altura e a encadernação será em capa dura para garantir sua durabilidade.

Todos os apoiadores que optarem por uma das recompensas exclusivas da primeira semana de campanha (apenas até dia 19 de junho!) concorrerão a um exemplar do livro Contos reunidos do mestre do horror cósmico, de H. P. Lovecraft (Editora Ex Machina).

A ecobag exclusiva do projeto, confeccionada em lona reforçada, virá na cor preta com estampa branca, com cartão postal exclusivo para o projeto e muito mais.

Para saber mais, é só clicar aqui.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Novidades do nosso catálogo futuro! - Via Cid Vale, do Sebo Clepsidra


Novidades do nosso catálogo futuro!

Pessoal, temos recebido muitas perguntas a respeito de como lidaremos com a pandemia, e se continuaremos com nossos lançamentos. A resposta é que estamos aproveitando pra acelerar os lançamentos. Vou listar alguns que devem sair até o fim do ano ou no início do próximo:

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Coleção Epicureia

- Contos Noturnos: Nossa nova campanha dedicada à presença do gótico, do macabro e do byroniano no Romantismo brasileiro será inaugurada por essa raríssima antologia de contos de Barbosa Rodrigues.

- O Conde Lopo: Pela segunda vez desde sua publicação póstuma, esse poema de Álvares de Azevedo será publicado de forma avulsa, com prefácio, posfácio e notas de apoio.

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Coleção Imaginário Gótico

- O Vampiro: A edição comemorativa de 200 anos está sendo diagramada e falta apenas um dos artigos das metas estendidas ser escrito pra enviarmos tudo para a última revisão.

- Fantasmagoriana: A antologia de contos alemães lida por Polidori, Byron, Mary, Percy e Claire em Diodati já está traduzida e a campanha chega ainda em 2020.

- O Velho Barão Inglês: O segundo romance gótico iniciará nossa exploração dos primórdios do romance gótico inglês, em uma edição repleta de extras.

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Teatro Insólito

- Presunção: A primeira adaptação teatral do romance de Mary Shelley está sendo editada e a campanha ainda tem 14 dias no ar! Aproveitem! www.catarse.me/frankenstein

- O Espectro do Castelo: O drama de M. G. Lewis (autor do romance "O Monge") será o segundo título da nossa coleção que explora o drama gótico.

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Coleção Lord Byron

- Céu e Terra: O drama de Byron sobre os Nefilins e o dilúvio concluirá o ciclo "Dramas de Byron", e sua campanha virá com uma caixa pra acomodar os três primeiros volumes que lançamos do poeta, mas a coleção continua depois com "O Giaur", "Melodias Hebraicas" e outros!

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Coleção Clássicos do Penny Dreadful

- Varney, o Vampiro: O primeiro volume da coleção está bem atrasado, mas ele está passando por uma preparação de texto profunda para resolver os milhões de desafios da tradução, e ficará pronto no segundo semestre de 2020.

- Wagner, o Lobisomem: O segundo título da coleção será lançado no ano que vem.

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Enciclopédia do Cinema de Horror

- Coleção em volumes que representam recortes temporais para apresentar de forma aprofundada todas a evolução do horror na sétima arte. Organizada por grandes autoridades no tema como Carlos Primati, Beatriz Saldanha e Marcelo Miranda.

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Sem coleção

- Contos Clássicos de Fantasma: Nossa primeira coedição com a Ex Machina, que traz 26 contos selecionados do cânone ocidental e da produção nacional.

- Mitologia Lovecraftiana: Reedição ampliada do estudo clássico de Caio Bezarias com novas ilustrações, e novos prefácios e artigos extras.

- O Labor da Morte: Esta dança macabra de Ferdinand Barth foi publicada em 1865 e atualiza o motivo medieval com uma série de belíssimas gravuras. Não haverá campanha para ele. Ele sai em breve com prefácio e tradução de Felipe Vale da Silva.

- Melancolia do Entardecer: Antologia de poemas do alemão Georg Trakl, um herdeiro do Romantismo alemão em pleno Expressionismo.

- A Noite de Walpurgis: Romance de Gustav Meyrink, autor do clássico "O Golem", em nova tradução.

- Eureka: Ensaio filosófico de Edgar Allan Poe, em nova tradução com extras de encher os olhos.

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E isso é só uma parte dos projetos!

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Obrigado a todos pelo apoio! Sem vocês, não seríamos capazes de sobreviver ao Corona!

sábado, 11 de abril de 2020

Primeira adaptação teatral do romance de Mary Shelley ganha edição nacional



O Sebo Clepsidra tem fama por trazer obras do gótico como "O Necromante", de Lorenz Flammenberg e "O Aparicionista", de Friedrich Schiller, começa uma nova empreitada com uma nova coleção. Após o sucesso com "O Vampiro", edição comemorativa de 200 anos com textos de John William Polidori, Lord Byron e Uriah Derick D'Arcy, a editora começa uma nova empreitada com seu primeiro volume da nova Coleção Teatro Insólito, responsável por trazer traduções novas de clássicos da dramaturgia gótica e de horror inéditas em nosso país.

O primeiro título escolhido é emblemático: Presunção, ou A Sina de Frankenstein (1823). A primeira versão teatral de Frankenstein a levar esse clássico gótico e protótipo da ficção científica aos palcos europeus. Nele, vemos a tragédia do Prometeu moderno pelo ponto de vista de Fritz, um ajudante do Dr. Frankenstein. Aliás, Fritz foi magistralmente interpretado por Dwight Frye no filme de 1931. Essa figura secundária, é importante notar, não existia no romance. Tanto o Fritz de 1931 quanto o Ygor de 1939 (interpretado por Bela Lugosi) são personagens extraídos dessa peça, e não do livro de Mary Shelley. A emblemática fala "It's alive", igualmente, não vem do romance, mas sim da peça, assim como a dificuldade de comunicação da criatura, que por um bom tempo só murmurava nos filmes.

A campanha iniciada no fim do mês de março conta, além do livro, com vários brindes, como um caderno de anotações exclusivo da campanha tem 10 por 15 cm, capa dura e 64 páginas em papel pólen sem pautas para você registrar seus escritos e desenhos, que pode ser visto na imagem abaixo. O livro e o caderno podem ser adquiridos aqui. Até agora, a campanha conta com o apoio de 42% no Catarse.



quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Resposta às críticas feitas à ABERST e ao livro Mulheres vs. Monstros - via Claudia Lemes


*Por Claudia Lemes

Me mandaram o link de um post feito pelo Alan de Sá no qual ele levanta pontos importantes sobre a literatura e a quem ela alcança. As poucas interações que tive com o autor do post foram muito positivas, mas suas críticas bem injustas, talvez por falta de conhecimento dos processos e filosofias por trás da associação e da minha coletânea de contos. Por isso, faço o esclarecimento.

No post, diz: "Assim como no caso do fantasismo, levanto ressalvas para a atuação da Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror (ABERST) (...) acompanho e gosto da existência da associação. Mas me incomoda bastante a baixíssima presença de pessoas pretas na associação (dos listados no site, somente a Meg Mendes), assim como de nordestinos, e nos projetos que, direta ou indiretamente, fazem parte da ABERST."

Vamos lá: quase 90% da ABERST é composta de associados engajados com questões de ativismo. Há diariamente, debates sobre todas essas questões na associação. Inclusive, está acontecendo uma neste exato momento no nosso grupo de Whatsapp.

Eu não posso forçar ninguém a entrar na associação. Eu posso fazer da associação um lugar convidativo para qualquer minoria. Quem segue nossas redes sociais já viu que nos posicionamos em relação ao racismo e à homofobia, mesmo contra a opinião de alguns associados. Eu, inclusive, para quem não sabe, sou bissexual. Quando eu era presidente, o conselho diretor era formado por 1 mulher e 5 homens. Hoje o conselho é 50% de mulheres, entre elas a Valquíria Vlad, cearense.

A ABERST, além de se posicionar, externa e internamente, é acolhedora para todos. Mas associar-se é um ato voluntário. Como vou forçar mais pessoas negras a participarem da nossa comunidade? E quem sou eu para forçar qualquer pessoa a fazer qualquer coisa?

Do blog: "Um exemplo: em Mulheres vs Monstros, livro com artigos e contos sobre personagens femininas da literatura, mitologia e cinema contra criaturas malignas (metaforizadas ou não), dos 12 autores que fazem parte (Cláudia Lemes, Clara Madrigano, Duda Falcão, Fábio Fernandes, Jana Bianchi, Rodrigo Ortiz Vinholo, Denise Flaibam, Flávio Karras, Oscar Nestarez, Tito Prates e Larissa Brasil), nenhum deles é negro."

Em primeiro lugar. Eu sou uma pessoa. A ABERST é uma associação. Eu fico muito puta quando as pessoas acham que tudo o que eu faço é ligado à ABERST. Eu compreendo, mas isso me deixa irritada. Mulheres vs. Monstros não tem NADA a ver com a ABERST. É uma iniciativa MINHA.

Quando eu fui convidando autores, eu convidei um autor negro. Ele não pôde se envolver. Eu queria envolver a Camila Simões, que é negra. Já tinha feito um podcast com ela e era apaixonada pela sua forma de se posicionar, de falar, e pensar. Quando fechamos a lista de autores, a Jana Bianchi até comentou que a coletânea estava muito branca. Eu concordei. Fui convidando as pessoas com quem tinha mais contato e deu no que deu. Na hora que me liguei que havia pouca representação, mais uma vez pensei na Camila e ela topou prefaciar a obra, o que me deixou muito feliz. Acho estranho que o prefácio incrível dela tenha sido ignorado, já que é o primeiro texto do livro.

Depois da publicação do Mulheres vs. Monstros eu tive a oportunidade de conhecer melhor outras autoras negras de ficção especulativa. Conheci melhor o trabalho delas e fiz questão de indicar o que li e gostei. Sem dúvidas convidaria muitas delas para um próximo projeto, não apenas por uma questão de representatividade, mas pela qualidade literária do que produzem.

Recentemente, convidei a Karine Ribeiro para fazer a leitura sensível do meu próximo livro, para ter um feedback sobre como retratei minha personagem negra. Fiquei feliz que ela topou, porque conheço minhas limitações sobre o assunto.

O autor do post também se esquecer de mencionar o Jorge Alexandre Moreira, a Karine Ribeiro e o Luis Asp, outros autores negros que são associados. Mas eu também não gosto de nomeá-los aqui e ainda correr o risco de ser acusada de falar por eles. Eles podem falar por si e podem falar da associação. Não cabe a mim.

Como pessoa branca, o máximo que vou conseguir é ser uma das "bem intencionadas", infelizmente. Até onde meu pouco poder e influência levam, eu tentei ser humilde, inclusiva e mais ouvir do que falar quando o assunto é algo que eu nunca vou vivenciar- racismo. Talvez eu erre? Porra, com certeza. Mas gostaria que, antes de ser linchada em público, as pessoas me dessem o benefício da dúvida e procurassem saber mais sobre os processos e intenções dos bastidores.

Quem se increve para o prêmio ABERST e quem vence não depende de mim.

Quem se associa a ABERST não depende de mim.

Quem eu convido para projetos depende de mim, quem aceita, não.

Se alguém quiser estatísticas que eu fiz questão de levantar, no meu tempo livre, justamente sobre o perfil do autor nacional, sua etnia, de onde ele vem, onde ele mora, que religião segue, sua idade, seu nível de escolaridade e visão política, segue o link de uma pesquisa feita com 275 autores, que eu levei para minha palestra na FFLCH, justamente para questionar o elitismo da produção literária nacional. Ela não tem pretensão nenhuma de ser "completa", ela é só um ponto de partida. 

Enfim, como já dito, não tenho nada contra o autor do post, mas também não acho que ele tinha conhecimento suficiente de como funciona a ABERST, o Prêmio ABERST e minhas publicações. Se ele quiser conversar sobre o assunto, minhas portas estão abertas. Também gostaria que ele conversasse com os autores negros da associação para pegar a opinião deles.

Obs: eu não sou mais presidente da ABERST. Esse não é um comunicado da associação, ele é meu, como pessoa.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Entrevista com Cid Vale Ferreira do Sebo Clepsidra


1 - Qual foi o seu primeiro contato com a literatura?
Sendo filho de dois professores, o contato com livros e com a literatura foi muito natural para mim. Eu adorava enciclopédias e coleções sobre animais, por exemplo. Tive, portanto, uma boa dose de leitura estimulada em casa, além de uma vontade espontânea de vasculhar os livros dos meus pais, mas, se eu for pensar em como comecei a buscar livros por conta própria, eu diria que isso aconteceu quando eu tinha cerca de 11 para 12 anos. Eu amava horror desde muito cedo, adorava jogar RPGs sombrios como Ravenloft, e comecei a pedir aos meus amigos mais velhos que me emprestassem livros como Drácula. Eu peguei gosto pela leitura. Depois, quando eu já tinha uns 13 anos, amigos góticos começaram a me emprestar livros de Edgar Allan Poe, Charles Baudelaire, Álvares de Azevedo... comecei com esses mestres!

2 - Qual é o principal fator causador da crise editorial brasileira? É o monopólio de grandes empresas do ramo, é não ouvir os consumidores ou ignorar os novos meios de comunicação?
A crise editorial nada mais é do que a consequência imediata da crise das megastores. La Selva, Livraria Cultura e Saraiva quebraram com poucos meses de intervalo. Num mercado fundamentado pelas consignações, foi um golpe muito profundo para as editoras ver grande parte de sua mercadoria retida em livrarias gigantes sem saber se um dia receberão por ela, além de ver seus recebíveis sendo rolados em parcelas que às vezes levarão cerca de 15 anos para serem pagos. Houve editoras reduzindo o ritmo de lançamentos, editoras sob risco de falência conclamando seus leitores a divulgar suas obras preferidas, demissões em massa... o impacto foi enorme. O segundo fator foi político. As editoras que dependem de compras governamentais viram contratos sendo cancelados após já terem imprimido os livros destinados a bibliotecas via MEC, por exemplo. Isso, sem falar na balbúrdia que é esse ministério, com um troca-troca ininterrupto de secretários que comprometeu, entre outras iniciativas, o PNLD - Programa Nacional do Livro Didático, um gigantesco edital que torna o governo o maior comprador de livros do país. Como a incompetência no nível federal é generalizada, nossa economia já fragilizada está decaindo cada vez mais, e o dólar acima de R$ 4,00 encarece os insumos das gráficas, que por sua vez repassam esse aumento aos seus clientes. Ou seja, as editoras têm vendido menos ao governo, o mercado privado perdeu seus principais pontos de venda físicos (porque as lojas que permanecem abertas até vendem, mas muitas não acertam mais suas dividas com as editoras) e sua produção está mais cara. Não haveria outro resultado possível senão uma crise ampla do mercado.

3 - O público do Sebo Clepsidra é majoritariamente advindo do terror?
Na verdade, não. Nas redes sociais, temos nosso nome muito ligado ao gótico e ao horror, mas quem visita nossas lojas sabe que trabalhamos com praticamente todas as áreas de interesse. Nossa loja da Cesário Mota Júnior, por exemplo, tem como carro chefe as Humanidades, já que estamos no mesmo quarteirão da FESP-SP, que tem graduações de Sociologia, Política e Filosofia. Aos poucos, porém, fomos investindo em um filão que sabíamos que iríamos explorar melhor na editora, o gótico, o fantástico, o romântico e o horror. Alguns dos nossos clientes e leitores mais fiéis, porém, vêm do mundo acadêmico. São professores e pesquisadores que têm um perfil mais eclético, mas que acabam se interessando pelas obras que garimpamos ou que editamos. Há também os colecionadores e os leitores aficionados por poesia e ficção que leem exclusivamente pela fruição, sem qualquer relação com seus trabalhos. Fizemos muitos amigos que começaram a se interessar por esse universo recentemente, e temos grande satisfação em ajudá-los a descobrir novos autores e novas sensações.

Talvez a principal mensagem [que o gótico nos trás] seja a certeza de que algo do passado voltará para assombrar o presente, e que devemos estar preparados para isso. 

4 - Qual é a mensagem fundamental que o gótico nos trás?
Talvez a principal mensagem seja a certeza de que algo do passado voltará para assombrar o presente, e que devemos estar preparados para isso. Isso inclui nosso próprio passado afetando nossa mente, relações interpessoais há muito esquecidas que de repente reaparecem em nosso caminho ou mesmo mentalidades tacanhas há muito superadas que de repente voltam a ser aceitas como sensatas por algumas pessoas (como vemos hoje em relação ao reacionarismo). Podemos relacionar isso a várias de suas diferentes manifestações: como o retorno do reprimido, como a "hauntology", como o obscurantismo, mas a ideia é sempre a mesma: cuidado com aquilo que você julga superado, ou você pode estar despreparado para lidar com os fantasmas do passado.

O Aparicionista, de Friedrich Schiller

5 - As pessoas estão indo a rua por estarem insatisfeitas. Como esse sentimento reflete na literatura brasileira atual ou não é refletido? É o resultado de uma pobreza de debate público? Como mudar essa situação?
Esse sentimento se reflete de inúmeras maneiras, tanto na poesia quanto na ficção, e está inspirando uma nova resistência. Nos slams e nos saraus das periferias a veia política da luta social vem predominando com recados claros contra o machismo, a homofobia e a desigualdade econômica. Na ficção a resposta é mais lenta, pelo tempo de produção naturalmente maior dos materiais impressos, mas creio que veremos muito dessa desilusão com o país e com os rumos dele nas obras que chegarão nos próximos meses às livrarias. Há inclusive quem ache que o nível revoltante da imbecilidade deste governo está inspirando uma nova contracultura. Sobre mudar isso, não creio que haja uma resposta fácil. Temos muitas forças antagônicas lutando pelas verbas estatais. Bancadas religiosas, armamentistas, monarquistas, latifundiárias, milicianas, privatistas, anticientíficas, militaristas e lobistas estão se canibalizando por poder enquanto nossa país desmorona aos poucos, cada vez mais inundado de fake news e revisionismos da pós-verdade. Teremos de aprender a conviver com essas pessoas. Não será fácil reverter o quadro, visto que há milhões de brasileiros que acreditam mais em uma mensagem de fonte desconhecida encaminhada por chat do que na Ciência ou no jornalismo. Estamos naquele ponto em que a engenharia genética anuncia a reescrita de 100% do código de um ser vivo e ao mesmo tempo uma parte considerável das pessoas acha que a Terra é plana e que a Pepsi adoça seus refrigerantes com células de fetos abortados. Esse abismo entre as pessoas deve ainda durar algumas gerações, mas não custa sonhar com dias melhores. Como sempre, a solução passa pela defesa dos nossos direitos sociais, especialmente nosso direito constitucional de acesso à educação.

6 - De onde surgiu a ideia da Coesão Independente?
Da necessidade. Ao abrir minha editora, percebi quão complexos são os desafios que as pequenas editoras têm de driblar todos os dias. Burocracia, pesquisa de preço com fornecedores, divulgação, marketing, contabilidade, direitos autorais, licenciamentos de imagem, definição de processos de produção, montagem de equipe muitas vezes remota, estocagem, distribuição, domínio das opções de impressão (tipos de papel, tinta e encadernação) e por aí vai. Tudo isso passa a fazer parte do dia a dia do editor e muitas vezes ocupa mais tempo do que a própria edição. Quando comecei, eu já tinha 11 anos de experiência como funcionário de outras editoras, mas muitos desses processos eram sempre responsabilidade de outros setores com os quais eu não tinha contato. Percebi que entre meus parceiros comerciais do sebo havia muitas editoras mais experientes que poderiam me ajudar, então fui pedindo ajuda até perceber que deveríamos oficializar essa parceria informal a ponto de um dia podermos trabalhar em bloco. Começamos com quatro editoras e aos poucos fomos crescendo. Atualmente, a Coesão tem 94 editoras associadas e mais algumas dezenas esperando avaliação de seus formulários de adesão (infelizmente ainda demoramos um pouco nesse processo). As editoras interessadas podem solicitar sua associação no nosso site.

7 - O Aparicionista, Caim e agora Varney: para onde vamos? Qual é o próximo passo para os Penny Dreadful? Afinal, o que são e de onde surgiu esse desejo de publica-los?
Nossos próximos projetos já divulgados incluem uma ficção inédita que envolve duas figuras históricas que amamos: Álvares de Azevedo e Ian Curtis, temos também outro romance gótico alemão que dará continuidade à coleção Imaginário Gótico, e temos também uma coedição com a editora Ex-Machina, que divulgaremos em breve. Atualmente estamos com a campanha de financiamento do Varney, o Vampiro, que você mencionou. Nosso próximo penny dreadful será o clássico Wagner, o Lobisomem, que também terá quatro volumes. Para nós, poder viabilizar a tradução desses romances folhetinescos tão extensos é um sonho. Passamos décadas lamentando a ausência deles em nossas prateleiras e finalmente poderemos oferecer ao nosso público essa curiosíssima experiência de leitura.

O Sebo fica localizado na Vila Buarque, centro de São Paulo (R. Dr. Cesário Mota Jr., n° 296, abrindo de seg. a sex. das 10h às 20h e aos sábados das 10h às 17h). Compra, troca e vende livros e quadrinhos novos, seminovos e usados.

domingo, 15 de julho de 2018

Antologia traz contos de terror de escritores improváveis - via Estadão

The Headless Horseman Pursuing Ichabod Crane - Pintura de John Quidor (1858)

Virginia Woolf, João do Rio e Émile Zola estão entre os autores que exploraram o sobrenatural


O que teriam em comum escritores como os brasileiros João do Rio, conhecido por suas crônicas e textos jornalísticos, e Medeiros e Albuquerque, autor da letra do Hino da Proclamação da República; e os estrangeiros Émile Zola, naturalista francês, o americano Edgar Allan Poe, famoso por seus contos de horror, e a modernista inglesa Virginia Woolf? Em princípio não muita coisa, mas a antologia Contos de Assombro (Carambaia), que reúne 18 contos assinados por escritores de várias partes do mundo (Espanha, França, Uruguai, Rússia etc.), nos mostra que, em algum momento de suas carreiras, todos se renderam ao sobrenatural, ao estranho ou ao inexplicável, os quais ganham múltiplos contornos em seus textos.

A morte e o diabo são, contudo, os grandes protagonistas de boa parte desses contos. Vale notar que nesses textos escritos no final do século 19 e início do 20, o diabo é por vezes personificado na figura da mulher, como no conto Janet, a Troncha, do britânico Robert Louis Stevenson: “– Bruxa! Víbora! Demônio! – exclamou ele. – Eu ordeno, pelo poder de Deus, que vá embora daqui: aos mortos; aos condenados, o inferno!” Outras vezes, é representado pelo índio, como é o caso de O Diabo e Tom Walker, do americano Washington Irving: “dizia-se que ali os índios faziam feitiçarias e realizavam sacrifícios para o espírito do mal”. 

De fato, toda cultura estranha à nossa pode parecer ser ainda hoje assustadora, basta pensar em Donald Trump, que durante a sua campanha proferiu afirmações como esta: “Infelizmente, a esmagadora quantidade de crimes violentos nas nossas grandes cidades é cometida pelos negros e pelos hispânicos.” Essa inverdade continua a ser repetida à exaustão no seu governo. 

Mas nem só de diabo é feito o assombro; o canibalismo e a loucura também têm seu protagonismo. O escritor maranhense Humberto de Campos, no conto O Juramento, consegue um “arrepio de horror” ao descrever como os antropófagos devoraram certa dama, cabendo ao amante estarrecido o seu coração. Para Émile Zola, os selvagens, dignos de medo, são os próprios homens. Ao fugirem do zoológico e andarem pela cidade, um leão e uma hiena se deparam com cenas cotidianas capazes de aterrorizar qualquer um: passando diante da Bolsa de Valores, os bichos ouvem lamentos, súplicas e gritos furiosos, o que leva o leão a concluir que se trata de “um matadouro que deve abastecer todos os açougues do bairro”. 

As três mulheres que integram essa antologia veem o assombro de uma forma completamente diferente. No conto da americana Edith Wharton, o que aterroriza a protagonista são os afazeres domésticos e o marido que “nunca lia nada além de folhetins de aventura e noticiário esportivo”. Para a espanhola Emilia Pardo Bazán, cabe à mulher salvar a alma de um homem diabólico. Já para Virginia Woolf o assombro está no ordinário capaz de provocar epifanias. 

O conto de Edgar Allan Poe escolhido para compor a antologia é por si só um mistério e um assombro, pois muitos acreditam que não tenha sido escrito por ele. O texto de Guy de Maupassant, que encerra o livro, bem poderia ser seu conto mais famoso, O Horla, mas Contos de Assombro foge da obviedade ao escolher do autor um ensaio sobre contos fantásticos que é, na realidade, um elogio a essa literatura, que o avanço da ciência jamais poderia obscurecer. Afirma Maupassant: “o maravilhoso é eterno”; e prossegue: “que importância tem a ciência reveladora se possuímos a poesia criativa! Somos inventores de ideias, inventores de ídolos, fabricantes dos sonhos. Sempre levamos os homens para lugares maravilhosos, habitados por seres estranhos que a nossa imaginação inventa.”

O posfácio, assinado por Alcebíades Diniz, responsável pela escolha dos contos da antologia, começa narrando um fato tão assombroso quanto os que compõem o livro: a morte inexplicável e misteriosa de um grupo de esquiadores soviéticos em 1959. O acontecimento ficou conhecido como o Incidente do Passo Dyatlov e ainda hoje o caso permanece sem solução, comprovando que nem tudo a razão pode explicar.

Nessa antologia, ao lado de autores amplamente conhecidos, como Guy de Maupassant e Robert Louis Stevenson, há outros que, talvez, não sejam muito populares por aqui: esse é o caso, por exemplo, da já mencionada Emilia Pardo Bazán, pioneira na defesa dos direitos das mulheres, do francês Charles Nodier, que deixou uma extensa obra, e mesmo de Medeiros e Albuquerque, cujo conto que fala de loucura é um dos pontos altos do livro. A escolha dos tradutores foi cuidadosa. Integram essa lista, entre outros, Ivone Benedetti, Fábio Bonillo, Maurício Santana Dias e Maria Aparecida Barbosa, os dois últimos especialistas em Pirandello e E. T. A. Hoffmann, que constam da antologia. 

Dirce Waltrick do Amarante traduziu e organizou, entre outros, 'Finnegans Wake (Por um Fio)', de James Joyce (Iluminuras) 

sábado, 30 de dezembro de 2017

Notícias: King ' Poe ' Lovecraft - Do Terror ao Horror


Constelação de Antares
O ano termina com uma novidade para os leitores amantes do gênero de terror e do nosso blog. O colunista e dono do site Igor Moraes, teve um de seus contos selecionado para uma antologia inspirada em Stephen King, Edgar Allan Poe e H.P. Lovecraft.

No texto Antares, o autor revisita e faz uma releitura do conto O Estranho Caso do Sr. Valdemar, de Edgar Allan Poe e trás para o presente a narrativa, colocando referências da cultura POP e elementos científicos ambientando tudo na contemporaneidade. A história original narrada em primeira pessoa mostra o evento da mesmerização (hipnose) do Sr. Valdemar, que sofrendo de uma doença incurável  sabia que seus dias estavam próximos e por isso resolveu participar de uma experiência de indução à hipnose, a fim de conservar a vida do paciente.

O lançamento do livro está previsto para abril de 2018 pela Editora Illuminare, e será feito simultaneamente no Brasil e na Argentina, na 43ª Feira Internacional do Livro de Buenos Aires. A obra trará 35 contos inéditos de escritores convidados como Cesar Bravo, autor de Ultra Carnem (DarkSide), de Marcus Barcelos, autor de Horror na Colina de Darrington (Faro Editorial) e de Jhefferson Passos, autor de 100 Gotas de Sangue (Illuminare). A antologia será organizada pela escritora Rô Mierling, autora de Diário de uma Escrava (DarkSide).

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Notícias: Edgar Allan Poe, Romances utópicos, Clube LeYa de Ficção Fantástica e Lançamento de Livros

EDGAR ALLAN POE


Mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP e autor de livros e ensaios de horror, Oscar Nestarez vai falar do papel fundamental de Poe na constituição das narrativas de horror como a conhecemos atualmente, baseando no ensaio A filosofia da composição. Também será apresentada uma biografia resumida do autor, cuja vida é inseparável da produção ficcional e encerrando a apresentação, será realizada uma breve análise do conto Os fatos no caso do senhor Valdemar, de modo a comprovar as hipóteses propostas na palestra. Será a partir das 10 horas, na Casa do Saber Fantástico (Casafan): Rua Fradique Coutinho, 1139, na Vila Madalena (a poucas quadras do metrô Fradique Coutinho). O evento é gratuito.

ROMANCES UTÓPICOS E MOEDAS DISTÓPICAS


O segundo encontro de discussão de leitura mediado pela escritora Ana Rüsche terá como tema O conto da Aia da Margaret Atwood, e a convidada para participar será  Renata Corrêa, escritora, feminista e roteirista. Ao início da sessão, contextualização de autor e obra, comentários sobre o romance, informações técnicas e leitura de alguns trechos. O livro será usado no especial Circulo das Ideias - Dystopic Universe do Golem. O encontro será na biblioteca e livraria Tapera Taperá na Avenida São Luiz, n° 187, 2º andar, loja 29 - Galeria Metrópole às 11 horas (término previsto as 13). Para se cadastrar, clique aqui.

CLUBE LeYa DE FICÇÃO FANTÁSTICA - 4ª Edição


A LeYa Brasil e a Fnac, em parceria com os colegas do site Acervo do Leitor e o grupo Reino dos Livros apresentam a nova edição do Clube LeYa de Ficção Fantástica. Em sua 4ª edição, o tema levado a debate é Fantasia Urbana e Super-Heróis: debatendo gêneros literários. A conversa se desenvolve na investigação sobre os conceitos e definições de Fantasia Urbana, sobre as principais obras do gênero e os maiores filmes de super-heróis da atualidade e como seria o mundo real se os super-heróis estivessem entre nós. A Fnac desse evento fica na Praça dos Omaguás, n° 34. A duração será das 16:00 às 18:00

LANÇAMENTO DE LIVROS - Raphael Draccon e Carolina Munhóz


Na outra Fnac, na Paulista, faz uma parceria com a Editora Rocco e trazem de volta a São Paulo - capital - Carolina Munhóz e Raphael Draccon para lançar seus novos livros "Por um toque de magia", volume final da trilogia Leprechaun, e "O coletor de espíritos", stand-alone de Draccon. O endereço é: Avenida Paulista, 901 às 17:00. Dracoon que comemorou ontem dez anos de lançamento de sua magnum opus Dragões de Éter - o primeiro livro da trilogia chegou ao público em 13 de setembro de 2007 na Bienal do Livro do RJ e tem previsão para ganhar mais um volume: Estandartes de névoa. O prólogo foi divulgado ontem pelo autor em sua página nas redes sociais. Para ler, ele segue abaixo.

DRAGÕES DE ÉTER - ESTANDARTES DE NÉVOA
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Dizem que o nome dele significa “mau conselho”.

Talvez isso seja uma invenção depreciativa, pois é normal que o homem comum se vingue de pessoas a ele extraordinárias de formas assim. Dizem que é filho dos pais errados, que se casou com as mulheres incorretas e que tomou as piores decisões. Há diferentes versões de sua origem, de sua paternidade, de seus ideais e de seus motivos. Talvez tenha matado menos homens do que deveria. Talvez mais. Talvez ele tudo tivesse feito acreditando ser o melhor para a própria pátria e toda humanidade afetada por ela, pois existe um fardo nas mãos dos homens que fazem História, que sempre é difícil de ser julgado.

O fato é que muito se diz e muito pouco se tem certeza. Não se sabe exatamente hoje em dia em que local ele está. Que aparência assumiu. Quantos aliados viajam com ele, e mesmo se ainda existe um aliado disposto ao feito. Na verdade, não se sabe mesmo se aquele homem tem aliados. E, se tiver, uma taberna inteira apostaria ainda assim que nenhum seria capaz de admitir isso.

Isolado como um urso, diziam no sul que viajava por caravanas com nomes falsos e roupas maltrapilhas, cheirando pior do que mendigos e gerando reações parecidas com a passagem de um leproso. Já ouvi um bardo manco dizer, entretanto, que um homem com lepra chama muito atenção e um renegado jamais iria querer isso para si. Parece um raciocínio sensato. No norte, costumam dizer que viajava cheirando pior do que orcos, o que convenhamos é mais depreciativo do que a comparação do sul, e que carregava sua armadura consigo e se apresentava como um cavaleiro longe de casa.

Não deixaria de ser uma mentira.

Quando caminhava, costumava fazer em silêncio, como se ninguém quisesse ouvir sua voz. Ou suas explicações. Quando de pé parecia sempre curvado, mas não como uma bruxa corcunda de poucos dentes, mas simplesmente um homem que carregava um mundo nas costas. Quando desembainhava a espada, não parecia diferenciar a frieza com que a embainhava. Quando dormia, precisava ainda assim estar em alerta, como se houvesse sempre alguém pré-disposto a matá-lo.

Muitos já o viram lutar e essas histórias ao menos possuem relações. Porque em todas elas, seja nas versões do sul ou do norte, existiam referências à sua habilidade para matar. Algumas histórias comentam que suas vitórias eram baseadas na experiência, afinal, um homem caçado o tempo inteiro tinha de aprender alguma coisa. Outras insistiam que possuía um estilo sujo como sua índole, e ludibriava os inimigos de maneiras desonrosas. 

Essas, porém, não eram as melhores histórias.

Verdadeiras ou não, as melhores narrativas contavam como aquele homem seria hoje o maior cavaleiro em atividade em todo o mundo. Se não fosse, claro, renegado por todas as ordens de cavalaria.

Desenhos de seu rosto, baseados em suposições e relatos incompletos, enfeitavam as paredes de estabelecimentos de regiões diferentes, e variavam a recompensa escrita em letras garrafais. Não importava o valor, contudo, pago por uma coroa real. Todos os valores valiam à pena. Mercenários de muitos lugares o perseguiram. Caçadores de recompensas buscaram não apenas o pagamento pelo trabalho assassino, mas também a fama de concluí-lo. De fato, muitos tentaram o feito.

Ele matou todos.

Atrás de seus caminhos desenhava-se um rastro de sangue que corria como um rio torto. Era um homem cuja passagem vertia lágrimas. Era um espírito condenado à escravidão da própria escuridão ao seu redor. E, quando um homem caminha com muita treva ao redor de si próprio, ele possui apenas dois caminhos: acabar cego ou acostumado. No primeiro caso, ele jamais voltará a enxergar qualquer claridade. No segundo, ele pode se acostumar com o breu e passar a se incomodar com a luz. 

Não importa qual caminho ele escolha nesse caso.

Ambos lhe custarão a paz interna.

Logo, era um homem indiferente à guerra ou à paz. Provavelmente o fardo que o perseguia houvesse influenciado isso. As pessoas dirão que não, que era sua índole e que ele merecia padecer em Aramis com os glóbulos oculares arrancados dentro de tigelas de água borbulhando, escutando o gargalhar de bruxas que se divertiam com a desgraça do mundo. Como dito, contudo, é difícil julgar o fardo dos homens que fazem História. Assim como também é difícil condenar a recepção do mundo a esse tipo de fardo.

Mas uma coisa, não importa em qual lenda, não importa em que cultura ou continente, recaía unanime sobre ele.

Todos o odiavam.

Talvez aquele homem tenha matado mais do que deveria. Talvez menos. Mas um único homem morto por ele fora suficiente para torná-lo o homem mais odiado do mundo.

Porque um dia ele matou Arthur Pendragon.