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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Alguns são sempre mais que os outros - A Revolução dos Bichos - George Orwell


Doze vozes gritavam cheias de ódio e eram todas iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem de para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco. - George Orwell

É com a frase acima que termina um dos livros mais críticos feitos no século passado. Uma fábula que narra alegoricamente a aventura de bichos que, cansados de serem explorados pelo pesado e ineficiente homem, recorrem a uma revolução para se libertar de seus donos e se tornarem donos de si mesmos.


Ao decorrer da história, a sociedade baseada no Animalismo - teoria social baseada nas ideias propagadas pelo velho porco Major - tem constituído princípios que poderiam ser resumidos no lema: "Quatro pernas bom, duas pernas ruim".

Com passar do tempo, os porcos começam a ter certas vantagens e a ditar as regras de modo duro, até que um deles - Napoleão - se ergue baseando em um exército de cachorros amestrados e expulsa e mata seus opositores como o outro porco, Bola de Neve e os animais que o defendiam.


Recorrendo as memórias coletivas para se lembrar se tudo isso era natural da revolução e se a vida era ou não melhor sob o comando dos homens, os bichos menos inteligentes são sempre confundidos por Garganta, porta-voz de Napoleão, que insiste em dizer que as mudanças foram todas benéficas e que os ideais do Animalismo nunca foram modificados.

Escritor inglês sempre lembrado pelo seu profético 1984,  George Orwell contribuiu enormemente para a cultura no Ocidente. Foram diversos registros seus sobre o século (da Guerra Civil Espanhola até uma crítica ao Mein Kampf de Hitler) sempre sérios e sinceros, sem nunca esconder o que pensava.

Animado em 1954 pela dupla John Halas e Joy Batchelor, financiados pela CIA, a fábula politica nos lembra que, não importa o quanto se diga que todos os animais são iguais, sempre haverá animais mais iguais que os outros.

Narrativas distópicas viram best seller após eleição de Trump

Imagem tirada do Site Likesuccess

Premissas de '1984' e 'O conto da aia' são comparadas a momento político atual

POR BOLÍVAR TORRES

Assim que a conselheira da Casa Branca, Kellyanne Conway, usou o orwelliano termo “alternative facts” (“fatos alternativos”) em uma entrevista na TV americana, em janeiro, as vendas do clássico “1984” dispararam na Amazon. O romance de George Orwell, que voltou à lista dos mais vendidos quase 70 anos após a sua publicação original, é visto por muitos como a mais didática tradução do recém-empossado — e já contestado — governo Donald Trump.

A narrativa imagina uma sociedade distópica, onde todas as ações de seus habitantes são monitoradas por uma oligarquia totalitária. Para manter o controle político e a submissão do povo, ela criou a “novilíngua” — um idioma que restringe a linguagem para distorcer e eliminar informações reais. Vale lembrar que, desde o seu primeiro dia no poder, Trump faz uso de uma linguagem simplória e limitada para empurrar mentiras aos americanos, como a de que sua posse teria tido o maior público da História.

Usado justamente para justificar as mentiras do presidente, o “fatos alternativos” de Kellyane levou a comparações imediatas com a “novilíngua”. Mas, apesar de ser a mais lembrada, “1984” não é a única distopia literária que ressoa com o momento político do mundo. Na semana passada, “O conto da aia” (1985), da canadense Margaret Atwood, chegou subitamente ao topo da lista da Amazon. Enquanto antigos clássicos, como “Admirável mundo novo” (1932), de Aldous Huxley, voltam à pauta, quase todos os dias matérias na imprensa internacional buscam alguma trama remota, como “O concorrente” , de Stephen King (1982), que teria “previsto” o presidente Trump, a era da pós-verdade e outros fenômenos contemporâneos. Estaria a sociedade procurando nas distopias imaginárias do passado uma resposta para seus temores atuais?

— A distopia, quando não é mero recurso narrativo, geralmente se propõe a avisar: “Olha, se X continuar do jeito que está, vamos acabar caindo nessa situação infernal Y” — opina o escritor Carlos Orsi, autor de livros de ficção-científica como “Campo total”. — Acho que distopias só são visíveis ou na perspectiva histórica ou, de dentro, por quem está olhando para a boca do canhão. Não creio que o cidadão médio ponha a mão na testa e pense, “cara, que distopia!”. Mas creio que dá pra ver os sinais de que o medo de um futuro imaginado muito ruim acaba levando as pessoas a colaborar com a construção de um futuro real também muito ruim.

'LEIA E LUTE'

No momento em que os mais terríveis pesadelos parecem estar se tornando realidade para muita gente, a ficção distópica testa a sua força e influência, sendo usada inclusive como elemento de resistência. Na semana passada, dezenas de cópias de três importantes distopias da língua inglesa — “1984”; “O conto da Aia”; e “In the Garden of Beasts”, de Erik Larsen — foram compradas por um benfeitor anônimo e colocadas para doação em uma livraria de Los Angeles, com as palavras de ordem: “Leia e lute”.

A própria Atwood, que não para de dar entrevistas após o súbito revival de seu livro (cuja adaptação para o cinema deve estrear em abril), compartilhou a notícia nas redes sociais. No Brasil, “O conto da Aia” deve ganhar uma nova edição em meados de 2017 pela Rocco. É fácil entender o interesse atual pela trama, em que extremistas cristãos aproveitam um falso ataque terrorista islâmico para instituir uma teocracia totalitária. Já “1984”, atualmente no catálogo da Companhia das Letras, teve um aumento de dez por cento das vendas por aqui em relação ao ano passado.

— Pelo menos no mercado americano, parece ser um bom momento para publicar distopia. Dá para notar pelo aumento do número de originais com essa temática — observa Otávio Costa, publisher da Companhia. — No Brasil ainda é cedo para dizer se isso vai se confirmar, mas há sinais. Interessante notar que, tirando os países de língua inglesa, o Brasil é onde Orwell mais vende em números absolutos (foram, até hoje, 470 mil exemplares de “A revolução dos bichos” e 260 mil de “1984”).

Ex-editor na casa que mais publica ficção científica no Brasil, a Aleph, Daniel Lameira acredita que o mercado já vinha antecipando esse momento — tanto é que está repleto de tramas distópicas derivadas de clássicos como “1984”. A própria Aleph vem resgatando obras icônicas, e em breve publicará “Nós”, do russo Evgueny Zamiatin (livro que inspirou Orwell) e “Despossuídos”, da Ursula K. Le Guin. Curiosamente, a escritora, de 87 anos, respondeu no início do mês a um artigo do “Guardian”, no qual afirma que ficção científica nada tem a ver com “fatos alternativos”: “A comparação não funciona. Nós escritores inventamos coisas (...). Podemos chamá-las de ficção porque não são fatos”.

— O mundo sempre foi parecido com uma distopia para aqueles que não detêm os meios de produção; podemos discutir com qual distopia estamos mais parecidos: o amor à servitude de Huxley, a dominação do Estado, como Zamiatin e Orwell, as lobotomias como “Laranja Mecânica”? — provoca Lameira. — É impossível a ficção concorrer com a realidade. Como diz Wittgenstein: os limites da linguagem são os limites do real.

MODA RECENTE

O editor Erick Santos, da Draco (outra editora nacional prolífica em ficção científica), acredita que a distopia se tornou uma moda recente para o leitor jovem adulto. Mas ele faz uma ressalva sobre como a produção mainstream atual aborda o tema:

— Ela tem questionamentos mais sobre as dores de alguém que crescia e chegava à fase adulta do que profundas reflexões sobre a política e a sociedade. Se tivermos distopias agora, que sejam verdadeiras visões que repensem para onde estamos indo, e não que divida o mundo em quatro ou cinco arquetípicos para que os jovens possam dizer com qual se identificam. Gostaria de ver distopias pesadas e opressoras sem saída, não de romances com ação de videogames.

Carlos Orsi discorda. Para o autor, o principal desafio da ficção científica hoje é imaginar sociedades futuras que funcionem — "não utopias, mas sociedades meramente funcionais, onde a tecnologia e o conhecimento permitam superar os dilemas atuais", explica o escritor.

— Já mapeamos razoavelmente bem a forma como as coisas podem dar errado. Falta mapear a forma como podem dar certo, mas sem cair no utopismo ingênuo — avalia Orsi, citando o australiano Greg Egan, nunca publicado no Brasil, como um autor que escreveu bons livros nessa linha.— Acho que o "Jornada nas Estrelas" original, dos anos 60, por exemplo, com seu futuro brilhante de uma humanidade reconstruída pós-holocausto nuclear, fez muito mais para criar uma mentalidade de paz e aceitação do que todas as histórias distópicas de canibais percorrendo as ruínas do mundo destruído — acrescenta.

A procura pelo “livro que teria previsto” nosso momento é um erro, segundo o autor de ficção científica Octavio Aragão. Afinal, quando Orwell e muitos outros escreviam sobre o futuro, estavam criando parábolas sobre o presente em que viviam. Não por acaso, muitos dos livros que voltam com força agora foram publicados em épocas especialmente turbulentas (o fascismo dos anos 1930-40 ou o ultraliberalismo dos anos 1980).

— Desde o nascedouro, os leitores têm a tendência de relacionar as qualidades da obra à sua suposta capacidade de antever tecnologias ou estruturas sociais — lembra Aragão. — No entanto, a ficção científica discorre sempre sobre o presente, sobre extrapolações do que já existe, visando uma análise crítica de seu tempo.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

O futuro que nos bate a porta - Codão - Giordano Mochel Netto

Lente de contato da Google, anunciada em 2014, mostrou interesse das grandes empresas em explorar a área das 'smart lenses'. Patente da Samsung foi pedida naquele ano e saiu agora (Foto: AP/Google). Logo no início do livro, vemos algo parecido.

Condão: capacidade, poder, dom, faculdade, virtude ou qualidade - Giordano Mochel Netto

Muitas pessoas falam sobre a ficção cientifica brasileira. A quem diga que ela não existe - que no Brasil o que mais se desenvolve é o gênero fantástico. Com o passar do tempo notamos que isso está mudando aos poucos. Robocop dirigido pelo José Padilha, o sucesso de 3% na Netflix são sintomáticos: o brasileiro está consumindo e produzindo sci-fi.


Um dos mais famosos livros nacionais desse gênero foi publicado pela Novo Século. Condão nos apresenta personagens interessantes, além de ter temas atuais: modificação genética, o conflito inevitável entre a máquina e o homem.


Em uma visão futurista (ou não) temos o autor apresentando programadores que não conseguem decifrar as máquinas (coisa que aconteceu atualmente pelos computadores do Google), lentes de contato que tem tantas coisas que se assemelham muito a computadores (como a anunciada pela Samsung) e outras coisas que surgem ao nosso redor com o passar do tempo dando grande credibilidade a obra.


Com um ritmo cadenciado, Giordano Mochel nos apresenta um romance de qualidade ímpar, numa mistura de Ernest Cline barulhento com um Ruxley do século XXV. Nela, o cenário futurístico faz parte do dia a dia do jovem Edwardo, um programador virtual, que tem a vida destabilizada ao presenciar involuntariamente o assassinato de dois jovens por drones responsáveis pela segurança pública. Ao lado de sua namorada biogeneticista Sílvia e seu amigo Jânio, professor de História Moderna e especialista na Teoria do Condão. Juntos eles atravessam o Brasil para descobrir intrigas e coisas que podem abalar essa sociedade perfeita.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Chesterton: príncipe do paradoxo, pai do fantástico

O primeiro Especial de Natal feito pelo blog faz uma homenagem ao mundo ficcional em si. O homem que influenciou Tolkien, Howard e Lewis e a criação de Hiboria, Terra Média e Nárnia merecia uma breve e singela homenagem.

Nascido em Londres no ano de 1874, G.K. Chesterton foi um dos intelectuais mais influentes do último século. Anglicano, se converteu ao catolicismo como John Henry Newman e Henry Edward Manning: através do movimento anglo-católico.

Autodidata, foi criador de tipos variados. Poeta, ensaísta, narrador, jornalista, crítico literário, filósofo, teólogo, biógrafo, desenhista, ativista político, apologista... (ufa!) travou debates acalorados com os ateus mais notáveis do século (Bernard Shaw, Robert Blatchford, Bertrand Russell e Clarence Darrow). Irônico porém educado, respeitava seus adversários com "o lado secreto da nobreza".

Herdeiro da Era Vitoriana e uma sociedade pós-cristã, profetizou os grandes conflitos que levariam à segunda Guerra Mundial. Contemporâneo de escritores como Oscar Wilde, H.G. Wells, Conan Doyle, Agatha Christie, James Joyce, Thomas Hardy, W.B. Yeats, Virgínia Woolf e Rudyard Kipling se distinguiu de todos os que o cercavam pelo seu jeito despojado, seu estilo incisivo e a facilidade de rir de si mesmo. Se tornou o "príncipe dos paradoxos", fraseando coisas que soam óbvias, mas de formas improváveis.

Com a fama literária, veio o convite para palestras e conferências - dentro e fora da Inglaterra e a aquisição de novos e importantes amigos: Joseph Conrad, Henry James, Winston Churchill e Thomas Hardy (para citar apenas alguns).

Em 1910 seu livro O que há de errado com o mundo é mal recebido pela crítica mais por culpa dos editores que trocaram o título original O que há de errado? expandindo para O que há de errado com o mundo e omitiram seu ponto de interrogação. Quando Chesterton escreveu o livro, ele ainda não tinha certeza sobre o que havia de errado com o mundo, mas ele estava bastante seguro em relação ao que havia de certo com ele. Nele apresenta seus pensamentos e teorias sobre propriedade privada, educação, família, apontando criticas ao sistema capitalista e o comunista e propondo o distributivismo mas foi somente em 1927 que Chesterton elaborou os detalhes de sua filosofia social no livro intitulado Um esboço de sanidade. Já convertido ao catolicismo, descobriu que seus princípios sociológicos já haviam sido endossados muitos anos antes na encíclica Rerum Novarum do papa Leão XIII, escrita em 1897. Defendida pelos pensadores católicos, o distributivismo é uma teoria que segundo a qual a propriedade privada é um bem a que deve ter acesso senão a totalidade ao menos a maioria dos agentes sociais. O que há de errado no mundo defende que, mesmo sendo fácil achar consenso na identificação e crítica dos erros que encontramos na sociedade, a essência está em concordar que solução adequada propor. Mesmo sendo uma obra de não-ficção, Chesterton nos apresenta dois personagens: Hudge e Gudge. Bom na verdade três: ele também apresenta Jones. Hudge e Gudge são os inimigos de Jones. Resumindo, Hudge é o Grande Governo e Gudge o Grande Negócio. E Jones? Jones é o homem comum.

Esse homem, Jones, sempre desejou coisas ordinárias; ele se casou por amor, escolheu ou construiu uma pequena casa que lhe serviu como um casaco; ele está pronto para ser um grande avô e herói local

Mas algo saiu errado. Hudge e Gudge têm conspirado contra Jones para tomar dele sua propriedade, sua independência... e dignidade.

Também ficou famoso por suas biografias. O querubim gigantesco (apelido dado a ele por Shaw) escreve a biografia do poeta Robert Browning (1903) que lhe rende o convite para assumir a cátedra de literatura da então recém-criada Universidade de Birmingham, Leo Tolstoy(1903) com Edward Garnett e George Herbert Perris, e Charles Dickens (1906) arrancando elogios da filha do biografado, de André Maurois e T. S. Eliot que dizem ser um dos melhores estudos sobre o romancista inglês, São Francisco de Assis (1923), Robert Louis Stevenson (1927) e Chaucer (1932) mas foi com São Tomás de Aquino (1933), cujo valor foi atestado por Étienne Gilson, famoso filósofo tomista, que a considerou o melhor livro jamais escrito sobre São Tomás:

Considero, sem comparação alguma, que é o melhor livro jamais escrito sobre Santo Tomás. Só um gênio podia fazer algo assim. Todo o mundo admitirá, sem nenhuma dúvida, que se trata de um livro inteligente; mas os poucos leitores que tiverem passado vinte ou trinta anos estudando Santo Tomás de Aquino e publicado dois ou três volumes sobre o tema terão de reconhecer que a chispa de gênio de Chesterton lhes deixou ao rés do chão a erudição. Tudo o que eles tentavam expressar desajeitadamente em fórmulas acadêmicas foi expressado por Chesterton.

Para entender essa declaração, Gilson tinha escrito mais de três livros sobre o tema, sendo na época o maior e mais reconhecido especialista em São Tomás e Idade Média do Mundo. A obra ainda foi tomada pelo Pe. Gillet, Mestre-Geral da Ordem dos Dominicanos (ordem monástica de São Tomás) como bibliografia básica sobre o grande santo dominicano e suas ideias.

INFLUENCIADOS

Foi em um dos capítulos de seus livros mais famosos, Ortodoxia (1908), que deu claramente a base para Tolkien criar a Vila dos Hobbits (mais especificadamente A Ética da Terra dos Elfos). Misturando mitologia nórdica com os valores cristãos, onde a menor e mais humilde criatura se ergue para enfrentar perigos jamais imaginados, Tolkien criou um Novo Mundo baseado no Mundo Antigo.


O Moinho da Vila dos Hobbits, por J. R. R. Tolkien (tirado do site Tolkien Brasil)

Sendo escrito como resposta a uma provocação de G.S. Street, Ortodoxia é a continuação individual de Hereges, obra que faz críticas a muitos de seu ciclo de convivência, apontando para cada escritor seus vícios. Oscar Wilde por seu esteticismo aético, H.G. Wells por seu historicismo naturalista, Bernard Shaw por um socialismo desumanizador, George Moore pelo subjetivismo ético e Rudyard Kipling pelo seu pensamento discriminatório e imperialista.



Capa do livro de Chesterton, Hereges, feita para Ecclesiae.

Se afastando da imprensa depois da morte do pai, dedicou os anos de 1923 e 1924 para redigir com tranquilidade O Homem Eterno (1925), em que expunha a sua filosofia da História, tendo como eixo o mistério de Deus encarnado - uma clara resposta ao livro História Universal de H. G. Wells, se colocando contra a visão cética, naturalista e evolucionista do amigo. Esse livro foi crucial para a conversão de Lewis, que acabou por se tornar também um dos apologistas cristãos mais importantes do século passado.


Ilustração: Dave Stevenson. Foto: Norman Parkinson/Corbis

Sua influência sobre Robert E. Howard é salientada logo na introdução do livro O Mundo Sombrio por S. T. Joshi e reforçada na biografia de Robert E. Howard por Rusty Burke. Com um conceito de que passasse as eras e o que fica é a moral, ele abriu a porta para a criação da Era Hiboriana, onde Conan foi mostrado com muitas facetas. Nela, Conan foi rei, ladrão, marinheiro, mercenário e outras profissões marginais que dependiam exclusivamente de inteligência e de força física.



Adaptação do conto A torre do elefante de R.E.H por Roy Thomas e arte de John Buscema a Alfredo Alcala

Se sua obra contribuiu para a criação de universos tão vastos, foi em um jornal familiar, o G.K.’s Weekly, fundado em 1926 junto com seu irmão Cecil, que o escritor abriu as portas para George Orwel, que em 1928 publicou seu primeiro artigo. Há especulações que um de seus romances mais famosos, 1984, seria uma resposta ao Napoleão de Notting Hill (1904) - obra preferida de Neil Gaiman, que homenageou o autor transformando no personagem de Sandman, Fiddler's Green.

Edição do jornal G.K.’s Weekly da família Chesterton
Em A Esfera e a Cruz, espécie de romance simbólico e apocalíptico, reaparece o personagem obsessivo de Chesterton, em luta implacável, mas por fim, cordialíssima, com o ateísmo desvairado da época, serve de base para Kafka e seu livro O Processo. Sobre o Chesterton, Kafka afirma: Ele é tão feliz que posso facilmente acreditar que encontrou Deus.

Uma das crenças de Chesterton era que os contos de fada eram a forma mais moralizante de se educar uma pessoa. Com eles, se pode enfrentar a realidade, mesmo que a mais dura, de uma forma não conformada mais otimista.

Toda a felicidade do país das fadas está por um fio, um único fio. Cinderela pode ter um vestido tecido em teares sobrenaturais e reluzente com um brilho que não é deste mundo; mas deve estar de volta quando o relógio bater as doze horas. O rei pode convidar fadas para o batizado, mas deve convidar todas, ou haverá conseqüências terríveis. A esposa de Barba Azul pode abrir todas as portas menos uma. Quebra-se uma promessa feita a um gato, e o mundo todo desmorona. Quebra-se uma promessa a um anão amarelo, e o mundo todo desmorona. Uma garota pode ser a esposa do Deus do Amor em pessoa se nunca tentar vê-lo; ela o vê, e ele desaparece. Uma garota recebe uma caixa com a condição de não a abrir; abre-a, e todos os males do mundo escapam para cima dela. Um homem e uma mulher são colocados em um jardim com a condição de não comerem uma fruta; comem-na, e perdem a alegria em todas as frutas da terra. - G. K. Chesterton, do livro Considerando todas as coisas (1908)
Dono de uma pena arguta, sutil e envolvente, Gilbert Keith Chesterton deixou marcas inesquecíveis em mestres da literatura como Hemingway, Borges, García Márquez e T. S. Eliot. Como se não bastasse, seus textos influenciaram decisivamente líderes de movimentos de libertação como Michael Collins (Irlanda), Mahatma Gandhi (Índia) e Martin Luther King (Estados Unidos).

Morreu em sua casa na cidade de Beaconsfield, em Buckinghamshire, Inglaterra, aos 62 anos, no dia 14 de Junho de 1936. Recebeu a extrema-unção de seu amigo Padre O’Connor (que o inspirou a criar um dos maiores detetives da época, o Padre Brown). O Papa Pio XI - que já tinha citado em suas homilias os livros de Chesterton - em telegrama ao povo da Inglaterra, escreveu: Santo Padre profundamente consternado morte de Gilbert Keith Chesterton, devoto filho Santa Igreja, dotado defensor da Fé Católica.


NOTA:
Certa vez o jornal London Times pediu a alguns escritores que respondessem à pergunta: "O que há de errado com o mundo?".

Chesterton enviou a resposta mais sucinta:

Prezados Senhores:
Eu.
Atenciosamente, G. K. Chesterton


BIBLIOGRAFIA

Maravilhoso Mundo Louco

Sociedade Chesterton Brasil

Feedback Magazine

Sociedade Chesterton Portugal

Divina Dádiva

Revista Filosofia

Contos de fadas e outros ensaios literários - G. K. Chesterton - Livraria Resistência Cultural Editora.