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quarta-feira, 24 de março de 2021

Dossiê Macabro: TÁXI - Editora Diário Macabro


Os pontos brilhantes no campo de visão de Rafael agora se dissipavam como vaga-lumes em fuga na mata – finalmente abriu os olhos, após um longo e doloroso apertar dos mesmos –, mas o sono persistia, por mais que os esfregasse, cantarolasse ou assistisse à TV para passageiros em seu táxi. Olhou para o relógio no painel: nem 11 da noite ainda! Verbalizou um palavrão e deixou a cabeça cair para trás, apoiando-a no encosto do banco, forçando-se a permanecer alerta. Precisava do dinheiro, precisava mesmo, mas achou que nada valeira uma noite mal dormida – e nada seria mais caro que sofrer um acidente, machucando-se com gravidade. O caminho entre o Aeroporto do Galeão, onde, no momento, encontrava-se parado, em uma das vagas destinadas aos táxis, e a sua casa em Campo Grande era longo e arriscado – poderia dormir ao volante, e aquilo seria ruim. — Davi Busquet, Vetor
Perturbador. Não tem outra palavra para definir essa antologia.

Com os autores que conversei, antes e depois de ler o livro, confessei que, durante a leitura (e até mesmo na abertura do edital) pensei que a antologia ia pelo caminho trilhado pelo folclorista Walcyr Monteiro, famoso por seu livro Visagens e Assombrações de Belém, que contem a lenda urbana da "Moça do Taxi". Essa história que virou episódio de programa de televisão infantil e atrai turistas para a cidade de Belém mostra como a força desses causos podem impactar a imaginação dos telespectadores, moradores e viajantes, e no caso desse livro da Editora Diário Macabro, leitores.

Organizada e prefaciada por Júlia do Passo Ramalho e Fábio Aresi, a obra trás dezenove viagens totalmente malucas a bordo do clássico e icônico veículo amarelo. Junto dos organizadores formam a escrete Guilherme Schrago, Johnatan Gomes, Bruno Sorc, Igor Cabrardo, Úrsula Antunes, Roberto Schima, Davi Busquet, Gabriela Leão, Thiago Oliveira Lima Matiolli, Paulo H. P. Lima, Marcos Tadeu Mageste, Alvaro Caxone, Heclair Pimentel Filho, Mario Sergio Ribeiro, Daniel L. Costa, R. A. Tsuchiya e Alysson Steimacher.

Uma das narrativas presentes no livro é Vetor de Davi Busquet (que me enviou o livro). Sua narrativa conta a história de Rafael, o motorista que faz uma corrida indesejada e pega um cliente peculiar, alguém que conseguia descrever o pecado de cada pessoa que, de alguma forma, cruzava seu caminho. A cada página, a cada parágrafo, nós nos encontramos em uma área nebulosa, de pessoas cinzentas, com virtudes e pecados que remete ao leitor mais atencioso, ao livro Podres de Mimados e A Faca Entrou de Theodore Dalrymple.

Contrariando a aparente normalidade do ato de pegar a condução por um completo estranho, temos aqui histórias reunidas de taxistas sanguinários, passageiros perigosos, carros assustadores, corridas de outro mundo que são abarcadas pela perturbação. A leitura pode deixar desconfortável o leitor mais sensível e que não tem costume de consumir livros com cenas de violência.

Para saber mais sobre o livro, clique aqui.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Lovecraft Country | Referências literárias da nova série da HBO

Divulgação/HBO

Lovecraft Country, série criada por Misha Green com base no livro Território Lovecraft de Matt Ruff, é o principal lançamento da HBO para o mês de agosto. Produzida por Jordan Peele e J.J. Abrams, a série mistura elementos do terror cósmico de H.P. Lovecraft com a dura realidade de um Estados Unidos segregacionista dos anos 1950 para construir uma trama assustadora.

Confira abaixo as algumas referências literárias da série:

Indo da Flórida para Chicago, o personagem principal, o veterano da Segunda Guerra Atticus Black está lendo Uma Princesa de Marte, escrito por Edgar Rice Burroughs em 1912. Depois de ser transportado misteriosamente para o solo marciano, John Carter, um veterano ex-confederado da Guerra Civil, descobre que suas habilidades físicas foram ampliadas significativamente devido a menor pressão atmosférica e gravidade. Além disso, se vê envolvido no meio dos conflitos entre as raças marcianas. A Editora Regulus está trazendo esse livro em um financiamento coletivo e tem um projeto ambicioso: publicar todas as edições da série Barsoom. Além de criar esse universo, Burroughs criou e idealizou as aventuras do Tarzan, a série Caspak e inúmeros outros mundos fantásticos. Para saber mais, clique aqui.

Autor que nomeia o seriado, H.P. Lovecraft foi um homem criativo, mesmo sendo inegavelmente xenófobo e racista. Em uma cena, Atticus lembra a tio George que seu pai, Montrose, o fez decorar o poema On the Creation of Niggers que equipara os negros a semi-bestas que “preenchem o vazio” entre as bestas e os homens. Pai do horror cósmico como conhecemos, tem sua edição definitiva de seus Contos Reunidos reeditada em uma parceria da Editora Ex-Machina e Sebo Clepsidra. A nova edição da antologia apresenta todas as 61 histórias escritas por Lovecraft publicadas originalmente entre 1917 e 1935 e um corpus paratextual ciclópico, com mais de uma centena de páginas de material complementar, e do ensaio pioneiro Mitologia lovecraftiana: A totalidade pelo horror, de Caio Bezarias, em versão revista, ampliada e ilustrada. Para saber mais, clique aqui.

Como Atticus observa depois de George recitar “The children of the night ... what music they make” (Ouça-os... são os guardiões da noite. Que monumental protofonia!) é uma das frases mais famosas do romance de vampiros de Bram Stoker, Drácula, de 1897. Os vampiros inspiram os personagens a usar luzes para afastar os Shoggoths que os atacam na floresta, até que a luz solar os devolva à (relativa) segurança. A obra narrada de maneira epistolar, por meio de fragmentos de cartas, diários e notícias de jornal, a história de humanos lutando para sobreviver às investidas do vampiro Drácula, tentando impedir que a vil criatura se alimente de sangue humano na Londres da época vitoriana, no final do século XIX. Para saber mais, clique aqui.

Logo após Letitia, Atticus e tio George escaparem de Simmonville, Marvin Baptiste (irmão de Letitia) cita o autor Ray Bradbury do durante o jantar em sua casa. O autor, que completaria 100 anos em 2020, compôs um clássico da ficção científica e da literatura distópica, Fahrenheit 451. Escrito originalmente como um conto: "O bombeiro", contido no volume Prazer em Queimar: histórias de Fahrenheit 451, foi incentivado pelo seu editor a transformar a ideia inicial em um romance, que se tornou um dos livros mais influentes de sua geração – e também um dos mais censurados e banidos de todos os tempos. Para saber mais, clique aqui.

Em um delírio, tio George recapitula o final de A Casa No Limiar, romance de terror gótico de 1908 do autor William Hope Hodgson, que nos diz ser um de seus favoritos. Lançado pela Diário Macabro, o livro trás a narrativa citada: ao final do século XIX, em busca de dias tranquilos de pescaria, dois jovens viajam para um remoto vilarejo na Irlanda onde encontram restos de um manuscrito nas ruínas de um casarão. Em suas páginas emboloradas, encontram os registros das experiências de um velho recluso que há muito tempo habitou o local. Sua escrita revela uma série de eventos extraordinários e sobrenaturais, desde ataques de criaturas inomináveis a viagens oníricas e interdimensionais. Para saber mais, clique aqui.

Sendo mencionado nominalmente por tio George, Algernon Blackwood escreveu fantasia sobrenatural e terror na Grã-Bretanha do final do século XIX. Entre seus contos mais famosos está Os Salgueiros (história de horror preferida de Lovecraft) que retrata as aventuras de dois viajantes que descem de barco o Danúbio, rio que corta parte do leste europeu, e passam a viver um verdadeiro inferno de sons e sensações perturbadoras, cercados por salgueiros, em uma região pantanosa. Muitos de seus contos envolvem histórias de homens tendo encontros terríveis com uma espécie de natureza senciente. Para saber mais, clique aqui.

Também sendo mencionado nominalmente por tio George, Clark Ashton Smith foi poeta, escultor, pintor e autor americano de contos de fantasia, horror e ficção científica. Contemporâneo e amigo de Lovecraft, ele escreveu também sobre os famosos Mitos de Cthulhu, colaborando ativamente para o bestiário lovecraftiano com a criação de Tsathoggua no conto The Tale of Satampra Zeiros. Embora Smith se considerasse principalmente um poeta, tendo recorrido à prosa pela escassa soma financeira que recompensava, sua prosa pode ser melhor apreciada como uma poesia "desenvolvida". O autor está sendo trazido pela Editora Clock Tower em Além da Imaginação e do Tempo, um financiamento coletivo no Catarse. Para saber mais, clique aqui.

Somos informados de que O Conde de Monte, famoso romance do século 19 de Alexandre Dumas (também famoso pelos Três Mosqueteiros ) é o romance favorito de Montrose, pai de Atticus. O romance aborda a história de um marinheiro preso injustamente por um crime que não cometeu e foi lançado em folhetim ao longo de dois anos. O marinheiro planeja por anos executar uma fuga ousada de prisão, que inspirou claramente a própria escavação do túnel de Montrose fora do prisão onde o culto Braithwhite o confina. No dia 27 de agosto desse ano, para homenagear o autor, o Google fez um Doodle fazendo referência ao romance por conta da comemoração do aniversário da publicação do primeiro capítulo do livro no jornal parisiense "Les Journal des Débats", em 27 de agosto de 1884. Para saber mais, clique aqui.

No episódio "Uma História de Violência", o trio de heróis Atticus, Letitia e Montrose parte numa busca pelo cofre do fundador da Ordem da Antiga Alvorada, Titus Braithwaite. Essa busca os leva a um museu em Boston, e debaixo deste museu vão procurar as páginas de um livro. Eles vão andando pelas catacumbas que começam a se inundar, encontrando algumas criaturas sobrenaturais. Durante essa empreitada, Atticus até afirma: “Parece coisa do ‘Viagem ao Centro da Terra’”, do autor Júlio Verne. Rios de lava, mares subterrâneos, os primórdios da vida no planeta, fauna e flora pré-históricos, múmias de homens primitivos... Fruto da imaginação e do conhecimento de um dos pais da ficção científica, o livro é uma das obras mais originais e ousadas de seu tempo. Para saber mais, clique aqui.

O título do episódio, "Strange Case", foi tirado da novela de terror Strange Case of Dr. Jekyll e Mr. Hyde, conhecida e traduzida normalmente como O médico e o monstro de Robert Louis Stevenson. A história é a narrativa sobre um homem da ciência que usa um soro para se transformar em uma persona do mal e satisfazer seus desejos e depravações. Publicado pela primeira vez em 1886, esta instigante novela é um clássico do autor escocês Robert Louis Stevenson que inspirou desde Vladimir Nabokov e Jorge Luis Borges até Stan Lee. Para saber mais, clique aqui.

No mesmo episódio, durante a cena em que William abre Ruby para acelerar sua transformação, há uma reportagem na televisão sobre gafanhotos e seu processo de metamorfose. Ele lembra uma novela de Franz Kafka chamada Metamorfose, sobre um homem que acorda e se vê transformado em uma barata gigante. Essa pequena novela, lançada em 1915, revolucionou a literatura e as artes. De forma agressiva, acessível e inovadora, tornou-se um dos mais importantes e difundidos textos da história. Para saber mais, clique aqui.

Uncle Tom's Cabin, em português em A Cabana do Pai Tomas de Harriet Beecher Stowe, foi um romance antiescravista publicado em 1852. Extremamente popular em sua época, seu lançamento é considerado um dos vários momentos decisivos que impulsionaram o sentimento contra a escravidão e, por extensão, indiretamente iniciou a Guerra Civil. O romance também foi criticado por popularizar estereótipos tradicionais sobre os negros - o nome "Tio Tom", por exemplo, foi apropriado como pejorativo para os homens negros que são subservientes à autoridade branca. No livro, o tio Tom é espancado até a morte por seu mestre Simon Legree, após se recusar a revelar para onde seus companheiros escravos escaparam. Ele é retratado como uma figura de Cristo e perdoa seus assassinos em seus últimos suspiros. Este registro literário contribuiu intensamente para a abolição da escravatura. Basta observar que, dois anos depois de seu lançamento, surgiu o Partido Republicano, que abraçou a causa abolicionista. A autora chegou até mesmo a merecer do presidente norte-americano, Abraham Lincoln, esta consideração: "Foi a senhora que, com seu livro, causou essa grande guerra" (a guerra entre os estados). Dree foge das figuras do livro, que a perseguem por todos os lados. Para saber mais, clique aqui.

Obra de mesmo nome escritor por Matt Ruff, Território Lovecraft não é exatamente um romance. Com oito histórias curtas que se conectam, o livro pode ser entendido como uma espécie de antologia que possuem um delimitador comum que conduz a narrativa. Lançado pela Editora Intrínseca, o livro é um retrato caleidoscópico do racismo norte-americano e mostra acontecimentos envolvendo uma mesma família ou pessoas próximas a esse núcleo familiar que aos poucos vão descobrindo uma espécie de confraria secreta sobrenatural ao seu redor. Em um jogo de metalinguagem, o livro Lovecraft Country aparece na série escritor pelo filho de Atticus, George, no futuro. Tic diz que é a história da família Freeman, mas com alterações; Dee, por exemplo, é um menino chamado Horace, enquanto George e Hippolyta estão vivos e presentes na terra. Estas são mudanças reais que foram feitas durante a adaptação do romance original de Matt Ruff para a série da HBO. Para saber mais, clique aqui.

sábado, 22 de agosto de 2020

Neuroses de Lovecraft impulsionaram horror inovador de sua ficção - via Folha de São Paulo

Pouco valorizado em vida, mestre do terror tem sua obra celebrada nos 130 anos de seu nascimento


Marcelo Miranda
Jornalista, pesquisador, curador e crítico de cinema. Produz e apresenta o Saco de Ossos, podcast de entrevistas com criadores e estudiosos de ficção de horror no Brasil

[resumo] Nos 130 anos de seu nascimento, o escritor H.P. Lovecraft tem explosão de lançamentos no Brasil, incluindo ensaio do francês Michel Houellebecq sobre seu trabalho, e é inspiração para as mais variadas obras de arte. Pouco celebrado em vida, tornou-se um nome central da literatura de horror ao fazer de suas neuroses o impulso de uma obra inovadora e pessimista, na qual o ser humano é insignificante diante da natureza.

Dificilmente Howard Phillips Lovecraft acreditaria que o palavreado impronunciável de nomes criados por ele —como Cthulhu, Azathoth, Shoggoth, Shub-Niggurath e Yog-Sothoth— se tornaria cultuado em todo o mundo e fonte de inspiração para variadas manifestações artísticas.

Morto em 1937, aos 46 anos, Lovecraft teve pouco reconhecimento em vida. Quase um século depois —nos 130 anos de seu nascimento, completados na última quinta-feira (20)—, é um dos autores mais estudados e referenciados da literatura norte-americana. Não só pelas obras que escreveu (cerca de 70 ficções, entre contos e novelas), mas também por sua presença constante como fonte basilar em filmes, videogames, quadrinhos, RPGs, livros e um conjunto inesgotável de derivações.

A mais recente é a nova série da HBO “Lovecraft Country”, adaptação do romance de Matt Ruff que se utiliza do imaginário de Lovecraft para falar da segregação racial nos EUA dos anos 1950. Escritores como Neil Gaiman, Stephen King e Joyce Carol Oates ou cineastas como Guillermo del Toro e John Carpenter constantemente assumem inspiração em Lovecraft.

Montagem com o escritor H.P. Lovecraft cercado por tentáculos, referência central em sua obra

Tendo entrado em domínio público em janeiro de 2008, a obra do escritor nascido em Providence (Rhode Island) ganha atenção crescente de editoras, produtoras e artistas interessados em se enveredar pelos tentáculos de um criador que inventou muitos dos conceitos consagrados de horror e ficção científica.

Ao menos sete casas editoriais brasileiras, entre grupos expressivos e outros nem tanto, estão com livros de Lovecraft circulando, para além da quantidade incalculável de trabalhos realizados a partir do imaginário do autor.

A pioneira a explorar com atenção e cuidado a obra do escritor por aqui foi a Hedra, em um projeto capitaneado pelo editor Bruno Costa a partir de 2009. Com tradução do pesquisador Guilherme da Silva Braga, as edições da Hedra apresentaram os contos do norte-americano a toda uma nova geração de leitores.

“Elas foram as primeiras, no Brasil, a trabalhar não apenas com tradução de alto nível, mas também com critérios editoriais claros e aparato crítico do qual éramos tão carentes: introduções, notas, cartas, esboços e artes de capa exclusivas, criadas por Tulio Caetano”, destaca Costa.

Histórias como “Um Sussurro nas Trevas” (1930), “Nas Montanhas da Loucura” (1931), “A Sombra de Innsmouth” (1931), “A Cor que Caiu do Espaço” (1927) e o incontornável “O Chamado de Cthulhu” (1926), entre várias outras, conquistaram centenas de leitores e chamaram a atenção para o potencial de Lovecraft.

Reprodução/HBO

Em 2017, pela editora Ex Machina, o mesmo Bruno Costa promoveu um financiamento coletivo para a edição de “Contos Reunidos do Mestre do Horror Cósmico”, mais portentosa edição dedicada ao escritor no Brasil. São 612 páginas contendo 61 contos (tradução de Francisco Innocêncio), além de apêndice com artigos, ensaios, iconografia, bibliografia, filmografia e um “bestiário” sobre as principais entidades lovecraftianas.

Uma segunda edição, revista e ampliada, está com nova campanha aberta no Catarse, em uma parceria da Ex Machina com a editora Clepsidra, que relançará também o ensaio “Mitologia Lovecraftiana: A Totalidade pelo Horror”, de Caio Bezarias.

Outras editoras embarcaram no apelo de Lovecraft, como a DarkSide, que o inseriu no selo Medo Clássico e lançou, no final de 2017, uma antologia com duas capas à escolha do leitor, com tradução de Ramon Mapa.

Em 2019, dois lançamentos de peso se somaram no mesmo mês de novembro: o box em dois volumes “Os Mitos de Cthulhu” (Nova Fronteira, tradução de Alexandre Barbosa de Souza, Regiane Winarsrki e Alexandre Gambarotto) e o primeiro volume da “Biblioteca H.P. Lovecraft” (Companhia das Letras, tradução de Guilherme da Silva Braga), a ser composta, no futuro, por outros três livros.

O escritor Oscar Nestarez, pesquisador de Lovecraft, exalta a efervescência de títulos disponíveis de um ficcionista tão fundador, mas aponta cautela. “A redundância pode levar à saturação, já que vários lançamentos trazem os mesmos textos ou edições precipitadas, sem contextualização adequada. Para quem não conhece a obra de Lovecraft, contexto é indispensável.”

Bruno Costa também detecta um círculo vicioso de publicações e defende que outros materiais sejam disponibilizados ao leitor brasileiro. “As editoras poderiam explorar as cartas, os ensaios e a poesia do Lovecraft, mas preferem ad infinitum a mesma fórmula ou seleção de contos em traduções e edições muitas vezes bastante discutíveis. Publicar uma dezena de histórias com capinha bonitinha é fácil, duro é ter coerência editorial.”

Cena do filme "A Cor que Caiu do Espaço" (2019), inspirado na obra de H. P. Lovecraft - Divulgação

Em boas ou más edições, Lovecraft é cada vez mais inevitável. O fascínio por sua literatura, os enigmas em torno de sua mitologia e as controversas questões de sua vida pessoal são praxe em círculos não só de leitores, mas de uma gama imensa de admiradores de outras mídias.

“Ele criou um universo habitado por monstros e horrores que mexem com a imaginação. Essa obra deixou de pertencer ao nicho da literatura de horror e de ficção científica para adentrar, de forma definitiva, na cultura pop”, aponta Guilherme Braga.

Para a pesquisadora Nathalia Sorgon Scotuzzi, autora de “Relances Vertiginosos do Desconhecido: A Desolação da Ciência em H.P. Lovecraft” (ed. Diário Macabro), um elemento intrigante é a ambientação das narrativas em um mundo em tudo como o nosso, acrescido de criaturas ancestrais e da detalhada mitologia de acontecimentos do passado, que fazem do ser humano mero detalhe insignificante.

“Sua proposta era criar uma realidade que preenchesse lacunas na nossa própria, oferecendo possibilidades monstruosas nas camadas desconhecidas da natureza”, diz Scotuzzi.

“Ao entrar em contato com isso, a humanidade estaria perdida, mas a natureza ainda seria a mesma. Somado a tudo está o conceito de que Cthulhu, Azathoth, Yog-Sothoth ou qualquer outra entidade criada pelo autor não são deuses e sim seres poderosos que desconhecem ou pouco se importam com nossa existência.”

Esse é, afinal, o conceito de horror cósmico, vertente ficcional notabilizada por Lovecraft. Apesar de admirador do gótico e sobrenatural Edgar Allan Poe (1809-1849), ele expandiu suas próprias referências, que passavam também por Algernon Blackwood (1869-1951) e Ambrose Bierce (1842-1914), para arquitetar cuidadosamente um mundo singular.

“O embasamento filosófico do horror cósmico está ligado ao conceito de sublime que encontramos no filósofo irlandês Edmund Burke e segue muito alinhado a pensamentos e fatos científicos atuais”, diz Oscar Nestarez. “Todos os contos de Lovecraft nos lembram do quão impotentes e insignificantes somos diante da natureza —e, em última instância, diante do universo.”

Neste ano, quando o mundo enfrenta o surto de coronavírus, Lovecraft soa bastante atual. Cthulhu, afinal, é o “alto sacerdote” que um dia caminhou pela Terra, foi banido para “a grandiosa cidade submersa de R’lyeh” e estaria às vésperas de caminhar novamente para “impor seu jugo” por meio de destruição, morte e desolação. Em suma: é um apocalipse abafado por milênios, no aguardo de ascender “quando as estrelas estivessem alinhadas”.

A descrição de Lovecraft para horrores além da compreensão humana e da capacidade de qualquer enfrentamento —elementos magistralmente trabalhados na mais recente adaptação do autor para os cinemas, “A Cor que Caiu do Espaço”, de Richard Stanley, disponível no Telecine Play— está intimamente relacionada ao seu modo de viver e pensar.

Filho de um comerciante com a filha de um aristocrata descendente dos primeiros colonizadores dos EUA, Lovecraft cresceu abastado e isolado em meio a crises mentais dos pais. Adulto, defendia a tradição e a cultura anglo-saxã contra a modernidade e a intersecção entre povos.

Carrie (1976) de Brian de Palma, inspirado no livro de Stephen King. Ilustração de Leander Moura

Lovecraft tinha pensamentos racistas, xenófobos e eugenistas, expostos em várias dos milhares de cartas que trocou com interlocutores. Algo disso resvalou na sua ficção, especialmente depois da curta e desastrosa temporada em Nova York ao lado da esposa, Sonia Greene, com quem se casou em 1924.

Após algumas semanas de tranquilidade e empolgação com a nova vida no Brooklyn, Lovecraft passou a ter dificuldades financeiras. Recebia muito pouco pelas histórias que publicava em revistas “pulp”, disputava e perdia empregos para imigrantes e foi incapaz de se sustentar financeiramente após Greene buscar trabalho em outra cidade. Em 1926, ele retornou a Providence. Pouco tempo depois, ele e Greene, que já viviam distantes, se separaram.

“Em relação às culturas de outros países que chegavam aos EUA, Lovecraft não só se sentia invadido, mas também tinha medo daquilo que não conhecia —algo que é um dos elementos-chave em sua obra, o medo do desconhecido”, afirma Nathalia Scotuzzi.

A esse medo, somaram-se o ódio e a neurose, conforme analisa o francês Michel Houellebecq no ensaio “H.P. Lovecraft: contra o Mundo, contra a Vida”, originalmente lançado na França em 1991 e recentemente publicado no Brasil pela Nova Fronteira.

Para o controverso romancista de “O Mapa e o Território” e “Submissão”, o caldo cultural que caracterizou a América no começo do século 20 amplificou os sentimentos ruins de Lovecraft, que os canalizou em uma escrita raivosa e profundamente inventiva.

Escreve Houellebecq: “Toda grande paixão, seja ela amor ou ódio, acaba por produzir uma obra autêntica. Podemos deplorá-lo, mas é preciso reconhecê-lo: Lovecraft está mais do lado do ódio”. Do período pós-Nova York até sua morte, segundo o francês, o escritor produziu seus grandes textos, justamente os mais influentes até hoje.

H.P. Lovecraft: contra o mundo, contra a vida - via Tati Feltrin

Houellebecq lança afirmações provocativas, como ao refletir que a “visão alucinada” de Lovecraft em relação ao indivíduo diferente dele “está diretamente na origem das descrições de entidades pesadelares que povoam o ciclo de Cthulhu”, o que culminava em um “estado de transe poético em que ele supera a si mesmo no batimento rítmico e louco das frases malditas”.

O reacionarismo de Lovecraft, nesse sentido, virava impulso ao turbilhão imaginativo que ele desenvolveu em um período de dez anos. Guilherme Braga acredita que “enfrentar sentimentos destrutivos no plano da criação é o que fazem quase todos os artistas com os quais vale a pena se envolver”.

Na opinião de Scotuzzi, a constatação do racismo de Lovecraft não deve suplantar outras questões de sua produção literária, que se baseava principalmente na impotência. “Ele nunca se deu ao trabalho de desenvolver profundamente personagens, sejam eles protagonistas ou antagonistas. No desfecho de suas obras, etnias, classes sociais, preconceitos ou qualquer outro elemento ligado especificamente ao humano não têm importância alguma, já que Lovecraft coloca toda a humanidade no mesmo barco ao apresentar ameaças alienígenas que acabariam, se quisessem, com sua soberania em poucos instantes.”

Lovecraft transfigurou seus horrores pessoais em horrores de ficção. Não viveu para ver no que isso iria dar. Pessimista e autocomplacente como era, ficaria surpreso ao descobrir que seus escritos delirantes interessariam a mais gente além dele mesmo e de amigos próximos.

Conforme Houellebecq, “esse homem que não conseguiu viver conseguiu, finalmente, escrever”, para enfim se tornar “um iniciador essencial a um universo diferente, situado muito além dos limites da experiência humana e, contudo, de um impacto emocional terrivelmente preciso”.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Apoie: Projetos fantásticos no CATARSE!




Para os fãs de terror e fantasia, segue abaixo projetos que podem ser interessantes.




Exatamente hoje (20 de agosto de 2020, data de início dessa campanha), o escritor estadunidense Howard Phillips Lovecraft completaria 130 anos. Com o intuito de celebrar essa data, o escritor Maurício Coelho, em parceria com a Pará.grafo Editora, organizou uma coletânea de contos de horror cósmico inspirada no universo literário lovecraftiano.

Uma edição comemorativa e especial, com 22 contos criteriosamente selecionados, de escritores de diversas partes do Brasil. A obra recebe o prefácio de Nathalia Sorgon Scotuzzi, editora e pesquisadora de Literatura de Horror, e maravilhosas ilustrações do paraense Otoniel Oliveira. A capa foi ilustrada pelo artista Rodolfo Tavares e o projeto gráfico é de autoria do escritor e designer Dênis Girotto de Brito.

Para saber mais, clique aqui.



Contos reunidos do mestre do horror cósmico chamou a atenção dos aficionados por horror por ter um escopo editorial bem definido: apresentar em um único volume todos os contos (narrativas curtas) de H.P. Lovecraft na tradução criteriosa e fluente de Francisco Innocêncio, acompanhados de um extenso paratexto. Os artigos, escritos pelos principais pesquisadores brasileiros da obra de Lovecraft, a introdução e a supervisão editorial de S.T. Joshi (o maior especialista na obra e vida do autor), seu bestiário e sua filmografia alçaram-no a uma posição de destaque, e sua edição revista e ampliada (aguardadíssima após a primeira edição ter se esgotado) só reforça essa posição.

Mitologia lovecraftiana, a reedição revista, ampliada e ilustrada do livro A totalidade pelo horror, disponibiliza novamente o principal estudo nacional sobre o papel do mito na obra de H.P. Lovecraft. Esgotada há meses, a obra é a grande referência a todos os estudiosos e aficionados interessados nos chamados mitos de Cthulhu. Escrito em uma linguagem tão acessível quanto profunda, o livro é uma chave interpretativa que ressignifica e fornece bases para uma melhor compreensão de todo o universo lovecraftiano.

O Apêndice (agora ampliado) contém: 11 artigos e ensaios temáticos sobre diversos aspectos da obra e da vida de Lovecraft (são quatro a mais em relação à primeira edição, assinados por Caio Bezarias, Oscar Nestarez, Alexander Meireles da Silva e Alcebiades Diniz Miguel). A introdução é assinada por S.T. Joshi, o maior especialista na vida e na obra do autor;  Uma seleção de cartas inéditas em português com apresentação de S.T. Joshi, traduzidas por Francisco Innocêncio; bibliografia crítica do pesquisador e especialista em literaturatura fantástica Marcello Branco, que elenca (e reflete sobre) a bibliografia lovecraftiana no Brasil. A Bibliografia foi revista e atualizada para contemplar o mapeamento de novos títulos surgidos desde o lançamento da primeira edição; Cronologia da ficção lovecraftiana: Lista cronológica da ficção do autor preparada por S.T. Joshi (112 itens); Iconografia: 9 fotos de Lovecraft + o esboço de Cthulhu feito pelo autor; Filmografia lovecraftiana: são 29 filmes listados e comentados (na edição anterior, eram 12) pelos pesquisadores Edgar Indalecio Smaniotto e Marcelo Miranda. Cada verbete contém ficha técnica, referências de adaptação na literatura de Lovecraft e sinopse crítica. Os textos da primeira edição foram revistos e atualizados; as novas inserções incluem títulos de várias épocas e países, além de produções lançadas nos últimos anos, entre adaptações e filmes influenciados pela mitologia do autor. A mais completa e atualizada filmografia em português sobre Lovecraft no cinema; e o bestiário: conteúdo reformulado para esta segunda edição, com textos inéditos do pesquisador Marcelo Miranda em 15 verbetes com as descrições e as referências de entidades da mitologia lovecraftiana. O conteúdo está separado em três categorias: Raças, Deidades e Outras criaturas. Inclui ainda sugestões de leitura, indicações de filmes (para o leitor conhecer as diversas formas como as criaturas foram representadas no cinema) e ilustrações exclusivas do artista Tulio Caetano.

Para saber mais, só clicar aqui.



Tem de 18 dias restantes.

Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft, Nathaniel Hawthorne, Stephen King... esses e muitos outros escritores de terror dos Estados Unidos fazem parte de uma tradição que começou ainda no século XVIII, a literatura gótica norte-americana.

Transferindo o horror do castelo mal-assombrado europeu para a mansão, utilizado as paisagens inóspitas e inexploradas do continente e tratando de temas culturais específicos, como o caso das bruxas de Salem, o gótico nasceu nos Estados Unidos com sua cara própria.

Essa tradição foi oficialmente iniciada por um escritor chamado Charles Brockden Brown, reconhecido por ter escrito o primeiro romance gótico do país, chamado Wieland, ou a transformação. Agora, pela primeira vez, esse romance chega ao Brasil pelas mãos da Editora Diário Macabro! Para saber mais, é só clicar aqui.


Faltando apenas 16 dias para o fim da campanha, pela primeira vez vez em português, um livro totalmente composto pela obra de Clark Ashton Smith, um dos maiores escritores de horror e fantasia de todos os tempos!

Clark Ashton Smith (1893-1961) foi poeta, escultor, pintor e autor americano de contos de fantasia, horror e ficção científica. Devido a problemas de fobia, ele teve uma vida pobre e reclusa, casando-se muito tarde. Morou quase toda sua vida na cidade de Auburn (Califórnia) com seus pais, que o incentivaram em uma vida de estudos autodidata. Smith foi um grande criador de mundos imaginários e criaturas incríveis, tendo concebido através da escultura seus monstros antes mesmo de transportá-los para o papel.

Para saber mais, só clicar aqui.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

CAMPANHAS NO CATARSE PARA APOIO



Já estão disponíveis para financiamento coletivo os projetos da Editora Clock Tower e Diário Macabro, respectivamente.

Escritor que formava o tripé da Revista Weird Tales com H.P. Lovecraft e Robert E. Howard, Clark Ashton Smith foi poeta, escultor, pintor e autor de contos de fantasia, horror e ficção científica. Foi por sua amizade literária com ambos que ele é lembrado principalmente hoje. Até hoje, nenhum de seus trabalhos foi lançado no Brasil, e a Editora Clock Tower precisa da sua ajuda para viabilizar um livro que reúne vários contos de Smith, já que os custos para publicação são altos, especialmente no que diz respeito aos direitos autorais, daí a necessidade do projeto via Catarse.


Charles Brockden Brown é o escritor conhecido como o "pai do romance americano". Seus romances góticos em cenários americanos foram os primeiros de uma tradição adaptada por dois dos maiores autores americanos antigos, Edgar Allan Poe e Nathaniel Hawthorne.

Seu primeiro romance, Wieland (1798), uma obra-prima da ficção americana, mostra a facilidade com que o equilíbrio mental é perdido quando o teste do senso comum não é aplicado a experiências estranhas. A história diz respeito a Theodore Wieland, cujo pai morreu por combustão espontânea, aparentemente por violar um voto a Deus.

François-Xavier Fabre: "Visiones de Saul", 1837

Para saber mais das campanhas da Clock Tower e Diário Macabro, é só clicar no nome delas e você será direcionado para suas páginas.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

CAPA REVELADA!


"Wieland, ou a transformação", de Charles Brockden Brown, foi o primeiro livro de Literatura Gótica escrito e publicado nos EUA. 

Mais de 200 anos depois,a obra finalmente chegará ao Brasil, pelas mãos da Editora Diário Macabro!

Em publicação inédita, você poderá conhecer um dos textos clássicos da literatura do medo, o qual inspirou diversos outros que vieram após ele. Entre os temas principais da trama estão o fanatismo religioso, a manipulação psicológica e fenômenos inexplicáveis que retiram uma família comum e pacata de seu bem-estar. 

O livro será publicado por meio de financiamento coletivo, uma espécie de pré-venda, pela plataforma Catarse.

A arte utilizada na capa foi feita em aquarela, pelo artista Preto Pasin, inspirada pela pintura "American Gothic" de Grant Wood.

Nos vemos no dia 09!


sexta-feira, 12 de junho de 2020

Você conhece o primeiro romance gótico norte-americano?


Você está pronto para conhecer uma das mais importantes publicações da literatura gótica?

Charles Brockden Brown é considerado por muitos pesquisadores como o primeiro escritor profissional norte-americano. Para melhorar, Brown foi o responsável pela publicação do primeiro romance gótico do país, chamado Wieland, ou a transformação.

Publicado em 1798, Wieland deu início a uma forte tradição de histórias góticas e de horror nos EUA, tendo influenciados autores até mesmo de outros países, como a britânica Mary Shelley, que confessa que teve inspirações nesse romance para escrever Frankenstein!

Apesar de ter sido escrito há mais de 200 anos, Wieland nunca foi publicado no Brasil. Agora, pelas mãos da Diário Macabro, esse lançamento inédito poderá se tornar real! 

***

Sobre a trama: O livro nos apresenta os Wieland, família de agricultores norte-americanos que presencia em suas terras situações inexplicáveis, resistindo a todo momento a acreditar que tenham alguma origem sobrenatural. Após um tempo, essa descrença começará a cair por terra.

A campanha de financiamento coletivo do livro pelo Catarse começa em julho.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

1° versão do prefácio da Revista Diário Macabro



O TERROR DÁ ASAS AOS PÉS
Quando entrei em contato com a Nathalia e o Pedro, pedindo para prefaciar a revista, tenho que confessar que queria participar dessa terceira edição de qualquer maneira. Como contista não consegui, mas como prefaciador sim. Assisti essa revista nascer dentro dos grupos de literatura de terror que compartilhavam figuras, contos e curiosidades sobre Poe, Lovecraft e King e fico muito feliz pelo seu sucesso que a Diário Macabro tem conseguido e alcançado. O texto abaixo é a 1° versão do prefácio que escrevi para a revista. É um spin-off do que vem por ai, liberado para os fãs sentirem o gostinho do que está por vir. A campanha já está no ar no Catarse, e para aderir, só clicar nesse link.
Na virada do século XIX para o XX, houve uma explosão no mercado norte-americano de revistas populares contendo ficção de vários gêneros. Parecidos como uma espécie de periódico, as revistas pulp, ou “de polpa”, tinham esse nome por sua matéria-prima barata: a polpa de madeira. As histórias traziam enredos dos mais variados e simples. Em sua maioria eram leves e de leitura fácil, voltadas para todos os tipos de público, dos que gostavam de faroeste, mistério, aventura, romance, terror, fantasia e ficção científica. Vários autores de renome passaram por essas publicações como H.P. Lovecraft, Robert E. Howard e Clark Ashton Smith.

No Brasil, isso não foi diferente. Em 2009, em um artigo acadêmico, Athos Eichler Cardoso chamou de “revistas de emoção” as pulp magazines brasileiras, surgidas a partir de julho de 1934. Com “capa de cartolina ilustrada em cores de impacto variável”, O Romance Mensal foi nossa primeira revista, abrindo espaço para as outras (Detective, Contos Magazine, Mistério Magazine, etc). Nessas revistas dois nomes se destacam pelo estilo prolífico: R.F. Lucchetti e Ryoki Inoue.




Eram publicações populares, narrativas bizarras voltadas para o extraordinário e o fantástico, sob a forma das mesmas temáticas norte-americanas. Lembra Causo no prefácio da Trasgo: “Romance Mensal já começa com uma história de horror, seguida, no n° 2, de uma aventura de mundo perdido e outra com monstros nos Mares do Sul. Também publicou brasileiros, embora não necessariamente nesses gêneros”.

Esse é o ground da Diário Macabro. Além de trazer contos inéditos revelando novos escritores, traz traduções de contos que nunca ou quase nunca foram publicados no Brasil. Especializada em contos de horror e as mais variadas vertentes, o sobrenatural (Dionísio), o cósmico e a ciência (A Noite dos Seres Negros), o suspense (Família), o psicológico (O Cenotáfio) são alguns exemplos que tudo está muito bem representado nos n° 1 e 2 da revista.

Quanto a periodicidade, é compreensível. O mercado editorial brasileiro tem se retraído nesses momentos de crise, mas é nela que tem de surgir a inovação. Financiamentos coletivos, sistemas de apadrinhamento (padrim), promoções, combos podem sustentar a iniciativa tão recente que é impossível, todavia, avaliar o impacto da revista sobre a longa tradição dos pulps no Brasil.

terça-feira, 3 de julho de 2018

Revistas segmentadas trazem de volta os pulps no Brasil

Do pulp viemos e ao pulp voltaremos...


Essas belezinhas que estão fazendo uma diferença...

Na virada do século XIX para o XX, houve uma explosão no mercado de revistas populares contendo ficção de vários gêneros. Parecidos como uma espécie de periódico, as revistas pulp, ou “de polpa”, tinham esse nome por sua matéria-prima barata: a polpa de madeira. As histórias traziam enredos dos mais variados e simples. Em sua maioria eram leves e de leitura fácil, voltadas para todos os tipos de público, dos que gostavam de faroeste, mistério, aventura, romance, terror, fantasia e ficção científica.

Vários autores de renome passaram por essas publicações - sendo os mais famosos e influentes os que formaram o tripé da Weird Tales: H.P. Lovecraft, Clark Ashton Smith e Robert E. Howard. No Brasil, dois nomes se destacam dentro e fora do país por esse tipo de publicação. São eles, Rubens Francisco Lucchetti (definido pelo New York Times como "fábrica humana de ficção pulp" e "herói cult") e Ryoki Inoue (conhecido no mundo inteiro por entrar no Guinness Book como o autor mais prolífico do mundo, sendo o homem que mais publicou livros em todo o planeta).

Exemplares de revistas pulp nacionais
Como em um fast food, o objetivo do pulp é uma leitura rápida e um retorno constante. Se lá fora existia entre às décadas de 20 e 50 a Argosy Magazine, Astounding Stories, a já citada Weird Tales, ,Amazing Stories e Black Mask, aqui tínhamos entre os anos 30 e 50 a Detective, Contos Magazine, Mistério Magazine, Emoção e X-9. Algumas eram revistas especializadas em algum gênero, vide a Weird Tales, que trazia histórias de horror e fantasia, Amazing Stories contos de ficção científica e a Black Mask especializadas em histórias de detetive, e assim por diante.

Onde tudo começou...
De todas as revistas segmentadas que estão voltando a aparecer no cenário nacional - principalmente com o advento da Internet e outros meios de comunicação - cabe destacar três que tem propostas bem interessantes. O leitor não se incomode, pois essa seleção foi feita para não alongar tanto a matéria e para dar um princípio a sua busca, seja você escritor ou simplesmente fã.

A primeira é a Revista Mafagafo. É uma revista seriada, em que os contos são publicados em várias partes, divididos como um arco de história em quadrinhos ou uma série de TV. De todos, eles são os que mais seguem a risca esse conceito de pulp (no sentido de série e continuidade), aplicando esse modelo à publicação de contos brasileiros de fantasia e ficção científica. O formato não é novo, mas há muito que ele não vem sendo usado. A ideia da Mafagafo é retomar o hábito dos folhetins, tão comuns até o século XIX e início do XX. A Mafagafo atualmente é uma revista digital que será disponibilizada gratuitamente em PDF, ePUB e MOBI.


A segunda indicação que tenho aqui é a Revista Trasgo. Uma revista independente de contos de ficção científica e fantasia, que em seus quatro anos no ar já publicou estreantes e autores consagrados da ficção nacional. Distribuída gratuitamente também em PDF, ePUB e MOBI, buscou no seu terceiro ano no ar sua primeira grande empreitada no mundo do papel: a Trasgo - Ano 1. Ela trabalha com um modelo de renda compartilhada, sendo que, os autores e ilustradores não recebem um valor fixo pelo seu trabalho, mas parte do lucro com a publicidade e Padrim da revista. Se o seu material for aprovado, você receberá um contrato explicando exatamente como funciona, e poderá aceitar ou não.


E a terceira e última é a Revista Diário Macabro. Criada especificadamente para a publicação de contos de terror, o foco principal da revista é a revelação desses nomes e também um enriquecimento para esse tipo de literatura no país. Com duas edições publicadas, já está sendo planejada a terceira. O terror nacional, mesmo que tardio, vem ganhando seu merecido espaço no mercado. Com personagens perdidos entre a realidade e loucura, autores renovam o gênero de terror e suas vertentes, com narrativas cheias de reviravoltas. Com contos exclusivos, de autores nacionais e estrangeiros, revigoram o estilo no país.

sábado, 10 de março de 2018

A Noite dos Seres Negros - Rodrigo Kmiecik [SPOILER ALERT]

Dois homens conversavam em um Café. Apoiavam-se sobre uma mesa circular: um deles usava um chapéu e tomava uma xícara de café preto, o outro apreciava um chimarrão quente, em uma bonita cuia com entalhes ornamentados em alumínio. Sobre os olhos inteligentes deste, espessas sobrancelhas acinzentadas denotavam sua idade elevada. - Rodrigo Kmiecik
Um texto tardio continua sendo um texto tardio. Mas antes tarde do que nunca. Como prometido, o Golem resolveu se manifestar finalmente sobre o texto de um de seus membros.

Faz parte do segundo volume da Revista Diário Macabro um das narrativas dos colunistas da revista: Rodrigo Kmiecik. Estudante de história e escritor em horas vagas: é assim que ele se define, e lendo sua narrativa é notório uma rica pesquisa - conhecimento biológico, químico e botânico. A criatura em questão, que dá nome ao conto, é ao mesmo tempo esquisita e horripilante.

Quase como uma extensão dos Cthulhu Mythos Howardianos, ele trabalha tudo com descrições bastante visuais. O sangue, o mal, todos estão retratados com suas respectivas cores. O autor que aqui escreve já teve a oportunidade de ler outros textos dele - seja por que me enviou ou porque publicou em outras mídias - e o sucesso e a exatidão, seja escrevendo Espada & Feitiçaria ou Terror, se mantém em alto nível.

O autor trabalha com a originalidade sem perder o tato com o real, o que realmente tem de próximo: a fazenda, o sul do Brasil, Curitiba. Com referências a H.G. Wells, Robert E. Howard, e H.P. Lovecraft, Rodrigo tenta criar uma expansão própria e original da mitologia criativa e fundadora, fazendo um paralelo entre ficção científica e terror.

H. G. Wells, H. P. Lovecraft e Robert E. Howard