quarta-feira, 19 de março de 2025

Genocídio Intelectual - Olhos D'Água de Conceição Evaristo


Lembro-me de que, em um excelente texto publicado após a VII Fantasticon de São Paulo, no longínquo ano de 2013, Bráulio Tavares fez menção à frase de Cortázar de que um romance é como uma luta de boxe vencida por pontos, enquanto o conto é uma luta decidida por nocaute. Tavares complementa essa ideia ao afirmar que o romance é uma maratona, enquanto o conto é uma corrida de cem metros rasos. Se nos restringirmos ao universo dos contos, podemos dizer que, quando uma coletânea ou antologia é devidamente organizada, sua estrutura pode simbolizar modelos de destinos prováveis, reunidos em um apanhado de episódios.

Em Olhos D'Água, de Conceição Evaristo (Editora Pallas, 2014), livro de relativo e surpreendente sucesso, as vidas das personagens correm paralelamente em um país que, em todos os sentidos, deu errado, resultando na submissão quase inevitável a comportamentos tribais e, em alguns casos, a formas de jagunçagem ainda mais violentas que as do período lampiônico. Toda a unidade central do volume nos conduz a uma compreensão mais profunda e nos oferece, enfim, uma linguagem robusta para expressar a truculência de ser brasileiro nas grandes capitais.

Não é de hoje que a vaca da nação foi para o brejo. A revista IstoÉ Dinheiro publicou uma matéria na qual a World Population Review, empresa privada e independente especializada na análise e produção de dados demográficos, revelou que, ao longo das últimas quatro décadas, o QI (quociente intelectual) do brasileiro vem caindo a passos largos, atingindo 83,38 pontos — o pior nível desde o início da medição. Para efeito de comparação, a média global é de 85,33 pontos, enquanto o QI médio considerado normal é de 100.

Isso representa um desastre social e econômico de difícil conserto no curto prazo, com impactos negativos que persistirão por muitos anos. Essa métrica possui forte poder preditivo sobre o crescimento do PIB e o bem-estar de uma sociedade. Os números catastróficos obtidos pelo Brasil no campo da educação, como os resultados do teste PISA-2022, mostram que os jovens brasileiros não apenas estão entre os que apresentam os piores desempenhos nas três dimensões avaliadas (matemática, leitura e ciências), mas também que seus resultados continuam piorando. Trata-se de um verdadeiro genocídio intelectual.

Segundo o portal UOL, o Brasil lidera o ranking mundial de homicídios, conforme estudo da ONU, registrando 10,4% do total de homicídios do mundo por ano (com referência ao ano de 2021). Em homicídios per capita, o país ocupa a 11ª posição, com 22,38 mortes a cada 100 mil habitantes — quase quatro vezes mais do que a média global. O país também lidera em números absolutos, de acordo com dados do Estudo Global sobre Homicídios, publicados em 2023. Em uma pesquisa rápida, podemos encontrar, até mesmo em materiais educacionais para vestibular, indicadores alarmantes: em 2015, o Brasil registrou 59.080 assassinatos, segundo o Sistema de Informações sobre Mortalidade do governo federal.

Ou seja, mais de 160 pessoas são mortas por dia no país, vítimas de homicídios dolosos (com intenção de matar), latrocínios (roubos seguidos de morte) e lesões corporais seguidas de morte. Para se ter noção da gravidade, em 2015, o número de assassinatos no Brasil foi 15 vezes maior do que o total de mortes causadas pelos 559 atentados terroristas registrados no mesmo ano, que vitimaram 3.830 pessoas, segundo a organização Peacetech Lab. Se analisarmos os dados entre 2011 e 2015, foram assassinadas no país mais de 270 mil pessoas — um número equivalente ao total de mortos na Guerra da Síria no mesmo período. Outro genocídio.

Essa situação humana é catastrófica, e a cultura não está alheia a isso, significando que ela está mais afundada que R'lyeh. Se a realidade descrita acima é verdadeira, então não há vocabulário suficiente, não há imaginação suficiente para abarcar esse dois genocídios — pelo menos até agoraAcredito que quem nos tirou do coma moderno foi a autora e este pequeno volume. Nota-se que seus personagens são exatamente aqueles descritos nas pesquisas citadas ou, caso não o sejam, vivem em um meio tão corrompido por esses dois genocídios que acabam se rendendo completamente — seja como vítimas, seja como aqueles que se aproveitam desse contexto.

As histórias se desenrolam dentro de um recorte racial específico, em quinze contos que abordam o cotidiano de personagens negras. Ainda que haja diversidade nas narrativas (as duas últimas são mais esperançosas do que eu poderia imaginar), a violência e os problemas educacionais, somados à falta de cognição, preenchem boa parte deste pequeno volume. Tudo é cru.

Se Adriana Ferreira, do site Raízes, afirma que o início, meio e fim das vivências periféricas são quase sempre trágicos e não poupam ninguém (homens, mulheres, crianças), podemos dizer que essa realidade não se limita às periferias, mas ao Brasil como um todo.

Para me fazer entender melhor, tomarei como exemplo a história "Maria".

O primeiro parágrafo serve como introdução ao leitor. A apresentação da personagem-título ocorre em um parágrafo de qualificação praticamente tirado do Código Civil, no qual são informados seu nome, profissão, domicílio e filhos. Aqui, são definidas as pessoas e os elementos que compõem seu cotidiano. Quem determina as partes que irão compor a narrativa é sempre o autor, que tem o poder de individualizar os elementos e evitar equívocos, sem recorrer a subterfúgios ou a uma redação deliberadamente vaga, imprecisa ou genéricaSegue o texto:

Maria estava parada há mais de meia hora no ponto do ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. O preço da passagem estava aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa na casa da patroa. Ela levava para casa os restos. O osso do pernil e as frutas que tinham enfeitado a mesa. Ganhara as frutas e uma gorjeta. O osso, a patroa ia jogar fora. Estava feliz, apesar do cansaço. A gorjeta chegara numa hora boa. Os dois filhos menores estavam muito gripados. Precisava comprar xarope e aquele remedinho de desentupir nariz. Daria para comprar também uma lata de Toddy. As frutas estavam ótimas e havia melão. As crianças nunca tinham comido melão. Será que os meninos iriam gostar de melão? (EVARISTO, 2016, p. 41)

Estabelecendo, então, que Conceição Evaristo não tangencia em nenhum momento do livro o tema proposto, mas o enfrenta diretamente, o eixo narrativo se desvia para um encontro súbito: Maria reencontra o pai de seu filho, a quem não vê há muito tempo. Ele é descrito como bonito e imponente, porém, seus olhos estão perdidos e assustados.

Ao entrar, um homem levantou lá de trás, do último banco, fazendo um sinal para o trocador. Passou em silêncio, pagando a passagem dele e de Maria. Ela reconheceu o homem. Quando tempo, que saudades! Como era difícil continuar a vida sem ele. Maria sentou-se na frente. O homem assentou-se ao lado dela. Ela se lembrou do passado. Do homem deitado com ela. Da vida dos dois no barraco. Dos primeiros enjoos. Da barriga enorme que todos diziam gêmeos, e da alegria dele. Que bom! Nasceu! Era um menino! E haveria de se tornar um homem. Maria viu, sem olhar, que era o pai do seu filho. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, o olhar assustado não se fixando em nada e em ninguém. (EVARISTO, 2016, p. 42)

Túlio Romualdo Magalhães erra ao interpretar a cena sob uma perspectiva patriarcal. Em seu artigo sobre Maria, ele afirma:

"Evaristo, dessa forma, confere, na narrativa, uma complexa humanização para esse sujeito que, ao mesmo tempo que possui seus privilégios por ser homem, sofre em demasia numa sociedade racista e classista, na qual ele é constantemente subalternizado."

No entanto, o ex-homem de Maria não está nervoso por sofrer em uma sociedade racista e classista, mas sim pelo que está prestes a fazer na presença da personagem. A narrativa transcorre com uma breve conversa sussurrada entre ambos. A viagem tranquila é abruptamente interrompida, ganhando contornos angustiantes, quando Maria o testemunha armado, assaltando os passageiros da condução. O final é catártico: mesmo vendo tudo diante dos próprios olhos, Maria não percebe que seu ex é o assaltante. Isso fica evidente na seguinte passagem:

Alguém gritou que aquela puta safada lá da frente conhecia os assaltantes. Maria se assustou. Ela não conhecia assaltante algum. Conhecia o pai de seu primeiro filho. Conhecia o homem que tinha sido dela e que ela ainda amava tanto. (EVARISTO, 2016, p. 43)

Para Maria, toda aquela cena não chega à sua consciência – ela não compreende por que está sendo agredida, linchada e morta. Ela foi vista conversando aos sussurros com o assaltante, mas pensa consigo mesma: Não conhecia assaltante algum. Para ela, a figura do pai de seu primeiro filho e a do homem que cometeu o crime aos olhos vistos, ou pior, aos seus olhos não se sobrepõem. Há uma incapacidade de compreensão da realidade – e só isso já daria um livro inteiro. Se os personagens machadianos, que inundaram nossa literatura, negam a realidade por meio da dissimulação (como vemos em O Enfermeiro, A Cartomante e A Causa Secreta), a personagem evaristiana é incapaz de dissimular, pois não compreende onde está inserida.

Ódio, raiva e rancor, sentimentos que permeiam vastas obras da literatura nacional e que muitas vezes partem da mesquinhez, inveja e ciúme, ganham em Conceição Evaristo outra perspectiva. A autora parte do pressuposto de que a realidade é incompreensível para algumas pessoas e isso as define. A clareza da situação fere Maria, pois ela não possui os meios necessários para interpretá-la, enquanto essa mesma clareza move seus agressores, que a lincham por acreditarem que ela estava mancomunada com os assaltantes. Essa ignorância sobre o que é real compõe sua identidade, a ponto de ela sequer se defender, pois também não entende por que está sendo agredida.

Tudo foi tão rápido, tão breve, Maria tinha saudades de seu ex-homem. Por que estavam fazendo isto com ela? (EVARISTO, 2016, p. 44)

Segundo a Rede de Observatórios de Segurança:

"Linchamentos são respostas da sociedade que desacredita do sistema de justiça e resolve os problemas com as próprias mãos em um ato bárbaro."

A população lincha Maria não apenas por racismo, mas por raiva e pela certeza de que não terão seus bens devolvidos, assassinando-a enquanto exclamam todo tipo de impropério. Está claro, por tudo o que vemos, que os problemas vão além de raça, sexo e classe. Existe hoje um problema profundo na cultura brasileira, uma lógica genocida que extermina a todos, calando qualquer manifestação de vocalização de ideias e, se não as ideias, a existência material de seus possíveis porta-vozes.


Trabalhos Citados

BRASIL lidera ranking de homicídios no mundo, mostra estudo da ONU. UOL, 8 dez. 2023. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2023/12/08/brasil-lidera-ranking-de-homicidios-no-mundo-mostra-estudo-da-onu.htm. Acesso em: 3 jul. 2024.

CASOS de linchamentos crescem 61% em apenas seis meses no Piauí, aponta levantamento. G1, 6 out. 2022. Disponível em: https://g1.globo.com/pi/piaui/noticia/2022/10/06/casos-de-linchamentos-crescem-61percent-em-apenas-seis-meses-no-piaui-aponta-levantamento.ghtml. Acesso em: 3 jul. 2024.

DRAMÁTICA, Gi Pausa. [Resenha] Olhos D’água. Sem Serifa, 11 set. 2020. Disponível em: https://blogsemserifa.com/2020/09/11/resenha-olhos-dagua/. Acesso em: 3 jul. 2024.

FERREIRA, Adriana. Resenha do livro: Olhos D’água, de Conceição Evaristo. Raízes Blog Literário, 13 jul. 2023. Disponível em: https://www.conteudoraizes.com/post/resenha-do-livro-olhos-d-agua-de-conceicao-evaristo. Acesso em: 3 jul. 2024.

MAGALHÃES, Túlio Romualdo. Maria: reflexões sobre gênero, raça e classe no conto de Conceição Evaristo - Literatura Afro-Brasileira. Literafro - Universidade Federal de Minas Gerais, 7 jan. 2022. Disponível em: https://www.letras.ufmg.br/literafro/artigos/artigos-teorico-criticos/1629-conceicao-evaristo-maria-reflexoes-sobre-genero-raca-e-classe-no-conto-de-conceicao-evaristo. Acesso em: 3 jul. 2024.

SILVEIRA, VanDyck. QI nacional regride. E o ensino também. IstoÉ Dinheiro, 22 dez. 2023. Disponível em: https://istoe-dinheiro.com.br/qi-nacional-regride-e-o-ensino-tambem/. Acesso em: 3 jul. 2024.

VIOLÊNCIA: o Brasil é líder de homicídios no mundo | Curso Enem Play. Guia do Estudante, 2020. Disponível em: https://guiadoestudante.abril.com.br/curso-enem/violencia-o-brasil-e-lider-de-homicidios-no-mundo. Acesso em: 3 jul. 2024.


Nonada em inglês? A saga de uma década para traduzir o 'intraduzível' 'Grande Sertão: Veredas' - via BBC News Brasil


Grande Sertão: Veredas
é o Monte Everest do mundo da tradução. Como verter para outro idioma um romance experimental de 600 páginas sem divisão por capítulos, narrado por um jagunço que conta uma epopeia no sertão de Minas Gerais com neologismos, onomatopeias, paranomásias, aliterações e assonâncias?

Foi essa a pergunta que a australiana Alison Entrekin se fez em 2014, quando aceitou tocar um projeto para traduzir o clássico de Guimarães Rosa para o inglês.

Ela sabia que o trabalho seria hercúleo, mas não imaginou que duraria uma década.

No fim de 2023, entregou uma primeira versão a seu agente literário, encarregado de apresentá-la ao mercado editorial. O livro foi arrematado em um leilão pela editora americana Simon & Schuster em meados de 2024 e tem publicação prevista para 2026.

Promete ser um acontecimento: a outra única edição em inglês de Grande Sertão, lançada em 1963, não passou da primeira tiragem e ficou conhecida como uma versão desidratada que não está à altura do original.

O próprio Guimarães Rosa chegou a se queixar, em trocas de cartas com seu tradutor para o alemão, de que o texto não capturava a singularidade de sua obra.

Se um dos problemas apontados para o fracasso daquela época foi o conhecimento limitado do português da tradutora americana Harriet de Onís, que acabou largando o trabalho no meio do caminho, desta vez a situação não podia ser mais distinta.

Entrekin vive no Brasil desde 1996, quando, vindo de Perth, na costa australiana, desembarcou em Santos (SP), a cidade-natal do marido.

Na época em que aceitou a proposta de preparar uma versão em inglês de Grande Sertão, que chegou pela agência que representava os herdeiros do escritor, já tinha traduzido Budapeste, de Chico Buarque, e trabalhava em uma obra de Daniel Galera.

Em uma década, foi completamente absorvida pelo universo roseano. A discussão que teve recentemente com a editora que arrematou a tradução para definir o título dá uma ideia: foram quatro longos meses de chamadas de vídeo, reuniões e e-mails para chegar a Vastlands: The Crossing.

"Você não imagina quanto tempo a gente gastou debatendo esses dois pontos no título", conta Entrekin à reportagem da BBC News Brasil em um café em São Paulo.

Inicialmente, os editores argumentaram que os dois pontos causariam estranhamento. Mas a ideia era justamente essa, rebateu a tradutora.

"Quando o livro saiu em português, também tinha esse estranhamento. Hoje não tem mais porque os leitores tiveram sete décadas pra se acostumar com os dois pontos."

Ela também reparou que, nas trocas de cartas entre o escritor e a tradutora americana da primeira versão, no meio de um grande vai e vem de sugestões de combinações para o título, a única constante eram os dois pontos. Guimarães Rosa provavelmente era apegado aos dois pontos, pensou ela. Melhor deixar.

Dez anos traduzindo um livro

As correspondências do autor foram parte do arsenal de fontes que Entrekin usou em sua "travessia", como ela chama, pegando emprestada a última palavra de Grande Sertão.

Trabalhos como O Léxico de Guimarães Rosa, que reúne praticamente todos os neologismos de sua obra, Universo e Vocabulário do Grande Sertão e Para Ler Grande Sertão: Veredas ajudaram-na a navegar, além de dezenas de dicionários, glossários e pesquisas de mestrado e de doutorado.

A "fortuna crítica" ainda não existia na época de Harriet de Onís, razão pela qual ela releva as críticas mais cruéis ao trabalho da tradutora e de James Taylor, a quem coube concluir a tradução no início dos anos 1960.

Para Entrekin, foi um instrumento fundamental na busca por soluções para os neologismos que singularizam a obra de Guimarães Rosa, que a ajudou a desvendar as ferramentas que o autor usava em seu constante exercício de recriação da linguagem.

Uma delas eram as "palavras-valise", a junção de duas palavras conhecidas para dar à luz uma terceira (como "turbulindo", por exemplo, que vem de "turbilhão" e "bulir"; ou "constragar", da união de "constringir" e "tragar").

Rosa também gostava de usar a sufixação, como em "prostitutriz", combinação de prostituta com o sufixo "-triz", de "atriz", "meretriz".

Recorria com frequência às onomatopeias ("burumdum", que remete ao barulho de um corpo caindo no chão, ou "delém", do cantar dos sinos) e criava neologismos por analogia, com uma palavra nova que lembra outra que já existe ("demorão", que vem de "temporão"; "sofreúdo", criado a partir da "manteúdo", ou "pormiúdo", em analogia a "pormenor").

A partir desse mapa, ela criou então o próprio laboratório literário, desmembrando, por exemplo, palavras-valise para entender suas "árvores genealógicas", e, na sequência, experimentando com sufixos, sinônimos e versões arcaicas de palavras em inglês até encontrar uma combinação que "pegasse".

"É brincar de Frankenstein", ela descreveu em uma palestra no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB - USP).

Foi assim que "turbulindo" virou "awhirmoil", uma palavra-valise que une "whir" (zumbir), "awhirl" (girando) e "turmoil" (turbilhão, agitação, tumulto), "prostitutriz" foi traduzida como "prostitutress" ("prostitute" com o sufixo "ress") e "uivando lobúm" se transformou em "howling woliferously" (analogia com "vociferously", vociferantemente, a partir da palavra "wolf", lobo).

Todo esse processo de excisões, enxertos e suturas significava, claro, que o trabalho ficava mais lento.

Profissionais traduzem, em média, algo entre 1,5 mil e 2 mil vocábulos por dia. "Eu ficava feliz quando fazia 500", ela conta.

Nessa rotina, dezenas de palavras iam ficando pelo caminho. Nomes do Diabo (em uma sequência famosa o protagonista Riobaldo enumera 23), descrições de flora e fauna e topônimos (lugares geográficos), por exemplo, ela deixava em português no meio do texto como uma marcação para voltar depois.

"E essas palavras esdrúxulas que o Ribaldo fala e que não têm significado, não são dicionarizadas e na verdade são marcas de oralidade", acrescenta.

A estratégia era olhar para a obra de forma sistêmica, para dar mais fluidez ao trabalho. Caso contrário, ia ficar tropeçando nas expressões menos óbvias.

Muitas dessas palavras estão anotadas em um calendário de aniversário que está pendurado na parede em frente à escrivaninha da tradutora, que também virou repositório de uma lista de inspirações, termos em inglês que lhe ocorriam nas mais diversas ocasiões e que ela achava que poderiam ser úteis em algum momento da travessia.

"Eu tenho uma lista de 'conjunções esdrúxulas', por exemplo, outra de palavras arcaicas… Vasculhava dicionários de palavras arcaicas em inglês para ver se tinha alguma gracinha ali que merecia ser lembrada depois", ela conta.

Travessia

Por dez anos, de segunda a sexta, a australiana acordou cedo, levou a filha para a escola, voltou para casa e sentou na frente do computador para reconstruir em inglês o sertão de Minas Gerais.

A ideia inicial era fazer o trabalho caber em três anos, que era o período que o Itaú Cultural, que entrou como apoiador do projeto, concordou em pagar-lhe um salário.

O prazo acabou sendo dilatado, e Entrekin ficou mergulhada nessa rotina de reinvenção da linguagem até a pandemia, em 2020, quando o prazo colocado pelos incentivadores se esgotou.

Mas ainda havia um terço da obra a ser traduzida, e a australiana decidiu então trabalhar por conta própria: "Não concebia largar naquele momento, já tendo feito tanta coisa."

E tinha sido muito. Em vez, por exemplo, de transpor a história de Riobaldo e Diadorim para um universo mais próximo do outback australiano ou do sul dos Estados Unidos, em um processo conhecido na tradução como "domesticação", Entrekin tentou "levar o leitor para o mundo do livro", a chamada "estrangeirização".

Para fazer jus à "energia poética" da obra, por vezes ela também intercambiou as ferramentas roseanas, traduzindo um neologismo que em português era uma palavra-valise, por exemplo, usando uma sufixação.

"Um neologismo pode ser traduzido de várias maneiras, é uma questão de criatividade. Fiquei experimentando até chegar num resultado que me agradasse, mas outra pessoa poderia fazer outra coisa", ela diz à BBC News Brasil.

No fim, criou uma nova língua, um inglês a partir do português, como ela define.

Em uma maratona de aulas que ministrou como convidada e webinars no fim de 2024, chegou a ser parabenizada por traduzir um livro "intraduzível".

Não é assim que ela enxerga Grande Sertão: "Acho um livro altamente 'traduzível'", diz, dando risada. "É trabalhoso, mas não é intraduzível."

O fato de Guimarães Rosa brincar com as palavras dá liberdade ao tradutor de fazer o mesmo, ela reflete, desde que "dentro das regras do jogo".

Isso de certa forma aparece nas cartas que o autor trocou com o primeiro tradutor para o italiano, Edoardo Bizzarri. Em uma nota de agradecimento pela tradução de Duelo, um dos contos de Sagarana, ele chama o texto de "nosso".

"Ele viu que o italiano entendeu a brincadeira, que podia dar mais liberdade para ele ir fundo na recriação da obra dele", comenta.

Ela também pegou gosto. Quer agora traduzir Corpo de Baile, lançado no mesmo ano de Grande Sertão: Veredas, o único livro de Guimarães Rosa ainda não vertido para o inglês.

No momento, a tradutora está na revisão final de Vastlands: The Crossing.

"E essa revisão vai até quando, até arrancarem o livro da sua mão?", pergunta a reportagem, agarrando um livro imaginário na frente da tradutora.

"Mais uma menos isso", responde, fazendo então uma brincadeira com a palavra possivelmente mais desafiadora da obra: "Deixa eu só rever 'Nonada'!", diz, dando risada, enquanto puxa o livro imaginário de volta em sua direção.

Em uma década, ela foi e voltou várias vezes nela, uma aglutinação de "non" e "nada", que remete a uma versão de "não é nada" da oralidade sertaneja, que abre Grande Sertão: Veredas e que é um símbolo para qualquer leitor de Guimarães Rosa.

Nos últimos meses, por onde Alison Entrekin passou para falar sobre sua travessia, alguém perguntou como "Nonada" tinha ficado em inglês.

"É surpresa", ela rebate. Vai ficar para quando sair o livro.

terça-feira, 18 de março de 2025

"Agora o inverno de nosso desgosto" - Monológo de Abertura de Ricardo III - William Shakespeare


Agora o inverno de nosso desgosto

Fez-se verão glorioso ao sol de York;

[...]

E eu, sem jeito para o jogo erótico,

Nem para cortejar o próprio espelho;

Que sou rude, e a quem falta a majestade

Do amor para mostrar-me a uma ninfa;

Eu, que não tenho belas proporções,

Malfeito de feições pela malícia

Da vida, inacabado, vindo ao mundo

Antes do tempo, quase pelo meio,

E tão fora de moda, meio coxo,

Que os cães ladram se deles me aproximo;

Eu, que nesses fraquíssimos momentos

De paz não tenho um doce passatempo

Senão ver minha própria sombra ao Sol

E cantar minha própria enfermidade:

Já que não sirvo como doce amante,

Para entreter esses felizes dias, 

Determinei tornar-me um malfeitor

E odiar os prazeres destes tempos.

Armei conspirações, graves perigos,

Profecias de bêbados, libelos,

Para pôr meu irmão Clarence e o rei

Dentro de ódio mortal, um contra o outro.

E se o Rei Eduardo for tão firme

Quanto eu sou falso, sutil e traiçoeiro,

Inda este dia Clarence será preso,

Pois uma profecia diz que "G"

Será o algoz dos filhos de Eduardo.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Sobre Tolkien e Atlântida - via Projeto Tolkien


Nunca li Howard, mas achei interessantíssima essa colocação, pois me lembrou muito da própria mitologia de Tolkien.

Nem todos sabem, mas a história de Númenor foi, assumidamente, a versão de Tolkien do mito de Atlântida. Aliás, a própria Númenor, após a sua queda, passou a ser chamada de Atalantë ("a decaída"), que o próprio Tolkien disse ter sido uma feliz coincidência ser tão parecido com "Atlantis". E milênios mais tarde chegamos à época de Aragorn, que vemos lá no Senhor dos Anéis, sendo ele um descendente direto do povo de Atalantë.

"É um acaso curioso que o radical √talat usado em Quenya [Alto-élfico] para 'escorregar, deslizar, cair', do qual atalantë é uma formação substantiva normal (em Quenya), pareça-se tanto com Atlântida." (Carta 257)

"Númenor é minha alteração pessoal do mito e/ou tradição de Atlântida e ajuste desta à minha mitologia geral." (Carta 276)

Outra coisa que nem todos sabem é que o mundo da Terra-média é o nosso próprio mundo, num passado longínquo. O próprio Tolkien, tentando racionalizar um pouco, disse que nós estaríamos hoje, provavelmente, na Sétima Era (lembrando que a Primeira Era é focada nas Silmarils; a Segunda, na Queda de Númenor; e a Terceira, na Guerra do Anel).

"Imagino que a lacuna [entre o fim de O Senhor dos Anéis e os dias atuais] seja de cerca de 6000 anos: isto é, estamos agora no fim da Quinta Era, se as Eras forem da mesma duração da S.E. e T.E.. Porém, creio que elas tenham acelerado, e imagino que na verdade estamos no final da Sexta Era, ou na Sétima." (Carta 211)

E o Dagor Dagorath?

A Dagor Dagorath (Batalha das Batalhas) nunca aconteceu. Ela é apenas a “Segunda Profecia de Mandos” sobre algo que um dia viria a acontecer. Tudo o que temos sobre ela é menos de uma página e não sabemos quando ou em qual Era essa profecia se realizará. Ou seja, a Dagor Dagorath ainda está em nosso próprio futuro.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

O CORVO, DE EDGAR ALLAN POE, COMPLETA HOJE 180 ANOS - via Revista Oeste



COM UMA NARRATIVA DE SUSPENSE QUE EXPLORA O MISTÉRIO E O MACABRO, A OBRA É TAMBÉM UM POEMA ROMÂNTICO

Há 180 anos o mundo conhecia O Corvo (The Raven), poema escrito por EDGAR ALLAN POE que ganharia status de clássico da literatura gótica. O texto original de Poe foi publicado pela primeira vez em 29 de janeiro de 1845, nas páginas do jornal New York Evening Mirror. A obra foi um marco na carreira do autor, que, naquele momento, atravessava um momento de crise — sobretudo financeira —, mesmo depois de tantos outros livros, contos e poemas já publicados desde os anos de 1830. No entanto, com sua narrativa de suspense que explorava o mistério e o macabro, O Corvo rapidamente conquistou o público. Ainda que o texto contenha os principais elementos do terror e do sobrenatural, Edgar Allan Poe faz parte do movimento romântico, e O Corvo não esconde sua verdadeira proposta.

O poema é apresentado por um narrador angustiado que experimenta o luto pela morte da amada, Lenore. Dias e noites intermináveis só aumentam o desespero daquele homem, quase à beira da loucura, quando um corvo bate à sua porta. “Nevermore” (ou “Nunca mais”, numa tradução literal) é a enigmática e melancólica palavra repetida pelo corvo e que vai pontuar o simbolismo de todos os sentimentos do narrador.

O CORVO, POR MACHADO DE ASSIS E FERNANDO PESSOA

Um dos escritores mais celebrados da literatura norte-americana, Edgar Allan Poe influenciou grandes autores pelo mundo. O Corvo, em especial, foi objeto de estudo e apreciação, ganhando inúmeras traduções inclusive no Brasil. Machado de Assis e Fernando Pessoa são apenas dois (dos maiores) que se debruçaram na obra. A tradução feita pelo brasileiro Machado de Assis foi publicada em 1883, na Gazeta de Notícias; já o português Fernando Pessoa traduziu O Corvo em 1924.

Ao longo de quase dois séculos, no entanto, O Corvo tem repetidamente influenciado a cultura pop como um todo, servindo de inspiração para a literatura, a música e o cinema. H.P. Lovecraft, Stephen King e Neil Gaiman são alguns exemplos de autores que jamais esconderam sua reverência não apenas à literatura de horror gótica de Edgar Allan Poe, mas sobretudo à construção de atmosferas sombrias encontradas em O Corvo.

A MÚSICA E O CINEMA SE RENDERAM A EDGAR ALLAN POE 

Também na música, seja o pop, o rock progressivo e até o metal, prestaram homenagem ao icônico poema de Poe. The Raven é o nome do álbum produzido pelo cantor e compositor Lou Reed, lançado em 2003. A banda britânica The Alan Parsons Project, grupo de rock progressivo formado no final dos anos de 1970 por Alan Parsons e Eric Woolfson, ficou famosa com Tales of Mystery and Imagination (1976), álbum que traz faixas inspiradas em diversas obras de Poe, incluindo O Corvo. E o Iron Maiden, banda inglesa de heavy metal criada pelo baixista e compositor Steve Harris, em 1975, igualmente se inspirou no autor de O Corvo para compor suas letras com elementos sombrios, incorporando essas referências até mesmo na cenografia dos shows.

Mas foi o cinema o grande responsável por dar vida — literalmente — ao universo de terror angustiante de Poe. Em 1935, Boris Karloff e Béla Lugosi, dois dos atores considerados maiores ícones do gênero, estrelaram o filme O Corvo. Mais tarde, em 1994, Brandon Lee estrelou O Corvo, adaptação para o cinema de uma HQ homônima criada por James O’Barr que, por sua vez, utiliza o poema de Edgar Allan Poe como inspiração para sua atmosfera sombria e sua narrativa de vingança. Brandon, filho do ator e mestre das artes marciais Bruce Lee, tornou-se um importante personagem não somente da obra cinematográfica, mas também de uma história de final trágico.

No dia 31 de março de 1993, Brandon Lee, aos 28 anos de idade, estava no set em Wilmington, Carolina do Norte, para fazer O Corvo. A poucos dias do final dos trabalhos, durante as filmagens de uma sequência de ação, deixaram que uma arma carregada fosse utilizada. Brandon foi baleado no estômago e morreu 12 horas depois do acidente. Até hoje o caso não foi devidamente explicado. Mas, levando-se em conta todo o imaginário de mistério surreal da obra de Poe, é fato que as mais diversas teorias (conspiratórias, até) foram cogitadas. Para o bem ou para o mal, é justamente essa atmosfera que faz de Edgar Allan Poe e sua obra tão importante e ainda influente.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

A Força da Obsessão: O Caminho de Quem Decide Ser Diferente - via @dr.lucasmedeiro

Nem todos nascem com talento natural, mas todos têm a capacidade de superar limites. Enquanto o talento pode abrir portas, é a obsessão que mantém você lá dentro. Obsessão não é apenas um desejo ardente; é um compromisso inabalável em ser melhor, em desafiar o que parece impossível, em resistir ao comum e construir algo único.

Para quem não tem talento, a obsessão é a arma mais poderosa. É ela que transforma fraquezas em habilidades e erros em aprendizado. Ser obcecado não significa agir sem propósito, mas sim canalizar toda energia, tempo e esforço para se destacar, para ser diferente em um mundo saturado de mesmices.

Muitos olham para a obsessão com desconfiança, confundindo-a com desequilíbrio. Mas é preciso lembrar: é na obsessão que mora o diferencial. É ela que faz alguém estudar até tarde quando o corpo pede descanso, que leva à prática incessante quando a vontade de desistir aparece. Quem é obcecado por uma visão cria sua própria sorte e conquista o respeito que o talento sozinho jamais conseguiria.

No final, a obsessão se torna o talento de quem teve coragem de acreditar no impossível. E a diferença? Ela não nasce do dom, mas do esforço de quem decidiu não ser como os outros.

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Caveira idolatrada - Dom Francisco de Aquino Corrêa


À memória de minha mãe


Eu a vi! Do coveiro aos pés jazia,

Onde nem uma flor a coloria,

     Nua, ignorada a vi!

A tarde semimorta o extremo raio

Enviava a beijá-la, de soslaio,

     Desde os céus de rubi.


A música era mesta. O bosque arfava…

O povo que, em silêncio, me cercava,

     Nem notou o meu penar!

Fitei os olhos na caveira branca,

E, em meio à turba, o coração me arranca

     Tristíssimo cismar…


Há doze anos que aí a sepultaram…

Bem me lembro! Era em maio; me acordaram,

     E ela era morta já.

A manhã cor-de-rosa além nascia,

E minha mãe, sem cor, lívida, se ia…

     Morta a vejo inda lá!


Tinha um frio palor… Desfeito o laço,

Os cabelos castanhos, no regaço,

     Vinham caracolar.

O roxo cílio os olhos clausurara,

E na boca o sorriso lhe murchara,

     Para não mais brotar!


De roxo e negro minha mãe vestiram…

E à mesa da varanda a conduziram,

     Deitada no caixão.

Meu pai e meu irmão e irmãs sem fala,

As crioulas, em pranto, iam beijá-la,

     No rosto e na alva mão.


Meu pai me ergueu nas mãos hirtas de gelo;

Os seus prantos molharam-me o cabelo,

     E o que senti nem sei!

Mas me inclinei por sobre a face fria:

Na escumilha violete que a cobria,

     Soluçando, a beijei!


Era o último adeus! Ela partia!

Toda a casa ululava! O meio-dia

     Começava a cair…

Fui ao jardim de grades encarnadas;

No caminho sombrio de ramadas,

     Vi o enterro sumir.


À hora quente ermara-se a campina…

Só as copas em flor, rara bonina

     Jogavam no caixão.

Perfumavam o esquife as mesmas flores,

A cuja sombra, de infantis verdores,

     Passei minha estação.


Fugiu-me assim a meninice pura,

Sem beijos, sem carícias, sem doçura,

     Ó minha mãe, sem ti!

A adolescência, como em doidas valsas,

Arrebatou-me! De alegrias falsas

     Fundo cálix sorvi!


Hoje beijo essa lúrida caveira!

E busco, em vão, teu vulto, a cabeleira,

     A face, a boca, o olhar…

Assim ai! A inocência em vão buscaras,

Que em meus olhos e lábios tu beijaras,

     Minha mãe, a cantar!


Lá fora a mocidade baila e grita:

“Rosas, flori! Na abóbada infinita,

     Astros! mundos! parai!

Quero boiar no azul das harmonias,

Rolar, morto, ao tumulto das orgias,

     Onde a sorrir se cai!”


Rajada vespertina traz-me o harpejo,

E eu palpito, deliro, ardo, louquejo,

     Desgarrado de mim!...

Mas nesse crânio a ilusão se esmaga,

Qual sobre escolhos, a irisada vaga,

     No oceano sem fim!


Ah! rasgue-se a cruel filosofia,

Que do órfão triste nessa ossada fria

     A esperança contém!

O crânio é um livro e a pálida caveira

Duma mãe, é qual santa e verdadeira

     Bíblia do eterno além!


Sim, tu, só tu, ó Religião materna,

Dominas nos sepulcros! Firme e eterna,

     Quebras o arcano horror!

Aqui, só tu, com a minha alma casas:

Subo contigo nas cerúleas asas,

     Mostras-me o meu amor.


Vejo-te, ó mãe! Num arrebol celeste,

Aquela, cujo nome em vida houveste,

     Rogas, meiga, por mim.

Sim! Pede por teu filho! É mau o mundo,

Simula beijos por morder mais fundo,

     Tem serpes no jardim.


Sou inda moço; minha alma suspira,

Que nem as cordas de encantada lira,

     À menor ilusão!

Que Ela cuide de mim, qual tu cuidavas;

E onde reina o ermo e o amor, sem vozes pravas,

     Fale-me ao coração.


Ora descansa! Possa ir um dia,

Em paz com Deus, à tua campa fria,

     Meu cadáver também…

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Não sou de postar as minhas artes... - Igor Moraes


Não sou de postar as minhas artes, as que faço no Canva, nesse espaço. Posso dizer que essa foi a mais criativa e compartilho com certo orgulho. O professor Leopardo mandou a ideia com uma série de templates. Fui juntando as ideias e eu executei o desenho. A melhor parte foi o baobá: estávamos querendo colocar o mapa do Brasil e da África ao lado da árvore, até que em um desatino, me lembrei de uma propaganda do Museu Afro do Ibirapuera, onde a costa nacional ficava em encaixe com o continente do outro lado do Atlântico. A árvore que o mestre me mandou lembrava uma mulher grávida. Então todas as peças se encaixaram. Ficou ótimo! 

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Camões celebrado em Nova Iorque com exposições e encontro de investigadores da sua obra - Via observador.pt


Quinhentos anos do nascimento de Camões serão celebrados com uma exposição dedicada a publicações raras e ao legado do poeta. Exposição aborda difusão dos Lusíadas em Espanha e nas Américas.


Os 500 anos do nascimento de Luís de Camões vão ser celebrados em Nova Iorque, na Hispanic Society, em outubro, com uma exposição dedicada a edições raras, uma mostra didática e um simpósio sobre a dimensão global do poeta.

A iniciativa é promovida pela Fundação Gaudium Magnum e a Hispanic Society Museum and Library (HSML), que anunciaram esta quinta-feira o programa, e reúne investigadores portugueses e norte-americanos em torno da obra de Camões, como os professores Isabel Almeida e Henrique Leitão, da Universidade de Lisboa, os responsáveis pelos departamentos de português das Universidades de Yale, Kenneth David Jackson, e de Harvard, Josiah Blackmore, o diretor do Centro de Estudos Portugueses do Queens College, José Miguel Martínez Torrejón, e o diretor do Museu Nacional de Arte Antiga, Joaquim Oliveira Caetano.

A exposição principal, “Metamorphoses: the shape of books and the fortune of texts” (“Metamorfoses: a forma dos livros e o desígnio dos textos”, em tradução livre), tem curadoria de Isabel Almeida, reúne edições raras relacionadas com Luís de Camões, todas anteriores a 1700, desenvolvendo-se em torno da difusão d'”Os Lusíadas” em Espanha e nas Américas, e será inaugurada em 1 de outubro, na Sorolla Gallery da Hispanic Society, onde ficará patente até 10 de novembro.

“O objetivo desta exposição é duplo. Em primeiro lugar, mostra a eloquência dos livros impressos, apresentando ‘Os Lusíadas’ tanto na escala monumental da edição de Faria e Sousa [do século XVII] como no pequeno formato da tipografia de [Pedro] Craesbeck”, ativo em Lisboa e Coimbra a partir do final do século XVI. “Em segundo lugar, permite perceber o legado do trabalho de Camões, destacando as traduções” dos anos de 1500 e de 1600, ao mesmo tempo que revela “formas da prática de censura durante estes períodos”, lê-se no ‘site’ da Hispanic Society.

“Ao longo dos séculos, o dinamismo da poética, as transformações da mundividência e, não menos, as circunstâncias políticas condicionaram (estimulando ou refreando) a projeção do poema heroico de Camões”, afirma a curadora, citada pelo comunicado da Fundação Gaudium Magnum, destacando porém que, “nos seus diversos modos ou géneros – épico, lírico, dramático e epistolar –, a obra de Camões é partícipe de relações literárias desenvolvidas a uma escala ampla”.

Esta exposição será acompanhada de uma mostra didática nos espaços exteriores da HSML, “Camões: Who are you?” (“Camões: Quem és tu?”), também com curadoria de Isabel Almeida, pensada para o público que desconhece o poeta português, tomando por base “Os Lusíadas” e “um dos temas centrais do poema: a sede insaciável da humanidade para o conhecimento”, segundo o texto de apresentação publicado no ‘site’ da Hispanic Society.

A inauguração das exposições, em 1 de outubro, será acompanhada pela realização do simpósio “Camões: No poet is an island” (“Camões: Nenhum poeta é uma ilha”), com o objetivo de demonstrar como o poeta português, “símbolo de um mundo em mudança, falou a todas as épocas”.

O encontro, que também contará com os professores José Muñoz, da Universidade de Nova Iorque, e Jo Ann Cavallo, da Universidade de Columbia, abordará assim “as relações culturais no século XVI e as principais contribuições dos pensadores humanistas e dos artistas europeus para a dinâmica cultural” do Renascimento.

“Palavra e Conhecimento Lírico de um Mundo em Mudança”, “A Pintura Portuguesa no Tempo de Camões” e questões levantadas pela sua obra são algumas das intervenções previstas no encontro, que discutirá ainda aspetos específicos dos textos do poeta, como a aproximação ao mito de Acteon e o encontro com Diana (“Camões reorganiza o crime e a pena”), “o conhecimento e a natureza em Camões” e “Os Lusíadas”, perante “a nova medida do mundo” que o Humanismo definia.

“O poeta mais famoso de Portugal anunciou o seu desejo de ser ouvido em todo o lado e desejou que Chronos, o ‘tempo devorador’, poupasse a sua obra”, lê-se no comunicado da Fundação Gaudium Magnum. “O objetivo desta celebração é mostrar que Camões é um símbolo de um mundo em mudança e que as suas palavras são dignas de atenção global.”

A presença de Camões na HSML tem apoio do Camões Instituto e da Embaixada de Portugal nos Estados Unidos.

sexta-feira, 21 de junho de 2024

185 anos de Machado de Assis: confira as melhores edições dos livros do gênio literário - via O Estadão



Praticamente dois séculos: se estivesse vivo (caso fosse possível!) no dia 21 de junho, Machado de Assis completaria 185 anos de idade em junho de 2024. O escritor é considerado o maior da literatura brasileira e um dos principais da literatura em língua portuguesa, sendo respeitado mundialmente.

Suas obras já estão todas em domínio público há muito tempo. Por isso, é possível encontrar livros dele em diferentes editoras, às vezes com republicações pelo mesmo selo. O Estadão Recomenda selecionou algumas edições que se destacam para fazer parte da sua coleção. 

Obra-prima: a Trilogia Realista

Entre os críticos literários, não existe um livro que seja considerado o superior da bibliografia de Machado de Assis. Mas é quase consenso que a tríade formada por Memória póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro, publicadas em sequência, sejam suas melhores obras. 

Apesar de não ser uma trilogia formulada oficialmente pelo autor, esses três livros passaram a ser chamados de Trilogia Realista. Eles são constantemente estudados nas escolas como o que há de melhor do autor.

As edições da Ateliê Editorial se propõem a revisitar a obra adicionando comentários de críticos especializados na obra machadiana ao longo da leitura. Os livros ainda vêm com ilustrações e é finalizado em formato 18×12, um pouco maior que as edições de bolso. Aliado às páginas em tom bege, esse tamanho permite um bom conforto durante a leitura.

Todos os romances

Ao longo de sua vida, Machado de Assis publicou um total de nove romances. Eles são divididos em duas fases: romântica (de Ressureição a Iaiá Garcia) e realista (de Memórias póstumas de Brás Cubas a Memorial de Aires). Cada fase está ligada à escola literária correspondente.

Contudo, em 1943, “surgiu” um décimo romance em sua bibliografia: Casa velha. Graças aos esforços da crítica literária Lúcia Miguel Pereira, a obra foi transformada em um livro. Na época de Machado, ela tinha sido divulgada como um folhetim para a revista A Estação, a mesma que divulgou Quincas Borba. Apesar do ano de publicação, traz mais elementos inspirados no Romantismo que no Realismo.

O box Todos os romances e contos consagrados, da editora Nova Fronteira, reúne nove dos dez romances de Machado de Assis. No primeiro volume estão Ressurreição, A mão e a luva, Helena e Iaiá Garcia. O segundo apresenta a Trilogia Realista, com as três obras já citadas neste texto. Já o último é formado por Esaú e Jacó, Memorial de Aires e alguns contos selecionados.

Contos

Além de romancista e folhetinista, como já citado, Machado de Assis também foi contista, poeta, cronista, dramaturgo, jornalista e crítico literário. Após os grandes romances, talvez suas obras mais conhecidas sejam os contos, como A cartomante e O alienista. Este último, inclusive, gera debates até hoje sobre seu gênero, se de fato é um conto ou uma novela.


terça-feira, 11 de junho de 2024

Portugal, Tão Diferente de seu Ser Primeiro - Camões

Portugal celebra este ano os 500 anos do nascimento de Luís Vaz de Camões. Esse dia (10 de junho) é emblemático: é dia de Camões, de Portugal e do Anjo de Portugal, aparecido aos pequenos pastores em Fátima.


Os reinos e os impérios poderosos,

Que em grandeza no mundo mais cresceram,

Ou por valor de esforço floresceram,

Ou por varões nas letras espantosos.


Teve Grécia Temístocles; famosos,

Os Cipiões a Roma engrandeceram;

Doze Pares a França glória deram;

Cides a Espanha, e Laras belicosos.


Ao nosso Portugal, que agora vemos

Tão diferente de seu ser primeiro,

Os vossos deram honra e liberdade.


E em vós, grão sucessor e novo herdeiro

Do Braganção estado, há mil extremos

Iguais ao sangue e mores que a idade.


Camões na gruta de Macau
Camões na gruta de Macau

segunda-feira, 3 de junho de 2024

100 anos da morte de Franz Kafka - via O Antagonista


Quando morreu de tuberculose, no dia 3 de junho de 1924, num sanatório nos arredores de Viena, Franz Kafka, um judeu de Praga, nascido nos derradeiros anos do império Austro-húngaro

Quando morreu de tuberculose, no dia 3 de junho de 1924, num sanatório nos arredores de Viena, Franz Kafka, um judeu de Praga, nascido nos derradeiros anos do império Austro-húngaro, com uma terrível consciência “do horror da vida” deixava publicada uma inquietante novela intitulada A Metamorfose, alguns contos e fragmentos que receberam do público pouco mais que uma fria indiferença.

Por um lado, a qualidade das obras que Kafka publicou em vida —como “O Veredito”, “Na Colônia Penal”, “A Metamorfose”, “Um Médico Rural” e, especialmente, “Um Artista da Fome”— já nos parece mais que suficiente para garantir seu nome na história da literatura. Por outro, sabemos que ele morreu como um ilustre desconhecido: nenhuma dessas obras foi recebida ou celebrada como um trabalho de gênio.

Morto há cem anos, Franz Kafka só se tornou um ícone da literatura mundial porque seu melhor amigo, Max Brod, desrespeitou o pedido do escritor e publicou, após a morte dele, textos inacabados, como “O Castelo” e “O Processo”.

Leitura obrigatória

Por motivos ideológicos e raciais, o regime nacional-socialista da Alemanha baniu e mandou queimar todas as obras do escritor judeu. Assim, ele acabou primeiro ficando mais conhecido no exterior, embora hoje seus livros sejam leitura obrigatória nas escolas alemãs.

Autores como Clarice Lispector e Jorge Luis Borges reconheceram a influência de Kafka, de forma direta ou implícita. O Nobel da Literatura colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014) revelou ter sido a leitura de A metamorfose que o inspirou a escrever textos literários.

Kafkiano, kafkaesque, kafkaesk, kafkovský, kafkavari: o termo existe em praticamente todos os idiomas, do português, espanhol, italiano, francês, inglês, alemão ao tcheco, turco, russo, japonês, coreano e outros.

Burocracia

Ainda assim defini-lo precisamente não é tão simples: ele indica algo inexplicavelmente ameaçador, absurdo, bizarro, muitas vezes burocraticamente labiríntico; uma paranoia possivelmente justificada.

Um dos temas centrais do funcionário-escritor Kafka é a burocracia, o confronto com as autoridades e, mais ainda, a sensação de impotência perante elas.

Os sentimentos que Kafka explora poeticamente – de estar perdido, ser só e indefeso num cosmos indiferente – valem tanto para os seres humanos de 100 anos atrás como para os de hoje, independente de contextos culturais ou estruturas políticas. Ele é ao mesmo tempo enigmático e imediatamente compreensível.

Um século após sua morte, Franz Kafka (1883-1924) continua sendo uma fonte inesgotável de fascínio, inspiração e também perplexidade para leitoras e leitores de todo o mundo. Seja pelo aspecto irreal e de pesadelo de seus cenários, pela sensação de ameaça que se percebe em muitas de suas obras, pela presença de formas de humor bastante peculiares em suas histórias ou em função de alguns aspectos de sua vida privada, Kafka, além de ser um “clássico” da literatura, parece ser um de nossos contemporâneos.

No centenário de sua morte, a imagem de Franz Kafka pulula nas redes sociais como meme, assim como uma de suas criações mais icônicas: o inseto em que Gregor Samsa, o protagonista de A metamorfose, acorda uma bela manhã transformado.

domingo, 2 de junho de 2024

Desgraçados entre milhões - 80 anos do livro "Cascalho", de Herberto Sales

O céu escuro, com a armação que houve de uma hora para outra, as águas caíram de uma vez nas cabeceiras distantes. E inundando talhados, catas e grunas, carregaram pela noite adentro os paióis de cascalho. No povoado da Passagem, à margem do Rio Paraguaçu agora de monte a monte, rajadas de vento cortavam de alto a baixo as ruas ermas, quando os garimpeiros, em lúgubre vozerio, irromperam pela praça alagada com enxurradas descendo para o areão. Vinham encharcados de chuva, transportando como destroços suas bateias, seus carumbés, suas enxadas, seus frincheiros, suas alavancas, seus ralos, suas brocas  —  suas ferramentas de trabalho, no ombro e na cabeça. Na frente deles caminhava o velho Justino, empunhando a candeia de azeite que o vento ameaçava apagar. Foi quando de novo desabou a chuva. - Herberto Sales

Livro de 1944, Cascalho de Herberto Sales, hoje presente no catálogo da Editora É Realizações (que possuí uma coleção só com o nome do autor) é um retrato fiel de seu tempo, transcendendo-o. O autor contava com 27 anos na época, apresenta vocábulos regionalistas com uma história de animalização do homem e embrutecimento das relações humanas por meio da violência e pobreza.

O cenário desse atrito é a Chapada Diamantina (sendo mais preciso, as cidades de Andaraí, Piranhas e as águas cruéis do rio Paraguaçu), a lapidação de diamantes e a geografia de suas lavras. Tocas e ranchos dos primórdios convivem com grandes casarões coloniais habitados por barões do diamante em sua fase de decadência. Livro tardio pertencente as grandes obras do que foi nomeado como "ciclo nordestino", seu enredo só não é mais curioso do que o ato de sua publicação.

Vamos a ela.

Herberto, morando em Andaraí, se correspondia com Marques Rebelo (autor de Marafa), mas nunca falou que estava escrevendo Cascalho. Ao concluir o romance fez duas cópias, enviou uma ao concurso literário onde Aurélio Buarque de Holanda era secretário e ficou com a outra. Obcecado em regionalismos afim de relacioná-los para um futuro dicionário, Aurélio surpreendeu-se com a qualidade do texto, além de encontrar nele o que tanto procurava. Sendo vizinho de Marques Rebelo, Aurélio comentou a obra que estava lendo e ficou admirado ao saber que o Rebelo conhecia o autor. Frustrado com o resultado do concurso literário, Herberto juntou gravetos, rasgou a cópia restante e a queimou.

Quando Herberto escreveu a Rebelo, dissecando suas decepções, comunicou que queimara a cópia única do livro. Qual foi sua surpresa ao saber que o volume original do concurso ainda existia com Aurélio, que sabendo que o calhamaço de mais de 600 páginas seria jogado fora, decidiu ficar com ele. Não foi difícil publicar o petardo no mercado editorial da época, que ganhou mais uma camada geográfica: o cenário nordestino retratado não era mais o litoral ou os engenhos, mas sim a mineração diamantina, inaugurando tal ciclo temático.

A lenda dos diamantes abundantes, encontrados até nas moelas das galinhas, contrasta com a realidade material de extrema pobreza, relações permeadas pela violência, onde todos se tornam algozes e vítimas. Em uma Sociedade Garimpeira construída pela tribalidade, qualquer um que não se adeque permanece no decadente e excluído (ou se excluindo voluntariamente para não se misturar a toda aquela corrupção). O promotor dr. Oscar do Soure, o telegrafista Nascimento e o retirante garimpeiro Silvério compõem um mosaico de personagens superiormente morais e que são esmagados pelo sistema existente, com uma sequência de humilhações. Assumindo o discurso de contestação, ambos estão presos a uma base limitada: o promotor a reclamar com seu superior na capital, o telegrafista se recusa a conviver e conversar com o povo da cidade, e o sertanejo que só pensa somente em voltar para a sua terra e na família que deixou para trás.

“Em meio da miséria em que vivia no sertão, Silvério fora seduzido por aquela maravilhosa visão de um Andaraí com garimpos enriquecendo os homens da noite para o dia, com serras escancarando veios e grunas como cofres — com a fortuna se oferecendo a todos num mundo de oportunidades espantosas”

O autor afirma categoricamente com esses personagens que ninguém de caráter fica em Andaraí. O promotor foge após ter uma de suas cartas apreendidas pelos coronéis locais, o telegrafista é movido de seu cargo por colaborar com a fuga do promotor e o sertanejo, depois de ponderar sobre seu tempo de trabalho, resolve voltar para sua família. A tragédia de Cascalho, é que não há espaço para a honestidade diante de um poder imoral, seja no campo das ideias, seja no campo das ações, seja no campo da materialidade. Ali impera a lei do mais forte.

O Brasil, para todos os efeitos, continuea a ser uma colônia, eta é que é a verdade.

A despeito de sua obra consagrada, traduzida para inúmeras línguas e tendo o seu romance de estreia adaptado para diversas mídias, Herberto isolou-se da vida literária. Retirou-se para São Pedro da Aldeia, no litoral fluminense, onde plantou mangueiras e flores muito sua terra natal (ele nunca mais voltou a Andaraí após a publicação do livro, uma ironia fina, dado os personagens mencionados e que seu nome batizou a biblioteca publica municipal), cumprindo a sina de seus personagens.

Cascalho nos mostra que, em um jogo de enganos, o que é verdadeiro não são as fortunas simuladas mas o interior das pessoas de caráter, que, ao contrário do mercado diamantífero e dos homens violentos, não se esvai diante das menores mudanças do mundo exterior.


PARA SABER MAIS DO LIVRO:

Revistando a obra de Herberto Sales por Carlos Heitor Cony

O romance Cascalho, de Herberto Sales: um retrato do garimpoda Chapada Diamantina por Everaldo Augusto da Silva

Cascalho de Herberto Sales por Narlan Matos

Os “sinais particulares” de Herberto Sales: CASCALHO, 70 anos

Textos escolhidos de Herberto Sales

segunda-feira, 27 de maio de 2024

O português de Portugal está ficando mais brasileiro? As expressões ouvidas com cada vez mais frequência no país - via BBC


"Grama", "geladeira", "dica". Essas e outras palavras e expressões 'brasileiras' têm se tornado cada vez mais comuns no vocabulário dos portugueses, segundo linguistas e estudiosos do tema.

Elas são usadas principalmente por crianças e adolescentes, que seguem com assiduidade influencers e youtubers do Brasil nas redes sociais.

Mas os portugueses mais velhos também são pegos cada vez mais cometendo 'brasileirismos', em uma tendência que começou na década de 1970 com a influência das novelas importadas do Brasil para Portugal e foi potencializada nos útlimos anos por conteúdos nas redes sociais.

A BBC Brasil consultou linguistas e especialistas no tema que, por meio da observação, ajudaram a elaborar uma pequena lista de expressões e construções brasileiras que aos poucos estão sendo introduzidas no léxico dos portugueses.

Fernando Venâncio, linguista português que estuda o tema há décadas, identificou algumas dessas palavras em seu livro O Português à Descoberta do Brasileiro.

Muitas delas, segundo ele, já são usadas em Portugal há algumas décadas. "Um brasileiro, por exemplo, anuncia a pergunta que vai fazer com 'será que'. Isto não existia no português de Portugal nesta modalidade", diz.

"Um brasileirismo que eu mesmo uso e acho que foi um ganho é 'dica'. Não conhecíamos essa palavra em Portugal usávamos 'sugestão' ou algo assim. Mas a palavra brasileira é mais prática e curta."

A professora Teresa de Gruyter dá aulas de inglês para adolescentes em uma escola de línguas em Cascais. Ela afirma aprender com certa frequência novas palavras brasileiras com seus alunos.

"Há pouco tempo alguém me disse que 'estava p*ta da vida'. Eu percebi que ela queria dizer que estava furiosa com a vida, mas para nós a palavra p*ta significa prostituta", conta.

"Algo parecido acontece com a expressão 'isso é foda'. Nós diríamos 'isso aqui é giro', pois em Portugal foda é o ato sexual e nada mais."

O linguista e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Xoán Lagares, nota ainda a influência da variante brasileira na omissão do artigo em determinados contextos e em certas questões de colocação pronominal.

O especialista explica que na variante europeia a omissão do artigo com possessivo só é possível em poucos contextos, segundo a tradição normativa local. O comum, portanto, seria dizer coisas como "a minha casa", "vou-te dar o meu endereço" ou "a minha vida".

Já no português brasileiro, o uso é mais variável, e expressões "minha casa", "vou te dar meu endereço" e "minha vida" são aceitas.

Mas recentemente, o formato usado no Brasil tem sido observado também em Portugal.

O linguista e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Xoán Lagares, nota ainda a influência da variante brasileira na omissão do artigo em determinados contextos e em certas questões de colocação pronominal.

O especialista explica que na variante europeia a omissão do artigo com possessivo só é possível em poucos contextos, segundo a tradição normativa local. O comum, portanto, seria dizer coisas como "a minha casa", "vou-te dar o meu endereço" ou "a minha vida".

Já no português brasileiro, o uso é mais variável, e expressões "minha casa", "vou te dar meu endereço" e "minha vida" são aceitas.

Mas recentemente, o formato usado no Brasil tem sido observado também em Portugal.

Segundo os especialistas consultados pela BBC Brasil, dois aspectos muito apontados como 'brasileirismos' na variante portuguesa, na verdade, já existiam na língua de Camões.

Um deles é o uso o constante do gerúndio.

"O gerúndio é uma forma mais antiga. Até o século 19 ninguém dizia 'estou a passear', como dizemos hoje, diziam 'estou passeando'", afirma a professora catedrática de Linguística da Universidade de Coimbra, Graça Rio-Torto.

"Por uma razão que eu não sei explicar, no século 19 isso mudou, mas a sul do Rio Tejo, portanto a sul de Lisboa, sobretudo no Alentejo, no Algarve, nas Ilhas da Madeira e nos Açores, o gerúndio é construção dominante."

E ao contrário do que muita gente acredita no Brasil, o uso da palavra 'você' também já era muito comum em Portugal.

Segundo Rio-Torto, a palavra, especialmente no singular, ocupa dois extremos. Ao mesmo tempo em que é muito usada por portugueses menos escolarizados e de zonas mais rurais do país, também está presente entre a classe alta.

Alguns linguistas também classificam a expressão como "um meio-termo" entre 'o senhor' ou 'a senhora' e o 'tu', em termos de formalidade.

Mas para algumas pessoas, seu uso por portugueses ainda pode ser considerado rude ou uma forma de inferiorizar alguém. "Pode ser uma marca um bocadinho desrespeitosa por parte de um falante culto. Eu, por exemplo, nunca me dirigiria a um aluno com 'você'", diz a professora da Universidade de Coimbra.

Para Fernando Venâncio, o uso da palavra não se trata de uma influência brasileira. "No máximo a habituação pode ser ter sido tal que para nós tratar outra pessoa por você se torna mais normal, mais aceitável, menos problemático", diz.