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segunda-feira, 27 de abril de 2020

Como o nacionalismo da 1ª Guerra fez Tolkien resgatar a mitologia europeia - Reinaldo José

Para o autor de "O Hobbit", a violência do século 20 era sintoma de um mundo que havia abandonado a moral dos mitos em prol da veneração da modernidade.

(Índio San/Superinteressante)

Tolkien foi original ao tentar reinventar a mitologia europeia, um projeto colossal que ninguém havia tentado (ou achado razões para tentar) realizar antes dele. Mas Tolkien não surgiu do nada. O trauma das Grandes Guerras talvez seja o melhor jeito de explicar o renascimento do interesse pelas mitologias medievais que tomaria o planeta de assalto com o seu trabalho.

É preciso recuar um pouco mais no tempo para entender o porquê de tudo isso. No século 19, a Idade Média estava na moda entre os intelectuais europeus, que a usavam para tentar descobrir a suposta “essência” de seus países e de sua história. Poetas ingleses reinventaram o rei Arthur, compositores de ópera na Alemanha resolveram se inspirar nas sagas da Escandinávia viking, escritores portugueses só queriam saber de cruzados matando mouros, e por aí vai.

Não por acaso, essa paixonite medieval coincidiu tanto com movimentos nacionalistas quanto com a expansão colonial europeia na África e na Ásia. É claro que, no longo prazo, isso de todo mundo se achar o máximo acabaria dando em caca — e deu, levando à carnificina da Primeira Guerra Mundial, na qual muito moleque com a cabeça cheia de ideias sobre “cavalheirismo” e “glória” bateu as botas. A natural reação da maioria dos escritores e artistas que viveram essa época foi considerar que esses sonhos românticos medievais tinham sido perniciosos, ajudando a levar a Europa para o abismo. Em outras palavras, chega de rei Arthur e de Thor.

Só que uma minoria de intelectuais — e os mais influentes foram, disparado, Tolkien e seu amigo C.S. Lewis (o criador das Crônicas de Nárnia) — chegou justamente à conclusão oposta. O século 20 estava virando um pesadelo, segundo eles, não por mitologia demais, mas por mitologia de menos. Sim, a guerra era um troço horrendo, e devia ser evitada a todo custo, mas só tinha virado um massacre industrializado sem precedentes porque muita gente não acreditava mais nos padrões eternos de certo e errado que podiam ser encontrados, por exemplo, no cerne das antigas mitologias. Era preciso recontá-las antes que fosse tarde.

Partindo de uma matéria-prima confusa e desorganizada — na mitologia escandinava, por exemplo, a diferença entre elfos e anões não é muito clara —, Tolkien fez questão de criar um universo consistente, sistematizado e lógico. Outro ponto importante é a maneira como ele decidiu “limpar” sua matéria-prima — nas palavras do próprio Tolkien, “purificando-a de seu lado grosseiro”. Embora seja possível reconhecer a inspiração das figuras de Odin e Thor nos “deuses” do universo do autor, os chamados Valar, essas figuras divinas, na verdade, estão mais para anjos um pouco mais poderosos. Em Tolkien, só existe um único Deus verdadeiro. Não por acaso, o autor era um fervoroso (e conservador) católico apostólico romano.

O Hobbit, primeiro livro de fantasia de Tolkien, saiu em 1937. Fez sucesso, mas era destinado ao público infanto-juvenil. O Senhor dos Anéis foi escrito durante a Segunda Guerra Mundial, e acabou publicado só em 1954. Só virou um fenômeno de público em meados dos anos 60, graças ao lançamento de uma edição pirata nos EUA. O timing não poderia ter sido melhor, porque o livro acabou sendo “adotado” pelos hippies e por muitos outros membros da juventude que, assim como Tolkien, achavam que o mundo tinha entrado numa espiral de destruição no século 20. Nesse ponto, de fato, o professor antiquado de Oxford e muitos fãs dos Beatles tinham algo em comum: a visão negativa, contestadora, a respeito do mundo moderno.

As semelhanças paravam por aí. Ao ver as referências (relativamente raras, na verdade) à magia nos livros, a rapaziada de 1968 logo pensava em tradições místicas pagãs ou orientais, que certamente levariam Tolkien a fazer o sinal-da-cruz e sair correndo; liam sobre a célebre erva de cachimbo hobbit e logo pensavam em maconha (embora Tolkien tivesse usado até o nome científico do tabaco, Nicotiana, para deixar claro que o troço era simples fumo mesmo).

Os livros de Tolkien só foram fazer sucesso mesmo nos anos 60. (Índio San/Superinteressante)

Pouco importava: o gênio já tinha saído da garrafa. Junto com as bandas de rock e o sinal de paz e amor, o gênero da fantasia medieval virou parte inseparável do “pacote” dos anos 60 (tanto que até os Beatles pensaram em produzir e estrelar sua própria versão cinematográfica de O Senhor dos Anéis).

Para atender a essa demanda, imitações bastante deslavadas da obra tolkieniana começaram a ser publicadas, vendendo feito pãozinho quente (um dos principais exemplos é A Espada de Shannara, do americano Terry Brooks, lançada em 1977). E um novo tipo de jogo, baseado na interpretação de personagens, fez da fantasia medieval seu principal filão. Eram os RPGs (do inglês role playing game, “jogo de interpretar papel”), que têm como um de seus primeiros e mais famosos exemplos o célebre Dungeons and Dragons (“calabouços e dragões”), lançado originalmente em 1974.

Em 1976, a fantasia chegou aos computadores com Colossal Cave Adventure, dando origem ao RPG em videogame. E o gênero continua a gerar fenômenos da cultura pop, como World of Warcraft e The Elder Scrolls: Skyrim.

Colocando nesses termos, pode ser que você fique com a impressão de que, após os anos de ouro de Tolkien e Lewis, as recriações da mitologia medieval acabaram lentamente virando uma mistura de mercantilismo deslavado e escapismo barato. Na verdade, tudo indica que não, ao menos não totalmente — e um dos melhores contra-exemplos recentes é justamente As Crônicas de Gelo e Fogo, ou Game of Thrones, como decidiram batizar a versão televisiva do universo do romancista George R.R. Martin.

Sim, a série é uma máquina de fazer dinheiro, e o mundo de Martin é muito mais cínico que o de Tolkien. Mas o autor continua fazendo o que o mestre fez tão bem na metade do século 20: usar elementos mitológicos para refletir sobre a natureza do poder, do certo e do errado. E isso nunca deixará de ser relevante.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Inspiração: Fantasia Grimdark por Diego Guerra

Game of Thrones Card Game, Arte de Anna Mitura

A Wikipédia classifica grimdark como:
um subgênero ou uma forma de descrever um tom, estilo ou padrão da ficção especulativa (especialmente a fantasia) que é, dependendo da definição usada, marcada pelo distopico e o amoral, sendo particularmente violenta ou realista. O nome foi inspirado na tagline dos livros do jogo de estratégia Warhammer 40.000: “In the grim darkness of the far future, there is only war” (Na escuridão cruel do futuro distante, existe apenas a guerra).
Houve várias tentativas de se definir o que é e o que não é grimdark. Adam Roberts descreveu o gênero como uma ficção “onde ninguém tem honra e onde o poder é um direito” e diz que é o nome a que se refere a literatura que escapa das visões idealizadas da fantasia medieval, dando ênfase ao quão desagradável, brutal, sombria e curta a vida realmente era neste cenário, mas ele observou que o grimdark tem pouco a ver com re-imaginar a realidade histórica e mais com transmitir a sensação de que o nosso próprio mundo é um lugar “cínico, desiludido e ultraviolento”.

Dentro desta leitura, podemos dizer que o grimdark é um espelho da nossa realidade, refletindo a crueldade e o cinismo da nossa própria sociedade, embora transportados para cenários fantásticos, enfatizando-os, ou não, para o desenvolvimento do enredo.

Já para Jared Shurin, fantasia grimdark tem três componentes principais: um tom sombrio e pessimista, um certo senso de realismo (por exemplo, os monarcas são inúteis e os heróis são falhos), e a ação dos protagonistas: enquanto na alta fantasia tudo é predestinado e a tensão gira em torno de como os heróis vão derrotar o Lorde das Trevas, no grimdark os personagens têm que escolher entre o bem e o mal e estão tão perdidos como todos nós.

É possível dizer neste caso que a fantasia grimdark é uma resposta ao otimismo da alta fantasia, onde atravessando por diversas provações e mesmo as custas de grandes sacrifícios, existe uma certeza de vitória do bem no final e uma restauração do ponto de equilíbrio do universo. O grimdark não se compromete com essa vitória e não promete finais felizes. Pelo contrário, como todo o tom niilista do livro, o final de uma obra grimdark costuma ser ácido e pessimista.

Heroes, Arte de Raymond Swanland
Liz Bourke diz algo parecido, considerando como característica definidora de grimdark ser “uma retirada da valorização das trevas pelo amor das trevas, em uma espécie de niilismo que retrata toda ação correta como impossível ou inútil”. Segundo ela, isso tem o efeito de absolver os protagonistas, bem como o leitor de responsabilidade moral.

Assim, entendendo as “trevas” como parte inerente de todos os personagens, aceitamos que todos são capazes de boas e más ações, cabendo a cada um entender o contexto em que ela foi inserida. Em nome da coerência narrativa, porém, é preciso fugir das fórmulas simples de ultraviolência injustificada. Entender que todos os personagens têm seu lado sombrio é entender que ele também possuí alguma forma de luz e é justamente esse embate entre certo e errado que o torna interessante. A questão, desta forma, vai além da redenção ou danação do personagem por seu comportamento e termina por nivelar os personagens de acordo com critérios sombrios onde nada parece ter solução.

Se grimdark é um gênero em si mesmo ou um rótulo inútil também foi discutido. Genevieve Valentine observou que, embora alguns escritores adotem o termo, outros o vêem como “uma chancela aplicada injustamente e como um termo de desprezo para a fantasia que está se desmontando em modelos”, a autora porém entende que esse modelo de contar a história tem sua riqueza nos conflitos internos e externos destes personagens e em como isso manobra a política do mundo, onde quase que invariavelmente o poder leva a decisões extremas e resultados cada vez mais drásticos.

Já Roberts, diz que o grimdark é uma forma moderna de literatura “anti-tolkien” para abordar a criação fantástica. O livro grimdark mais bem-sucedido e popular atualmente é “A Canção de Gelo e Fogo” de George R. R. Martin, que Roberts caracteriza como uma reação ao idealismo de Tolkien, embora Martin continue se inspirando na sua obra.

Michael Moorcock foi um ávido defensor da literatura anti-tolkien, acreditando em um universo onde forças de ordem e do caos se digladiavam com igual falta de escrúpulos e com resultados violentos, independente do seu vencedor. Seu anti-herói, Elric era a síntese de tudo o que Moorcock entendia sobre essa questão. Uma corrupção dos alto-elfos de Tolkien, violento, diabólico, cruel e ainda assim capaz das mais simples emoções humanas como amor e medo. Talvez em Moorcock tenhamos a protogênese do que viria a ser o grimdark, embora ele mesmo se reconheça como um autor de Espada e Feitiçaria. Sua luta contra o enredo de alta-fantasia, porém, é algo que devemos ter como inspirador.

Arte de Michael Kormack

Para a autora T. Frohock, existe um problema de ordem prática em definir o que é grimdark. Ela critica a simples definição de grimdark como um cenário de escuridão, com péssimas expectativas de vida para as pessoas que vivem nele, já que boa parte dos romances distópicos atuais para jovens se enquadrariam nessa descrição. Uma vez que tais romances tendem a se concentrar em jovens protagonistas que trazem luz a essa escuridão, com coragem para mudar o cenário, eles acabam fugindo do niilismo característico da literatura grimdark.

Já para a existência do sobrenatural característico da fantasia grimdark, pede-se atenção, uma vez em que nesse tipo de literatura o sobrenatural surge como uma força passiva sob o controle dos seres humanos, caso contrário estaríamos lidando com literatura de horror, onde o sobrenatural é uma entidade ativa agindo contra os outros personagens da história.

É importante para o grimdark a percepção de que todos são mortais, mesmo quando manipulam forças sobrenaturais para seus objetivos.

Para resolver a definição da Wikipédia abrangendo essas questões, T. Frohock sugere a seguinte correção ao verbete:
Grindark é um subgênero ou uma forma de descrever um tom, estilo ou padrão da ficção especulativa (especialmente a fantasia) que é, dependendo da definição usada, marcada pelo distópico e o amoral, sendo particularmente realista na sua representação da violência. Na maior parte da literatura grimdark o sobrenatural é uma força passiva, controlado por seres humanos, ao contrário do terror sobrenatural onde as forças sobrenaturais são mais frequentemente uma entidade ativa em ação.
Com isso, ela elimina a questão do realismo da equação e estabelece os traços que distingue horror e grimdark. A autora sugere que com o tempo, uma definição mais clara, tornará mais fácil distinguir o subgênero e discutí-lo, sem confundí-lo com outros subgêneros.

De 1990 em diante, muitos autores de fantasia passaram a ser descritos como grimdark. Destes, Joe Abercrombie, Richard K. Morgan e Mark Lawrence, são apenas os nomes mais conhecidos.

A existência da ultra-violência e de personagens de moralismo duvidoso, porém, tornou o gênero fértil em ideias preconceituosas, sempre com a justificativa de que “este é o mundo real”. De fato, apesar de estarmos expostos a uma sociedade preconceituosa, homofóbica, misógina e violenta e apesar da fantasia grimdark espelhar esse comportamento através de uma mimese da sociedade, existe a possibilidade – e eu diria o dever – de combater tais tendências, dando voz e poder àqueles que comumente são tratados como as vítimas destes preconceitos. No meu entender, isso só vai acontecer quando o grimdark deixar de ser dominada por homens brancos heterossexuais e ter uma representatividade igual entre gêneros, raças e credos, de forma a abordar também suas angústias e questões morais. É importante entender que grimdark não se trata da supremacia do homem branco sobre os demais grupos, ou ao menos não deveria ser, mas sim sobre as relações de poder entre os seres humanos e as decisões dúbias que as vezes são tomadas para a manutenção desse poder. Uma condição inerente a humanidade como um todo.

Complete Stories of Kane, arte de Ken Kelly
Tentando esclarecer as características do grimdark, podemos listar os pontos onde os autores parecem concordar:
  • Cenário decadente, distópico e violento;
  • Tom niilista e desesperador, onde todos parecem no limite e a catástrofe se torna inevitável;
  • Personagens amorais, ou de moral duvidosa, diante de escolhas difíceis;
  • Forças sobrenaturais usadas como ferramentas das ações humanas;
  • Tom cinzento, com a ausência de limites claros entre o certo ou o errado, a luz ou as trevas, o bem ou o mal;
  • Desfecho imprevisível, comumente cínico, com uma vitória parcial ou uma derrota completa do protagonista, reforçando o tom niilista onde nada é capaz de melhorar.
Referências

Retirado originalmente do site: Chamas do Império