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sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

ARAGORN E ELRIC DE MELNIBONÉ: dois gumes de uma espada aristocrática


por Rodrigo Kmiecik

Certa vez Michael Moorcock, consagrado autor da saga de Elric de Melniboné e outros clássicos da fantasia e ficção científica, acusou J.R.R. Tolkien de ser um “cripto-fascista”, devido aos temas conservadores e moralistas em sua obra. De fato, o conservadorismo cristão da classe média inglesa é facilmente identificável na obra do professor, especialmente em “O Senhor dos Anéis”, mas chamá-lo de “cripto-fascista” é, no mínimo, um exagero talvez até maldoso e de caráter pessoal de Moorcock.

De qualquer forma, salvo o romantismo crítico de Moorcock, suas opiniões em relação aos elementos conservadores na obra de Tolkien são muito úteis para compreender uma nova visão a respeito do épico do Um Anel e, mais ainda, para entender as ideias intrínsecas à ficção fantástica de Michael Moorcock. Em diversas entrevistas este autor manifestou-se como um anarquista; como afirma no livro “Mythmakers and Lawbreakers: Anarchist Writers on Fiction”: “estive atraído por ideias anarquistas desde os 17 anos, sofisticando meu pensamento político lendo especialmente Kropotkin”.


Estes ideais anarquistas estão impregnados na obra de Moorcock, como o próprio comenta no livro supracitado: “minha ficção age em função de permitir aos leitores decidirem autonomamente suas próprias atitudes morais”. O ponto central deste tema para essa argumentação é não apenas a autonomia do leitor sobre os personagens, mas o que os personagens são em sua materialidade moral nos textos de Moorcock; apesar de ambíguas e envoltas em brumas de interpretação, as ações morais dos personagens de Moorcock seguem uma linha mais ou menos definida pelo próprio pensamento moral e político do autor, obviamente, ou seja, o anarquismo.

Portanto, para a reflexão que vem a seguir, devemos entender Elric de Melniboné como um “herói” essencialmente anarquista, completamente autônomo moralmente, que vaga no limbo entre a razão e a emoção, como todos os seres humanos. Na dita alta fantasia, escapa-se um pouco deste realismo moral que Moorcock propõe. Ao contrário do questionável Elric, em obras como “O Senhor dos Anéis” ou genéricos, protagonistas geralmente são heróis em suma essência, motivados ou por uma paixão completa, ou por uma razão desumana, que os afasta da realidade e pinta sua moralidade com contornos bem definidos. Este é o caso de Aragorn, por exemplo, que carrega razões e paixões inabaláveis, todas envoltas em atos de amor e heroísmo pelo que é certo. 


Em “Elric de Melniboné” isto é simplesmente impossível pelo fato de que não existe “o certo” no mundo de Moorcock. Enquanto Tolkien nos apresenta um mundo maniqueísta, tomado pela dualidade da luta entre Bem e Mal, Moorcock apresenta um panorama mais cinzento de perspectivas e ações. Em diversos contextos, é difícil saber como o príncipe feiticeiro de Melniboné irá agir. Irá aliar-se à um bando de forasteiros ou irá chaciná-los por uns goles de vinho fresco e alimento? Nunca se sabe. Esse motivo narrativo será levado ao extremo por autores como Karl Edward Wagner, em seus livros do espadachim Kane, mas é Moorcock quem começa a firmar as bases deste âmbito na literatura de fantasia. 

Karl Edward Wagner criticou Moorcock justamente pelo oposto: o autor americano entendia o mundo de Elric como algo ainda muito dualista, pautado na lógica de Ordem x Caos que, para Wagner, pouco se diferenciava do clássico Bem x Mal. Sinto necessário discordar de Wagner. Explico. No mundo de Tolkien, a estrutura Bem x Mal é uma luta teleológica, ou seja, ela começa com um fim já bem definido, quase profético. Assim, em Tolkien há um vencedor definido, e este vencedor é o Bem. Ele triunfa sobre o Mal e as coisas são restauradas, a ordem passa a imperar. Em Moorcock o embate entre Ordem e Caos não tem valores teleológicos, não existe fim definido; tudo é cercado pela imprevisibilidade. E o papel do Campeão Eterno – o qual Elric é em seu plano cósmico – é simplesmente balancear Ordem e Caos, sem jamais subjugar uma delas em prol de um bem maior que é certo por excelência. Podemos terminar este argumento com as próprias palavras de Moorcock: “frequentemente meus personagens conquistam o balanço entre Ordem e Caos pois recusam-se a servir qualquer coisa, apenas sua própria consciência”.

Há quem diga que Conan, de Robert E. Howard, se encaixe nas condições amorais da qual falamos aqui, mas o bárbaro possui um código de conduta até bem definido de acordo com sua visão de mundo, bondoso com os indefesos, implacável contra os cruéis. Moorcock subverte essa ideia, Wagner a extrapola. Tolkien apenas a deixa de lado.

Agora tendo definido bem o viés da ficção de Michael Moorcock e J.R.R. Tolkien, partimos para o ponto central deste texto: o caráter dos heróis de cada autor em suas obras-primas. Tanto em Elric como em “O Senhor dos Anéis”, temos dois grandes heróis aristocratas – aqui utilizo o termo herói para designar tanto Elric quanto Aragorn, apesar de Elric ser um anti-herói, como define o próprio Moorcock: “o anti-herói é aquele que tradicionalmente se opõe à toda a moralidade estabelecida no status quo.” Apesar disso, tomemos o termo apenas para designar o personagem que conduz os rumos centrais da estória. Além disso, sabemos que na obra de Tolkien existem vários protagonistas, e pode-se tomar Frodo ou Sam como heróis da história; porém, como este texto visa uma comparação entre os personagens aristocratas e seus desdobramentos, deixamos de lado os hobbits e focaremos no glorioso herdeiro de Gondor. 

A frase acima carrega uma ironia que nos trás a uma primeira observação à obra do professor Tolkien. Portanto, vamos compreender as ideias centrais do viés moral de sua ficção. Os temas recorrentes são uma intensa busca pela restauração da antiga Ordem que está ameaçada ou foi quebrada; a viva memória sobre as glórias do passado e uma ânsia por sua recuperação no tempo presente, como se as mudanças e novidades da modernidade alarmassem o status quo vigente. Os hobbits devem permanecer em seus casebres, tomando chá e fumando seus cachimbos, em paz e longe do mundo exterior, isolado em sua ilha, como um bom inglês conservador o faria. Afinal, quantas milhares de vezes Bilbo não sente saudades de sua quente e seca toca de hobbit?


Além disso, outro fator decisivo é o louvor às linhagens, ao valor que se dá a elas. Isso pode ser, dentre tantos outros motivos, uma influência clara da Literatura medieval da qual Tolkien muito apreciava e muito injetava em suas obras. O apego ao Nome, aos títulos do reino ou do país, a importância magnânima de ser um descendente de um povo que um dia, no passado distante, teve dias de glória na ilha de Númenor. 

“Ele é Aragorn, filho de Arathorn, e descende, através de muitas gerações, de Isildur, filho de Elendil, de Minas Ithil. É o chefe dos dúnedain no Norte; poucos restam desse povo”. Isso é dito por Elrond em uma passagem em “A Sociedade do Anel”, quando esta é formada em Valfenda. No filme, Legolas é quem adapta esta fala: “Ele é Aragorn, filho de Arathorn, e você o deve respeito”. Percebam o exaltar à linhagem aristocrata. Um conservadorismo típico da classe média inglesa, de raízes fincadas na literatura medieval, dos grandes personagens, que Tolkien traduz em bravura e heroísmo em sua obra. 

Aron Gurevich, historiador russo autor do já clássico “Categorias da Cultura Medieval”, faz uma breve observação sobre as mentalidades da literatura oral e escrita deste período, que muito se faz útil para entendermos sua influência direta no caráter da ficção tolkieniana. Segundo o historiador, “[na literatura medieval] as pessoas são generalizadas ou estereotipadas, e não individualizadas. Ao invés de penetrar nos múltiplos fenômenos vivos, o artista tem como ideia inicial a inevitável oposição entre o sublime e o comum, uma oposição polarizada entre o Bom absoluto e o Mau absoluto.”

Exemplos claros são Aragorn, um “bom absoluto”, daqueles paladinos mais cafonas de qualquer RPG, e do outro lado Sauron, um “mau absoluto”, o chefão final. Podem argumentar em discordância sobre as ambiguidades de personagens como Saruman ou Boromir, que transitam entre Bem e Mal em diversas partes da narrativa. Entretanto, essas mudanças nunca são em função de decisões morais ligadas à razão, mas sim inseridas na cosmovisão cristã de seu autor, ou seja, transições devido ao “pecado” da cobiça do Anel, dos temores que rodeiam o Mal à espreita. Apesar de haver breves ambiguidades, portanto, estas ainda se inserem na lógica dualista e cristã.


Voltando agora à Moorcock, prestemos atenção à sua fala em “Mythmakers and Lawbreakers: Anarchist Writers on Fiction”: “meus livros frequentemente lidam com heróis aristocratas, deuses e coisas do tipo. E todos estes heróis acabam chegando à conclusão de que não deveriam seguir nem deuses nem mestres, mas tornarem-se seus próprios mestres”. Isso define bem as coisas. Elric de Melniboné é um aristocrata, de sangue melniboneano, um dos últimos de sua linhagem, do império mais poderoso que já reinou sobre o mundo. E, assim como em “O Senhor dos Anéis”, o poderoso império está ruindo, decadente, bem como Gondor antes da derrota de Sauron. Entretanto, Moorcock nos traz uma visão contemporânea e distante dos conservadorismos. Elric não busca restaurar a antiga ordem político-social e nem a entende de modo romântico como uma memória gloriosa que deve ser restituída. O feiticeiro reconhece os problemas de seu povo e aceita a decadência de seu império. Em diversos momentos em “Elric de Melniboné” e “O Navegante nos Mares do Destino”, os dois primeiros livros de sua saga, o personagem reflete a respeito no novo futuro, da ascensão dos Reinos Jovens dos humanos que um dia foram subjugados pelos cruéis príncipes melniboneanos. 

Podemos entender que ambas as sagas lidam com um mundo em transformação, que fomenta a estória, seja a guerra, a queda de reis e impérios, ascensão de novos povos, etc. O ponto central da questão é como os autores enxergam essas mudanças. Tolkien, um conservador que escreve na primeira metade do século XX, não consegue ceder às mudanças e, para ele, qualquer perturbação do atual status quo é um perigo. Até mesmo as aventuras através das estradas que levam para sabe-se lá onde só existem porque culminarão em restituir a ordem. Bilbo e Frodo não exploram a Terra-Média para conhecer o mundo; o fazem com a motivação teleológica de defender a ordem, seja participando da batalha contra um terrível dragão, seja derrotando o Senhor do Escuro. Já Moorcock, um anarquista que escreve nos anos 60 e 70, de revoluções sociais lisérgicas e impactantes em todos os seguimentos da sociedade humana, consegue trazer ares de juventude para limpar a poeira envelhecida deixada por Tolkien. As mudanças em Moorcock são encaradas como boas, inevitáveis e até necessárias; a antiga ordem jaz em ruínas, e, no último ato da trágica saga de Elric de Melniboné, ele próprio alia sua espada à luta que selaria o sepulcro de Ymrrir, a Cidade do Sonhar, capital de Melniboné. Elric compreende a antiga ordem e todos seus defeitos, ele limpa e retifica os erros da memória, desmistifica as narrativas construídas sobre o passado pelos olhos do presente, e consegue entender que não há mais lugar para a velha ordem um mundo onde os Reinos Jovens surgem. O melniboneano inclusive almeja aprender com os humanos destes reinos, partindo para lá no final do primeiro livro, buscando tornar-se “um novo homem”. 

Portanto, podemos concluir que Elric e Aragorn são dois gumes de uma mesma espada aristocrática. Ambos nobres, um cortando para as ideias contemporâneas de mundo, o outro para as ideias mais antigas e conservadoras a respeito da sociedade. O objetivo central aqui foi propor uma reflexão a respeito do que podemos aproveitar destes textos que vão muito além de escapismos, buscando assim absorver, descartar ou reinventar ideias e interpretações que sirvam para as nossas vidas no tempo presente. São temas muito pertinentes e bastante debatidos hoje em dia, como o conservadorismo. Na minha opinião, esses temas perpassam explicitamente nas linhas de “O Senhor dos Anéis”, e são raramente criticados – muito pela forma como as obras de fantasia são encaradas, somadas ao amor cego da maioria dos leitores em relação a estes textos. 

Observo constantemente que a maioria dos grandes expoentes de vertentes literárias, como foi J.R.R. Tolkien para a alta fantasia, H. P. Lovecraft para o horror moderno, Robert A. Heinlein para a ficção científica, entre tantos outros, acabam criando uma estranha aura de proteção ao redor dos próprios narizes; parecem repousar sobre um pedestal e, a qualquer ameaça de crítica ou simples desgostar, uma multidão de bípedes surge em sua defesa, brandindo as espadas do senso comum. Chega ser injusto com nossa própria consciência histórica encarar essas obras como algo merecedor de proteção, em nome do legado de seus autores ou influências. Como disse Jacques Le Goff certa vez, o dever da História é recuperar a memória e retificar seus erros. Como seres pensantes, também devemos recuperar a Literatura e retificar seus erros, salvo anacronismos, da melhor maneira possível, para que as obras não existam apenas como um pedaço de ficção e emoção pairando ao redor, mas também como motivo de reflexão crítica a respeito de seus autores, seus vieses, intenções e desdobramentos nos dias atuais.

sábado, 10 de março de 2018

A Noite dos Seres Negros - Rodrigo Kmiecik [SPOILER ALERT]

Dois homens conversavam em um Café. Apoiavam-se sobre uma mesa circular: um deles usava um chapéu e tomava uma xícara de café preto, o outro apreciava um chimarrão quente, em uma bonita cuia com entalhes ornamentados em alumínio. Sobre os olhos inteligentes deste, espessas sobrancelhas acinzentadas denotavam sua idade elevada. - Rodrigo Kmiecik
Um texto tardio continua sendo um texto tardio. Mas antes tarde do que nunca. Como prometido, o Golem resolveu se manifestar finalmente sobre o texto de um de seus membros.

Faz parte do segundo volume da Revista Diário Macabro um das narrativas dos colunistas da revista: Rodrigo Kmiecik. Estudante de história e escritor em horas vagas: é assim que ele se define, e lendo sua narrativa é notório uma rica pesquisa - conhecimento biológico, químico e botânico. A criatura em questão, que dá nome ao conto, é ao mesmo tempo esquisita e horripilante.

Quase como uma extensão dos Cthulhu Mythos Howardianos, ele trabalha tudo com descrições bastante visuais. O sangue, o mal, todos estão retratados com suas respectivas cores. O autor que aqui escreve já teve a oportunidade de ler outros textos dele - seja por que me enviou ou porque publicou em outras mídias - e o sucesso e a exatidão, seja escrevendo Espada & Feitiçaria ou Terror, se mantém em alto nível.

O autor trabalha com a originalidade sem perder o tato com o real, o que realmente tem de próximo: a fazenda, o sul do Brasil, Curitiba. Com referências a H.G. Wells, Robert E. Howard, e H.P. Lovecraft, Rodrigo tenta criar uma expansão própria e original da mitologia criativa e fundadora, fazendo um paralelo entre ficção científica e terror.

H. G. Wells, H. P. Lovecraft e Robert E. Howard

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Augusto dos Anjos e Lovecraft: uma tangente sobre a condição humana

Arte de Zdzislaw Beksinski
Já faz alguns anos desde que entrei em contato com a obra do meu poeta favorito, Augusto dos Anjos. Nesses tempos, eu já era familiarizado com a ficção do Lovecraft e começava a conhecer as entranhas do terror cósmico, gênero que tem como maior popularizador, sem sombra de dúvidas, o cavalheiro de Providence mencionado acima. E é curioso como sempre relacionei esses dois autores...

Sempre soube que havia algo que os ligava, mas demorei para começar a compreender o que era. Em primeiro lugar, tentava justificar minhas analogias entre os célebres artistas contando sobre suas vidas: ambos morreram muito jovens em decorrência de doenças fatais na época: Augusto pela pneumonia, Lovecraft pelo câncer intestinal. Doenças essas, aliás, agravadas pelas parcas condições financeiras dos dois escritores, cujas obras tiveram pouco reconhecimento enquanto eles viviam, e os autores, consequentemente, possuíram a vida adulta marcada pela pobreza. Tanto Lovecraft quanto Augusto nunca tiveram filhos; o paraibano chegou mais perto da paternidade, mas seu filho nasceu morto com 7 meses incompletos. Um estado emocional agravado pela tristeza foi recorrente nas vidas de Augusto e Lovecraft, e isso reflete em suas obras.

Augusto dos Anjos e H.P. Lovecraft, respectivamente
Mas os fatos biográficos pouco eram relevante para uma analogia entre os dois escritores, obviamente. Por mais que suas vidas sejam tragicamente interessantes, o legado escrito, a sua obra, é o que nos interessa, e é o que é digno de analogias. Foi só mais recentemente, relendo os versos de Augusto e aprofundando meus conhecimentos acerca do terror cósmico, que pude clarear um pouco esses cenários tão sombrios que mostravam-se timidamente a mim, já há um bom tempo. Anteriormente, eu via essa analogia entre os dois como dois pontos amarelos na escuridão, apenas os olhos brilhantes de um felino. Com o passar do tempo, ao desenvolver certa maturidade no assunto da Literatura, pude aumentar a luz da minha ótica sobre a escuridão, assim revelando as listras e os dentes daquele tigre que espreitava. Talvez a semelhança entre as obras fosse a temática como aquela abordada no poema "O Pântano", de Augusto dos Anjos, mas não: vai muito além dos fatores visuais da construção narrativa.

Portanto, vamos ao ponto: o americano nutria uma aversão à humanidade, enquanto Augusto parecia demonstrar pena dos seres humanos, talvez uma insatisfação com a sórdida condição de seus irmãos de espécie. Isso sustenta minha analogia: a visão dos autores sobre o ser humano. Em lugares diferentes do mundo, trabalhando um conceito semelhante, desenvolveram obras-primas que, apesar de destoarem em inúmeros fatores, coincidem no que concerne à análise das condições humanas perante o universo. Lovecraft escracha suas opiniões acerca da pequenez e da insignificância humana frente ao Cosmos. É bem evidente. Augusto também o faz, às vezes nas entrelinhas, outras vezes um pouco mais visivelmente. A obra do brasileiro é carregada de opiniões e sentimentos próprios, é claro, por isso é um pouco difícil apontar claramente os pontos em que essas duas linhas paralelas formam um ponto de tangência. Trago aqui um exemplo, para finalizar meu ponto de vista, com uma estrofe do magnífico "As Cismas do Destino":

Espaço - esta abstração spencereana
Que abrange as relações de coexistência
E só! Não tem nenhuma dependência
Com as vértebras mortais da espécie humana!

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O primeiro capitulo na Terra Selvagem... - A Torre do Elefante (Robert E. Howard)

Adaptação do conto A torre do elefante de R.E.H por Roy Thomas e arte de John Buscema a Alfredo Alcala
Tochas bruxuleavam obscuramente sobre a folia no Malho, onde os ladrões do Leste faziam carnaval à noite. No Malho eles podiam farrear e berrar à vontade, pois as pessoas honestas evitavam o bairro, e os guardas, bem pagos com moedas suspeitas, não perturbavam a diversão. Entre as ruas irregulares e sem calçamento, com seus montões de lixo e poças de lama, farristas bêbados cambaleavam, gritando. O aço faiscava entre as sombras, onde lobo caçava lobo, e da escuridão saltavam gargalhadas agudas de mulheres e um roçar de corpos em luta. Um brilho de tochas escorria lugubremente de janelas quebradas e portas escancaradas; e dessas portas provinham os cheiros nauseantes do vinho e o fedor dos corpos suados, um ruído de canecos e punhos martelando contra mesas rústicas e uns farrapos de canções obscenas, que saltavam como socos na cara. - Robert E. Howard

Em uma taverna entra um estranho, que ouve de uma criatura que um tesouro de grande poder se esconde atrás de portões de um temível  feiticeiro. É assim que começa A Torre do Elefante, a primeira aventura de Conan, o cimério em terras inóspitas.


Criando um clima que se tornaria um clichê do RPG, Conan neste momento de sua vida (por volta dos 17 ou 18 anos) ainda no inicio da sua carreira de ladrão. Na taverna mata um beberão depois de ser provocado e parte para assaltar a morada do feiticeiro Yara, dono de poderes inimagináveis graças ao seu tesouro: O Coração do Elefante.

Fazendo referência ao conto Sussurros na Escuridão de seu amigo H.P. Lovecraft, o conto descreve uma raça alien que teve suas asas atrofiadas e que chegaram antes mesmo da formação da humanidade.

Para saber mais sobre a obra de Robert E. Howard veja os especiais Robert E. Howard e os Cthulhu Mythos e A Saga Bibliográfica de Robert E. Howard na Weird Tales.



terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Especial Círculo das Ideias: A Saga Bibliográfica de Robert E. Howard na Weird Tales

Conan em The People of the Black Circle, na arte de Ken Kelly

Sem dúvidas, Conan é a criação mais conhecida de Robert E. Howard, certamente porque foi o personagem mais adaptado para outras mídias, como cinema: Conan, o Bárbaro (1982), Conan, o Destruidor (1984), Guerreiros do Fogo (1985) e Conan, o Bárbaro (2011); quadrinhos lançados pela Marvel Comics ou Dark Horse: A Espada Selvagem de Conan (1974~1995), Conan Rei (1980~1989), entre outros. Além de Conan, os personagens Kull e Solomon Kane, ambos criados por Robert E. Howard, foram sempre incluídos em adaptações nos quadrinhos, bem como ganharam suas versões no cinema: Solomon Kane (2009) e Kull, o Conquistador (1997). No entanto, este artigo visa uma viagem no tempo, para antes das adaptações de Roy Thomas ou o filme de John Milius. O presente texto busca voltar para as brumas do passado, para o início do século XX, quando o jovem Howard sentava-se em seu escritório e trabalhava arduamente em uma Underwood nº 5, criando personagens e aventuras que sobreviveram até os dias de hoje. Aliás, g
ostaria de avisar que todos os contos que encontrei traduzidos no Crônicas da Ciméria foram linkados no post, então, ao longo do texto,  basta clicar no título das histórias e ser redirecionado para a página do Crônicas da Ciméria. Excelentes traduções.

Edição da Weird Tales onde Lança e Presa foi publicada
Tudo começou em 1924, quando Howard decidiu que se tornaria um escritor profissional, abandonando seu curso de contabilidade e contrariando o desejo do pai de ver o filho formado. Afirmou que poderia criar histórias e vendê-las para as revistas da época, então pai e filho acabaram entrando em um acordo: Howard teria um ano para se dedicar à produção literária, criando, escrevendo, tentando vender contos e poemas. Se obtivesse êxito, seguiria a profissão que ele tanto almejava; caso contrário, iria se dobrar à vontade do pai e conseguir um diploma. Então, todos os dias os tipos de sua Underwood nº 5 puseram tinta negra sobre papéis brancos, e Howard trabalhou arduamente. Até que, finalmente, em novembro de 1924, o jovem Howard - que possuía apenas 18 anos na época - conseguiu vender sua primeira história. Lança e Presa (Spear and Fang) foi publicada em julho de 1925, e rendeu a ele 16 dólares. Tratava-se de uma história simples e vigorosa, com fortes influências de Edgar Rice Burroughs na temática e na prosa, onde um homem das cavernas salva a vida de uma das mulheres de sua tribo, quando esta é raptada por um neandertal (hominídios que habitavam as densas florestas do mundo pré-histórico e viviam constantemente em guerra com os homens das cavernas). Era o início de uma carreira prolífica e tragicamente curta. 

Edição da Weird Tales onde Howard foi,
pela primeira vez, capa da revista
No mesmo ano de 1925, Howard teve mais uma história publicada: Na Floresta de Villefére (In the Forest of Villefere). Em 1926 ele publicou Cabeça de Lobo (Wolfshead), conto que continuava a trama iniciada em Na Floresta de Villefére, abordando mais uma vez a temática de licantropia e maldição; é um ponto importante em sua carreira, pois Cabeça de Lobo foi sua primeira história a ser capa da Weird Tales, sendo também o mais elaborado conto em seus primeiros anos de escrita. Bran Mak Morn, o último rei dos pictos, surgiu em 1927, no conto A Raça Perdida (The Lost Race), ambientado durante as invasões romanas na Grã-Bretanha. No mesmo ano, Robert E. Howard não conseguiu publicar mais contos, somente dois poemas, e a escrita rendia pouco. Por isso, teve de se manter em empregos que não gostava, como trabalhar em uma farmácia, para garantir uma renda maior do que o pouco que ele conseguia na Weird Tales, até então.

Edição da Weird Tales com o
primeiro conto de Solomon Kane na capa

Em 1928, as coisas começaram a dar realmente certo. Howard iniciou as publicações logo em janeiro, com um poema. Em fevereiro março e maio, ele vendeu três contos de horror: A Serpente do Sonho (The Dream Snake), 
A Hiena (The Hyena) e A Maldição do Mar (Sea Curse), respectivamente, e os poemas continuaram firmes, tendo ele vendendo 5 poesias para a Weird Tales, neste mesmo ano.  Mas 1928 é tão importante pois, em agosto deste ano, vem à vida um dos maiores personagens de Howard: Solomon Kane. O conto Sombras Vermelhas (Red Shadows) foi sua melhor história desde Cabeça de Lobo, agradando tanto editores quanto os leitores. Os editores colocaram a história como capa da edição, e os leitores aceitaram o personagem de braços abertos. Logo viriam novas histórias de Kane, pois Howard sabia o que o público queria. 

Edição da Weird Tales onde surgiu
Kull e o primeiro conto de
Espada & Feitiçaria
E mais histórias vieram. Howard abriu o ano de 1929 publicando As Caveiras nas Estrelas (Skulls in the Stars), sua segunda história de Solomon Kane.  A popularidade do personagem aumentava juntamente com a de seu autor, e em junho Kane teve seu terceiro conto publicado, O Chacoalhar de Ossos (Rattle of Bones). No mesmo ano, Howard criou algo novo dentro da literatura fantástica, algo que moldaria com aço e sangue os rumos da fantasia moderna.  Em agosto de 1929, Robert E. Howard inaugurava o gênero Espada & Feitiçaria com um novo personagem em sua mais nova publicação: O Reino das Sombras (The Shadow Kingdom), primeiro conto do rei Kull da Atlântida, enfrentando uma sangrenta conspiração de homens-serpentes. Logo no mês seguinte o rei Kull já ganhava seu segundo conto publicado, Os Espelhos de Tuzun Thune (The Mirrors of Tuzun Thune).  Há quem pense que a Espada & Feitiçaria surgiu com Conan em 1932, mas Kull foi o pai do gênero em 1929. Alguns afirmam que o gênero já existia há um ano, por considerarem as histórias de Solomon Kane como contos de Espada & Feitiçaria. Eu, em minha sincera e humilde opinião, discordo. Kane se enquadra muito mais nas histórias de Capa & Espada, e a feitiçaria era pouco ou quase nada presente em suas histórias; já em Kull, todos os elementos do gênero estavam lá, pulsantes. Também em 29, Howard publicou sua mais extensa história de horror: Rosto de Caveira (Skull-face). 

H. P. Lovecraft, autor, amigo e correspondente
 de Robert E. Howard
Autores como H. P. Lovecraft elogiaram amplamente a originalidade e o vigor das mais novas criações de Howard. "Ninguém escrevia mais convincentemente sobre violência e sangue derramado, e as suas descrições de batalhas revelavam uma aptidão instintiva para tácticas militares que lhe trariam distinções em tempos de guerra", afirmou Lovecraft, em seu texto Em Memória de Robert E. Howard. "Com estes contos o Sr. Howard atingiu o que provou ser um dos seus feitos mais eficazes - a descrição de cidades megalíticas do mundo antigo, sob cujos labirintos e torres negras se escondia uma áurea de medo pré-humano e necromancia que nenhum outro escritor poderia imitar. Estes contos também marcaram o desenvolvimento dessa habilidade do Sr. Howard e o gosto pelo conflito sanguinário que se tornou tão típico do seu trabalho."

Kull - Exílio de Atlântida, edição em livro
que compila todas as histórias do rei Kull
O ano de 1930 não contou com novos personagens de Howard nas páginas da Weird Tales. Ele já possuía dois bons personagens, e suas histórias continuam bem aceitas pelo público e pelos editores. Em junho e julho, A Lua das Caveiras (The Moon of Skulls) foi publicada, divida em duas partes. Era o mais novo e o quarto conto do puritano Solomon Kane, envolvendo o rapto de uma criança da nobreza, uma civilização perdida nas selvas da África e um culto diabólico. Em agosto, As Colinas dos Mortos (The Hills of the Dead) foi vendida e publicada, sendo esta a quinta história de Kane, que já era consideravelmente famoso nas páginas da revista; esta é, também, uma das primeiras histórias da ficção fantástica a possuir o conceito de mortos-vivos ou zumbis. Além da poesia, que já era algo regular nas vendas, Robert E. Howard trouxe uma nova história do rei Kull em novembro, misturando diversos de seus personagens e envolvendo um conceito de viagem no tempo através da feitiçaria. No conto Os Reis da Noite (Kings of the Night), Bran Mak Morn invoca o Kull para que ele o ajude a liderar seus guerreiros contra as legiões romanas; o conto é uma salada histórica, envolvendo vikings da Dinamarca, mercenários gaélicos e os pictos das Terras Altas.

Os Deuses de Bal-Sagoth em
publicação póstuma, em livro
Os Filhos da Noite (The Children of the Night), uma história de terror que envolve uma volta à vidas passadas e batalhas sangrentas, foi o primeiro conto publicado em 1931. Logo depois, Howard vendeu Passos Interiores (The Footfalls Within), expandindo ainda mais a saga do incansável Solomon Kane. Neste ano, surgiu também um grande personagem de Howard, porém pouco conhecido e lembrado. Turlogh O'Brian é um guerreiro irlandês, um homem frio, taciturno e vingativo, que enfrenta chefes gaélicos e vikings dinamarqueses. Apareceu pela primeira vez em outubro, no conto Os Deuses de Bal-Sagoth (The Gods of Bal-Sagoth), e depois em dezembro, em A Noite do Deus Negro (The Dark Man). Neste meio tempo, em novembro, Howard publicou um excelente conto de horror lovecraftiano, chamado A Pedra Negra (The Black Stone), envolvendo um culto profano e os mistérios acerca de um monólito nas montanhas da Hungria. Tal história expande o universo criado por Lovecraft, adicionando a ele o livro negro Unaussprechlichen Kulten, de Von Junzt, que funciona como o Necronomicon de Lovecraft.

Bran Mak Morn na arte de Gary Gianni
1932 começou, para Robert E. Howard, em fevereiro, com a publicação de A Coisa no Telhado (The Thing on the Roof), novamente mais um conto Lovecraftiano de horror. Depois vieram O Horror da Colina (The Horror from the Mound), novo conto de horror, e Asas na Noite (Wings in the Night), mais uma história com Solomon Kane no papel principal. Foi também neste ano que surgiram as maiores criações de Robert E. Howard: Conan e A Era Hiboriana. Após os editores recusarem uma nova história de Kull, Howard transformou-a em um novo conto, adicionando mais elementos fantásticos, criando um novo personagem e com ele todo um novo mundo. Era então o início da saga do cimério de bronze, começando com A Fênix na Espada (The Phoenix on the Sword), em dezembro, onde o rei Conan enfrenta magia negra e uma conspiração de nobres e barões de sua corte. No mês anterior, foi publicado o conto Os Vermes da Terra (Worms of the Earth), tido por muitos como a melhor obra de Howard. Aqui, Bran Mak Morn está infiltrado entre os romanos como um emissário picto, e trama uma obscura vingança contra Titus Sulla, o impiedoso governador romano da província de Eboracum.

Edição da Weird Tales com Colosso
Negro na capa
Conan havia nascido,  e isso significava que os leitores da Weird Tales tinham um novo personagem howardiano para apreciar. E apreciaram muito. Mais que Solomon Kane e muito mais que Kull, o bárbaro da Era Hiboriana foi amplamente aceito; com certeza absoluta, foi o maior e mais cultuado personagem da história da revista. 1933 iniciou com a publicação de A Cidadela Escarlate (The Scarlet Citadel), segundo conto de Conan, que enfrenta invasões e batalhas sangrentas sob a coroa da Aquilônia, defendendo suas fronteiras. Em março, Howard nos leva à juventude do cimério, quando este era ladrão em Zamora, e desafiava os mistérios da Torre do Elefante (The Tower of the Elephant). Em abril e maio, dois poemas foram publicados, e em junho Conan retornava às páginas da Weird Tales com Colosso Negro (Black Colossus), história que deu a Howard a honra de ser novamente capa da revista. Em setembro, Conan enfrentava um deus amorfo na cidade perdida de Xuthal, no conto Xuthal do Crepúsculo (The Slithering Shadow); e em outubro, desafiava com espada e fúria uma raça perdida em O Poço Macabro (The Pool of the Black One), numa ilha longínqua nos mares hiborianos.

Edição da Weird Tales com A Rainha
da Costa Negra na capa
A cada mês, Conan tornava-se popular e adorado, e Howard escrevia incansavelmente novas histórias, publicando e lucrando como nunca, tendo há muito abandonado seus antigos empregos e vivendo apenas da escrita. É notável dizer que, em seus últimos anos de carreira, Howard ganhava mais que qualquer outra pessoa de sua cidade, em sua profissão dos sonhos. Em 1934, janeiro trazia um novo conto de Conan, Inimigos em Casa (Rogues in the House). Em fevereiro, Howard deixa o cimério para publicar O Vale do Verme (The Valley of the Worm), cultuado conto de Espada & Feitiçaria com elementos de horror lovecraftiano.


Edição da Weird Tales com O Demônio
de Ferro na capa
Conan retorna em abril com Sombras de Ferro Sobre a Lua (Shadows in the Moonlight) e reaparece em A Rainha da Costa Negra (Queen of the Black Coast) em maio, sendo capa desta vez; esta é uma das histórias mais elogiadas de Howard, onde o bárbaro se une à Bêlit, a pirata mais temida dos mares da Costa Negra, e juntos vivem anos de saques e pilhagens, até confrontarem um horror escondido nas ruínas de uma cidade perdida. Junho conta com O Portador do Anel (The Haunter of the Ring), onde Howard volta a publicar contos de terror à moda antiga. Em O Demônio de Ferro (The Devil in Iron), Conan enfrenta um homem-demônio poderoso que encarnou em um corpo de ferro indestrutível, buscando salvar uma refém raptada nas ruínas da ilha de Xapur, a Fortificada. Setembro, outubro e novembro contaram com a presença de O Povo do Círculo Negro (The People of the Black Circle), publicada em três partes, sendo capa na primeira, e Conan brandiu sua espada contra os poderosos profetas negros, feiticeiros temidos na Vendhya, que tramavam contra o trono. No mês seguinte, Nascerá Uma Bruxa (A Witch Shall be Born) também foi capa, e Conan voltou a empunhar sua espada. 


Edição da Weird Tales com As Negras
Noites de Zamboula na capa
Em  março de 1935, Conan foi atrás de um dos maiores tesouros do mundo em As Jóias de Gwahlur (Jewels of Gwahlur). Logo depois, em maio e junho, Além do Rio Negro (Beyond the Black River) era publicada. Aqui, o cimério servia a Aquilônia no oeste, batalhando na fronteira com os pictos, enfrentando as invocações de um temível feiticeiro e a união dos clãs, que subjugaram os aquilonianos em sua invasão ambiciosa. Howard publica então, em novembro, As Negras Noites de Zamboula (Shadows in Zamboula), onde Conan enfrenta os canibais de uma cidade tomada pelo medo e pelo governo sujo e teocrático. Em dezembro, é lançada a primeira parte do único romance escrito por Howard e protagonizado por Conan: A Hora do Dragão (The Hour of the Dragon). 

Edição da Weird Tales com Pregos
Vermelhos na capa
De janeiro à abril, A Hora do Dragão foi publicada, em 1936. Então, ocorre o trágico suicídio de Robert E. Howard, no dia 11 de junho de 1936. Ele havia vendido sua última história de Conan, Pregos Vermelhos (Red Nails), e ela foi publicada postumamente em três partes, de julho a outubro, sendo a primeira capa da Weird Tales. Howard morreu mas seu legado continua até hoje, e logo após a morte, em 36, muitas de suas histórias foram publicadas, entre elas O Fogo de Asshurbanipal (The Fire of Asshurbanipal), um conto lovecraftiano que envolvia a busca por um artefato misterioso perdido em ruínas árabes, guardado por um ser cósmico que lhe dava poder. Em 1937, apenas um conto foi publicado, Não Cavem Meu Túmulo (Dig Me No Grave). Em 38 e 39, apenas poemas foram publicados,  com exceção do romance Almuric (Almuric), uma história de Espada & Planeta, onde um lutador foragido acaba viajando no tempo e espaço para outro planeta, comprando lá um dos lados na luta pela vida entre povos selvagens. É uma história fortemente influenciada pela série John Carter, de Edgar Rice Burroughs, a quem Howard admirava. Durante os anos 50 e 70, a Weird Tales republicou várias de suas histórias como: Pombos do Inferno (Pigeons from Hell), A Pedra Negra, A Noite do Deus Negro,  A Maldição do Mar e a longínqua Lança e Presa, primeira história de Robert E. Howard a ser publicada na Weird Tales, sendo uma das últimas a receber republicação, como homenagem.

NOTA DO ARTIGO: vale relembrar que todos os contos que encontrei traduzidos no Crônicas da Ciméria foram linkados no post, então, ao longo do texto,  basta clicar no título das histórias e ser redirecionado para a página do Crônicas; aproveito para agradecer o Fernando Aragão, um dos donos do blog, pelas excelentes traduções e total dedicação para com o legado do Howard. Fiz o texto com o intuito de listar todas - ou a maioria - as obras de Howard publicadas na Weird Tales. É claro que muitos de seus escritos não foram publicados na Weird Tales, mas em outras revistas, como Argosy e Oriental Stories, e estes não mencionei. Muitas histórias foram publicadas postumamente em livros e na própria Weird Tales, e mencionei apenas as que foram publicadas na revista. Meu texto, evidentemente, não tem o objetivo de resenhar ou analisar as obras, apenas listá-las e dissertar sobre a evolução da carreira de Howard, ainda que eu tenha tomado a liberdade de dar opinião e fazer breves comentários sobre o conteúdo de algumas histórias. 

SOBRE ROBERT E. HOWARD: Robert Ervin Howard (1906~1936), comumente conhecido como Robert E. Howard, foi um prolífico escritor americano que atuou primariamente como contista e poeta. Em sua vida profissional, Howard flertou com diversos gêneros na ficção, como horror, terror e suspense, aventura, fantasia, boxe, faroeste, histórias de piratas, espada & planeta, capa & espada, ficção histórica e espada & feitiaria. Constante colaborador das revistas pulp dos anos 20 e 30, muito populares nos EUA da Grande Depressão, o escritor é atualmente mais conhecido pela autoria do personagem Conan, o bárbaro, bem como por ser considerado, historicamente, o pai do gênero Espada & Feitiçaria (sword and sorcery), que deu origem à fantasia moderna difundida por autores como J. R. R. Tolkien, George R. R. Martin, Andrzej Sapkowski e Michael Moorcock.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Especial Círculo das Ideias: A Poética Fantasia de Clark Ashton Smith

Clark Ashton Smith em 1912
A literatura Pulp dos anos 30 vem sendo redescoberta no Brasil, ainda que timidamente. Diversas editoras apostarem em nomes como H.P. Lovecraft e Robert E. Howard em suas publicações recentes. Exemplos são a editora Hedra, que lançou vários livros de bolso e coletâneas de contos de Lovecraft, bem como a Editora Clock Tower, que nos trouxe uma fantástica edição de contos de horror de Robert E. Howard, juntamente com republicações de sua conhecida antologia lovecraftiana. 

Lovecraft e Howard faziam parte do três pilares da Weird Tales, revista que publicava a maior parte da obra destes autores. O outro escritor, que completava o trio, era o californiano Clark Ashton Smith. Ele nasceu em 1893 e foi um talentoso artista autodidata. Aos 11 anos de idade começou a escrever sua ficção, fortemente influenciado pelos contos de fadas dos Irmãos Grimm e os contos árabes das Mil e Uma Noites; durante a adolescência, teve contato com os magníficos trabalhos de Edgar Allan Poe e William Beckford. Aos 17, Ashton Smith vendeu alguns contos para revistas da época, e aos 19 teve contato com a poesia do renomado francês Charles Baudelaire, além de conhecer também a ficção de Ambrose Bierce e Jack London (chegou a trocar correspondência com estes autores). Essa trajetória de escrita e leitura formou o alicerce do que seria sua obra: uma prosa cheia de poesia, pintada nas cores do horror e do fantástico.

Clark Ashton Smith em 1958
Apesar de começar a sua carreira publicando contos, Clark Ashton Smith teve forte destaque inicial com sua poesia (esta que Lovecraft admitiu ser um grande fã). Até 1925, Smith produziu poesia de forma prolífica, tendo escrito suas mais famosas obras do gênero nesse período.

De 1926 a 1936, Smith dedicou-se a escrever e publicar histórias curtas, retomando a produção de contos fantásticos que o iniciara no mercado literário. Ashton Smith influenciou fortemente autores como H.P. Lovecraft, e também foi influenciado por ele. Durante estes 10 anos, Smith publicou contos fantásticos ambientados em planetas mortos e mundos congelados apinhados de feiticeiros, bem como escreveu histórias que fizeram parte dos Mitos de Cthulhu, expandindo o universo criado por Lovecraft. 


Futuramente, após a morte de Lovecraft em 37, Smith abandonou a produção de contos. Boa parte das histórias de Smith foram publicadas em seis volumes na Arkham House, editora fundada pelo escritor August Derleth, com objetivo de publicar a obra do falecido Lovecraft e trazer em edições de capa dura as obras de autores notáveis da época.

Pintura sem título, por Ashton Smith, de 1926
Tendo deixado a escrita em 37, Smith voltou suas inspirações para outras formas de arte. Até 1961, quando morreu, ele trabalhou com pinturas, desenhos e principalmente escultura. Tentou também voltar a escrever poesia, mas perdeu o interesse com a falta da qualidade que seus versos apresentavam, em comparação com sua poesia dos anos 20. 

É notável observar que sua prosa foi algo muito diferente do habitual, na época. Por ser poeta e ter grande fascínio pelas artes plásticas, sua prosa continha descrições detalhadas como esculturas e muito lirismo. Os temas mais recorrentes em sua obra eram civilizações perdidas na Terra, algumas de raças anteriores ao ser humano; terras fantásticas como Hiperbórea, a Groenlândia pré-histórica famosa por seus feiticeiros; planetas habitados por alienígenas como Aihai (Marte) - tal tema, acredito, foi fortemente influenciado pela ficção de Edgar Rice Burroughs, com seus romances planetários de John Carte; selvas habitadas por plantas demoníacas; continentes perdidos em um futuro distante do planeta Terra, entre outros cenários quiméricos. 

Azathoth, esculpido por Ashton Smith
Apesar de sua originalidade e genialidade, Smith ainda é muito desconhecido no Brasil. Temos esperança de que a Editora Clock Tower, em seu projeto de trazer autores esquecidos ao público, nos presenteie com edições da obra de Clark Ashton Smith. Não custa sonhar. Algo que podemos apreciar e devemos agradecer são as traduções que o autor ganhou através de José Geraldo Gouvêa, que escreve no blog Letras Elétricas e é profundo conhecedor da obra de Smith. É possível encontrar a tradução (excelente, diga-se de passagem) de diversos contos do autor no blog. Os contos disponíveis são: As Abominações de Yondo; Abandonados em Andrômeda; A Paisagem com Salgueiros; Uma Noite em Malnéant; O Demônio da Flor; Vulthoom; Pegadas no Pó; Esquizofrênico Criador;. Também presente no blog está um excelente artigo sobre A Ficção de Clark Ashton Smith; recomendo fortemente que leiam, caso queiram um texto mais completo e informativo sobre a vida e obra do autor. 

Clark Ashton Smith foi um mestre do fantástico que merece ser lido e conhecido. Sua influência ainda ecoa na obra de grandes autores como Robert Aickman, Thomas Ligotti e Ramsay Campbell. Toda a obra de Smith - poesia, contos, desenhos, pinturas, esculturas e correspondência - se encontra em inglês no site The Eldritch Dark. Espero que estes breves comentários despertem o interesse de novos leitores do fantástico, para que busquem os antigos mestres esquecidos através do fascínio e curiosidade que o desconhecido horror nos provoca. Iä! Iä! Cthulhu fhtagn!

   

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Notícias: Clock Tower - Arthur Machen - Prazo prorrogado

Foi prorrogado até dia 13 de janeiro a campanha do livro "O Mestre do Oculto" produzido pela Clock Tower sobre Arthur Machen. A campanha que acabaria hoje, teve o prazo estendido devido a muitos pedidos. O processo editorial da Editora Clock Tower segue normalmente com previsão de impressão e envio o 1º trimestre.

A edição limitada reuni 9 contos do autor galês, incluindo sua obra mais conhecida, O Grande Deus Pã (que também é livro da Penalux e foi resenhado pelo Rodrigo Kmiecik) e uma série de extras.

A Editora Clock Tower, responsável pelo lançamento de O Rei de Amarelo de ChambersO Mundo Sombrio de Robert E. Howard (indisponíveis temporariamente para aquisição) e O Mundo Fantástico de H.P. Lovecraft (esgotado no momento), está terminando o financiamento de Arthur Machen – O Mestre do Oculto, primeira obra mais completa em português reunindo obras do autor. E a editora tem planos no futuro de seguir com livros de Machen, uma vez que eles tem material já traduzido para mais 2 livros.


Assim como em seus lançamentos anteriores, a Clock Tower define este novo projeto como um "livro participativo": quanto mais pessoas adquirirem a obra, mais extras poderão ser adicionados. O livro só poderá ser comprado na pré-venda, e depois disso não será mais vendido.

Arthur Machen foi um escritor e jornalista galês, conhecido por suas obras sobrenaturais e de fantasia. Seu conto mais conhecido, a novela O Grande Deus Pã, estará no livro da Clock Tower junto com outras obras inéditas em nosso idioma.

A biobibliografia do autor no livro 'Arthur Machen - O Mestre do Oculto' da Editora Clock Tower irá contar com aproximadamente 18 páginas, fruto da pesquisa do prof. Edgar Smaniotto e de algumas fotos de localidades (entre elas Carleon) da vida de Machen.

Mais informações sobre a editora e o livro:

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Notícias: Clock Tower - Arthur Machen - Último dia


Amanhã é o último dia para da campanha do livro "O Mestre do Oculto" produzido pela Clock Tower sobre Arthur Machen. A edição limitada reuni 9 contos do autor galês, incluindo sua obra mais conhecida, O Grande Deus Pã (que também é livro da Penalux e foi resenhado pelo Rodrigo Kmiecik) e uma série de extras.

A Editora Clock Tower, responsável pelo lançamento de O Rei de Amarelo de ChambersO Mundo Sombrio de Robert E. Howard (indisponíveis temporariamente para aquisição) e O Mundo Fantástico de H.P. Lovecraft (esgotado no momento), está terminando o financiamento de Arthur Machen – O Mestre do Oculto, primeira obra mais completa em português reunindo obras do autor. E a editora tem planos no futuro de seguir com livros de Machen, uma vez que eles tem material já traduzido para mais 2 livros.

Assim como em seus lançamentos anteriores, a Clock Tower define este novo projeto como um "livro participativo": quanto mais pessoas adquirirem a obra, mais extras poderão ser adicionados. O livro só poderá ser comprado na pré-venda, e depois disso não será mais vendido.

Arthur Machen foi um escritor e jornalista galês, conhecido por suas obras sobrenaturais e de fantasia. Seu conto mais conhecido, a novela O Grande Deus Pã, estará no livro da Clock Tower junto com outras obras inéditas em nosso idioma.

A biobibliografia do autor no livro 'Arthur Machen - O Mestre do Oculto' da Editora Clock Tower irá contar com aproximadamente 18 páginas, fruto da pesquisa do prof. Edgar Smaniotto e de algumas fotos de localidades (entre elas Carleon) da vida de Machen.

Mais informações sobre a editora e o livro:


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