Lembro-me de que, em um excelente texto publicado após a VII Fantasticon de São Paulo, no longínquo ano de 2013, Bráulio Tavares fez menção à frase de Cortázar de que um romance é como uma luta de boxe vencida por pontos, enquanto o conto é uma luta decidida por nocaute. Tavares complementa essa ideia ao afirmar que o romance é uma maratona, enquanto o conto é uma corrida de cem metros rasos. Se nos restringirmos ao universo dos contos, podemos dizer que, quando uma coletânea ou antologia é devidamente organizada, sua estrutura pode simbolizar modelos de destinos prováveis, reunidos em um apanhado de episódios.
Em Olhos D'Água, de Conceição Evaristo (Editora Pallas, 2014), livro de relativo e surpreendente sucesso, as vidas das personagens correm paralelamente em um país que, em todos os sentidos, deu errado, resultando na submissão quase inevitável a comportamentos tribais e, em alguns casos, a formas de jagunçagem ainda mais violentas que as do período lampiônico. Toda a unidade central do volume nos conduz a uma compreensão mais profunda e nos oferece, enfim, uma linguagem robusta para expressar a truculência de ser brasileiro nas grandes capitais.
Não é de hoje que a vaca da nação foi para o brejo. A revista IstoÉ Dinheiro publicou uma matéria na qual a World Population Review, empresa privada e independente especializada na análise e produção de dados demográficos, revelou que, ao longo das últimas quatro décadas, o QI (quociente intelectual) do brasileiro vem caindo a passos largos, atingindo 83,38 pontos — o pior nível desde o início da medição. Para efeito de comparação, a média global é de 85,33 pontos, enquanto o QI médio considerado normal é de 100.
Isso representa um desastre social e econômico de difícil conserto no curto prazo, com impactos negativos que persistirão por muitos anos. Essa métrica possui forte poder preditivo sobre o crescimento do PIB e o bem-estar de uma sociedade. Os números catastróficos obtidos pelo Brasil no campo da educação, como os resultados do teste PISA-2022, mostram que os jovens brasileiros não apenas estão entre os que apresentam os piores desempenhos nas três dimensões avaliadas (matemática, leitura e ciências), mas também que seus resultados continuam piorando. Trata-se de um verdadeiro genocídio intelectual.
Segundo o portal UOL, o Brasil lidera o ranking mundial de homicídios, conforme estudo da ONU, registrando 10,4% do total de homicídios do mundo por ano (com referência ao ano de 2021). Em homicídios per capita, o país ocupa a 11ª posição, com 22,38 mortes a cada 100 mil habitantes — quase quatro vezes mais do que a média global. O país também lidera em números absolutos, de acordo com dados do Estudo Global sobre Homicídios, publicados em 2023. Em uma pesquisa rápida, podemos encontrar, até mesmo em materiais educacionais para vestibular, indicadores alarmantes: em 2015, o Brasil registrou 59.080 assassinatos, segundo o Sistema de Informações sobre Mortalidade do governo federal.
Ou seja, mais de 160 pessoas são mortas por dia no país, vítimas de homicídios dolosos (com intenção de matar), latrocínios (roubos seguidos de morte) e lesões corporais seguidas de morte. Para se ter noção da gravidade, em 2015, o número de assassinatos no Brasil foi 15 vezes maior do que o total de mortes causadas pelos 559 atentados terroristas registrados no mesmo ano, que vitimaram 3.830 pessoas, segundo a organização Peacetech Lab. Se analisarmos os dados entre 2011 e 2015, foram assassinadas no país mais de 270 mil pessoas — um número equivalente ao total de mortos na Guerra da Síria no mesmo período. Outro genocídio.
Essa situação humana é catastrófica, e a cultura não está alheia a isso, significando que ela está mais afundada que R'lyeh. Se a realidade descrita acima é verdadeira, então não há vocabulário suficiente, não há imaginação suficiente para abarcar esse dois genocídios — pelo menos até agora. Acredito que quem nos tirou do coma moderno foi a autora e este pequeno volume. Nota-se que seus personagens são exatamente aqueles descritos nas pesquisas citadas ou, caso não o sejam, vivem em um meio tão corrompido por esses dois genocídios que acabam se rendendo completamente — seja como vítimas, seja como aqueles que se aproveitam desse contexto.
As histórias se desenrolam dentro de um recorte racial específico, em quinze contos que abordam o cotidiano de personagens negras. Ainda que haja diversidade nas narrativas (as duas últimas são mais esperançosas do que eu poderia imaginar), a violência e os problemas educacionais, somados à falta de cognição, preenchem boa parte deste pequeno volume. Tudo é cru.
Se Adriana Ferreira, do site Raízes, afirma que o início, meio e fim das vivências periféricas são quase sempre trágicos e não poupam ninguém (homens, mulheres, crianças), podemos dizer que essa realidade não se limita às periferias, mas ao Brasil como um todo.
Para me fazer entender melhor, tomarei como exemplo a história "Maria".
O primeiro parágrafo serve como introdução ao leitor. A apresentação da personagem-título ocorre em um parágrafo de qualificação praticamente tirado do Código Civil, no qual são informados seu nome, profissão, domicílio e filhos. Aqui, são definidas as pessoas e os elementos que compõem seu cotidiano. Quem determina as partes que irão compor a narrativa é sempre o autor, que tem o poder de individualizar os elementos e evitar equívocos, sem recorrer a subterfúgios ou a uma redação deliberadamente vaga, imprecisa ou genérica. Segue o texto:
Maria estava parada há mais de meia hora no ponto do ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. O preço da passagem estava aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa na casa da patroa. Ela levava para casa os restos. O osso do pernil e as frutas que tinham enfeitado a mesa. Ganhara as frutas e uma gorjeta. O osso, a patroa ia jogar fora. Estava feliz, apesar do cansaço. A gorjeta chegara numa hora boa. Os dois filhos menores estavam muito gripados. Precisava comprar xarope e aquele remedinho de desentupir nariz. Daria para comprar também uma lata de Toddy. As frutas estavam ótimas e havia melão. As crianças nunca tinham comido melão. Será que os meninos iriam gostar de melão? (EVARISTO, 2016, p. 41)
Estabelecendo, então, que Conceição Evaristo não tangencia em nenhum momento do livro o tema proposto, mas o enfrenta diretamente, o eixo narrativo se desvia para um encontro súbito: Maria reencontra o pai de seu filho, a quem não vê há muito tempo. Ele é descrito como bonito e imponente, porém, seus olhos estão perdidos e assustados.
Ao entrar, um homem levantou lá de trás, do último banco, fazendo um sinal para o trocador. Passou em silêncio, pagando a passagem dele e de Maria. Ela reconheceu o homem. Quando tempo, que saudades! Como era difícil continuar a vida sem ele. Maria sentou-se na frente. O homem assentou-se ao lado dela. Ela se lembrou do passado. Do homem deitado com ela. Da vida dos dois no barraco. Dos primeiros enjoos. Da barriga enorme que todos diziam gêmeos, e da alegria dele. Que bom! Nasceu! Era um menino! E haveria de se tornar um homem. Maria viu, sem olhar, que era o pai do seu filho. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, o olhar assustado não se fixando em nada e em ninguém. (EVARISTO, 2016, p. 42)
Túlio Romualdo Magalhães erra ao interpretar a cena sob uma perspectiva patriarcal. Em seu artigo sobre Maria, ele afirma:
"Evaristo, dessa forma, confere, na narrativa, uma complexa humanização para esse sujeito que, ao mesmo tempo que possui seus privilégios por ser homem, sofre em demasia numa sociedade racista e classista, na qual ele é constantemente subalternizado."
No entanto, o ex-homem de Maria não está nervoso por sofrer em uma sociedade racista e classista, mas sim pelo que está prestes a fazer na presença da personagem. A narrativa transcorre com uma breve conversa sussurrada entre ambos. A viagem tranquila é abruptamente interrompida, ganhando contornos angustiantes, quando Maria o testemunha armado, assaltando os passageiros da condução. O final é catártico: mesmo vendo tudo diante dos próprios olhos, Maria não percebe que seu ex é o assaltante. Isso fica evidente na seguinte passagem:
Alguém gritou que aquela puta safada lá da frente conhecia os assaltantes. Maria se assustou. Ela não conhecia assaltante algum. Conhecia o pai de seu primeiro filho. Conhecia o homem que tinha sido dela e que ela ainda amava tanto. (EVARISTO, 2016, p. 43)
Para Maria, toda aquela cena não chega à sua consciência – ela não compreende por que está sendo agredida, linchada e morta. Ela foi vista conversando aos sussurros com o assaltante, mas pensa consigo mesma: Não conhecia assaltante algum. Para ela, a figura do pai de seu primeiro filho e a do homem que cometeu o crime aos olhos vistos, ou pior, aos seus olhos não se sobrepõem. Há uma incapacidade de compreensão da realidade – e só isso já daria um livro inteiro. Se os personagens machadianos, que inundaram nossa literatura, negam a realidade por meio da dissimulação (como vemos em O Enfermeiro, A Cartomante e A Causa Secreta), a personagem evaristiana é incapaz de dissimular, pois não compreende onde está inserida.
Ódio, raiva e rancor, sentimentos que permeiam vastas obras da literatura nacional e que muitas vezes partem da mesquinhez, inveja e ciúme, ganham em Conceição Evaristo outra perspectiva. A autora parte do pressuposto de que a realidade é incompreensível para algumas pessoas e isso as define. A clareza da situação fere Maria, pois ela não possui os meios necessários para interpretá-la, enquanto essa mesma clareza move seus agressores, que a lincham por acreditarem que ela estava mancomunada com os assaltantes. Essa ignorância sobre o que é real compõe sua identidade, a ponto de ela sequer se defender, pois também não entende por que está sendo agredida.
Tudo foi tão rápido, tão breve, Maria tinha saudades de seu ex-homem. Por que estavam fazendo isto com ela? (EVARISTO, 2016, p. 44)
Segundo a Rede de Observatórios de Segurança:
"Linchamentos são respostas da sociedade que desacredita do sistema de justiça e resolve os problemas com as próprias mãos em um ato bárbaro."
A população lincha Maria não apenas por racismo, mas por raiva e pela certeza de que não terão seus bens devolvidos, assassinando-a enquanto exclamam todo tipo de impropério. Está claro, por tudo o que vemos, que os problemas vão além de raça, sexo e classe. Existe hoje um problema profundo na cultura brasileira, uma lógica genocida que extermina a todos, calando qualquer manifestação de vocalização de ideias e, se não as ideias, a existência material de seus possíveis porta-vozes.
Trabalhos Citados
BRASIL lidera ranking de homicídios no mundo, mostra estudo da ONU. UOL, 8 dez. 2023. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2023/12/08/brasil-lidera-ranking-de-homicidios-no-mundo-mostra-estudo-da-onu.htm. Acesso em: 3 jul. 2024.
CASOS de linchamentos crescem 61% em apenas seis meses no Piauí, aponta levantamento. G1, 6 out. 2022. Disponível em: https://g1.globo.com/pi/piaui/noticia/2022/10/06/casos-de-linchamentos-crescem-61percent-em-apenas-seis-meses-no-piaui-aponta-levantamento.ghtml. Acesso em: 3 jul. 2024.
DRAMÁTICA, Gi Pausa. [Resenha] Olhos D’água. Sem Serifa, 11 set. 2020. Disponível em: https://blogsemserifa.com/2020/09/11/resenha-olhos-dagua/. Acesso em: 3 jul. 2024.
FERREIRA, Adriana. Resenha do livro: Olhos D’água, de Conceição Evaristo. Raízes Blog Literário, 13 jul. 2023. Disponível em: https://www.conteudoraizes.com/post/resenha-do-livro-olhos-d-agua-de-conceicao-evaristo. Acesso em: 3 jul. 2024.
MAGALHÃES, Túlio Romualdo. Maria: reflexões sobre gênero, raça e classe no conto de Conceição Evaristo - Literatura Afro-Brasileira. Literafro - Universidade Federal de Minas Gerais, 7 jan. 2022. Disponível em: https://www.letras.ufmg.br/literafro/artigos/artigos-teorico-criticos/1629-conceicao-evaristo-maria-reflexoes-sobre-genero-raca-e-classe-no-conto-de-conceicao-evaristo. Acesso em: 3 jul. 2024.
SILVEIRA, VanDyck. QI nacional regride. E o ensino também. IstoÉ Dinheiro, 22 dez. 2023. Disponível em: https://istoe-dinheiro.com.br/qi-nacional-regride-e-o-ensino-tambem/. Acesso em: 3 jul. 2024.
VIOLÊNCIA: o Brasil é líder de homicídios no mundo | Curso Enem Play. Guia do Estudante, 2020. Disponível em: https://guiadoestudante.abril.com.br/curso-enem/violencia-o-brasil-e-lider-de-homicidios-no-mundo. Acesso em: 3 jul. 2024.